sábado, 15 de outubro de 2011

Da paixão que me move

UFRRJ, 25 de maio de 2011, prédio do PPG, 22 horas. Acabo de sair de uma das melhores aulas que dei em minha curta vida de professor. Ao menos para mim, os sessenta minutos em que tratei o tema comunicações de marketing foram sensacionais. Em verdade, foi a primeira vez que dei uma boa aula sobre esse tema do qual tanto gosto. Espero que os alunos tenham vivenciado bons momentos de aprendizagem nesses contagiantes minutos em que vivenciei intensamente o bom de ser um educador apaixonado pelo o que faz.

Saio da aula com uma ingênua ambição: se do tema central nada ficar, que da paixão com que atuei venha uma lição. Que a paixão seja o elemento que estimule e oriente mudanças sensíveis e objetivas no comportamento daqueles alunos. Principalmente o comportamento em relação ao envolvimento com o ensino e a postura enquanto aluno. Eles precisam cobrar mais dos professores e deles mesmos. Pois quem dá paixão merece, no mínimo, uma recepção apaixonada, um ambiente que fomente a paixão e seus desdobramentos positivos contagiantes.

O apaixonado é gratuito, generoso, quer a interação e a gostosa experiência do compartilhamento da energia que o move. Ele quer mais: é insatisfeito e não vai medir esforços para descobrir mais do que torna a vida mais interessante. Em sua ingenuidade, ele não verá os pequenos obstáculos convenientes aos pessimistas, o deserto de idéias e sentimentos familiar aos pragmáticos e as pequenas conveniências que inspiram os miseráveis de alma. O apaixonado vai acreditar que algo novo será produzido e vivenciado, que valerá a pena doar-se para essa busca que inevitavelmente leva a uma nova realidade, esta pedindo para ser aprendida, ensinada, compartilhada, transformada e experimentada.

Foi essa ingenuidade inspirada - e espero inspiradora - que me lançou hoje em direção ao que para mim torna a vida mais interessante: ver e ajudar o outro a crescer. Entendo ser este o meu papel enquanto educador. É uma experiência que ajuda a tornar o mundo melhor. Acredito muito nisso: no crescimento humano resultante da força transformadora do conhecimento. Foi assim que transformei as realidades que tive para experimentar, que plantei os sonhos e esperanças que empolgaram minha caminhada até aqui. Mais: foi pelo conhecimento que me apresentaram, ainda que dele pouco tenha apreendido, que mudei a mim, que jamais serei novamente aquilo que um dia fui. Mudei minhas atitudes e comportamentos em relação ao meu devir e a minha posição em relação aos outros, os objetos e ao planeta. Aprendi que viver é percorrer e preencher, com o que temos de melhor, o lapso de tempo e espaço entre a vida e a morte.

Contagiante e oportuno este dia de aula, esta sublevação da paixão. Sim, sublevação.  Pois apesar da minha vontade e consciência de que devemos lutar pela imanência do nosso sopro de vida, minha atual fase de professor anda seca, morna, insossa. Ando muito exposto a força negativa do meu coletivo de trabalho, com reflexos claros sobre meu desempenho. Ambiente de trabalho este marcado pelo pragmatismo, oportunismo e miséria de alma. Não vejo brotar do nosso fazer diário as boas idéias, nem reflexões responsáveis sobre o papel da educação e da universidade para a transformação social; não vejo emergir projetos coletivos ou pequenos e breves consensos de que devemos responder a altura o gasto do dinheiro público para manter nossa estrutura. Minha sensação diária é a de que para o nosso trabalho levamos e deixamos pouco, que de lá pouco extraímos, e que lá quase nada compartilhamos.

Hoje a paixão subverteu as regras da minha apatia e reivindicou a aplicação do estatuto da imanência. Ela ditou as regras e, quando percebi, apenas deixei-me levar, apenas consenti àquele assalto que, oportunamente, distanciou-me do cativeiro em que se transforma o dia a dia de uma universidade pública onde as pessoas estão orientadas para o seu próprio umbigo, que se aprofundam em suas ambigüidades, veleidades e narcisismos. Rendi-me a paixão. Lancei-me com força ao ato de doar-me para, uma vez exaurido, como encontro-me agora, abrir as portas para um outro dia em que algo novo será produzido e vivenciado. Ou melhor, aprendido, ensinado, compartilhado e transformado.

domingo, 25 de setembro de 2011

Dos riscos de acelerar as águas do rio

Vila Isabel, 24 de setembro de 2011, noite. Estudo matemática com Maria Luiza, uma rotina que se repete por apuros e não para confirmação de um percurso natural na formação de um estudante. Aula extra às que tem com professor particular. No sexto ano do ensino fundamental, onze anos recém completados, ela periga não mudar de série, ainda que tenha todo potencial de raciocínio lógico e matemático a ser explorado. Suas notas não avançam e os resultados mostram os efeitos drásticos da desatenção, falta de concentração, ansiedade e de um comportamento particular de não dar o braço a torcer quando alguém aponta que ela está equivocada.

A dinâmica do nosso momento hoje revela, caprichosamente, os problemas a serem enfrentados. Frente a um exercício de medição de área de uma superfície, ela não consegue fazer uma conversão de medidas. Paralisa. Abaixa a cabeça. Pergunto-a sobre o conceito: “quando ele foi estudado? Em que aula havia sido dado?”. Ela mexe no caderno pra trás e pra frente, numa busca tão desorganizada quanto inútil. Pego o livro, localizo a lição, datada e com exercício feito. Ela senta no chão, dobra os joelhos junto ao peito e fala: “queria que o ano estivesse começando de novo. Ano passado eu era desatenta, desorganizada, fazia tudo do mesmo jeito que faço, e dava certo. Esse ano não está dando certo. Está tudo muito rápido. Eu não sei o que está acontecendo”.

Penso nos detalhes de uma dinâmica de sala de aula que, distante, nem meu coração alcança. Calmamente deixo a mesa, deito junto aos seus pés, seguro suas mão e digo: “pronto, filha, chegamos a uma das respostas de que tanto precisamos para vencer esse desafio: você sabe matemática, apenas tem que mudar seu jeito de estudar. Pare de resistir a necessidade de mudança de comportamento. Você precisa mudar, aprender um novo jeito de fazer as coisas. Que tal tentar, a partir de agora, prestar mais atenção na aula, deixar as pessoas lhe ajudarem, e lutar para fazer bonito nesse restinho do ano? Não dá para voltar atrás. É para o futuro que devemos olhar”. A minha frente estava a mesma menina que, aos cinco anos, pedia aos pais para ir para um colégio para poder aprender a ler. Naquela época, pedia que lêssemos todos os outdoors, cartazes, letreiros, capas de revistas; dizia que queria aprender a ler. Levantei e deixei que ela se recompusesse e ditasse o ritmo do estudo.

Imediatamente lembrei-me dos pedidos da dona da creche onde ela estudava, em 2005, para que não acelerássemos a alfabetização. Nesta fase da vida, um ano faz muita diferença, dizia ela aos pais, vaidosos e otimistas com o desejo da filha de ler. Lembrei-me também dos dizeres de Brechet, presentes em uma placa que li há bastante tempo. Ensinava a placa que das águas bravas de um rio que, ao passar, tudo arrastava, muito se falava, mas nunca se falava das margens que comprimiam este rio.

Aceleramos as água do rio quando não havia quaisquer margens comprimindo-as. Então, conforme diminuem as margens a cada ano que passa, a cada cobrança de uma nova série, anseia minha filha por voltar o tempo. Ela não dá conta da situação. Erramos. Desde que um rio nasce, as águas não param, não retornam a nascente, seguem seu curso até desaguar em outro rio ou em um mar. É como a criança: cresce, deságua em um adolescente, que deságua em um jovem, que deságua em um adulto, que deságua em um idoso e que, por sua vez, deságua em um mar. Fica o aprendizado: como pais, devemos respeitar a topografia do leito, isto é, da vida e de seus percalços, e proporcionar as margens que acolhem as águas plácidas. Uma pequena contribuição para criar crianças saudáveis que desaguem em cidadãos saudáveis.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O caminho do coração e o do vento

UFRuralRJ, 21 de fevereiro de 2009, sábado. Eu e Malu, minha filha, passeávamos pela UFRRJ, de bicicleta, quando ela me proporcionou um momento inesquecível. Ao chegarmos numa encruzilhada, perguntei-a sobre o rumo que seguiríamos, se voltaríamos pelo mesmo caminho da ida ou se seguiríamos outra direção. Estava nublado e o horário avançado chamava-me atenção. Sorridente, disse ela: “Bem, vamos ver. Tem o caminho do coração e o do vento”. Em seguida, pôs o dedo na boca, encheu de saliva, o ergueu, dizendo: “vamos seguir o caminho do coração”. Ela definiu o caminho do vento como sendo o que já estávamos. "Esse a gente já conhece", disse ela. Seguimos o caminho do coração.

Instantes muito bonitos, inesquecíveis, mesmo sabendo que aos 8 anos de idade uma criança não segue outro caminho que não o do coração. Como uma doce e tenra criança, o mundo dela é o da imaginação, das brincadeiras, das mais puras emoções. É o mundo onde se cai, machuca, assopra a ferida e recomeça-se tudo de novo. É o mundo da magia. O mais belo dos mundos, porque sai direto do coração.

Naquele instante, o caminho do vento era o caminho da razão, aquele que já fora percorrido ou que se está percorrendo. Sim, uma leitura que foge ao senso comum do que seja o caminho do vento, o de ir sem rumo certo. Naquele instante, o caminho do vento era o da não surpresa, do revisitar o conhecido, do não surpreender e do não ser surpreendido. Malu deu ao vento a cara da razão e perpetuou no coração a cara da emoção.

Comecei a pensar nos rumos que sigo em minha vida, nos que segui e nos que devo seguir. Visualizei que, na maioria das vezes, havia seguido o caminho do vento, que havia negligenciado o caminho do coração. Pelo mais puro medo de sofrer, acabei sofrendo por ter faltado na trajetória que empreendi o mais gostoso da emoção. Quantas vezes fugi da surpresa, revisitando o conhecido! O medo da emoção, de experimentar decepções, levava-me a querer controlá-la, aprisionando-a. Pura ilusão. Aprisionado estava eu. E também perdido: conforme fui pelo vento, mais me senti perdido, sem chão, pois fui atrás de quem eu jamais seria: um homem movido basicamente pela razão.

Naqueles instantes, com a ajuda da Malu, eu chegava à encruzilhada da qual mais precisava. Decidi reaprender a caminhar pelo caminho do coração, que é o caminho que sempre me gerou o senso de pertencimento a algo que seja confortante neste mundo. Pois, definitivamente, estou onde meu coração está, onde meus afetos mais caros e fortes se manifestam. Estou professor, pois adoro aprender e contribuir para que o outro cresça. Estou em minha família, pois sinto muito orgulho e admiração pela trajetória deles. Estou na literatura, pois adoro o caminho das palavras e as palavras do caminho. É nesse estar que, apesar das decepções, mais vivo e feliz estou.

Seguirei o caminho do coração, que não é o da inconsequência, como me ensinou minha filha. É o caminho da emoção que anima, que nos torna mais humano, que nos dá a noção correta da nossa fragilidade e finitude, permitindo-nos uma doce alforria da ilusão de que podemos controlar tudo. Vou sem pressa, feliz, consciente de que não posso mais me submeter aos caprichos da ilusão de querer ter o controle de tudo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A primeira morada

Muriaé, 7 de Fevereiro de 2010. Aproveitei que passava pela cidade, retornando de uma viagem a trabalho, para visitar, brevemente, parentes e amigos. Algo que faço com muito carinho por aqui é passar na casa da Hérika, amiga de longa data, onde aproveito de uma recepção sempre muito agradável. Nessa época, o clima de sua família fica ainda mais gostoso, pois sua irmã, cunhado e filhos, costumam ficar lá nas férias.

Seus pais sempre me receberam com muita distinção. Com sua mãe, Marli, tenho abertura para boas conversas, estas que abordam família, profissão, vida econômica, história da família do meu pai e detalhes do cotidiano da cidade. Se deixarmos, conversamos por horas, pois somos bons de prosa. Também gosto muito de ficar naquele quintal, com uma mangueira que torna bonita a divisa do lote com a Rio-Bahia, e que compõe uma bela visão daquela casa diferente, pois ela acompanha o formato da esquina ao final da rua Eucário Godinho, para quem segue do Centro em direção ao bairro Dornelas. 

Em determinado momento da visita, a última antes de continuar a viagem em direção ao Rio de Janeiro, Marli perguntou-me sobre minha vida. Ela queria saber mais sobre mudanças que, em outra conversa, eu mencionara querer fazer. Mudanças como a de retornar à UFF, Volta Redonda, movimento que fiz em 2008 e que acabei não levando a frente, retornando à UFRRJ, Seropédica, no início de 2009. A realidade que criei com a mudança foi tal que não consegui sustentá-la, disse a ela. Retornei para repensar e refazer com calma aquele movimento, procurando dar sentido à bagunça em que se transformara meu cotidiano. Sobre a retomada desse projeto, contei-lhe sobre o que queria alcançar no futuro, como a construção, juntos com os colegas de trabalho, de uma escola de negócios diferenciada. Esta que seria um estímulo a mais para usar de minhas energias, coisa que o ambiente da UFRRJ e do meu departamento não propiciavam. Falei do quanto estava difícil ficar trabalhando num local onde não se fala em projetos para o futuro nem se demonstra algum envolvimento com a lide de educadores. Disse a ela que o concurso nos dava a condição de professores, mas que não buscávamos ser educadores. Por fim, em tom de pesar, falei da casa que deixaria em Seropédica caso materializasse a escolha, e reforcei a necessidade que tenho de encontrar um lar e, enfim, fixar meu pouso.

Vendo minha euforia -- e nesses dias eu estava de fato exasperado -- e meu discurso, que me transformava numa insatisfação ambulante, Marli falou-me de duas moradas: a da alma e a do corpo. Com seu jeito calmo, didático e franco, ao mesmo tempo em que levava sua mão à altura do meu peito, falou-me que eu só irei encontrar essa morada, lar, ninho, pouso, etc. se tiver encontrado a morada da minha alma, indicando com um dedo o meu peito. ─ Primeiro encontre essa morada para repousar ─, disse ela. Pediu para que eu repousasse minha alma para ter a paz, harmonia, força, fé necessárias para enfrentar a vida, seus desafios e desdobramentos. Via-me afoito, nervoso, ansioso, querendo fazer as coisas, mas não sentia em mim a plenitude para realizar o que queria. ─ Esta plenitude só se alcança com a alma acolhida, protegida, alimentada ─ complementou.

─ Quando sua alma estiver na morada dela, as coisas ficarão menos difíceis do que realmente são, e, quem sabe, não encontra a outra morada? ─, disse ela. Sem mudar seu tom, finalizou lembrando que quando a morada da alma está bem alicerçada, somos capazes de enfrentar qualquer intempérie, qualquer mudanças, que somos capazes de viver mesmo na morada física menos remediada. ─ Todos precisam dessa primeira morada ─, finalizou.

Não foi preciso mais conversa. Guardei aquela mensagem em meu coração, protegida e reforçada com a força do meu silêncio, enquanto refletia. Além disso, deixei a casa naquele dia com um CD de mantras católicos, dado-me para escutar durante o retorno ao Rio de Janeiro. Deixei a casa e fiquei espreitando-a alguns segundos antes de pegar a estrada. Uma fotografia única. Para quem passa pela Rio-Bahia, em direção ao Nordeste (ou à Itaperuna), logo após a primeira entrada para a cidade, lá estão a casa, a esquina e a Mangueira. Dentro deles, ou abraçando-os, uma morada da paz.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Das rotas e destinos que seguimos, e das pessoas que encontramos

Osasco, 31 de Julho de 1998, 6:00 da manhã. Acabo de vivenciar um importante momento em minha vida, uma densa experiência que começou ontem, as 23:00 horas, dentro de um ônibus, na rodoviária do Rio de Janeiro, e terminou há pouco, aqui em Osasco, numa estação de trem. Mesmo cansado, escrevo para não perder a vividez de tudo o que me foi falado nas sete horas de uma conversa que virou um monólogo.

Ouvi por quase sete horas, calma e atenciosamente, uma pessoa que, ao ver-me posicionando a bagagem, começou a puxar assunto. Eu poderia tê-la evitado, justificando um merecido descanso, mas o rumo que a prosa tomava mostrava-me, por meio de palavras e construções frasais sofríveis, mas tão felizmente proferidas, novos ângulos de observação dessa viagem que faço pela vida e mesmo de como devo conduzi-la. Foi assim que encontrei no caminho, na condução, respostas para muitas das apreensões que faziam de São Paulo o destino ideal para a sua solução.

No corredor, ao meu lado, estava o cearense Valdemar, da cidade de Viçosa do Ceará, 25 anos, que assistia ao meu embarque. Sem nunca ter-me visto, puxou conversa. Falou sobre o tempo, a viagem, mas logo começou a falar dele próprio, abrindo os capítulos e páginas do livro de sua vida, de maneira que, acredito, só os brasileiros sabem fazer. Expansivo, como a maioria dos cearenses que conheço, contou-me sua história durante todo o trajeto, passando pela rodoviária do Tietê até a estação Comandante Sampaio, em Osasco, onde desembarquei.

Sua vida é um constante vai e vem entre Ceará, São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa correria construiu um lar, em Viçosa do Ceará, mas não se adequou. Em são Paulo, um irmão. No Rio, uma irmã.  No nordeste, a mãe, esposa, filha, e a barraquinha de camelô que montou em uma das várias vezes que, nos últimos oito anos, trocou o Rio de Janeiro pelo Ceará em busca de adequação. Não falou de outros irmãos ou da figura do pai.

Não estudou. Ontem ele deixava o Rio de Janeiro para viver em São Paulo. Balconista em um bar, no bairro do Estácio, fugia da semana de trabalho que vai de segunda a segunda, do salário de 200 reais e do quartinho que lá tem para viver. Ia fichar numa empresa de construção civil, em um bico arrumado por sua cunhada. Voltava para a cidade aonde chegou há doze anos, fugindo da vida difícil que levava no nordeste. Voltava para a cidade que deixou há oito anos para se aventurar pelo Rio de Janeiro. Voltava para a cidade onde não cabia quando tinha 17 anos de idade. Simplesmente não se adequou em São Paulo. Para explicar sua sorte ou escolhas que fez, o vai e vem de sua vida, ele simplesmente dizia: “não me adeqüei”, “eu não cabia ali”.

Não se adequou no Ceará e ainda por cima gastou com mulheres e bebedeiras parte do que ganhou, confissão que misturava arrependimento com o sorriso que só os melhores oportunistas sabem soltar. Ainda assim conseguiu juntar dinheiro para poder construir seu lar, no Ceará, enviando todo mês parte do seu salário de 200 Reais. Nem mesmo as desventuras com as mulheres do Rio de Janeiro, frustração fortemente enfatizada, o impediram de atingir sua meta: construir sua casa, seu lar. Poderia ser cozinheiro, mas não agüentou; foi balconista, mas não se adequou a rotina de segunda a segunda. Agora vai tentar ser pedreiro e, se não der certo, vai tentar ser outra coisa, até se adequar.

Voltava, mas ainda falava do mundo a ser descoberto e de trazer a família para São Paulo com a mesma facilidade com que falava das meninas que namorou em Carapicuiba anos atrás. Os olhos brilhavam quando falava daquele mundo chamado cidade, sua fala empolgada não cedia as horas que passavam. No metrô, sacou de um álbum e mostrou em fotos a família, lar, parentes, amigos e lugares de que tanto falou na viagem. Vi as faces das pessoas que compõem o mundo de Valdemar. Em nenhum momento, porém, falou de sonhos. Em nenhum momento falamos do amanhã. As 5:15 da manhã nos despedimos na estação Comandante Sampaio, em Osasco. Ele prosseguiu até a estação Jandira, seu novo-velho destino.

Do Rio até Osasco não falei a meu respeito. Valdemar tomou a palavra e com ela ficou até o fim, conduzindo nosso encontro para bem além do alcance da visão e do espaço demarcado pelo ônibus, vagões e estações. Sua trajetória de vida foi o centro das atenções. Ao seu jeito, fez-me visitar, em imagens, as paisagens que me descrevia de Viçosa do Ceará, Carapicuíba e do Estácio. A única coisa que nos aproximava era a nacionalidade, no mais somos duas pessoas totalmente diferentes, com oportunidades que diferem em quantidade e qualidade. Encerrávamos histórias, até aquele presente momento, totalmente distintas. Coincidentemente, uma vez na vida, seguimos a mesma direção, pegamos as mesmas conduções, e tínhamos a mesma meta de mudar de vida.

Ao lado de Valdemar viajava eu: uma pessoa de 27 anos, pós-graduada, que procura transformar a própria vida. Inquieto, extremamente insatisfeito, acredito não merecer o que tenho vivido. Estou em São Paulo em busca de reconhecimento profissional, recompensa econômica e de um trabalho que seja criativo e desafiador. Para tanto deixei de lado um trabalho que não me desafia ou empolga. Sou alguém que, acima de tudo, carrego comigo um grande estranhamento em relação a vida e tudo o que se me apresenta enquanto passo por ela. O que para mim é estranhamento, para Valdemar é questão de adequação.

Mas a sorte ou escolha de Valdemar, o que se apresenta para ele ou o que ele vai a procura, subtrai muito da importância que minhas inquietações tem. Perto de Valdemar, e da sua sorte, não passo de uma excrescência, de uma improdutiva reclamação ambulante, perambulando pelo mundo de opções que a vida apresenta, sem ao menos dar-me conta de que sou um privilegiado. Sequer levo na face o brilho que deveria ser peculiar, ou mesmo obrigatório, a quem teve as oportunidades que tive e tenho. Minha fala não empolga, nem transcendo pontuais dificuldades que tenho para levar empolgação ao trabalho que tenho, a família remediada que me acolhe, aos amigos que possuo, e a residência confortável que me abriga na Tijuca.

Há muita diferença entre sair do Nordeste ou do Rio de Janeiro para tentar a sorte em São Paulo. Fato visível a qualquer um que, por ventura, fixe olhares e ouvidos as figuras e paisagens que nos apresenta a Central do Brasil, lá no Rio de Janeiro. Mas quis eu, dessa maneira e a este custo, vivenciar essa diferença. Apesar de não ter o controle sobre como será o futuro, o que as condições de vida que se me apresentam reclamam de mim é planejamento, escolha estruturada, não sorte, como se a vida fosse um jogo de azar. Foi de uma ironia sem qualquer legitimidade o pelo menos parecer que eu e Valdemar somos passageiros da mesma agonia. A vida apenas nos colocou na mesma rota. E ela própria, dando a ele a palavra, mostrou que nossas partidas e destinos são bem diferentes. Ainda que nesta vida ele busque adequação e eu a siga amplificando, desnecessariamente, dores que maculam todo e justo estranhamento que todo ser humano venha ter na vida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Do quanto deixamos de alimentar nossa alma

Seropédica, 4 de novembro de 2010, manhã. Céu claro, correria na rua, promessa de mais um dia comum: quente, úmido, sem vento, ou algo como uma breve mensagem do que os moradores da cidade poderiam esperar para o verão. Fecho o portão da garagem, após ter tirado o carro. Neste instante passa uma jovem na esquina, no encontro das ruas 7 e do Hotel, provavelmente uma estudante da UFRRJ em direção a um dia de aulas. É a esquina onde moro há anos.

Seria mais um anônimo transeunte em um dia comum não fosse o fato de para ela ser comum o que para nós que moramos na esquina é extraordinário. Alheia a desordem que domina a paisagem de qualquer esquina de Seropédica, ela olha para um dos cantos, avista um cachorro e vai em direção a ele, sorrindo, gesticulando, falando docemente, como se falasse com uma criança. Começou a acariciá-lo, aumentando o sorriso e as falas afáveis, dando mais carinho. O cão, ainda deitado, responde com alegria cada vez mais incomum aos humanos quando se encontram. Levantou-se, balançou fortemente o rabo, lambia sua benfeitora, rosnava de alegria, pulava. Seria uma cena ordinária não fosse o fato do cão ser portador de um problema na parte dianteira que mal o deixava caminhar.

Tratava-se de cão um que havia feito daquela esquina a sua casa, e que não chamava muita atenção das pessoas, principalmente a minha, que sabia da sua existência por levar o cão da minha filha para passear pelas manhãs. Por ele eu apenas passava. Quando ele apareceu ou de quem ela era, ainda não me era sabido. Realizei que devido aos problemas físicos, ele não saia dali para muito longe, fazia pequenas incursões por metros de ruas e calçadas naquela esquina. Na maior parte do tempo ele ficava deitado. Naquela madrugada, recordei-me, ele havia apanhado do cão de um vizinho próximo. O episódio fora barulhento, muitos gritavam, despertador desagradável. Quando me levantei pude ver apenas o cachorro em sua posição comum: corpo sobre um degrau e a cabeça sobre o outro degrau da calçada em frente a minha casa, ofegante.

A cena é mesmo extraordinária. Leva-se a vida corrida de quem, por ser de Seropédica, está sempre saindo dos boxes, atrasado diante o mundo. Em Seropédica, cidadão é quem tem carro ou moto, são os senhores das ruas e calçadas. Fato este que faz das esquinas as vitrines da agonia do cidadão diante a opressão dos carros e motos. A cada ano que passa os antigos moradores dão lugares a alunos da UFRRJ, nem sempre próximos, disponíveis. Mais do que isso: a cena mostrava a miséria de sentimentos que erroneamente cultivamos. É raro darmos aos vizinhos mais do que um cumprimento ou um breve fio de prosa. A jovem, alheia ao espetáculo de medo e insegurança que experimentamos todos os dias nas esquinas de Seropédica, nos presenteava com uma demonstração inequívoca de um sentimento que precisamos reaprender e de um hábito que precisamos cultivar: dar a alma o que lhe é essencial, a simplicidade.

Já em meu carro, em minha confortável miséria, assisto a cena que prossegue. Outras pessoas também assistem a atuação da jovem, impregnada do sentimento que sinaliza o que seria um dos melhores marcadores da nossa condição de humano: amar de maneira pura, sincera, desprendida. Gratuita, simples, sem deixar de ser intensa, ela ensinava como usar deste sentimento que nos dá autonomia para agir de maneira mais leve, cativante, positiva e sem a necessidade de ficar preso a retribuição ou ao que vão pensar da nossa manifestação. Em cena o amor que não é marcado por ser destinado a alguém especial que por ventura tenha aparecido em nossas vidas, como aprendemos desde cedo em família ou na TV. Alguém este a quem vamos cultuando, afastando-o do cenário comum, subtraindo sua naturalidade. Em cena o amor que não dá presente, aquele que se faz presente pela autonomia, consistência e beleza no acabamento da sua mais simples manifestação. Bonito, simples, natural, gratuito: a maneira de quem o faz todos os dias, a qualquer hora. Um ato comum de quem não experimenta a miséria da alma.

A moça tirou do ostracismo o cão esquecido por não ser belo ou que chama a atenção pela deficiência que carrega, pela dificuldade com que deambula. Ela é capaz de fazer aquilo por outro ser humano, pois a gratuidade chama mais atenção que a intensidade da sua atuação. A cena me atingiu em cheio: passo por ali quase todos os dias e o cão apenas me observa, sequer chega perto para cheirar a cadela que levo para passear. Enquanto observo, outra surpresa: uma senhora, moradora de outra rua, vem da sua caminhada matinal e traz pedaços de pão para o cão. Depois deixa, anonimamente, um saco de pão no portão de uma família humilde que habita na esquina. Feito com a naturalidade de quem o faz todos os dias, anonimamente.

É a silenciosa operação dos que levam seus dias sob o ritmo da gratuidade do sentimento que faz crescer e amenizar as dores dessa nossa passagem pela vida. Confortável em minha miséria, realizo que pouco tenho dado de atenção a todos os meus vizinhos. O tempo está passando, estamos envelhecendo, levamos para os lares o que trazemos do mundo e que tratamos como muito valioso, indisponível. Vamos as igrejas, ostentamos nossas bíblias e imagem de fé, mas sequer nos abraçamos. Naquela esquina, mais nos protegemos do que nos projetamos. Não nos disponibilizamos para o outro, para lidar com a nossa vida comum, como se divida fossemos contrair ou menos passassemos a ter. Miseráveis, pouco nos pedimos, quase nada nos damos, como se só tivéssemos corpos a alimentar.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Somos todos instrumentos

Pedro Texeira – MG, sábado, 7 de maio de 2011. Pedro Teixeira é a terra natal da família da minha mãe. Cidade pequena onde ficaram muitas das recordações dos membros da família da minha avó materna. Voltar a cidade é, para muitos de nós, um retorno as raízes, algo nostálgico, como se lá fosse o paraíso perdido quando se foi para o mundo tentar a sorte de uma vida melhor. É uma visão romântica que ameniza o fato de que lá se tinha muito pouco, mas muita vontade de viver dignamente. Procuro sempre ir a cidade para ter conta da história da minha família, de toda trajetória que enfrentaram minha mãe e meus tios, um fantástico manancial de lições entremeados em muitas boas prosas com aqueles que lá ficaram. 

Desta vez voltei a cidade para enterrar o Tio Manoel, tio Neca, 86 anos, um dos irmãos da minha avó, Maria Júlia. Saí do Rio de Janeiro apressado, as 12:30, querendo atender ao funeral e para solidarizar-me com os primos. Um forte sentimento impelia-me para fazer a viagem, que competia com a confirmação do batismo que atencedia a primeira comunhão da minha filha. Eu sentia que não podia faltar. Durante o percurso, passando por Juiz de Fora, decidi não parar para almoçar porque não queria atrasar e porque, no fundo, queria comer o arroz e feijão de lá, saboreando a comida e a presença de meus primos. Embora fosse um dia diferente, sabia que não teria comida na casa do tio Neca e pensei na casa do Paulinho e da Gracinha, primos que sempre me tratam bem quando estou lá. Assumi que iria parar lá e pedir um prato de comida.

Estava há uns 40 quilômetros de Pedro Teixeira quando, ao passar por um ponto de ônibus a beira da rodovia, notei de relance a figura familiar de uma mulher. Não reconheci de início, mas dei a ré no carro, e voltei para conferir. No ponto, surpreendentemente, estava Gracinha, em quem havia pensado há pouco. Estava vindo, em uma cansativa baldeação, de Rio Pomba para o enterro do tio Neca. Ao me reconhecer, sorriu generosamente e disse: foi Deus quem te enviou! Assim que entrou, após cumprimentos, falou: “estou cansada, com fome, mas não há nada melhor que o arroz e feijão da nossa casa. Essa comida da rua não vale a pena”. E me convidou para almoçar na casa dela. Continuando, já comentando a perda do tio, sua fala lembrava que somos todos instrumentos de Deus, que não somos nada demais nessa vida, que nela entramos, e dela saímos. Chegamos a poucos minutos do enterro. Em sua casa tive o almoço que imaginei: simples e servido com carinho. Extraí dessa viagem a Pedro Teixeira outro sabor que não o de uma perda.

Durante a missa de corpo presente, uma música, entre outras, dizia:
"Sabes, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar. Mas este pouco nós queremos com os irmãos compartilhar. /Queremos nesta hora, diante dos irmãos, comprometer a vida, buscando a união. /Sabemos que é difícil, os bens compartilhar, mas com a Tua graça, Senhor podemos dar. /Olhando Teu exemplo, Senhor vamos seguir, fazendo o bem a todos, sem nada exigir".

Aquela música celebrava a vida. Nós celebrávamos naquele dia as exéquias de um homem que foi instrumento da paz e da generosidade. Prova disso é que lá estavam os doutos e os ignaros, os de posse e os sem posse; as mais diferentes condições e matizes de vida social, cultural e econômica manifestavam-se na igreja e no cemitério de Pedro Teixeira. A roça, que tão pouco conhecemos hoje, saiu para o centro da cidade e mostrou a sua cara simples, chorando a perda de um homem que materializou em sua vida a fé, paz, generosidade e simplicidade cuja falta tanto reclamamos atualmente. Pessoas dos cafundós de Pedro Teixeira e adjacências estavam lá. Em cada roda de pessoas, histórias que certificavam os feitos do Tio Neca e da sua esposa, tia Nair, já falecida. As pessoas contavam, a seu jeito e tempo, como aquele homem e sua família foram importantes para a vida delas; como, naquela vida difícil e empobrecida da roça, a ajuda deles amenizou parte das dores e desolação a que estão condenados os que vivem na roça. 

No cemitério, após o enterro, conversando com primos, uma senhora se aproxima e pergunta quem eu era. Ela, moradora de lá, via que eu não era familiar. Fui apresentado como filho da Tininha, sobrinha do Tio Neca. Ao saber disso, a senhora pediu um abraço e abraçou-me forte. Emocionada, disse que minha mãe fora a melhor amiga dela enquanto jovens. Olhando em meus olhos, disse-me que experimentava naquele momento um pouco de felicidade, e completou: abraçando você eu abracei a sua mãe. Minha mãe faleceu há 30 anos, e com aquele abraço ela celebrava os momentos de amizade que tiveram há 45 anos ou mais. E que hoje só podem ser alcançados pela lembrança, pelos momentos, faces ou palavras que dão carona, em direção ao presente, para as imagens e sensações dos momentos em que fomos mais felizes. No fundo, eu sentia que minha mãe também nos abraçava naquele instante.