Até a fala dele, confesso, eu não havia alcançado esse nível de leitura sobre o fazer e praticar exercícios e esportes. Falcão foi além do iminente que satisfaz a paixão e rivalidade dos torcedores, a muitos jornais e jornalistas e aos gestores dos clubes. Falando do futebol, ele nos abriu a porta para uma significação maior, para uma relação mais humana, nobre e instrutiva entre nós e os diversos fazeres e experiência que se nos apresentam conforme nos embrenhamos pela vida. Ele falou em produzir alegria, divertir-se no trabalho, colocando este como parte fundamental de um viver com alegria. Falcão ensina que essa é a meta, o resultado amplo e possível de ser alcançado quando se abre mão da obtusidade inerente a ação pontual e pragmática.
domingo, 24 de abril de 2011
Sobre abrir e manter as portas abertas
Até a fala dele, confesso, eu não havia alcançado esse nível de leitura sobre o fazer e praticar exercícios e esportes. Falcão foi além do iminente que satisfaz a paixão e rivalidade dos torcedores, a muitos jornais e jornalistas e aos gestores dos clubes. Falando do futebol, ele nos abriu a porta para uma significação maior, para uma relação mais humana, nobre e instrutiva entre nós e os diversos fazeres e experiência que se nos apresentam conforme nos embrenhamos pela vida. Ele falou em produzir alegria, divertir-se no trabalho, colocando este como parte fundamental de um viver com alegria. Falcão ensina que essa é a meta, o resultado amplo e possível de ser alcançado quando se abre mão da obtusidade inerente a ação pontual e pragmática.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Do que experimentamos nesta caminhada
segunda-feira, 28 de março de 2011
Honrar encontros
São 9 de setembro de 2010, estou em São Paulo para rever primos
e participar de um congresso na USP. Pela primeira vez em minha vida, fui vítima
de roubo. Anteriormente, fui furtado em Belo Horizonte, em 1994.
Tudo se deu num arrastão, coisa que parece ‘exclusividade’ do
Rio de Janeiro, como sugere a incidência da mídia. Que cena: um cidadão carioca
subtraído de seus bens na terra da garoa, no estado das pessoas que, segundo
velha provocação, trabalham para o resto do Brasil poder viver. Imagens à
parte, o que sobra é a realidade: fui mais um cidadão brasileiro em São Paulo,
cidade que é a imagem e materialização do progresso bastante idolatrado por
muitos de nós, mas que na realidade é mais violenta que o Rio de Janeiro.
Havia um congresso na USP, mas o que eu mais queria era rever
Marta e Edinho, primos caros à minha história de vida e a quem eu protelava o
devido reencontro. Edinho eu não via há mais de seis anos, Marta há uns dois
anos. A possibilidade do reencontro foi o fator decisivo para viajar, dado que
estava cheio dessa coisa de fazer networking, algo artificial, porém muito
aceito nos mundos acadêmico e de negócios. Imagens do cansaço e do pessimismo
de um acadêmico altamente duvidoso da real vontade e disponibilidade dos seus
vaidosos pares para compartilhar o conhecimento que presumimos ter. Não devo
ser o único que pensa e sente que a academia é ‘mestre’ em fazer apologias a valores
que nem sempre pratica.
Findo o congresso, Edinho me pegou na USP e me levou ao seu lar,
no bairro da Lapa. Convivemos nos primeiros anos da minha adolescência, no
início dos anos 80, e desse encontro ficaram marcas significativas. Ele sempre
me chamava atenção para a necessidade de criar e produzir minha própria
história, era perseverante e disciplinado na criação da dele, mas o que me chamava
muita atenção eram seus valores e atitudes sempre serem orientados para ética,
trabalho, religião e família. Vindo de Pedro Teixeira, MG, em Seropédica
trabalhava como balconista de Supermercado para pagar os estudos. Trabalhava e
estudava bastante e nunca reclamava, estava sempre sorrindo. Eu o conheci em
uma fase difícil da minha vida e nele tive o acolhimento para, àquela época,
poder falar sobre o que me deixava apreensivo. Ele sempre me dizia: seja
humilde e tenha fé.
Em São Paulo, transformou sua vida: casado, duas filhas e
profissional bem-sucedido, colhia da boa safra que preparou por toda a vida num
esforço peculiar de sempre semear seu terreno com seus históricos valores. Respira-se
isso em sua casa e a dinâmica de sua família nos leva a sentir essa energia.
Fiquei pouco tempo por lá, mas a harmonia e ritmo que ele, Adriana e filhas
encerram é algo confortador, uma experiência muito boa. Fui chamado para
pernoitar, mas queria estar com Marta, com quem tive meus contatos mais fortes
a partir dos anos 90, época dos meus vinte e poucos anos. Trabalhamos juntos na
UFRRJ, onde fomos técnicos administrativos e dela recebi preciosas lições sobre
trabalho, estudo, espiritualidade, coragem, objetividade e otimismo. Saiu do
Rio e foi para São Paulo trabalhar, foi ser bandeirante na terra da garoa.
Preparava-me para pegar um taxi até a casa de Marta, quando Edinho
decidiu me levar até lá. Às 21:30, na rua João Dias, chegando à avenida Giovane
Gronch, porta de entrada do luxuoso bairro Morumbi, bandidos fecham o trânsito
e saqueiam os carros, aterrorizando a todos, apontando armas direto para as
cabeças. No carro, Edinho, família e eu. Preocupado com a família, sentada no
bando de trás, Edinho praticamente se prostra, demora a responder aos comandos
dos bandidos que, contrariados, exacerbam as ameaças. Tomado de espantosa
calma, respondo aos comandos dos bandidos, entrego tudo o que foi solicitado.
Foram-se pertences, dinheiro, cheques, cartões e documentos. A tensão não durou
mais que cinco minutos.
Fora de perigo e mesmo ao lado de primos, vivenciei medo,
angústia e frustração até chegar à casa de Marta. Para qualquer lugar que olhava,
tudo que já era desconhecido se tornou mais hostil. Precisando de amparo, lembrei
de que quatorze horas atrás eu beijava e abraçava fortemente minha filha e de
algo impressionante: minutos antes do incidente, Julia, filha do Edinho, pediu insistentemente
ao pai para cantar para mim a música que aprendeu na catequese:
“Vem amigo vem /Vem para entregar este coração que Deus te deu/
para amar não para odiar /Vem abre teus braços até aquele que está lá/ Vem abre
teus braços ao teu irmão ao teu amigo/Dá-lhe um empurrão/ Dá-lhe um empurrão
que de pouco a pouco ele se achega ao Senhor Nosso Senhor”.
Pedido interessante o de Júlia: seu cantar nos trouxe a calma
para enfrentar o roubo.
Na portaria do prédio em que Marta morava, paramos para elaborar
toda tensão e enfim chorar o que o susto nos impediu. Passado o pânico inicial,
Edinho e família se foram.
Depois de ter sido acolhido e confortado, e de termos realizado
que se foram os bens materiais, mas ficou a vida, Marta me surpreendeu com uma pergunta: “Se
o pior lhe tivesse ocorrido hoje, você acredita que levaria consigo a certeza
de ter honrado os encontros que teve nessa vida?”. Senti imediatamente o
impacto da pergunta e me dei conta de que o código do viver estava sutilmente embalado
por uma inusitada e profunda reflexão e exigia bastante tato na sua
decodificação.
Acompanhado de Castelhano, marido de Marta, fui prestar queixa. Embora
tudo fosse passível de reposição, não importando quanto tempo levasse, o que eu
mais ressentia do que foi subtraído eram os documentos. A frustração ainda me
faria companhia durante o longo período em que perambulamos por delegacias
próximas ao bairro Morumbi que estivessem vazias e que pudessem registrar a
ocorrência sem que isso nos custasse toda a madrugada. Enquanto espero atendimento
na 34 DP, em Francisco Morato, pensei insistentemente em meus encontros,
principalmente se nesses 39 anos de vida eu observei ou não a inerente honradez
que possuem. “Honrei meus encontros? Honro meus encontros?”. Pensei no encontro
com Maria Luiza, minha filha, no encontro que tive com sua mãe e que nos levou
a formar uma família. Pensei no encontro que tive com meus pais, irmãos, tios e
primos. Pensei no encontro com amigos, colegas de trabalho e de escola, e com
meus alunos, pessoas que precisam de conhecimento, exemplos, atenção e
orientação.
Muitos foram os encontros em minha trajetória de 39 anos e a
pergunta de Marta, além de me fazer acessar o todo simbólico que envolve um
encontro de duas pessoas numa vida, falou de uma riqueza a que somos
apresentados e que devemos honrar como condição central para fazer uma análise
mais humana e sensível dessa nossa passagem pela vida. Passagem curta, que às
vezes pode ser curtíssima, e da qual nada se leva, mas na qual podemos
diariamente carregar a leve e confortadora consciência de que foi digna,
humanizada e honrada.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Abrace o que está vivo.
Recife, 23 de junho de 2009, 6 da manhã. Acordo mais cedo do que esperava e de mal humor. Acordei e não me vieram à mente os melhores dos pensamentos, coisa comum em minha vida. Aceito essa invasão bárbara do baixo astral e procuro relaxar.
Hoje faz quatro anos que meu pai faleceu. Não consigo me concentrar, meus pensamentos estão confusos, a todo instante saio e volto para o hotel numa falta de assertividade de me agoniar. Decido ir à praia de Boa Viagem para uma caminhada. Assumo que não existe essa coisa de ir a Recife e não ir à praia, mesmo que seja só para caminhar na praia, já que não quero me oferecer aos tubarões.
Caminho por alguns minutos, não aguento a tentação, me jogo nos veios de água que ficam antes dos recifes. Frequentado por pais, filhos, avós e netos, o lugar é naturalmente ruidoso e ameaçador à minha necessidade de reflexão. Afasto-me do movimento e me jogo na água. Nado um pouco e depois, sozinho e sentado no raso, fico pensando na vida. Observo o grupo de banhistas que está a uns 15 metros e não demora para que pensamentos sobre os quatro anos de falecimento do meu pai venham. “Não rememoro nenhum momento nosso numa praia, é como se não o tivéssemos tido”. Do nosso passado, revisito conflitos, críticas, culpas, cobranças, convivência, comemorações e uma camaradagem bem menor que a que merecíamos.
Olho fixamente para um ponto dos recifes e, de repente, uma garotinha que estava com duas mulheres no grupo de banhistas se aproxima e puxa assunto: “Eu tenho quatro anos, e você?" Respondo que tenho 38 anos e ela diz não saber quanto que é isso. Ela se afasta nadando e me chama para brincar: “Vem brincar comigo, vem?”. Não reagi, mas Luana é insistente e fica me rodeando, jogando água e areia em mim. Reluto no início, mas logo entendo a mensagem, decifro a senha que o viver me apresenta: “Esses quatros anos não são coincidência, abrace o que está vivo e pare de carregar o que está morto”.
Estou pensando na morte de alguém que me é muito caro e outro alguém que jamais vi, uma criança de quatro anos, e que tinha outras crianças ao lado para brincar, prefere me rodear e me tirar para brincar. Começamos a brincar de pega-pega, enquanto finjo que não consigo alcançá-la. A mãe, surpresa, se aproxima e comunica que não é da filha aquele comportamento. Deixo rolar, digo que não tem problema algum, afinal, a mensagem está copiada e o código do viver decifrado. Luana solta gargalhadas maravilhosas com nossa brincadeira.
O sol nos embala, são 10 da manhã, mas logo chega a hora de me preparar para voltar ao Rio de Janeiro. Dou um abraço apertado em Luana e digo muito obrigado. Ela só faz rir. A mãe reforça: “Moço, minha filha nunca fez isso antes”. Penso comigo: “Captei a mensagem, adorei a mensageira, tentarei nunca mais ficar de baixo astral e abraçado ao que só pede para ter o status de boa saudade”. Digo a ela: “Você não sabe o bem que ela me fez”.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Tempo e Liberdade
Rio de Janeiro, Rocha, noite, 13 de abril de 2006. Tenho estado
pensativo sobre o envelhecimento. Algo não muito difícil de entender após o
aniversário de trinta e cinco anos, mas que não se explica apenas por isso: o
tempo passa e se anuncia de várias maneiras, reivindicando a condição de dono
da situação. Ao explorar o tema com mais afinco, vejo que eu e ele sempre
estivemos muito próximos, mas nossa proximidade nunca recebeu tanta ênfase. Por
exemplo, um dia intui que empresas são reestruturadas, marcas são rejuvenescidas,
pessoas envelhecem e morrem, mas não avancei na inquietude que gera essa
intuição ou que é gerada por ela. O tempo está aí.
Mas a atual devoção ao tema tem um intuito: desenvolver e
consolidar uma perspectiva mais estruturada sobre envelhecimento, banindo,
automaticamente, leituras simplificadoras. Estas não podem mais continuar. Envelheço.
Apesar de ser só 35 anos, o envelhecimento é uma realidade sentida, vivida por
mim, não é mais um conceito ou realidade constada ao olhar o próximo.
Admito que ainda não me sinto muito à vontade para falar de
maneira consistente sobre a vida – tenho medo e me sinto ignorante – mas sei
que não aceito nem suporto mais leituras muito óbvias e superficiais sobre essa
viagem que fazemos através dessa explosão biológica que individualmente
encerramos. A vida é uma explosão biológica que me assusta conformo me conscientizo
da sua dimensão ou alcance.
Reflito sobre o significado do envelhecimento, seus sinais e consequências,
assim como procuro relacioná-lo com as diversas partes da minha vida. Penso nas
consequências da passagem do tempo sobre minha pessoa, nos planos corporal,
intelectual e espiritual. As marcas dessa passagem se manifestavam de forma
isolada, agora tudo se encaixa ou mostra sua inexorável complementaridade. Alguns
dos meus últimos, vacilante e infrequentes escritos trazem essas marcas. Tenho
falado de precaução, contenção, saudade, esquecimento, desencanto e prudência,
mas de forma contundente. Falo muito pouco sobre revoluções, sonhos, planos
para criar novas realidades e a importância de correr riscos. É como se não
tivesse trinta e cinco anos.
Também escrevo sobre meus estranhamentos com a vida: as coisas
relativas ao viver ainda não estão como dadas para mim, totalmente
decodificadas. Ainda tem muitos pontos de interrogação acenando para mim na prateleira
das reflexões. Minha adaptação a tudo o que a vida encerra e representa não se
dá sem momentos de angústia, ainda que novas leituras apareçam, à medida que
envelheço e possa haver uma amenização nas interpretações. Lamentavelmente, são
leituras menos apaixonadas, pouco carregadas de tesão e emoção inquietantes e peculiares
a uma explosão. Às vezes, penso que aqueles que algum dia lerem o que tenho
escrito não farão transformação alguma em suas vidas. Mas também penso que não
atentarão contra as próprias vidas, pois, ao meu jeito, mostro que o prazer
sobressai às angustias. Sobre o prazer, acrescento que o que mais me dói é a
perspectiva de que sua maior e melhor ocorrência venham de fora dos espaços que
formam minha dimensão lar. O prazer na sua expressão mais ampla.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Sobre revoltas e sonhos
Rio de Janeiro, Rocha, noite, 18 de agosto de 2004. Não sei o
que me deixa mais incomodado: a diversidade de caminhos que percorri até aqui
ou a avassaladora quantidade de dicas de caminhos a seguir que vêm do meu
interior.
Como sempre as dúvidas abundam em minha vida, mas agora com os
detalhes de quem já passou dos trinta anos. Estou com trinta e três. As dúvidas
são motivadas por razões diferentes daquelas de dezesseis anos atrás. Não tenho
mais a agilidade e a audácia de um jovem de 18 anos. Continuo me sentindo
espremido no mundo, mas não saio à rua à procura de uma surpresa. Também não me
angustia a ausência de recursos para poder fazer as escolhas mais básicas, como
era antigamente. Pressiona-me, sim, um mal-estar de quem acabou de escutar um
tiroteio perto da favela da Mangueira que durou quase uma hora.
Estou assustado e incomodado no bairro do Rocha, escrevendo na
cozinha do apartamento. Felizmente, ouço a MEC AM, como faço há dezesseis anos.
Não me estranha chegar à constatação de que estou escrevendo na cozinha, já o
fiz antes em outras cozinhas e essa não é uma das menores que tive para morar.
Incomoda-me o fato dela parecer uma prisão. Assim que me sinto: prisioneiro no
bairro do Rocha. Logo eu que sempre prezei o significado e o valor da liberdade
e que aos dezessete anos a elegi como prioridade. Entender o significado de
estar aqui e passar por isso é o que me leva a escrever. Isso aqui é muito diferente
do que quis para mim e do que me lembram diariamente minhas reflexões.
Pela manhã, recebi um sinal interessante, daqueles que lá no
fundo você acha que é um recado do destino. Peguei um caderno antigo para
estudar e na primeira folha estava escrito, “Nunca teríamos nos revoltados, se
não tivéssemos sonhado”, frase que o desconhecido dono do caderno credita a Ben
Bella e a quem minha ignorância não permite reconhecer.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Saber dançar - fator de seleção natural.
Em 22 de junho de 2009, à noite, estava no forró no Arsenal de Marinha,
em Recife. Percebo um alvoroço, fico surpreso e logo sou informado de que é
antevéspera do dia de São João e que as pessoas estão ansiosas e se preparando
para 24, ‘o grande dia’.
A movimentação é intensa e não demorei a compreender que dançar
é uma questão de sobrevivência, de preservação da espécie, fator de seleção
natural. Quem sabe dançar chega mais longe, é mais competitivo.
Apesar do meu preconceito com o forró, alimentado durante toda a
minha vida devido a um trauma, acabo parando, junto com colegas que participam de
um congresso científico, em uma tenda de forró montada pela prefeitura. O som é
contagiante e o ritmo inigualável: todos estão balançando o corpo. A
sensualidade de um casal dançando um forro quase em câmera lenta me desperta
uma grande inveja. Com a chuva fina que cai teimosamente e o vento frio, tudo o
que queria naquele momento era estar com o meu amor e como aquele casal: corpos
germinados, a minha perna invadindo o meio das pernas dela que se escora no meu
joelho e coxa. As nádegas arrebitadas dela, balançando gostoso, dirigem meus
pensamentos e, de tanto que ela mexe, dão mais consistência à mistura de
imagens e sensações que experimento.
Toca um forró atrás do outro e as mulheres ficam olhando para os
estrangeiros, quem, afinal, não deixamos mesmo de ser. Poucos de nós reagem aos
olhares desejosos delas, a maioria fica na observação. Os homens de lá avançam
sobre as mulheres que acompanham os estrangeiros. Elas se rendem ao molejo
deles, que mudam de cara a todo instante. Nós não somos páreos para eles,
apesar do bom humor ou qualquer presumido atributo que nos diferencie. Eles têm
molejo, requebrado, chamam atenção. A situação me incomoda: “Como assim ceder
espaço sem reagir? E o perder dignamente, lutando o bom combate, onde fica?”.
Denise, uma bela recifense que dançava sozinha e que me recebeu com um largo
sorriso quando cheguei já está rodeada por três estrangeiros e muito feliz com
a disputa por ela. Perdi a luta e não considerei um bom combate minha única e lastimável
ação de ter ido até ela e perguntado o nome.
Reajo, abordo uma mulher bem requebradora e, sem perguntar seu
nome, proponho a dança. Ela aceita, mas não demoro a perceber que reagi sem
pensar direito: ela nota que não sei dançar, resmunga, peço para me ensinar e
ouço o pior vaticínio de toda a minha vida de homem reativo: “Quero um homem
que me conduza, não quero conduzir ninguém”. Ela me deixa na mão no meio do
salão. Um recifense bom de dança a agarra e a conduz. Não fico para ver os dois
apertadinhos, coladinhos um ao outro, encaminhando, quem sabe, um ‘felizes para
sempre’. Um recifense que nos acompanha analisa calmamente meu ocaso: “Ela está
certa, é a noite dela, é a chance para encontrar o amor que pode ser o da vida
dela. Para uma pernambucana isso não rola com um homem que não sabe dançar”.
A senha do viver emerge requebradora à minha frente: dançar é
código de vida, seleção natural, fator de sobrevivência e evolução da espécie
para os desafios da condução do outro pela vida. O homem reativo está
drasticamente exposto à extinção, não conduzirá ninguém. Captada a lição, paro
reflexivo contemplando o gingado dos dançarinos patrocinados por uma marca de
cachaça que animam outra tenda. Feito bobo, fico contemplando e desejando as
lindas dançarinas profissionais. De repente, os dançarinos improvisam uma
quadrilha e logo circundam as pessoas que os observavam. “Quadrilha de São
João!”, avisa o locutor enquanto os dançarinos vão nos envolvendo formando um
quadrilhão imenso.
Fico tenso, a música em Recife é gatilho para incômodas
lembranças da minha puberdade, em 1982, quando vizinhos organizaram uma festa
junina e uma quadrilha. Lembro que à época não me saí bem naquele instante
coletivo: não suportei não ter jeito para a coisa, as críticas e esporros de
quem nos treinava e as zoações de colegas e, como consequência, não dancei, fui
trocado por alguém que certamente não achou bobo se fantasiar de caipira, se
pintar com um falso bigode e usar aquela roupa toda costurada, traços da
péssima representação que guardei de festa caipira. Desde então, me esquivo
dela. Fui um grande babaca, pois só um apresenta essa justificativa para a
falta de humildade em ser mais um em mais um episódio comum da vida comum que
temos, a falta de molejo ou jogo de cintura e de um espírito de festa.
Em Recife, tinha como fugir, mas resolvi encarar: estava envolvido pela quadrilha improvisada na tenda e onde a adesão à dança é feita de maneira espontânea e muito bem-humorada. Dezenas de casais se acumulavam, enquanto observava e a música tocava nervosa. A quadrilha deu a partida e a temperatura aumentou bruscamente. Fico olhando o fenômeno até que uma morena sorridente aparece em minha frente. “Você faz par comigo?”. Não penso duas vezes, faço par com Josiane, exponho minha falta de molejo, meu fator de exposição à extinção. Ela nota e diz: “Relaxa”. Fazemos as evoluções e, numa delas, leio tatuado perto da sua nuca: “O tempo muda e nós mudamos com ele”. O porquê da frase me é logo explicado: tatuou após separação traumática do seu grande amor, que a deixou, largou o casamento. E complementa: “Essa frase resume o meu aprendizado: agora quero viver, curtir a vida”. A dança continua, ela pergunta se estou gostando e defino: “Você não sabe o bem que me faz, dancei a primeira quadrilha de minha vida. O tempo muda, né?”.