domingo, 24 de abril de 2011

Sobre abrir e manter as portas abertas

Muriaé, 21 de abril de 2011, bairro Dornelas, perto das 18:00 horas. Aproveitei o feriado da Semana Santa para descansar e, como de costume, levei na bagagem outros propósitos: tirar minha família da correria e bagunça da cidade do Rio de Janeiro; rever meus familiares mineiros, extremamente caros para mim; e fazer uma nova leitura, agora aos 40 anos, do meu jeito de ser e agir e promover mudanças. Uma releitura do meu modo de estar na vida, dos sentimentos, pensamentos e ações.

Realizo essas releituras com frequência. Produzir novas significações e ressignificações é algo que faço com regularidade, embora não sejam nada fáceis de fazer. É uma prática que sempre se sobrepõe a outra ideia que por vezes me aparece: a de praticamente viver sem fazer leitura ou releitura alguma, de bastar-me o significado básico de estar vivo. Remonta a Clarice Lispector: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Sou capaz de render-me, até tentei fazer em determinados momentos de minha vida, uns por amor, outros por puro pragmatismo, mas ainda não ao modo lispectoriano. Os momentos pragmáticos, apesar dos resultados obtidos, foram duros, empobrecidos, era o resultado pelo resultado, a falácia do atirador de elite, do tiro perfeito, só isso. Faltava substância, algo que desse mais sabor ao desafio de viver e que não se resumisse ao "veja, eu fiz, tá aqui, ó". 

Acredito que o pragmatismo, ainda que gere resultados e que por vezes mostre-se necessário, quando a iminência, a urgência, o solicita, se não for devidamente ilustrado, trabalhadas as suas razões, promove o empobrecimento da realidade e da aprendizagem. Posto que atende a necessidade de produção de resultados e não importa como, quando feita para premiar a vaidade do seu autor — a de ser visto e de se vê como pessoa audaz e resoluta —, a ação pragmática fecha as portas para o inusitado e surpreendente, cerceia a imaginação, inibe a oferta de contribuições e de troca de experiências. Em outras palavras: “é assim e pronto. Vamos aos resultados!” Pronto: a porta está fechada. Se feita assim, essa ação produz resultados na maioria das vezes miseráveis, pois esse tipo de fazer difere do fazer com simplicidade que resulta da sabedoria, da aprendizagem que o passar do tempo nos confere e nos ensina a sempre manter as portas abertas à sensibilidade, imaginação e criatividade..

Programei relaxamento e reflexões para o fim de semana, mas não me descuidei da prática de exercício diário que assumi como fundamental para produzir saúde e melhorar minha qualidade de vida. Coloquei meu tênis e fui correr no passeio à beira do rio Muriaé, lugar onde muitos caminham. Devido a péssima condição do passeio e ao intenso fluxo de carros, que assustam e poluem, fui correr pelas ruas do bairro Dornelas, especificamente na Sebastião Dornelas e na Boa Esperança.

É assim, pragmaticamente posto ─ produzir saúde e melhorar minha qualidade de vida ─ que entendo a prática de exercício. Por outro lado, isso é parte do que me comunicam a prática de exercício e de esportes e todos os atores diretamente ligados a atividades físicas e esportivas. Outra parte é a preparação para a competição, para a superação de rivalidade e de limites, que, segundo algumas leituras, em função de como é organizado e desempenhado, produz momentos celebres, artísticos. Acredito ser essa visão pragmática resultado da qualidade das interações que tive com a educação física praticada nas escolas, com as orientações médicas, como torcedor, com as interações sociais nos times de futebol de bairro e com a mídia.

Esta realidade foi confrontada, recentemente, pela grata e inusitada fala do treinador do Internacional, de Porto Alegre, Falcão, sobre o aceite para voltar aos gramados como técnico. Ele que supostamente não precisa daquilo por salário e reconhecimento falou em leveza, que futebol é alegria, não uma guerra, que futebol é conseguir resultado com alegria e que quer ir para o campo com a certeza de que vai ver um espetáculo. Com responsabilidade e consciência do desafio, um dos resultados possíveis para ele, e não menos importante, é se divertir. 

Até a fala dele, confesso, eu não havia alcançado esse nível de leitura sobre o fazer e praticar exercícios e esportes. Falcão foi além do iminente que satisfaz a paixão e rivalidade dos torcedores, a muitos jornais e jornalistas e aos gestores dos clubes. Falando do futebol, ele nos abriu a porta para uma significação maior, para uma relação mais humana, nobre e instrutiva entre nós e os diversos fazeres e experiência que se nos apresentam conforme nos embrenhamos pela vida. Ele falou em produzir alegria, divertir-se no trabalho, colocando este como parte fundamental de um viver com alegria. Falcão ensina que essa é a meta, o resultado amplo e possível de ser alcançado quando se abre mão da obtusidade inerente a ação pontual e pragmática.

Enquanto corria pelo bairro, notei o fato natural de que eu chamava a atenção dos adultos, perturbava a rotina, dado que era desconhecido. Algumas crianças brincavam na calçada e com elas deu-se um momento interessante. A figura estranha passava várias vezes correndo e elas comentavam, discretamente, procurando chegar, em suas trocas de impressões e informações, a um contexto que explicasse ou desse conta daquele pequeno inusitado: um estranho correndo em nossa rua. Tímido, não tive coragem de fazer os acenos que cumprimentam e pedem passagem.

Em uma das voltas, ao final da rua Boa Esperança, uma das crianças, uma menina perto dos seus 3 anos de idade, parou de brincar, olhou para mim, levantou-se sorrindo e perguntou: “moço, por que você fica correndo pra lá e pra cá?”. Pego de surpresa, algo que por si só justificava que eu parasse e desse atenção, resumi-me a dizer, e sem parar: “eu corro para suar”. Ela ficou olhando para mim. A frente, seu pai, atento, disse-me: “um dia ela vai entender que isso é saúde”. Continuei meu passo e percebi quão objetivo, pragmático, pobre, eu fora: “corro para suar”.

Eu, o estranho, tendo a oportunidade de fazer-se ameno e amigável, preferi fechar a porta, ignorando a grata surpresa, o inusitado saudável que abria as portas daquelas crianças para novos saberes e aprendizagens. Eu deveria ter parado e dito: “corro porque isso me deixa feliz ou porque isso me diverte, faz parte da vida que eu quero para mim”. Eu ampliaria meu resultado para este dia, pois, além de ganhar saúde, eu ganharia sorrisos gratuitos e verdadeiros e outras perguntas que, talvez, expusessem-me a novos inusitados e aprendizagens. Certamente conversaria com o pai dela, tornaria-me familiar e este episódio, visto pelos outros da rua, chancelaria de vez meu passar pelos domínios do dia-a-dia que eu havia perturbado.

Decidido a recuperar-me, fiz a volta na esperança de ainda reencontrá-los para poder dizer que corro para me divertir como fazem todas as crianças. Quando cheguei as crianças estavam saindo para suas casas. Aquele pai não estava mais lá. Vi a garotinha e, no tempo que me foi possível, tentei reabrir a porta à sensibilidade, e disse: “olha, eu corro porque isso me deixa feliz”. Ela sorriu com o meu inusitado retorno.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Do que experimentamos nesta caminhada

UFRRJ, 19 de Fevereiro de 1997, à tarde. Experimentei hoje um momento muito interessante da minha curta existência. Marcou-me por sua originalidade, pelo ineditismo com que fui apresentado a mais uma das incríveis facetas do viver. Hoje, por alguns instantes, por alguns metros, experimentei, e pela primeira vez, a real e incômoda sensação de estar sozinho no mundo. Acompanhada esta de uma terrível sensação de vazio existencial. Sozinho e esvaziado.

Caminhava pela UFFRJ, do Prédio principal (P1) para o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS); lia a cobertura jornalística do falecimento de Darci Ribeiro. Concentrado na leitura, segui meu caminho a passos muito lentos, bem calmos, enquanto era conduzido, pelo autor, pelos diversos momentos da vida e trajetória de uma das personagens mais brilhantes e marcantes da nossa história. Quando comecei havia sol, não ventava. Embora fosse à tarde, fevereiro, havia muita gente transitando pela Rural.

A notícia da morte já me causara um grande vazio. É muito ruim vivenciar perdas, e estas tomam contornos diferenciados quando se trata de pessoas cujos pensamentos, valores, envergadura moral e qualidade do trabalho as tornem imprescindíveis para a formação da nossa imagem de cidadão, da maneira como nos vemos e nos definimos como povo, nação. Embora conhecida a gravidade da doença, Darci Ribeiro desapareceu, simplesmente desapareceu. Fica a obra. O conteúdo da reportagem fez aumentar essas incômodas sensações; as palavras sensibilizavam, emocionavam, e, ainda que limitadas a um jornal, foram certeiras ao aludir a vida e obra de Darci Ribeiro.

Quando lia uma das últimas frases, onde Darci Ribeiro explicava ao médico porque sairia da UTI, abandonaria o tratamento e iria para casa, acontece o que marcaria para sempre este dia. Parei e comecei a refletir sobre o significado da sua explicação, sobre aquela contundente reafirmação da sua vontade de viver, ainda que implicasse a saída do hospital. Ele, paciente terminal, sai do quarto e vai pra vida; troca a paisagem da dor, pelo cenário da vida, ao lado dos seus e dos elementos que melhor definem o indivíduo que ele encerrou. Uma forte demonstração de amor a vida.

Fechei o jornal, levantei a cabeça e olhei para os lados. Pela primeira vez, aqui na UFRRJ, não encontrei ninguém. Ninguém ia ou vinha pelo caminho entre o P1 e o ICHS; ninguém vinha ou ia pelo caminho entre os alojamentos e o ponto do Colégio Presidente Dutra. Não notei qualquer pessoa que tenha passado por mim. Nada de carros, motos ou bicicletas. O tempo tinha ficado nublado, ventava muito; chuva forte a caminho. Demorou uns minutos até que alguém aparecesse. Retomei minha caminhada.

A caminhada, normalmente rápida, estendeu-se por quase 40 minutos. Eu estava sozinho, momentaneamente esvaziado do lúdico e do lírico que tão nobremente alimentam essa nossa breve caminhada pela vida e que sempre nos chegam por meio dos sonhos, apostas e obras dessas pessoas que são imprescindíveis.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Honrar encontros

São 9 de setembro de 2010, estou em São Paulo para rever primos e participar de um congresso na USP. Pela primeira vez em minha vida, fui vítima de roubo. Anteriormente, fui furtado em Belo Horizonte, em 1994.

Tudo se deu num arrastão, coisa que parece ‘exclusividade’ do Rio de Janeiro, como sugere a incidência da mídia. Que cena: um cidadão carioca subtraído de seus bens na terra da garoa, no estado das pessoas que, segundo velha provocação, trabalham para o resto do Brasil poder viver. Imagens à parte, o que sobra é a realidade: fui mais um cidadão brasileiro em São Paulo, cidade que é a imagem e materialização do progresso bastante idolatrado por muitos de nós, mas que na realidade é mais violenta que o Rio de Janeiro.

Havia um congresso na USP, mas o que eu mais queria era rever Marta e Edinho, primos caros à minha história de vida e a quem eu protelava o devido reencontro. Edinho eu não via há mais de seis anos, Marta há uns dois anos. A possibilidade do reencontro foi o fator decisivo para viajar, dado que estava cheio dessa coisa de fazer networking, algo artificial, porém muito aceito nos mundos acadêmico e de negócios. Imagens do cansaço e do pessimismo de um acadêmico altamente duvidoso da real vontade e disponibilidade dos seus vaidosos pares para compartilhar o conhecimento que presumimos ter. Não devo ser o único que pensa e sente que a academia é ‘mestre’ em fazer apologias a valores que nem sempre pratica.

Findo o congresso, Edinho me pegou na USP e me levou ao seu lar, no bairro da Lapa. Convivemos nos primeiros anos da minha adolescência, no início dos anos 80, e desse encontro ficaram marcas significativas. Ele sempre me chamava atenção para a necessidade de criar e produzir minha própria história, era perseverante e disciplinado na criação da dele, mas o que me chamava muita atenção eram seus valores e atitudes sempre serem orientados para ética, trabalho, religião e família. Vindo de Pedro Teixeira, MG, em Seropédica trabalhava como balconista de Supermercado para pagar os estudos. Trabalhava e estudava bastante e nunca reclamava, estava sempre sorrindo. Eu o conheci em uma fase difícil da minha vida e nele tive o acolhimento para, àquela época, poder falar sobre o que me deixava apreensivo. Ele sempre me dizia: seja humilde e tenha fé.

Em São Paulo, transformou sua vida: casado, duas filhas e profissional bem-sucedido, colhia da boa safra que preparou por toda a vida num esforço peculiar de sempre semear seu terreno com seus históricos valores. Respira-se isso em sua casa e a dinâmica de sua família nos leva a sentir essa energia. Fiquei pouco tempo por lá, mas a harmonia e ritmo que ele, Adriana e filhas encerram é algo confortador, uma experiência muito boa. Fui chamado para pernoitar, mas queria estar com Marta, com quem tive meus contatos mais fortes a partir dos anos 90, época dos meus vinte e poucos anos. Trabalhamos juntos na UFRRJ, onde fomos técnicos administrativos e dela recebi preciosas lições sobre trabalho, estudo, espiritualidade, coragem, objetividade e otimismo. Saiu do Rio e foi para São Paulo trabalhar, foi ser bandeirante na terra da garoa.

Preparava-me para pegar um taxi até a casa de Marta, quando Edinho decidiu me levar até lá. Às 21:30, na rua João Dias, chegando à avenida Giovane Gronch, porta de entrada do luxuoso bairro Morumbi, bandidos fecham o trânsito e saqueiam os carros, aterrorizando a todos, apontando armas direto para as cabeças. No carro, Edinho, família e eu. Preocupado com a família, sentada no bando de trás, Edinho praticamente se prostra, demora a responder aos comandos dos bandidos que, contrariados, exacerbam as ameaças. Tomado de espantosa calma, respondo aos comandos dos bandidos, entrego tudo o que foi solicitado. Foram-se pertences, dinheiro, cheques, cartões e documentos. A tensão não durou mais que cinco minutos.

Fora de perigo e mesmo ao lado de primos, vivenciei medo, angústia e frustração até chegar à casa de Marta. Para qualquer lugar que olhava, tudo que já era desconhecido se tornou mais hostil. Precisando de amparo, lembrei de que quatorze horas atrás eu beijava e abraçava fortemente minha filha e de algo impressionante: minutos antes do incidente, Julia, filha do Edinho, pediu insistentemente ao pai para cantar para mim a música que aprendeu na catequese:

“Vem amigo vem /Vem para entregar este coração que Deus te deu/ para amar não para odiar /Vem abre teus braços até aquele que está lá/ Vem abre teus braços ao teu irmão ao teu amigo/Dá-lhe um empurrão/ Dá-lhe um empurrão que de pouco a pouco ele se achega ao Senhor Nosso Senhor”.

Pedido interessante o de Júlia: seu cantar nos trouxe a calma para enfrentar o roubo.

Na portaria do prédio em que Marta morava, paramos para elaborar toda tensão e enfim chorar o que o susto nos impediu. Passado o pânico inicial, Edinho e família se foram.

Depois de ter sido acolhido e confortado, e de termos realizado que se foram os bens materiais, mas ficou a vida, Marta me surpreendeu com uma pergunta: “Se o pior lhe tivesse ocorrido hoje, você acredita que levaria consigo a certeza de ter honrado os encontros que teve nessa vida?”. Senti imediatamente o impacto da pergunta e me dei conta de que o código do viver estava sutilmente embalado por uma inusitada e profunda reflexão e exigia bastante tato na sua decodificação.

Acompanhado de Castelhano, marido de Marta, fui prestar queixa. Embora tudo fosse passível de reposição, não importando quanto tempo levasse, o que eu mais ressentia do que foi subtraído eram os documentos. A frustração ainda me faria companhia durante o longo período em que perambulamos por delegacias próximas ao bairro Morumbi que estivessem vazias e que pudessem registrar a ocorrência sem que isso nos custasse toda a madrugada. Enquanto espero atendimento na 34 DP, em Francisco Morato, pensei insistentemente em meus encontros, principalmente se nesses 39 anos de vida eu observei ou não a inerente honradez que possuem. “Honrei meus encontros? Honro meus encontros?”. Pensei no encontro com Maria Luiza, minha filha, no encontro que tive com sua mãe e que nos levou a formar uma família. Pensei no encontro que tive com meus pais, irmãos, tios e primos. Pensei no encontro com amigos, colegas de trabalho e de escola, e com meus alunos, pessoas que precisam de conhecimento, exemplos, atenção e orientação.

Muitos foram os encontros em minha trajetória de 39 anos e a pergunta de Marta, além de me fazer acessar o todo simbólico que envolve um encontro de duas pessoas numa vida, falou de uma riqueza a que somos apresentados e que devemos honrar como condição central para fazer uma análise mais humana e sensível dessa nossa passagem pela vida. Passagem curta, que às vezes pode ser curtíssima, e da qual nada se leva, mas na qual podemos diariamente carregar a leve e confortadora consciência de que foi digna, humanizada e honrada. 

A admiração e gratidão me levaram ao encontro de Marta e Edinho, e, mesmo subtraído de bens e esperança com nosso país, saí enriquecido do que sempre me deram: abraços, conhecimentos, demonstração de afeto e energia espiritual, agora pela providencial mediação de Julia, que fez brotar em mim a calma e paz de espírito para evitar o pior no sufoco do assalto. Também entreguei a eles o afeto que, se não honra o encontro que tivemos nessa vida, pelo menos me estimula a sempre estar com eles.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Abrace o que está vivo.



Recife, 23 de junho de 2009, 6 da manhã. Acordo mais cedo do que esperava e de mal humor. Acordei e não me vieram à mente os melhores dos pensamentos, coisa comum em minha vida. Aceito essa invasão bárbara do baixo astral e procuro relaxar.

Hoje faz quatro anos que meu pai faleceu. Não consigo me concentrar, meus pensamentos estão confusos, a todo instante saio e volto para o hotel numa falta de assertividade de me agoniar. Decido ir à praia de Boa Viagem para uma caminhada. Assumo que não existe essa coisa de ir a Recife e não ir à praia, mesmo que seja só para caminhar na praia, já que não quero me oferecer aos tubarões.

Caminho por alguns minutos, não aguento a tentação, me jogo nos veios de água que ficam antes dos recifes. Frequentado por pais, filhos, avós e netos, o lugar é naturalmente ruidoso e ameaçador à minha necessidade de reflexão. Afasto-me do movimento e me jogo na água. Nado um pouco e depois, sozinho e sentado no raso, fico pensando na vida. Observo o grupo de banhistas que está a uns 15 metros e não demora para que pensamentos sobre os quatro anos de falecimento do meu pai venham. “Não rememoro nenhum momento nosso numa praia, é como se não o tivéssemos tido”. Do nosso passado, revisito conflitos, críticas, culpas, cobranças, convivência, comemorações e uma camaradagem bem menor que a que merecíamos.

Olho fixamente para um ponto dos recifes e, de repente, uma garotinha que estava com duas mulheres no grupo de banhistas se aproxima e puxa assunto: “Eu tenho quatro anos, e você?" Respondo que tenho 38 anos e ela diz não saber quanto que é isso. Ela se afasta nadando e me chama para brincar: “Vem brincar comigo, vem?”. Não reagi, mas Luana é insistente e fica me rodeando, jogando água e areia em mim. Reluto no início, mas logo entendo a mensagem, decifro a senha que o viver me apresenta: “Esses quatros anos não são coincidência, abrace o que está vivo e pare de carregar o que está morto”.

Estou pensando na morte de alguém que me é muito caro e outro alguém que jamais vi, uma criança de quatro anos, e que tinha outras crianças ao lado para brincar, prefere me rodear e me tirar para brincar. Começamos a brincar de pega-pega, enquanto finjo que não consigo alcançá-la. A mãe, surpresa, se aproxima e comunica que não é da filha aquele comportamento. Deixo rolar, digo que não tem problema algum, afinal, a mensagem está copiada e o código do viver decifrado. Luana solta gargalhadas maravilhosas com nossa brincadeira.

O sol nos embala, são 10 da manhã, mas logo chega a hora de me preparar para voltar ao Rio de Janeiro. Dou um abraço apertado em Luana e digo muito obrigado. Ela só faz rir. A mãe reforça: “Moço, minha filha nunca fez isso antes”. Penso comigo: “Captei a mensagem, adorei a mensageira, tentarei nunca mais ficar de baixo astral e abraçado ao que só pede para ter o status de boa saudade”. Digo a ela: “Você não sabe o bem que ela me fez”.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tempo e Liberdade

Rio de Janeiro, Rocha, noite, 13 de abril de 2006. Tenho estado pensativo sobre o envelhecimento. Algo não muito difícil de entender após o aniversário de trinta e cinco anos, mas que não se explica apenas por isso: o tempo passa e se anuncia de várias maneiras, reivindicando a condição de dono da situação. Ao explorar o tema com mais afinco, vejo que eu e ele sempre estivemos muito próximos, mas nossa proximidade nunca recebeu tanta ênfase. Por exemplo, um dia intui que empresas são reestruturadas, marcas são rejuvenescidas, pessoas envelhecem e morrem, mas não avancei na inquietude que gera essa intuição ou que é gerada por ela. O tempo está aí.

Mas a atual devoção ao tema tem um intuito: desenvolver e consolidar uma perspectiva mais estruturada sobre envelhecimento, banindo, automaticamente, leituras simplificadoras. Estas não podem mais continuar. Envelheço. Apesar de ser só 35 anos, o envelhecimento é uma realidade sentida, vivida por mim, não é mais um conceito ou realidade constada ao olhar o próximo.

Admito que ainda não me sinto muito à vontade para falar de maneira consistente sobre a vida – tenho medo e me sinto ignorante – mas sei que não aceito nem suporto mais leituras muito óbvias e superficiais sobre essa viagem que fazemos através dessa explosão biológica que individualmente encerramos. A vida é uma explosão biológica que me assusta conformo me conscientizo da sua dimensão ou alcance.

Reflito sobre o significado do envelhecimento, seus sinais e consequências, assim como procuro relacioná-lo com as diversas partes da minha vida. Penso nas consequências da passagem do tempo sobre minha pessoa, nos planos corporal, intelectual e espiritual. As marcas dessa passagem se manifestavam de forma isolada, agora tudo se encaixa ou mostra sua inexorável complementaridade. Alguns dos meus últimos, vacilante e infrequentes escritos trazem essas marcas. Tenho falado de precaução, contenção, saudade, esquecimento, desencanto e prudência, mas de forma contundente. Falo muito pouco sobre revoluções, sonhos, planos para criar novas realidades e a importância de correr riscos. É como se não tivesse trinta e cinco anos.

Também escrevo sobre meus estranhamentos com a vida: as coisas relativas ao viver ainda não estão como dadas para mim, totalmente decodificadas. Ainda tem muitos pontos de interrogação acenando para mim na prateleira das reflexões. Minha adaptação a tudo o que a vida encerra e representa não se dá sem momentos de angústia, ainda que novas leituras apareçam, à medida que envelheço e possa haver uma amenização nas interpretações. Lamentavelmente, são leituras menos apaixonadas, pouco carregadas de tesão e emoção inquietantes e peculiares a uma explosão. Às vezes, penso que aqueles que algum dia lerem o que tenho escrito não farão transformação alguma em suas vidas. Mas também penso que não atentarão contra as próprias vidas, pois, ao meu jeito, mostro que o prazer sobressai às angustias. Sobre o prazer, acrescento que o que mais me dói é a perspectiva de que sua maior e melhor ocorrência venham de fora dos espaços que formam minha dimensão lar. O prazer na sua expressão mais ampla.

Também não tenho feito leituras do envelhecimento relacionadas à liberdade. Estranho, pois sempre me pareceu muito sensata a ideia de que envelhecer era se libertar de coisas, medos, certezas e sentimentos que remetem à posse e percepções que nos dão uma falsa leitura do que realmente podemos nessa vida. É interessante, pois pareço estar menos aflito, mais ponderado e mais ligado ao experimentar as coisas que tenho e não em ter novas coisas para experimentar. É um sentimento que tem um grito tão forte quanto o tempo, e que toma mais propriedade quando lembro que empresas e marcas existem em dimensões virtuais e que elas valem mais quanto mais velhas ficam. O tempo vai passar e logo serei um registro livre. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobre revoltas e sonhos

Rio de Janeiro, Rocha, noite, 18 de agosto de 2004. Não sei o que me deixa mais incomodado: a diversidade de caminhos que percorri até aqui ou a avassaladora quantidade de dicas de caminhos a seguir que vêm do meu interior.

Como sempre as dúvidas abundam em minha vida, mas agora com os detalhes de quem já passou dos trinta anos. Estou com trinta e três. As dúvidas são motivadas por razões diferentes daquelas de dezesseis anos atrás. Não tenho mais a agilidade e a audácia de um jovem de 18 anos. Continuo me sentindo espremido no mundo, mas não saio à rua à procura de uma surpresa. Também não me angustia a ausência de recursos para poder fazer as escolhas mais básicas, como era antigamente. Pressiona-me, sim, um mal-estar de quem acabou de escutar um tiroteio perto da favela da Mangueira que durou quase uma hora.

Estou assustado e incomodado no bairro do Rocha, escrevendo na cozinha do apartamento. Felizmente, ouço a MEC AM, como faço há dezesseis anos. Não me estranha chegar à constatação de que estou escrevendo na cozinha, já o fiz antes em outras cozinhas e essa não é uma das menores que tive para morar. Incomoda-me o fato dela parecer uma prisão. Assim que me sinto: prisioneiro no bairro do Rocha. Logo eu que sempre prezei o significado e o valor da liberdade e que aos dezessete anos a elegi como prioridade. Entender o significado de estar aqui e passar por isso é o que me leva a escrever. Isso aqui é muito diferente do que quis para mim e do que me lembram diariamente minhas reflexões.

Pela manhã, recebi um sinal interessante, daqueles que lá no fundo você acha que é um recado do destino. Peguei um caderno antigo para estudar e na primeira folha estava escrito, “Nunca teríamos nos revoltados, se não tivéssemos sonhado”, frase que o desconhecido dono do caderno credita a Ben Bella e a quem minha ignorância não permite reconhecer.

Engraçado é que pareço não estar me reconhecendo agora. Confesso não estar nada satisfeito com essa situação: me sentindo prisioneiro no Rocha e solitário em casa, ainda que em seu quarto durma minha filha, e que na sala assista televisão minha esposa. Estou fazendo o que gosto, escrever, mas não estou na casa e na cidade que desejo para mim. Desejo estar numa serra, longe dessa loucura urbana. Também não estou sentindo a presença das Minas Gerais, sentimento que diariamente se faz presente pelas músicas, notícias e leituras que faço e, principalmente, pelas lembranças que tenho de situações que vivi. Não estou rodeado de pessoas felizes e cantantes, na cozinha grande, comemorando as benções da vida, contando os casos das aventuras dessa longa trajetória. Casa e cozinha de janelas que, ao serem abertas, trouxessem o mundo para dentro. Não estou com meus filhos, como sempre quis que assim fossem, filhos, nem carrego no olhar a chama de quem está amando. Não tenho a sensação de que estou vivendo, mas a de que estou levando a vida, e, o que é pior, levando-a com a sensação de que aqui nunca teria chegado se não tivesse deixado de acreditar e de procurar o que sonhava.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Saber dançar - fator de seleção natural.

Em 22 de junho de 2009, à noite, estava no forró no Arsenal de Marinha, em Recife. Percebo um alvoroço, fico surpreso e logo sou informado de que é antevéspera do dia de São João e que as pessoas estão ansiosas e se preparando para 24, ‘o grande dia’.  

A movimentação é intensa e não demorei a compreender que dançar é uma questão de sobrevivência, de preservação da espécie, fator de seleção natural. Quem sabe dançar chega mais longe, é mais competitivo.

Apesar do meu preconceito com o forró, alimentado durante toda a minha vida devido a um trauma, acabo parando, junto com colegas que participam de um congresso científico, em uma tenda de forró montada pela prefeitura. O som é contagiante e o ritmo inigualável: todos estão balançando o corpo. A sensualidade de um casal dançando um forro quase em câmera lenta me desperta uma grande inveja. Com a chuva fina que cai teimosamente e o vento frio, tudo o que queria naquele momento era estar com o meu amor e como aquele casal: corpos germinados, a minha perna invadindo o meio das pernas dela que se escora no meu joelho e coxa. As nádegas arrebitadas dela, balançando gostoso, dirigem meus pensamentos e, de tanto que ela mexe, dão mais consistência à mistura de imagens e sensações que experimento.

Toca um forró atrás do outro e as mulheres ficam olhando para os estrangeiros, quem, afinal, não deixamos mesmo de ser. Poucos de nós reagem aos olhares desejosos delas, a maioria fica na observação. Os homens de lá avançam sobre as mulheres que acompanham os estrangeiros. Elas se rendem ao molejo deles, que mudam de cara a todo instante. Nós não somos páreos para eles, apesar do bom humor ou qualquer presumido atributo que nos diferencie. Eles têm molejo, requebrado, chamam atenção. A situação me incomoda: “Como assim ceder espaço sem reagir? E o perder dignamente, lutando o bom combate, onde fica?”. Denise, uma bela recifense que dançava sozinha e que me recebeu com um largo sorriso quando cheguei já está rodeada por três estrangeiros e muito feliz com a disputa por ela. Perdi a luta e não considerei um bom combate minha única e lastimável ação de ter ido até ela e perguntado o nome.

Reajo, abordo uma mulher bem requebradora e, sem perguntar seu nome, proponho a dança. Ela aceita, mas não demoro a perceber que reagi sem pensar direito: ela nota que não sei dançar, resmunga, peço para me ensinar e ouço o pior vaticínio de toda a minha vida de homem reativo: “Quero um homem que me conduza, não quero conduzir ninguém”. Ela me deixa na mão no meio do salão. Um recifense bom de dança a agarra e a conduz. Não fico para ver os dois apertadinhos, coladinhos um ao outro, encaminhando, quem sabe, um ‘felizes para sempre’. Um recifense que nos acompanha analisa calmamente meu ocaso: “Ela está certa, é a noite dela, é a chance para encontrar o amor que pode ser o da vida dela. Para uma pernambucana isso não rola com um homem que não sabe dançar”.

A senha do viver emerge requebradora à minha frente: dançar é código de vida, seleção natural, fator de sobrevivência e evolução da espécie para os desafios da condução do outro pela vida. O homem reativo está drasticamente exposto à extinção, não conduzirá ninguém. Captada a lição, paro reflexivo contemplando o gingado dos dançarinos patrocinados por uma marca de cachaça que animam outra tenda. Feito bobo, fico contemplando e desejando as lindas dançarinas profissionais. De repente, os dançarinos improvisam uma quadrilha e logo circundam as pessoas que os observavam. “Quadrilha de São João!”, avisa o locutor enquanto os dançarinos vão nos envolvendo formando um quadrilhão imenso.

Fico tenso, a música em Recife é gatilho para incômodas lembranças da minha puberdade, em 1982, quando vizinhos organizaram uma festa junina e uma quadrilha. Lembro que à época não me saí bem naquele instante coletivo: não suportei não ter jeito para a coisa, as críticas e esporros de quem nos treinava e as zoações de colegas e, como consequência, não dancei, fui trocado por alguém que certamente não achou bobo se fantasiar de caipira, se pintar com um falso bigode e usar aquela roupa toda costurada, traços da péssima representação que guardei de festa caipira. Desde então, me esquivo dela. Fui um grande babaca, pois só um apresenta essa justificativa para a falta de humildade em ser mais um em mais um episódio comum da vida comum que temos, a falta de molejo ou jogo de cintura e de um espírito de festa.

Em Recife, tinha como fugir, mas resolvi encarar: estava envolvido pela quadrilha improvisada na tenda e onde a adesão à dança é feita de maneira espontânea e muito bem-humorada. Dezenas de casais se acumulavam, enquanto observava e a música tocava nervosa. A quadrilha deu a partida e a temperatura aumentou bruscamente. Fico olhando o fenômeno até que uma morena sorridente aparece em minha frente. “Você faz par comigo?”. Não penso duas vezes, faço par com Josiane, exponho minha falta de molejo, meu fator de exposição à extinção. Ela nota e diz: “Relaxa”. Fazemos as evoluções e, numa delas, leio tatuado perto da sua nuca: “O tempo muda e nós mudamos com ele”. O porquê da frase me é logo explicado: tatuou após separação traumática do seu grande amor, que a deixou, largou o casamento. E complementa: “Essa frase resume o meu aprendizado: agora quero viver, curtir a vida”. A dança continua, ela pergunta se estou gostando e defino: “Você não sabe o bem que me faz, dancei a primeira quadrilha de minha vida. O tempo muda, né?”.