domingo, 21 de maio de 2017
Sobre querer 'querer mudar'.
Hoje, aproximadamente quatorze meses depois que rompi os ligamentos do pé direito, consegui ir caminhando até a entrada do Instituto de Veterinária. Não senti dor, nem o medo de caminhar sozinho por aquelas paragens que deixavam-me inseguro. Até então, eu ia caminhando até a ponte da linha do trem. Quando lá chegava, sentia dores, medo de me machucar, de ser assaltado e ia me encolhendo progressivamente, chegando até a conceber padrões de pensamento como “eu tenho 46 anos, preciso entender que meu corpo não é mais o mesmo” ou “agora preciso me acostumar com essa nova fase da minha vida”.
Hoje eu fui caminhar, pensei em fazer meia volta, senti algumas dores, mas quando cheguei na ponte, fui em frente. Era necessário ir em frente, dar valor ao padrão de pensamento que me fez sair de casa, que é o de fazer mudanças na minha rotina e preparo para entrar com mais saúde e disposição para novos desafios que quero e vou me propor. Fui e senti-me muito bem, vencendo todos os medos e pensamentos que me prendiam ao pensamento que me conecta a um presente limitado e me deixa nostálgico de um tempo em que estive melhor. Há mais de um ano eu só consegui fazer esse percurso de bicicleta e nos horários mais cedo. Hoje foi às 18. Consegui.
Na quarta-feira, dia 17, fui operado e novamente enfrentei um fantasma: entrar na sala de cirurgia. A razão? Há aproximadamente 12 anos, fui com meu pai até a sala de cirurgia e, vendo-o tirar o relógio e me entregar, ouvi dele quando se abria a porta: “eu não volto. Cuide da Maluzinha e do Leozinho”. Ele foi operado, entrou em coma e partiu. Não nos falamos mais. Fiquei com aquela impressão da entrada da sala de cirurgia na mente. Passei por duas outras cirurgias, mas numa eu estava quase inconsciente e, na outra vez, no mesmo hospital onde fui operado no dia 17 e onde tive um problema sério, não teve momentos esperando que a tal porta se abrisse.
Tudo na quarta-feira teve um requinte do destino. Pra começar, o maqueiro veio, cantou meu nome e disse: “hora de partir, Marco”. Olhei pra ele e disse: “hora de dar um passeio, meu amigo, e depois voltar”. Ele nada entendeu, claro. Ao chegar no mesmo local de 2015, ainda pensando sobre o partir e o dar um passeio, ele tocou uma companhia, afastou-se, deixando-me sozinho, sentado numa cadeira de roda, esperando que a porta se abrisse. Que padrão de pensamento ter naquele momento? O que devo pensar agora?, pensei. Eu agarrei-me ao “dar um passeio e voltar”, ao “confiar nas pessoas que estariam ali”, ao “esse desafio faz parte da minha luta para aprender a viver e entender os meus limites e os das pessoas”. E tinha outro desafio: em 2015, após a cirurgia, já no quarto, tive um pico de queda de pressão forte que deixou-me em momentos de muitos apuros e risco de morte. Foram as enfermeiras que fizeram as manobras que me levantaram, soube depois.
Quando a porta se abriu, tive a péssima imagem de uma pessoa que acabara de ser operada, totalmente desacordada e vestida como recém-operado. Deixaram-me sentado de frente para o rosto dela, que esperava um maqueiro para ir ao quarto. Olhei seu rosto e virei. Mirei uma parte da sala, até que veio uma senhora e me levou à sala de cirurgia. Conversei com o anestesista sobre os riscos de um pico de pressão, sobre o procedimento e lentamente fechei os olhos e deixei de reagir à força que já me derrubava. Quando dei-me conta, voltava do passeio, ia para o quarto e a procura da face e voz da Rosangela, que me acompanhava.
Aprendo que toda mudança requer um padrão de pensamento que a dê suporte e enriqueça os seus significados. Há um querer 'querer mudar' que é fundamental nessas ocasiões em que transformações fazem-se necessárias em nossas vidas e não se chega a ele sem que antes tenhamos sentimentos de confiança nas pessoas, nas próprias possibilidades, de gratidão à vida e um real desejo de viver novas fases. São lutas sozinhas que travamos e, digo, procuremos ajuda. A minha era pequena e demorou muito, pois fui sozinho. Demorei a pensar sobre como pensava e o efeito dele sobre as mudanças que busco e preciso.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Mudar a rota do pensamento na estrada da vida
Rio de Janeiro, 22 de julho de 2016. Estava em Vila Isabel, no estacionamento do colégio Nossa Senhora de Lourdes esperando Malu sair da escola para passarmos o final de semana juntos. Havia um mês que não ficávamos juntos.
Eu sei que preciso mudar, mas engarrafamentos conseguem afetar-me certeiramente. "Preciso mudar", disse-me uma vez mais.
A conversa mudou de tom, ganhou outro paladar: minha grande companheira de viagem, a pessoa com quem mais viajei nesta vida, está com quinze anos e tem novos ingredientes a colocar na mistura que nos alimenta pelas estradas e na estrada da vida.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Dia de mães
Neste ano farão 35 anos que minha mãe faleceu. Tenho poucos registros fotográficos com ela. A sua ausência – se já não é tão dolorida como antes, se emergiram outras leituras menos densas sobre isso – ainda é lastimada, provoca desconfortos, ainda incita questionamento fugidios, imaturos na essência, sobre essa lógica apresentada pela vida de mexer com o que mais nos aprazeria na tensa e tóxica relação entre encontros e despedidas.
Em verdade, tudo seria melhor se não houvesse: mudança na ordem de quem chega ou vai, pressa para partidas, muitas ansiedades nas chegadas ou dores na despedida. Ambas causam ansiedade, mas a despedida me faz mais mal, ainda me provoca. Recorrendo a uma imagem, diria que a danada da despedida passa seu lenço de maneira irônica sobre meu rosto à beira da estação e sai correndo para dentro do trem.
Um dia essa mudança de interpretação ocorreu em mim: não posso transformar ou mentir para mim dizendo que algo que foi triste e me marcou virou algo alegre, mas posso fazer com que os pensamentos relativos a esse algo não sejam tão sofríveis e negativos e disparem sentimentos de dor e tristeza. Funcionou bem essa perspectiva de que eu minha mãe nos distanciamos tecnicamente do cenário onde atuávamos, de que o espetáculo continuava, de que contracenávamos sim e de outra maneira.
Com o tempo ganhei habilidade para lidar com um dos maiores desafios da minha vida: a naturalização da figura, da presença e do relacionamento com a madrasta. Este senso claro da maternidade contribuiu muito para que eu e Alice experimentássemos uma melhoria significativa na qualidade da nossa relação de madrasta e enteado. Eu -- e creio que tenha ocorrido com ela também -- aprendi a prestigiar muito mais a contribuição do que nos era possível fazer, do que ficar pautando nossos dias em torno do que não ocorria devido às nossas limitações. E ela fez bastante por mim durante os anos que passaram.
Já no momento crítico do início do ‘distanciamento técnico’, naquela quinta-feira de 17 de setembro de 1981, muitas mães me acudiram. Quando me tiraram do Colégio Fernando Costa e deixaram-me na casa da tia Ana, ela própria, Darci e Neusa me puseram nos ‘ventres que seus braços formavam’ enquanto me abraçavam e davam a triste notícia. Eu estava em berços plenos e seguros naquele momento triste, confuso. Como podiam, todas as outras tias e primas vieram me acolher nos dias e anos que seguiram: foi assim que ganhei mães tão especiais nas tias Iris, Maria José, Mariana, Terezinha, Julinha, Petita, Diná e Cida; foi assim que Irene e Chiquita me recebiam na casa delas quando meu pai me deixava lá nas férias e nos finais de semana; foi assim que ganhei uma mãe na tia Beth, em Muriaé, e na dona Tereza, em Paracambi; foi assim com a madrinha Dorinha que -- vendo-me obeso, pequeno, exposto e frágil -- levava-me ao médico para consultas e exames, lutava para me alimentar com legumes e verduras para que eu vencesse recorrentes problemas no sangue e cuja causa só conheci bem mais tarde; foi assim que a vó Sebastiana também foi minha mãe; é assim que Rosângela, por vezes, exerce seu amor de mãe comigo; foi assim que tive mães especiais nas tias Naná e Conceição – ah, com elas passei momentos diferenciados, tivemos um grau de liberdade e confiança para falar de coisas extremamente sérias sobre nossas vidas.
Sou muito grato à experiência com a maternidade. Sou grato à minha mãe, às mães que me acolheram quando mais precisei, àquelas que subitamente emergiam nas mulheres que me amavam e às que desesperada e equivocadamente busquei em todas as mulheres com quem me relacionei -- neste caso, não encontrá-las tornou-me mais forte, ajudou-me a tornar-me homem.
Há algo a celebrar no meu dia de mães e peço mil desculpas às mães que esqueci de mencionar. Mas sei que elas se sentem representadas quando falo de todas as boas mães do mundo.
quarta-feira, 4 de maio de 2016
A falta que eles fazem
sábado, 19 de março de 2016
Um dia na vida
Desde que me acidentei há dias, magoando severamente ligamentos e ossos do tornozelo, hoje foi a primeira vez que fui a pé para minha casa, dado que estava impossibilitado de subir escadas.
Submeti-me à experiência porque preciso recuperar segurança para agir, mas principalmente para reativar os sensos de autonomia e de não sentir-me ou fazer de mim um estorvo. Se estes sensos ficam significativamente expostos quando você passa a depender parcialmente de outras pessoas, imagino como ficam em casos mais severos.
É uma experiência e tanta você passar vinte minutos de sua vida observando o terreno onde pisa com a concentração que não lhe é peculiar: eu senti integral e vividamente todas as pisadas que dei hoje, não houve uma como a que dei e que gerou o acidente pois estava com a atenção voltada para o mundo. Hoje eu vasculhei o terreno onde pisaria para observar contextos, objetos e desníveis que pudessem gerar um tropeção ou escorregão e repetir o episódio de dor e recomeçar o ciclo da dependência.
Eu praticamente dialoguei com o terreno onde escolhi para viver e pisar, uma conversa séria e franca entre mim, ele e todos os objetos que nele repousam e que ilustram a realidade social que experimentamos diariamente: a sinalização e divisão de poder, o sentido de igualdade e fraternidade que temos e exercemos, a relação com o consumo e o descarte de mercadorias, enfim, a cidade conforme ela é pensada e produzida pelo poder público para você provar diariamente.
Eu tive a chance de cair após tropeçar em latas de bebidas, calçadas e quebra-molas irregulares, caixas de alimentos e produtos químicos e escorregar em chorume e restos de sacolas de lixo à espera da limpeza urbana, mas que antes foram visitadas por cães e gatos.
Eu experimentei por meros vinte minutos os desejos e angústias daqueles que tem seu potencial de mobilidade totalmente ceifado, e que dependem não de maneira parcial, mas estruturalmente de pessoas próximas. Experimentei a angústia daqueles que dependem de uma sociedade que consiga fazer com que o seu terreno e a maneira de agir dos cidadãos permitam que todo e qualquer cidadão possa se apropriar desse terreno e conduzir sua vida, que possa se sentir seguro e com os sensos essenciais dignamente ativados.
Lento como nunca estive, mas como sei que à frente estarei dado que envelheço, discuti hoje com meios-fios insolentes e indiferentes, com blocos de concretos postos por moradores para afugentar carros que estacionam, com carros que estacionam e tomam as calçadas e afugentam pessoas. Discuti hoje com pessoas, mas com muitas pessoas mesmo.
Sobre as pessoas, como é interessante sentir a diversidade de energia que brota dos olhares: tem aquele olhar de pena, tem o da indiferença (ou mera alegria disfarçada em cara de paisagem), tem o do estímulo, tem o da ironia, e tem aqueles que sempre comunicam coisas sem sentido, mas que não deixam de cumprimentar. Fiquei curioso para saber das pessoas o que meus olhares normalmente comunicam para elas para poder sintonizá-los com a produção de uma vida melhor para todos nós. O que meu olhar comunicava hoje para elas?
Mas tem algo muito mais interessante do que os olhares: a reação dos motoristas ao incauto e manco que, não tendo calçada, ousa ir pela via atrapalhando as flanadas matinais em seus possantes veículos. Teve um motorista que, podendo virar o volante e diminuir o meu experimentar de uma angústia, me forçou subir numa calçada de meros 40 cm de altura, não refrescou em nada para mim e fez cara de "você está no meu terreno, saia". Teve um que ensaiou o mesmo, mas, ao me reconhecer, parou e demonstrou empatia. Sim, fosse outra pessoa, ele não pararia, continuaria a demonstrar toscamente as linhas que informam o território partido. Teve o cachorro solto na rua que, embora alimentado, fez sua ameaça -- é imanente nele esse lidar com a coisa do território, lamentável é saber que estamos muito parecidos com ele.
Também muito importante: como é pequeno o número de pessoas que querem estender o braço e dizer: vamos nessa, estamos juntos. A mesma sensação que tive quando me acidentei numa rua da Tijuca e apenas duas pessoas falaram comigo: uma que estava ao meu lado e pegou gelo para pronto atendimento e outra que passou, me viu no chão e, sem parar, disse: "meu irmão, abrace sua mochila porque vão tentar roubar".
Ainda mais importante: é imperativo que, experimentando as dificuldades dos que muito precisam e pouco tem, não deixemos que uma breve experiência de angústia obstrua o reconhecimento do auspicioso de nossa vida e caminhada, e que mudemos nossas atitudes em relação à situação daqueles que menos auspícios vivenciam.
Foram vinte minutos de mais um dia na vida, de outro e bem diferente dia na minha breve e ordinária vida, mas que é o resumo da maioria ou de todos os dias de muitas pessoas.
É uma experiência marcante que preciso internalizar com sabedoria. Sim, eu poderia ter aprendido pela observação: tal espetáculo está aí todos os dias, não é mesmo? Mas teve que ser assim, pois não seria de maneira diferente que eu exporia os caprichos do meu egoísmo, vaidade e narcisismo à necessidade de negociarmos seriamente quem e o que deve informar como será o restante dessa minha breve e ordinária vida.
Vida que no que ela tem de ordinária, é muito mais auspiciosa do que a da grande maioria das pessoas dessa e de outras cidades.
Caminhei para ver a paisagem da foto abaixo, para novamente sentir a lufada de vento que diariamente comunica o auspicioso que experimento na quase totalidade das minhas passagens por esse território. Estava com saudade. Sim, contemplar é parte do auspicioso desse minha caminhada. Agradecer e mudar de atitude também devem ser.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A melhor escola do mundo
Muriaé, 13 de agosto de 2015. No dia
12, decidi começar por Muriaé o que chamei de ‘Necessário retorno às origens da
minha origem’, que consistia basicamente em visitas às cidades onde meus pais
nasceram, Muriaé e Pedro Teixeira. Nessas viagens, além de visitar meus primos
e amigos, solicito que falem da vida que meus pais e demais familiares tiveram,
do que faziam e de como eram na infância e na juventude; procuro obter
informação para ler e entender fatos e contextos que explicam as trajetórias
que meus familiares construíram em vida. Trajetórias que, com raras exceções,
são dignas de leituras bem detalhadas para obter boas aprendizagens sobre como
lidar com a vida e seus desafios.
A vida deles não foi fácil e ela foi
a escola que tiveram, ao contrário de nós, segunda e terceira gerações, que
tiveram e têm acesso às melhores escolas do sistema educacional. Não conheci
meus avôs paternos e tive pouco contato com minhas avós maternas. Meus
familiares não deixaram documentos, não registravam suas façanhas, todo esse
patrimônio histórico familiar, tudo o que se sabe está no depoimento e na
memória de algumas pessoas que estão envelhecidas, lutando contra o pouco
apreço do tempo para com as palavras sem registros. Toda prosa que traz a vida
dessas pessoas à mesa, que conta suas aventuras e desventuras, é para mim o
tempero especial de um delicioso banquete.
Outra coisa que gosto de fazer em
Muriaé e em Pedro Teixeira é andar pelas ruas para apreciar as transformações
nas construções e nos hábitos dos moradores. A privilegiada condição de
observador, ainda que suspeitíssima nos dias atuais, permite acessar situações
repletas da rica substância oriunda da mistura de ambiguidades, tensões,
contradições, esperanças, apostas e temores experimentados pelas pessoas quando
lidam com contextos de mudanças – as que promovem e das quais são apenas meros
expectadores. Essas cidades, ainda que em ritmos bem diferentes, estão mudando.
Ando bem devagar por elas, registro o que vejo e sigo comparando com os
registros anteriores, formando um quadro particular e bastante subjetivo de
análise e avaliação dessas mudanças.
Hoje, aproveitando carona do primo
Fábio Gonçalves, comecei a andança pela praça João Pinheiro. Gosto de olhar
para as construções antigas que ainda sobrevivem e ficar imaginando onde o trem
passava e como era a rotina da cidade atualmente adoecida pela quantidade de
carro transitando. Também andei pelo comércio em busca de promoções, de
produtos que, ainda que fora da moda, atendem perfeitamente às minhas
necessidades atemporais.
Decidido a fazer logo as visitas aos
parentes, saí da praça, peguei a rua Arthur Bernardes e fui seguindo em direção
à Barra, bairro onde moram alguns parentes. Dei uma parada quase que
obrigatória para ver os colégios Santa Marcelina e São Paulo. Gerações de
Murieenses se formaram nesses colégios, entre eles muitos primos. Uma lembrança
que tenho das minhas idas à Muriaé era o cuidado que minhas tias tinham com o
ano escolar dos seus filhos. O ritual mexia demais comigo, pois da compra do
material escolar e a preparação dos uniformes, passando pelo encapar os
cadernos e livros, tudo era feito com muito calor, capricho, envolvimento,
coisa com a qual não pude mais contar com a partida de minha mãe.
Quando passava em frente à praça da
antiga prefeitura, parei para apreciar a construção. Rapidamente me dei conta
de que estava de costas para o belo prédio da biblioteca da cidade. “Preciso
visitar uns livros”. Ironicamente, no início da semana, pensei em criar uma
campanha de incentivo à leitura nas redes sociais e cujo tema era ‘Visite um
livro’ e realizado que eu próprio não tenho destinado às obras e aos seus
criadores o tempo e atenção que merecem. Mais irônico ainda era ser aquela
importante biblioteca uma ilustre desconhecida para mim. Para marcar ainda mais
o momento, nos primeiros passos dei de cara com uma exposição sobre Pedro Nava.
Há pouco tempo, conversando sobre meu desejo de ser escritor e lamentar a idade
que tenho, Césas Froes, colega de trabalho, me lembrou sobre Pedro Nava e falou
que não há idade certa para transformar inquietude e estranhamento em
literatura. Pedro Nava é outro ilustre desconhecido para mim e, conforme lia os
cartazes, realizava que o tanto que desconheço dele revela apenas pequenos
detalhes do tamanho do meu desconhecimento e ignorância em relação à literatura
brasileira.
Ao sair da biblioteca, me deparei com
um livro para registrar presenças. Preparava o registro da minha presença e me deparei
com uma situação que está entre as mais marcantes da minha breve existência. A
pessoa que assinou antes de mim deu uma demonstração sábia, simples e ao mesmo
tempo forte do valor dessa que é a melhor escola do mundo: a vida. Em uma
coluna que praticamente obriga ao assinante dizer a escola a que pertence, ele
escreveu ‘VIDA’. Lamentável a gerência da biblioteca ter a necessidade de
colocar uma coluna chamada ‘Escola’, não dando chance ao visitante que não é
estudante de poder registrar mais sobre ele, a razão da presença e a qualidade
da experiência que ali teve. É um livro que foca nos estudantes do sistema
formal, cobrando que informem o nome da escola que frequentam, como se só eles
fossem lá, como se ali fosse exclusividade desse tipo de aprendiz; não é um
livro que se abre para registrar a presença e experiência de todos aprendizes
que ali visitam.
Esta pessoa, que assina Hélio M F, 55 anos, deu, e com muita elegância, uma resposta à esdruxula sensação vivida pelo visitante que não é estudante ou não estudou, mas que é aprendiz, ou que, sendo de fora da cidade, não vê sentido em colocar o nome da escola onde tenha estudado. Na coluna escola, Hélio M F colocou um retumbante ‘VIDA’, a escola onde certamente se formou e da qual não tem vergonha alguma para demonstrar o pertencimento. Falei com o atendente se ele tinha visto aquela obra de arte e logo fui informado de que Hélio sempre faz aquilo. Infelizmente, apesar de conhecida a situação, a gerência da biblioteca não faz nada. Ele registrou que o motivo era leitura. Eu, atônito, registrei curiosidade, quando deveria ter colocado ‘aprender’.
Não sei se Hélio faz aquilo para provocar ou reclamar de fato. Entretanto, como a gerência da biblioteca não aprimora a maneira como registra frequentadores e suas metas, não faz um retorno necessário às origens de sua origem, Hélio insiste em lembrar que os alunos da Escola da VIDA, independentemente de suas origens, também visitam os livros.





