Seus pais sempre me receberam com muita distinção. Com sua mãe, Marli, tenho abertura para boas conversas, estas que abordam família, profissão, vida econômica, história da família do meu pai e detalhes do cotidiano da cidade. Se deixarmos, conversamos por horas, pois somos bons de prosa. Também gosto muito de ficar naquele quintal, com uma mangueira que torna bonita a divisa do lote com a Rio-Bahia, e que compõe uma bela visão daquela casa diferente, pois ela acompanha o formato da esquina ao final da rua Eucário Godinho, para quem segue do Centro em direção ao bairro Dornelas.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
A primeira morada
Seus pais sempre me receberam com muita distinção. Com sua mãe, Marli, tenho abertura para boas conversas, estas que abordam família, profissão, vida econômica, história da família do meu pai e detalhes do cotidiano da cidade. Se deixarmos, conversamos por horas, pois somos bons de prosa. Também gosto muito de ficar naquele quintal, com uma mangueira que torna bonita a divisa do lote com a Rio-Bahia, e que compõe uma bela visão daquela casa diferente, pois ela acompanha o formato da esquina ao final da rua Eucário Godinho, para quem segue do Centro em direção ao bairro Dornelas.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Das rotas e destinos que seguimos, e das pessoas que encontramos
Do Rio até Osasco não falei a meu respeito. Valdemar tomou a palavra e com ela ficou até o fim, conduzindo nosso encontro para bem além do alcance da visão e do espaço demarcado pelo ônibus, vagões e estações. Sua trajetória de vida foi o centro das atenções. Ao seu jeito, fez-me visitar, em imagens, as paisagens que me descrevia de Viçosa do Ceará, Carapicuíba e do Estácio. A única coisa que nos aproximava era a nacionalidade, no mais somos duas pessoas totalmente diferentes, com oportunidades que diferem em quantidade e qualidade. Encerrávamos histórias, até aquele presente momento, totalmente distintas. Coincidentemente, uma vez na vida, seguimos a mesma direção, pegamos as mesmas conduções, e tínhamos a mesma meta de mudar de vida.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Do quanto deixamos de alimentar nossa alma
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Somos todos instrumentos
Desta vez voltei a cidade para enterrar o Tio Manoel, tio Neca, 86 anos, um dos irmãos da minha avó, Maria Júlia. Saí do Rio de Janeiro apressado, as 12:30, querendo atender ao funeral e para solidarizar-me com os primos. Um forte sentimento impelia-me para fazer a viagem, que competia com a confirmação do batismo que atencedia a primeira comunhão da minha filha. Eu sentia que não podia faltar. Durante o percurso, passando por Juiz de Fora, decidi não parar para almoçar porque não queria atrasar e porque, no fundo, queria comer o arroz e feijão de lá, saboreando a comida e a presença de meus primos. Embora fosse um dia diferente, sabia que não teria comida na casa do tio Neca e pensei na casa do Paulinho e da Gracinha, primos que sempre me tratam bem quando estou lá. Assumi que iria parar lá e pedir um prato de comida.
Estava há uns 40 quilômetros de Pedro Teixeira quando, ao passar por um ponto de ônibus a beira da rodovia, notei de relance a figura familiar de uma mulher. Não reconheci de início, mas dei a ré no carro, e voltei para conferir. No ponto, surpreendentemente, estava Gracinha, em quem havia pensado há pouco. Estava vindo, em uma cansativa baldeação, de Rio Pomba para o enterro do tio Neca. Ao me reconhecer, sorriu generosamente e disse: foi Deus quem te enviou! Assim que entrou, após cumprimentos, falou: “estou cansada, com fome, mas não há nada melhor que o arroz e feijão da nossa casa. Essa comida da rua não vale a pena”. E me convidou para almoçar na casa dela. Continuando, já comentando a perda do tio, sua fala lembrava que somos todos instrumentos de Deus, que não somos nada demais nessa vida, que nela entramos, e dela saímos. Chegamos a poucos minutos do enterro. Em sua casa tive o almoço que imaginei: simples e servido com carinho. Extraí dessa viagem a Pedro Teixeira outro sabor que não o de uma perda.
Durante a missa de corpo presente, uma música, entre outras, dizia:
"Sabes, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar. Mas este pouco nós queremos com os irmãos compartilhar. /Queremos nesta hora, diante dos irmãos, comprometer a vida, buscando a união. /Sabemos que é difícil, os bens compartilhar, mas com a Tua graça, Senhor podemos dar. /Olhando Teu exemplo, Senhor vamos seguir, fazendo o bem a todos, sem nada exigir".
Aquela música celebrava a vida. Nós celebrávamos naquele dia as exéquias de um homem que foi instrumento da paz e da generosidade. Prova disso é que lá estavam os doutos e os ignaros, os de posse e os sem posse; as mais diferentes condições e matizes de vida social, cultural e econômica manifestavam-se na igreja e no cemitério de Pedro Teixeira. A roça, que tão pouco conhecemos hoje, saiu para o centro da cidade e mostrou a sua cara simples, chorando a perda de um homem que materializou em sua vida a fé, paz, generosidade e simplicidade cuja falta tanto reclamamos atualmente. Pessoas dos cafundós de Pedro Teixeira e adjacências estavam lá. Em cada roda de pessoas, histórias que certificavam os feitos do Tio Neca e da sua esposa, tia Nair, já falecida. As pessoas contavam, a seu jeito e tempo, como aquele homem e sua família foram importantes para a vida delas; como, naquela vida difícil e empobrecida da roça, a ajuda deles amenizou parte das dores e desolação a que estão condenados os que vivem na roça.
No cemitério, após o enterro, conversando com primos, uma senhora se aproxima e pergunta quem eu era. Ela, moradora de lá, via que eu não era familiar. Fui apresentado como filho da Tininha, sobrinha do Tio Neca. Ao saber disso, a senhora pediu um abraço e abraçou-me forte. Emocionada, disse que minha mãe fora a melhor amiga dela enquanto jovens. Olhando em meus olhos, disse-me que experimentava naquele momento um pouco de felicidade, e completou: abraçando você eu abracei a sua mãe. Minha mãe faleceu há 30 anos, e com aquele abraço ela celebrava os momentos de amizade que tiveram há 45 anos ou mais. E que hoje só podem ser alcançados pela lembrança, pelos momentos, faces ou palavras que dão carona, em direção ao presente, para as imagens e sensações dos momentos em que fomos mais felizes. No fundo, eu sentia que minha mãe também nos abraçava naquele instante.
domingo, 24 de abril de 2011
Sobre abrir e manter as portas abertas
Até a fala dele, confesso, eu não havia alcançado esse nível de leitura sobre o fazer e praticar exercícios e esportes. Falcão foi além do iminente que satisfaz a paixão e rivalidade dos torcedores, a muitos jornais e jornalistas e aos gestores dos clubes. Falando do futebol, ele nos abriu a porta para uma significação maior, para uma relação mais humana, nobre e instrutiva entre nós e os diversos fazeres e experiência que se nos apresentam conforme nos embrenhamos pela vida. Ele falou em produzir alegria, divertir-se no trabalho, colocando este como parte fundamental de um viver com alegria. Falcão ensina que essa é a meta, o resultado amplo e possível de ser alcançado quando se abre mão da obtusidade inerente a ação pontual e pragmática.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Do que experimentamos nesta caminhada
segunda-feira, 28 de março de 2011
Honrar encontros
São 9 de setembro de 2010, estou em São Paulo para rever primos
e participar de um congresso na USP. Pela primeira vez em minha vida, fui vítima
de roubo. Anteriormente, fui furtado em Belo Horizonte, em 1994.
Tudo se deu num arrastão, coisa que parece ‘exclusividade’ do
Rio de Janeiro, como sugere a incidência da mídia. Que cena: um cidadão carioca
subtraído de seus bens na terra da garoa, no estado das pessoas que, segundo
velha provocação, trabalham para o resto do Brasil poder viver. Imagens à
parte, o que sobra é a realidade: fui mais um cidadão brasileiro em São Paulo,
cidade que é a imagem e materialização do progresso bastante idolatrado por
muitos de nós, mas que na realidade é mais violenta que o Rio de Janeiro.
Havia um congresso na USP, mas o que eu mais queria era rever
Marta e Edinho, primos caros à minha história de vida e a quem eu protelava o
devido reencontro. Edinho eu não via há mais de seis anos, Marta há uns dois
anos. A possibilidade do reencontro foi o fator decisivo para viajar, dado que
estava cheio dessa coisa de fazer networking, algo artificial, porém muito
aceito nos mundos acadêmico e de negócios. Imagens do cansaço e do pessimismo
de um acadêmico altamente duvidoso da real vontade e disponibilidade dos seus
vaidosos pares para compartilhar o conhecimento que presumimos ter. Não devo
ser o único que pensa e sente que a academia é ‘mestre’ em fazer apologias a valores
que nem sempre pratica.
Findo o congresso, Edinho me pegou na USP e me levou ao seu lar,
no bairro da Lapa. Convivemos nos primeiros anos da minha adolescência, no
início dos anos 80, e desse encontro ficaram marcas significativas. Ele sempre
me chamava atenção para a necessidade de criar e produzir minha própria
história, era perseverante e disciplinado na criação da dele, mas o que me chamava
muita atenção eram seus valores e atitudes sempre serem orientados para ética,
trabalho, religião e família. Vindo de Pedro Teixeira, MG, em Seropédica
trabalhava como balconista de Supermercado para pagar os estudos. Trabalhava e
estudava bastante e nunca reclamava, estava sempre sorrindo. Eu o conheci em
uma fase difícil da minha vida e nele tive o acolhimento para, àquela época,
poder falar sobre o que me deixava apreensivo. Ele sempre me dizia: seja
humilde e tenha fé.
Em São Paulo, transformou sua vida: casado, duas filhas e
profissional bem-sucedido, colhia da boa safra que preparou por toda a vida num
esforço peculiar de sempre semear seu terreno com seus históricos valores. Respira-se
isso em sua casa e a dinâmica de sua família nos leva a sentir essa energia.
Fiquei pouco tempo por lá, mas a harmonia e ritmo que ele, Adriana e filhas
encerram é algo confortador, uma experiência muito boa. Fui chamado para
pernoitar, mas queria estar com Marta, com quem tive meus contatos mais fortes
a partir dos anos 90, época dos meus vinte e poucos anos. Trabalhamos juntos na
UFRRJ, onde fomos técnicos administrativos e dela recebi preciosas lições sobre
trabalho, estudo, espiritualidade, coragem, objetividade e otimismo. Saiu do
Rio e foi para São Paulo trabalhar, foi ser bandeirante na terra da garoa.
Preparava-me para pegar um taxi até a casa de Marta, quando Edinho
decidiu me levar até lá. Às 21:30, na rua João Dias, chegando à avenida Giovane
Gronch, porta de entrada do luxuoso bairro Morumbi, bandidos fecham o trânsito
e saqueiam os carros, aterrorizando a todos, apontando armas direto para as
cabeças. No carro, Edinho, família e eu. Preocupado com a família, sentada no
bando de trás, Edinho praticamente se prostra, demora a responder aos comandos
dos bandidos que, contrariados, exacerbam as ameaças. Tomado de espantosa
calma, respondo aos comandos dos bandidos, entrego tudo o que foi solicitado.
Foram-se pertences, dinheiro, cheques, cartões e documentos. A tensão não durou
mais que cinco minutos.
Fora de perigo e mesmo ao lado de primos, vivenciei medo,
angústia e frustração até chegar à casa de Marta. Para qualquer lugar que olhava,
tudo que já era desconhecido se tornou mais hostil. Precisando de amparo, lembrei
de que quatorze horas atrás eu beijava e abraçava fortemente minha filha e de
algo impressionante: minutos antes do incidente, Julia, filha do Edinho, pediu insistentemente
ao pai para cantar para mim a música que aprendeu na catequese:
“Vem amigo vem /Vem para entregar este coração que Deus te deu/
para amar não para odiar /Vem abre teus braços até aquele que está lá/ Vem abre
teus braços ao teu irmão ao teu amigo/Dá-lhe um empurrão/ Dá-lhe um empurrão
que de pouco a pouco ele se achega ao Senhor Nosso Senhor”.
Pedido interessante o de Júlia: seu cantar nos trouxe a calma
para enfrentar o roubo.
Na portaria do prédio em que Marta morava, paramos para elaborar
toda tensão e enfim chorar o que o susto nos impediu. Passado o pânico inicial,
Edinho e família se foram.
Depois de ter sido acolhido e confortado, e de termos realizado
que se foram os bens materiais, mas ficou a vida, Marta me surpreendeu com uma pergunta: “Se
o pior lhe tivesse ocorrido hoje, você acredita que levaria consigo a certeza
de ter honrado os encontros que teve nessa vida?”. Senti imediatamente o
impacto da pergunta e me dei conta de que o código do viver estava sutilmente embalado
por uma inusitada e profunda reflexão e exigia bastante tato na sua
decodificação.
Acompanhado de Castelhano, marido de Marta, fui prestar queixa. Embora
tudo fosse passível de reposição, não importando quanto tempo levasse, o que eu
mais ressentia do que foi subtraído eram os documentos. A frustração ainda me
faria companhia durante o longo período em que perambulamos por delegacias
próximas ao bairro Morumbi que estivessem vazias e que pudessem registrar a
ocorrência sem que isso nos custasse toda a madrugada. Enquanto espero atendimento
na 34 DP, em Francisco Morato, pensei insistentemente em meus encontros,
principalmente se nesses 39 anos de vida eu observei ou não a inerente honradez
que possuem. “Honrei meus encontros? Honro meus encontros?”. Pensei no encontro
com Maria Luiza, minha filha, no encontro que tive com sua mãe e que nos levou
a formar uma família. Pensei no encontro que tive com meus pais, irmãos, tios e
primos. Pensei no encontro com amigos, colegas de trabalho e de escola, e com
meus alunos, pessoas que precisam de conhecimento, exemplos, atenção e
orientação.
Muitos foram os encontros em minha trajetória de 39 anos e a
pergunta de Marta, além de me fazer acessar o todo simbólico que envolve um
encontro de duas pessoas numa vida, falou de uma riqueza a que somos
apresentados e que devemos honrar como condição central para fazer uma análise
mais humana e sensível dessa nossa passagem pela vida. Passagem curta, que às
vezes pode ser curtíssima, e da qual nada se leva, mas na qual podemos
diariamente carregar a leve e confortadora consciência de que foi digna,
humanizada e honrada.