quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A primeira morada

Muriaé, 7 de Fevereiro de 2010. Aproveitei que passava pela cidade, retornando de uma viagem a trabalho, para visitar, brevemente, parentes e amigos. Algo que faço com muito carinho por aqui é passar na casa da Hérika, amiga de longa data, onde aproveito de uma recepção sempre muito agradável. Nessa época, o clima de sua família fica ainda mais gostoso, pois sua irmã, cunhado e filhos, costumam ficar lá nas férias.

Seus pais sempre me receberam com muita distinção. Com sua mãe, Marli, tenho abertura para boas conversas, estas que abordam família, profissão, vida econômica, história da família do meu pai e detalhes do cotidiano da cidade. Se deixarmos, conversamos por horas, pois somos bons de prosa. Também gosto muito de ficar naquele quintal, com uma mangueira que torna bonita a divisa do lote com a Rio-Bahia, e que compõe uma bela visão daquela casa diferente, pois ela acompanha o formato da esquina ao final da rua Eucário Godinho, para quem segue do Centro em direção ao bairro Dornelas. 

Em determinado momento da visita, a última antes de continuar a viagem em direção ao Rio de Janeiro, Marli perguntou-me sobre minha vida. Ela queria saber mais sobre mudanças que, em outra conversa, eu mencionara querer fazer. Mudanças como a de retornar à UFF, Volta Redonda, movimento que fiz em 2008 e que acabei não levando a frente, retornando à UFRRJ, Seropédica, no início de 2009. A realidade que criei com a mudança foi tal que não consegui sustentá-la, disse a ela. Retornei para repensar e refazer com calma aquele movimento, procurando dar sentido à bagunça em que se transformara meu cotidiano. Sobre a retomada desse projeto, contei-lhe sobre o que queria alcançar no futuro, como a construção, juntos com os colegas de trabalho, de uma escola de negócios diferenciada. Esta que seria um estímulo a mais para usar de minhas energias, coisa que o ambiente da UFRRJ e do meu departamento não propiciavam. Falei do quanto estava difícil ficar trabalhando num local onde não se fala em projetos para o futuro nem se demonstra algum envolvimento com a lide de educadores. Disse a ela que o concurso nos dava a condição de professores, mas que não buscávamos ser educadores. Por fim, em tom de pesar, falei da casa que deixaria em Seropédica caso materializasse a escolha, e reforcei a necessidade que tenho de encontrar um lar e, enfim, fixar meu pouso.

Vendo minha euforia -- e nesses dias eu estava de fato exasperado -- e meu discurso, que me transformava numa insatisfação ambulante, Marli falou-me de duas moradas: a da alma e a do corpo. Com seu jeito calmo, didático e franco, ao mesmo tempo em que levava sua mão à altura do meu peito, falou-me que eu só irei encontrar essa morada, lar, ninho, pouso, etc. se tiver encontrado a morada da minha alma, indicando com um dedo o meu peito. ─ Primeiro encontre essa morada para repousar ─, disse ela. Pediu para que eu repousasse minha alma para ter a paz, harmonia, força, fé necessárias para enfrentar a vida, seus desafios e desdobramentos. Via-me afoito, nervoso, ansioso, querendo fazer as coisas, mas não sentia em mim a plenitude para realizar o que queria. ─ Esta plenitude só se alcança com a alma acolhida, protegida, alimentada ─ complementou.

─ Quando sua alma estiver na morada dela, as coisas ficarão menos difíceis do que realmente são, e, quem sabe, não encontra a outra morada? ─, disse ela. Sem mudar seu tom, finalizou lembrando que quando a morada da alma está bem alicerçada, somos capazes de enfrentar qualquer intempérie, qualquer mudanças, que somos capazes de viver mesmo na morada física menos remediada. ─ Todos precisam dessa primeira morada ─, finalizou.

Não foi preciso mais conversa. Guardei aquela mensagem em meu coração, protegida e reforçada com a força do meu silêncio, enquanto refletia. Além disso, deixei a casa naquele dia com um CD de mantras católicos, dado-me para escutar durante o retorno ao Rio de Janeiro. Deixei a casa e fiquei espreitando-a alguns segundos antes de pegar a estrada. Uma fotografia única. Para quem passa pela Rio-Bahia, em direção ao Nordeste (ou à Itaperuna), logo após a primeira entrada para a cidade, lá estão a casa, a esquina e a Mangueira. Dentro deles, ou abraçando-os, uma morada da paz.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Das rotas e destinos que seguimos, e das pessoas que encontramos

Osasco, 31 de Julho de 1998, 6:00 da manhã. Acabo de vivenciar um importante momento em minha vida, uma densa experiência que começou ontem, as 23:00 horas, dentro de um ônibus, na rodoviária do Rio de Janeiro, e terminou há pouco, aqui em Osasco, numa estação de trem. Mesmo cansado, escrevo para não perder a vividez de tudo o que me foi falado nas sete horas de uma conversa que virou um monólogo.

Ouvi por quase sete horas, calma e atenciosamente, uma pessoa que, ao ver-me posicionando a bagagem, começou a puxar assunto. Eu poderia tê-la evitado, justificando um merecido descanso, mas o rumo que a prosa tomava mostrava-me, por meio de palavras e construções frasais sofríveis, mas tão felizmente proferidas, novos ângulos de observação dessa viagem que faço pela vida e mesmo de como devo conduzi-la. Foi assim que encontrei no caminho, na condução, respostas para muitas das apreensões que faziam de São Paulo o destino ideal para a sua solução.

No corredor, ao meu lado, estava o cearense Valdemar, da cidade de Viçosa do Ceará, 25 anos, que assistia ao meu embarque. Sem nunca ter-me visto, puxou conversa. Falou sobre o tempo, a viagem, mas logo começou a falar dele próprio, abrindo os capítulos e páginas do livro de sua vida, de maneira que, acredito, só os brasileiros sabem fazer. Expansivo, como a maioria dos cearenses que conheço, contou-me sua história durante todo o trajeto, passando pela rodoviária do Tietê até a estação Comandante Sampaio, em Osasco, onde desembarquei.

Sua vida é um constante vai e vem entre Ceará, São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa correria construiu um lar, em Viçosa do Ceará, mas não se adequou. Em são Paulo, um irmão. No Rio, uma irmã.  No nordeste, a mãe, esposa, filha, e a barraquinha de camelô que montou em uma das várias vezes que, nos últimos oito anos, trocou o Rio de Janeiro pelo Ceará em busca de adequação. Não falou de outros irmãos ou da figura do pai.

Não estudou. Ontem ele deixava o Rio de Janeiro para viver em São Paulo. Balconista em um bar, no bairro do Estácio, fugia da semana de trabalho que vai de segunda a segunda, do salário de 200 reais e do quartinho que lá tem para viver. Ia fichar numa empresa de construção civil, em um bico arrumado por sua cunhada. Voltava para a cidade aonde chegou há doze anos, fugindo da vida difícil que levava no nordeste. Voltava para a cidade que deixou há oito anos para se aventurar pelo Rio de Janeiro. Voltava para a cidade onde não cabia quando tinha 17 anos de idade. Simplesmente não se adequou em São Paulo. Para explicar sua sorte ou escolhas que fez, o vai e vem de sua vida, ele simplesmente dizia: “não me adeqüei”, “eu não cabia ali”.

Não se adequou no Ceará e ainda por cima gastou com mulheres e bebedeiras parte do que ganhou, confissão que misturava arrependimento com o sorriso que só os melhores oportunistas sabem soltar. Ainda assim conseguiu juntar dinheiro para poder construir seu lar, no Ceará, enviando todo mês parte do seu salário de 200 Reais. Nem mesmo as desventuras com as mulheres do Rio de Janeiro, frustração fortemente enfatizada, o impediram de atingir sua meta: construir sua casa, seu lar. Poderia ser cozinheiro, mas não agüentou; foi balconista, mas não se adequou a rotina de segunda a segunda. Agora vai tentar ser pedreiro e, se não der certo, vai tentar ser outra coisa, até se adequar.

Voltava, mas ainda falava do mundo a ser descoberto e de trazer a família para São Paulo com a mesma facilidade com que falava das meninas que namorou em Carapicuiba anos atrás. Os olhos brilhavam quando falava daquele mundo chamado cidade, sua fala empolgada não cedia as horas que passavam. No metrô, sacou de um álbum e mostrou em fotos a família, lar, parentes, amigos e lugares de que tanto falou na viagem. Vi as faces das pessoas que compõem o mundo de Valdemar. Em nenhum momento, porém, falou de sonhos. Em nenhum momento falamos do amanhã. As 5:15 da manhã nos despedimos na estação Comandante Sampaio, em Osasco. Ele prosseguiu até a estação Jandira, seu novo-velho destino.

Do Rio até Osasco não falei a meu respeito. Valdemar tomou a palavra e com ela ficou até o fim, conduzindo nosso encontro para bem além do alcance da visão e do espaço demarcado pelo ônibus, vagões e estações. Sua trajetória de vida foi o centro das atenções. Ao seu jeito, fez-me visitar, em imagens, as paisagens que me descrevia de Viçosa do Ceará, Carapicuíba e do Estácio. A única coisa que nos aproximava era a nacionalidade, no mais somos duas pessoas totalmente diferentes, com oportunidades que diferem em quantidade e qualidade. Encerrávamos histórias, até aquele presente momento, totalmente distintas. Coincidentemente, uma vez na vida, seguimos a mesma direção, pegamos as mesmas conduções, e tínhamos a mesma meta de mudar de vida.

Ao lado de Valdemar viajava eu: uma pessoa de 27 anos, pós-graduada, que procura transformar a própria vida. Inquieto, extremamente insatisfeito, acredito não merecer o que tenho vivido. Estou em São Paulo em busca de reconhecimento profissional, recompensa econômica e de um trabalho que seja criativo e desafiador. Para tanto deixei de lado um trabalho que não me desafia ou empolga. Sou alguém que, acima de tudo, carrego comigo um grande estranhamento em relação a vida e tudo o que se me apresenta enquanto passo por ela. O que para mim é estranhamento, para Valdemar é questão de adequação.

Mas a sorte ou escolha de Valdemar, o que se apresenta para ele ou o que ele vai a procura, subtrai muito da importância que minhas inquietações tem. Perto de Valdemar, e da sua sorte, não passo de uma excrescência, de uma improdutiva reclamação ambulante, perambulando pelo mundo de opções que a vida apresenta, sem ao menos dar-me conta de que sou um privilegiado. Sequer levo na face o brilho que deveria ser peculiar, ou mesmo obrigatório, a quem teve as oportunidades que tive e tenho. Minha fala não empolga, nem transcendo pontuais dificuldades que tenho para levar empolgação ao trabalho que tenho, a família remediada que me acolhe, aos amigos que possuo, e a residência confortável que me abriga na Tijuca.

Há muita diferença entre sair do Nordeste ou do Rio de Janeiro para tentar a sorte em São Paulo. Fato visível a qualquer um que, por ventura, fixe olhares e ouvidos as figuras e paisagens que nos apresenta a Central do Brasil, lá no Rio de Janeiro. Mas quis eu, dessa maneira e a este custo, vivenciar essa diferença. Apesar de não ter o controle sobre como será o futuro, o que as condições de vida que se me apresentam reclamam de mim é planejamento, escolha estruturada, não sorte, como se a vida fosse um jogo de azar. Foi de uma ironia sem qualquer legitimidade o pelo menos parecer que eu e Valdemar somos passageiros da mesma agonia. A vida apenas nos colocou na mesma rota. E ela própria, dando a ele a palavra, mostrou que nossas partidas e destinos são bem diferentes. Ainda que nesta vida ele busque adequação e eu a siga amplificando, desnecessariamente, dores que maculam todo e justo estranhamento que todo ser humano venha ter na vida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Do quanto deixamos de alimentar nossa alma

Seropédica, 4 de novembro de 2010, manhã. Céu claro, correria na rua, promessa de mais um dia comum: quente, úmido, sem vento, ou algo como uma breve mensagem do que os moradores da cidade poderiam esperar para o verão. Fecho o portão da garagem, após ter tirado o carro. Neste instante passa uma jovem na esquina, no encontro das ruas 7 e do Hotel, provavelmente uma estudante da UFRRJ em direção a um dia de aulas. É a esquina onde moro há anos.

Seria mais um anônimo transeunte em um dia comum não fosse o fato de para ela ser comum o que para nós que moramos na esquina é extraordinário. Alheia a desordem que domina a paisagem de qualquer esquina de Seropédica, ela olha para um dos cantos, avista um cachorro e vai em direção a ele, sorrindo, gesticulando, falando docemente, como se falasse com uma criança. Começou a acariciá-lo, aumentando o sorriso e as falas afáveis, dando mais carinho. O cão, ainda deitado, responde com alegria cada vez mais incomum aos humanos quando se encontram. Levantou-se, balançou fortemente o rabo, lambia sua benfeitora, rosnava de alegria, pulava. Seria uma cena ordinária não fosse o fato do cão ser portador de um problema na parte dianteira que mal o deixava caminhar.

Tratava-se de cão um que havia feito daquela esquina a sua casa, e que não chamava muita atenção das pessoas, principalmente a minha, que sabia da sua existência por levar o cão da minha filha para passear pelas manhãs. Por ele eu apenas passava. Quando ele apareceu ou de quem ela era, ainda não me era sabido. Realizei que devido aos problemas físicos, ele não saia dali para muito longe, fazia pequenas incursões por metros de ruas e calçadas naquela esquina. Na maior parte do tempo ele ficava deitado. Naquela madrugada, recordei-me, ele havia apanhado do cão de um vizinho próximo. O episódio fora barulhento, muitos gritavam, despertador desagradável. Quando me levantei pude ver apenas o cachorro em sua posição comum: corpo sobre um degrau e a cabeça sobre o outro degrau da calçada em frente a minha casa, ofegante.

A cena é mesmo extraordinária. Leva-se a vida corrida de quem, por ser de Seropédica, está sempre saindo dos boxes, atrasado diante o mundo. Em Seropédica, cidadão é quem tem carro ou moto, são os senhores das ruas e calçadas. Fato este que faz das esquinas as vitrines da agonia do cidadão diante a opressão dos carros e motos. A cada ano que passa os antigos moradores dão lugares a alunos da UFRRJ, nem sempre próximos, disponíveis. Mais do que isso: a cena mostrava a miséria de sentimentos que erroneamente cultivamos. É raro darmos aos vizinhos mais do que um cumprimento ou um breve fio de prosa. A jovem, alheia ao espetáculo de medo e insegurança que experimentamos todos os dias nas esquinas de Seropédica, nos presenteava com uma demonstração inequívoca de um sentimento que precisamos reaprender e de um hábito que precisamos cultivar: dar a alma o que lhe é essencial, a simplicidade.

Já em meu carro, em minha confortável miséria, assisto a cena que prossegue. Outras pessoas também assistem a atuação da jovem, impregnada do sentimento que sinaliza o que seria um dos melhores marcadores da nossa condição de humano: amar de maneira pura, sincera, desprendida. Gratuita, simples, sem deixar de ser intensa, ela ensinava como usar deste sentimento que nos dá autonomia para agir de maneira mais leve, cativante, positiva e sem a necessidade de ficar preso a retribuição ou ao que vão pensar da nossa manifestação. Em cena o amor que não é marcado por ser destinado a alguém especial que por ventura tenha aparecido em nossas vidas, como aprendemos desde cedo em família ou na TV. Alguém este a quem vamos cultuando, afastando-o do cenário comum, subtraindo sua naturalidade. Em cena o amor que não dá presente, aquele que se faz presente pela autonomia, consistência e beleza no acabamento da sua mais simples manifestação. Bonito, simples, natural, gratuito: a maneira de quem o faz todos os dias, a qualquer hora. Um ato comum de quem não experimenta a miséria da alma.

A moça tirou do ostracismo o cão esquecido por não ser belo ou que chama a atenção pela deficiência que carrega, pela dificuldade com que deambula. Ela é capaz de fazer aquilo por outro ser humano, pois a gratuidade chama mais atenção que a intensidade da sua atuação. A cena me atingiu em cheio: passo por ali quase todos os dias e o cão apenas me observa, sequer chega perto para cheirar a cadela que levo para passear. Enquanto observo, outra surpresa: uma senhora, moradora de outra rua, vem da sua caminhada matinal e traz pedaços de pão para o cão. Depois deixa, anonimamente, um saco de pão no portão de uma família humilde que habita na esquina. Feito com a naturalidade de quem o faz todos os dias, anonimamente.

É a silenciosa operação dos que levam seus dias sob o ritmo da gratuidade do sentimento que faz crescer e amenizar as dores dessa nossa passagem pela vida. Confortável em minha miséria, realizo que pouco tenho dado de atenção a todos os meus vizinhos. O tempo está passando, estamos envelhecendo, levamos para os lares o que trazemos do mundo e que tratamos como muito valioso, indisponível. Vamos as igrejas, ostentamos nossas bíblias e imagem de fé, mas sequer nos abraçamos. Naquela esquina, mais nos protegemos do que nos projetamos. Não nos disponibilizamos para o outro, para lidar com a nossa vida comum, como se divida fossemos contrair ou menos passassemos a ter. Miseráveis, pouco nos pedimos, quase nada nos damos, como se só tivéssemos corpos a alimentar.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Somos todos instrumentos

Pedro Texeira – MG, sábado, 7 de maio de 2011. Pedro Teixeira é a terra natal da família da minha mãe. Cidade pequena onde ficaram muitas das recordações dos membros da família da minha avó materna. Voltar a cidade é, para muitos de nós, um retorno as raízes, algo nostálgico, como se lá fosse o paraíso perdido quando se foi para o mundo tentar a sorte de uma vida melhor. É uma visão romântica que ameniza o fato de que lá se tinha muito pouco, mas muita vontade de viver dignamente. Procuro sempre ir a cidade para ter conta da história da minha família, de toda trajetória que enfrentaram minha mãe e meus tios, um fantástico manancial de lições entremeados em muitas boas prosas com aqueles que lá ficaram. 

Desta vez voltei a cidade para enterrar o Tio Manoel, tio Neca, 86 anos, um dos irmãos da minha avó, Maria Júlia. Saí do Rio de Janeiro apressado, as 12:30, querendo atender ao funeral e para solidarizar-me com os primos. Um forte sentimento impelia-me para fazer a viagem, que competia com a confirmação do batismo que atencedia a primeira comunhão da minha filha. Eu sentia que não podia faltar. Durante o percurso, passando por Juiz de Fora, decidi não parar para almoçar porque não queria atrasar e porque, no fundo, queria comer o arroz e feijão de lá, saboreando a comida e a presença de meus primos. Embora fosse um dia diferente, sabia que não teria comida na casa do tio Neca e pensei na casa do Paulinho e da Gracinha, primos que sempre me tratam bem quando estou lá. Assumi que iria parar lá e pedir um prato de comida.

Estava há uns 40 quilômetros de Pedro Teixeira quando, ao passar por um ponto de ônibus a beira da rodovia, notei de relance a figura familiar de uma mulher. Não reconheci de início, mas dei a ré no carro, e voltei para conferir. No ponto, surpreendentemente, estava Gracinha, em quem havia pensado há pouco. Estava vindo, em uma cansativa baldeação, de Rio Pomba para o enterro do tio Neca. Ao me reconhecer, sorriu generosamente e disse: foi Deus quem te enviou! Assim que entrou, após cumprimentos, falou: “estou cansada, com fome, mas não há nada melhor que o arroz e feijão da nossa casa. Essa comida da rua não vale a pena”. E me convidou para almoçar na casa dela. Continuando, já comentando a perda do tio, sua fala lembrava que somos todos instrumentos de Deus, que não somos nada demais nessa vida, que nela entramos, e dela saímos. Chegamos a poucos minutos do enterro. Em sua casa tive o almoço que imaginei: simples e servido com carinho. Extraí dessa viagem a Pedro Teixeira outro sabor que não o de uma perda.

Durante a missa de corpo presente, uma música, entre outras, dizia:
"Sabes, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar. Mas este pouco nós queremos com os irmãos compartilhar. /Queremos nesta hora, diante dos irmãos, comprometer a vida, buscando a união. /Sabemos que é difícil, os bens compartilhar, mas com a Tua graça, Senhor podemos dar. /Olhando Teu exemplo, Senhor vamos seguir, fazendo o bem a todos, sem nada exigir".

Aquela música celebrava a vida. Nós celebrávamos naquele dia as exéquias de um homem que foi instrumento da paz e da generosidade. Prova disso é que lá estavam os doutos e os ignaros, os de posse e os sem posse; as mais diferentes condições e matizes de vida social, cultural e econômica manifestavam-se na igreja e no cemitério de Pedro Teixeira. A roça, que tão pouco conhecemos hoje, saiu para o centro da cidade e mostrou a sua cara simples, chorando a perda de um homem que materializou em sua vida a fé, paz, generosidade e simplicidade cuja falta tanto reclamamos atualmente. Pessoas dos cafundós de Pedro Teixeira e adjacências estavam lá. Em cada roda de pessoas, histórias que certificavam os feitos do Tio Neca e da sua esposa, tia Nair, já falecida. As pessoas contavam, a seu jeito e tempo, como aquele homem e sua família foram importantes para a vida delas; como, naquela vida difícil e empobrecida da roça, a ajuda deles amenizou parte das dores e desolação a que estão condenados os que vivem na roça. 

No cemitério, após o enterro, conversando com primos, uma senhora se aproxima e pergunta quem eu era. Ela, moradora de lá, via que eu não era familiar. Fui apresentado como filho da Tininha, sobrinha do Tio Neca. Ao saber disso, a senhora pediu um abraço e abraçou-me forte. Emocionada, disse que minha mãe fora a melhor amiga dela enquanto jovens. Olhando em meus olhos, disse-me que experimentava naquele momento um pouco de felicidade, e completou: abraçando você eu abracei a sua mãe. Minha mãe faleceu há 30 anos, e com aquele abraço ela celebrava os momentos de amizade que tiveram há 45 anos ou mais. E que hoje só podem ser alcançados pela lembrança, pelos momentos, faces ou palavras que dão carona, em direção ao presente, para as imagens e sensações dos momentos em que fomos mais felizes. No fundo, eu sentia que minha mãe também nos abraçava naquele instante.

domingo, 24 de abril de 2011

Sobre abrir e manter as portas abertas

Muriaé, 21 de abril de 2011, bairro Dornelas, perto das 18:00 horas. Aproveitei o feriado da Semana Santa para descansar e, como de costume, levei na bagagem outros propósitos: tirar minha família da correria e bagunça da cidade do Rio de Janeiro; rever meus familiares mineiros, extremamente caros para mim; e fazer uma nova leitura, agora aos 40 anos, do meu jeito de ser e agir e promover mudanças. Uma releitura do meu modo de estar na vida, dos sentimentos, pensamentos e ações.

Realizo essas releituras com frequência. Produzir novas significações e ressignificações é algo que faço com regularidade, embora não sejam nada fáceis de fazer. É uma prática que sempre se sobrepõe a outra ideia que por vezes me aparece: a de praticamente viver sem fazer leitura ou releitura alguma, de bastar-me o significado básico de estar vivo. Remonta a Clarice Lispector: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Sou capaz de render-me, até tentei fazer em determinados momentos de minha vida, uns por amor, outros por puro pragmatismo, mas ainda não ao modo lispectoriano. Os momentos pragmáticos, apesar dos resultados obtidos, foram duros, empobrecidos, era o resultado pelo resultado, a falácia do atirador de elite, do tiro perfeito, só isso. Faltava substância, algo que desse mais sabor ao desafio de viver e que não se resumisse ao "veja, eu fiz, tá aqui, ó". 

Acredito que o pragmatismo, ainda que gere resultados e que por vezes mostre-se necessário, quando a iminência, a urgência, o solicita, se não for devidamente ilustrado, trabalhadas as suas razões, promove o empobrecimento da realidade e da aprendizagem. Posto que atende a necessidade de produção de resultados e não importa como, quando feita para premiar a vaidade do seu autor — a de ser visto e de se vê como pessoa audaz e resoluta —, a ação pragmática fecha as portas para o inusitado e surpreendente, cerceia a imaginação, inibe a oferta de contribuições e de troca de experiências. Em outras palavras: “é assim e pronto. Vamos aos resultados!” Pronto: a porta está fechada. Se feita assim, essa ação produz resultados na maioria das vezes miseráveis, pois esse tipo de fazer difere do fazer com simplicidade que resulta da sabedoria, da aprendizagem que o passar do tempo nos confere e nos ensina a sempre manter as portas abertas à sensibilidade, imaginação e criatividade..

Programei relaxamento e reflexões para o fim de semana, mas não me descuidei da prática de exercício diário que assumi como fundamental para produzir saúde e melhorar minha qualidade de vida. Coloquei meu tênis e fui correr no passeio à beira do rio Muriaé, lugar onde muitos caminham. Devido a péssima condição do passeio e ao intenso fluxo de carros, que assustam e poluem, fui correr pelas ruas do bairro Dornelas, especificamente na Sebastião Dornelas e na Boa Esperança.

É assim, pragmaticamente posto ─ produzir saúde e melhorar minha qualidade de vida ─ que entendo a prática de exercício. Por outro lado, isso é parte do que me comunicam a prática de exercício e de esportes e todos os atores diretamente ligados a atividades físicas e esportivas. Outra parte é a preparação para a competição, para a superação de rivalidade e de limites, que, segundo algumas leituras, em função de como é organizado e desempenhado, produz momentos celebres, artísticos. Acredito ser essa visão pragmática resultado da qualidade das interações que tive com a educação física praticada nas escolas, com as orientações médicas, como torcedor, com as interações sociais nos times de futebol de bairro e com a mídia.

Esta realidade foi confrontada, recentemente, pela grata e inusitada fala do treinador do Internacional, de Porto Alegre, Falcão, sobre o aceite para voltar aos gramados como técnico. Ele que supostamente não precisa daquilo por salário e reconhecimento falou em leveza, que futebol é alegria, não uma guerra, que futebol é conseguir resultado com alegria e que quer ir para o campo com a certeza de que vai ver um espetáculo. Com responsabilidade e consciência do desafio, um dos resultados possíveis para ele, e não menos importante, é se divertir. 

Até a fala dele, confesso, eu não havia alcançado esse nível de leitura sobre o fazer e praticar exercícios e esportes. Falcão foi além do iminente que satisfaz a paixão e rivalidade dos torcedores, a muitos jornais e jornalistas e aos gestores dos clubes. Falando do futebol, ele nos abriu a porta para uma significação maior, para uma relação mais humana, nobre e instrutiva entre nós e os diversos fazeres e experiência que se nos apresentam conforme nos embrenhamos pela vida. Ele falou em produzir alegria, divertir-se no trabalho, colocando este como parte fundamental de um viver com alegria. Falcão ensina que essa é a meta, o resultado amplo e possível de ser alcançado quando se abre mão da obtusidade inerente a ação pontual e pragmática.

Enquanto corria pelo bairro, notei o fato natural de que eu chamava a atenção dos adultos, perturbava a rotina, dado que era desconhecido. Algumas crianças brincavam na calçada e com elas deu-se um momento interessante. A figura estranha passava várias vezes correndo e elas comentavam, discretamente, procurando chegar, em suas trocas de impressões e informações, a um contexto que explicasse ou desse conta daquele pequeno inusitado: um estranho correndo em nossa rua. Tímido, não tive coragem de fazer os acenos que cumprimentam e pedem passagem.

Em uma das voltas, ao final da rua Boa Esperança, uma das crianças, uma menina perto dos seus 3 anos de idade, parou de brincar, olhou para mim, levantou-se sorrindo e perguntou: “moço, por que você fica correndo pra lá e pra cá?”. Pego de surpresa, algo que por si só justificava que eu parasse e desse atenção, resumi-me a dizer, e sem parar: “eu corro para suar”. Ela ficou olhando para mim. A frente, seu pai, atento, disse-me: “um dia ela vai entender que isso é saúde”. Continuei meu passo e percebi quão objetivo, pragmático, pobre, eu fora: “corro para suar”.

Eu, o estranho, tendo a oportunidade de fazer-se ameno e amigável, preferi fechar a porta, ignorando a grata surpresa, o inusitado saudável que abria as portas daquelas crianças para novos saberes e aprendizagens. Eu deveria ter parado e dito: “corro porque isso me deixa feliz ou porque isso me diverte, faz parte da vida que eu quero para mim”. Eu ampliaria meu resultado para este dia, pois, além de ganhar saúde, eu ganharia sorrisos gratuitos e verdadeiros e outras perguntas que, talvez, expusessem-me a novos inusitados e aprendizagens. Certamente conversaria com o pai dela, tornaria-me familiar e este episódio, visto pelos outros da rua, chancelaria de vez meu passar pelos domínios do dia-a-dia que eu havia perturbado.

Decidido a recuperar-me, fiz a volta na esperança de ainda reencontrá-los para poder dizer que corro para me divertir como fazem todas as crianças. Quando cheguei as crianças estavam saindo para suas casas. Aquele pai não estava mais lá. Vi a garotinha e, no tempo que me foi possível, tentei reabrir a porta à sensibilidade, e disse: “olha, eu corro porque isso me deixa feliz”. Ela sorriu com o meu inusitado retorno.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Do que experimentamos nesta caminhada

UFRRJ, 19 de Fevereiro de 1997, à tarde. Experimentei hoje um momento muito interessante da minha curta existência. Marcou-me por sua originalidade, pelo ineditismo com que fui apresentado a mais uma das incríveis facetas do viver. Hoje, por alguns instantes, por alguns metros, experimentei, e pela primeira vez, a real e incômoda sensação de estar sozinho no mundo. Acompanhada esta de uma terrível sensação de vazio existencial. Sozinho e esvaziado.

Caminhava pela UFFRJ, do Prédio principal (P1) para o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS); lia a cobertura jornalística do falecimento de Darci Ribeiro. Concentrado na leitura, segui meu caminho a passos muito lentos, bem calmos, enquanto era conduzido, pelo autor, pelos diversos momentos da vida e trajetória de uma das personagens mais brilhantes e marcantes da nossa história. Quando comecei havia sol, não ventava. Embora fosse à tarde, fevereiro, havia muita gente transitando pela Rural.

A notícia da morte já me causara um grande vazio. É muito ruim vivenciar perdas, e estas tomam contornos diferenciados quando se trata de pessoas cujos pensamentos, valores, envergadura moral e qualidade do trabalho as tornem imprescindíveis para a formação da nossa imagem de cidadão, da maneira como nos vemos e nos definimos como povo, nação. Embora conhecida a gravidade da doença, Darci Ribeiro desapareceu, simplesmente desapareceu. Fica a obra. O conteúdo da reportagem fez aumentar essas incômodas sensações; as palavras sensibilizavam, emocionavam, e, ainda que limitadas a um jornal, foram certeiras ao aludir a vida e obra de Darci Ribeiro.

Quando lia uma das últimas frases, onde Darci Ribeiro explicava ao médico porque sairia da UTI, abandonaria o tratamento e iria para casa, acontece o que marcaria para sempre este dia. Parei e comecei a refletir sobre o significado da sua explicação, sobre aquela contundente reafirmação da sua vontade de viver, ainda que implicasse a saída do hospital. Ele, paciente terminal, sai do quarto e vai pra vida; troca a paisagem da dor, pelo cenário da vida, ao lado dos seus e dos elementos que melhor definem o indivíduo que ele encerrou. Uma forte demonstração de amor a vida.

Fechei o jornal, levantei a cabeça e olhei para os lados. Pela primeira vez, aqui na UFRRJ, não encontrei ninguém. Ninguém ia ou vinha pelo caminho entre o P1 e o ICHS; ninguém vinha ou ia pelo caminho entre os alojamentos e o ponto do Colégio Presidente Dutra. Não notei qualquer pessoa que tenha passado por mim. Nada de carros, motos ou bicicletas. O tempo tinha ficado nublado, ventava muito; chuva forte a caminho. Demorou uns minutos até que alguém aparecesse. Retomei minha caminhada.

A caminhada, normalmente rápida, estendeu-se por quase 40 minutos. Eu estava sozinho, momentaneamente esvaziado do lúdico e do lírico que tão nobremente alimentam essa nossa breve caminhada pela vida e que sempre nos chegam por meio dos sonhos, apostas e obras dessas pessoas que são imprescindíveis.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Honrar encontros

São 9 de setembro de 2010, estou em São Paulo para rever primos e participar de um congresso na USP. Pela primeira vez em minha vida, fui vítima de roubo. Anteriormente, fui furtado em Belo Horizonte, em 1994.

Tudo se deu num arrastão, coisa que parece ‘exclusividade’ do Rio de Janeiro, como sugere a incidência da mídia. Que cena: um cidadão carioca subtraído de seus bens na terra da garoa, no estado das pessoas que, segundo velha provocação, trabalham para o resto do Brasil poder viver. Imagens à parte, o que sobra é a realidade: fui mais um cidadão brasileiro em São Paulo, cidade que é a imagem e materialização do progresso bastante idolatrado por muitos de nós, mas que na realidade é mais violenta que o Rio de Janeiro.

Havia um congresso na USP, mas o que eu mais queria era rever Marta e Edinho, primos caros à minha história de vida e a quem eu protelava o devido reencontro. Edinho eu não via há mais de seis anos, Marta há uns dois anos. A possibilidade do reencontro foi o fator decisivo para viajar, dado que estava cheio dessa coisa de fazer networking, algo artificial, porém muito aceito nos mundos acadêmico e de negócios. Imagens do cansaço e do pessimismo de um acadêmico altamente duvidoso da real vontade e disponibilidade dos seus vaidosos pares para compartilhar o conhecimento que presumimos ter. Não devo ser o único que pensa e sente que a academia é ‘mestre’ em fazer apologias a valores que nem sempre pratica.

Findo o congresso, Edinho me pegou na USP e me levou ao seu lar, no bairro da Lapa. Convivemos nos primeiros anos da minha adolescência, no início dos anos 80, e desse encontro ficaram marcas significativas. Ele sempre me chamava atenção para a necessidade de criar e produzir minha própria história, era perseverante e disciplinado na criação da dele, mas o que me chamava muita atenção eram seus valores e atitudes sempre serem orientados para ética, trabalho, religião e família. Vindo de Pedro Teixeira, MG, em Seropédica trabalhava como balconista de Supermercado para pagar os estudos. Trabalhava e estudava bastante e nunca reclamava, estava sempre sorrindo. Eu o conheci em uma fase difícil da minha vida e nele tive o acolhimento para, àquela época, poder falar sobre o que me deixava apreensivo. Ele sempre me dizia: seja humilde e tenha fé.

Em São Paulo, transformou sua vida: casado, duas filhas e profissional bem-sucedido, colhia da boa safra que preparou por toda a vida num esforço peculiar de sempre semear seu terreno com seus históricos valores. Respira-se isso em sua casa e a dinâmica de sua família nos leva a sentir essa energia. Fiquei pouco tempo por lá, mas a harmonia e ritmo que ele, Adriana e filhas encerram é algo confortador, uma experiência muito boa. Fui chamado para pernoitar, mas queria estar com Marta, com quem tive meus contatos mais fortes a partir dos anos 90, época dos meus vinte e poucos anos. Trabalhamos juntos na UFRRJ, onde fomos técnicos administrativos e dela recebi preciosas lições sobre trabalho, estudo, espiritualidade, coragem, objetividade e otimismo. Saiu do Rio e foi para São Paulo trabalhar, foi ser bandeirante na terra da garoa.

Preparava-me para pegar um taxi até a casa de Marta, quando Edinho decidiu me levar até lá. Às 21:30, na rua João Dias, chegando à avenida Giovane Gronch, porta de entrada do luxuoso bairro Morumbi, bandidos fecham o trânsito e saqueiam os carros, aterrorizando a todos, apontando armas direto para as cabeças. No carro, Edinho, família e eu. Preocupado com a família, sentada no bando de trás, Edinho praticamente se prostra, demora a responder aos comandos dos bandidos que, contrariados, exacerbam as ameaças. Tomado de espantosa calma, respondo aos comandos dos bandidos, entrego tudo o que foi solicitado. Foram-se pertences, dinheiro, cheques, cartões e documentos. A tensão não durou mais que cinco minutos.

Fora de perigo e mesmo ao lado de primos, vivenciei medo, angústia e frustração até chegar à casa de Marta. Para qualquer lugar que olhava, tudo que já era desconhecido se tornou mais hostil. Precisando de amparo, lembrei de que quatorze horas atrás eu beijava e abraçava fortemente minha filha e de algo impressionante: minutos antes do incidente, Julia, filha do Edinho, pediu insistentemente ao pai para cantar para mim a música que aprendeu na catequese:

“Vem amigo vem /Vem para entregar este coração que Deus te deu/ para amar não para odiar /Vem abre teus braços até aquele que está lá/ Vem abre teus braços ao teu irmão ao teu amigo/Dá-lhe um empurrão/ Dá-lhe um empurrão que de pouco a pouco ele se achega ao Senhor Nosso Senhor”.

Pedido interessante o de Júlia: seu cantar nos trouxe a calma para enfrentar o roubo.

Na portaria do prédio em que Marta morava, paramos para elaborar toda tensão e enfim chorar o que o susto nos impediu. Passado o pânico inicial, Edinho e família se foram.

Depois de ter sido acolhido e confortado, e de termos realizado que se foram os bens materiais, mas ficou a vida, Marta me surpreendeu com uma pergunta: “Se o pior lhe tivesse ocorrido hoje, você acredita que levaria consigo a certeza de ter honrado os encontros que teve nessa vida?”. Senti imediatamente o impacto da pergunta e me dei conta de que o código do viver estava sutilmente embalado por uma inusitada e profunda reflexão e exigia bastante tato na sua decodificação.

Acompanhado de Castelhano, marido de Marta, fui prestar queixa. Embora tudo fosse passível de reposição, não importando quanto tempo levasse, o que eu mais ressentia do que foi subtraído eram os documentos. A frustração ainda me faria companhia durante o longo período em que perambulamos por delegacias próximas ao bairro Morumbi que estivessem vazias e que pudessem registrar a ocorrência sem que isso nos custasse toda a madrugada. Enquanto espero atendimento na 34 DP, em Francisco Morato, pensei insistentemente em meus encontros, principalmente se nesses 39 anos de vida eu observei ou não a inerente honradez que possuem. “Honrei meus encontros? Honro meus encontros?”. Pensei no encontro com Maria Luiza, minha filha, no encontro que tive com sua mãe e que nos levou a formar uma família. Pensei no encontro que tive com meus pais, irmãos, tios e primos. Pensei no encontro com amigos, colegas de trabalho e de escola, e com meus alunos, pessoas que precisam de conhecimento, exemplos, atenção e orientação.

Muitos foram os encontros em minha trajetória de 39 anos e a pergunta de Marta, além de me fazer acessar o todo simbólico que envolve um encontro de duas pessoas numa vida, falou de uma riqueza a que somos apresentados e que devemos honrar como condição central para fazer uma análise mais humana e sensível dessa nossa passagem pela vida. Passagem curta, que às vezes pode ser curtíssima, e da qual nada se leva, mas na qual podemos diariamente carregar a leve e confortadora consciência de que foi digna, humanizada e honrada. 

A admiração e gratidão me levaram ao encontro de Marta e Edinho, e, mesmo subtraído de bens e esperança com nosso país, saí enriquecido do que sempre me deram: abraços, conhecimentos, demonstração de afeto e energia espiritual, agora pela providencial mediação de Julia, que fez brotar em mim a calma e paz de espírito para evitar o pior no sufoco do assalto. Também entreguei a eles o afeto que, se não honra o encontro que tivemos nessa vida, pelo menos me estimula a sempre estar com eles.