sábado, 31 de dezembro de 2011

O ano novo é você quem faz

Se você quiser conhecer a felicidade, empreenderá uma solitária e desafiadora jornada que o levará ao encontro de uma palavra que funciona como senha de entrada para acessar o fantástico mundo de um sentimento capaz de transformar qualquer indivíduo.  Ao contrário da maioria das jornadas, esta começa em direção ao mundo das coisas e, subitamente, muda seu rumo para o mundo que habita o interior do viajante.

Em sua jornada, você primeiro encontrará felicidade no dicionário. Abra este precioso livro e continue a viagem. Nesta parte da jornada que, recomenda-se, seja gradual, moderada, você aprenderá que alegria vem antes de dor, que felicidade sempre antecede tristeza. Você também aprenderá que ela, ele, elas e eles sempre aparecem antes de você, e que juntos com você, somados, esses monossílabos transformam-se surpreendentemente em nós, um monossílabo também poderoso. 

Ao encontrar a felicidade, você verá que ela pode ser lida, escrita, e, principalmente, que deve ser vivida, pois, como ensina o precioso livro, felicidade é um paroxítono que denota, de maneira acentuada, ventura, bem-estar, contentamento, um estado de espírito surpreendentemente revolucionário.

Lida ou escrita, verá você que felicidade é um polissílabo, um grupamento de sílabas, composto este de quatro consoantes e três vogais, onde algumas se desdobram para apresentar aos luso-brasileiros um sentimento que pode ser vivido a um - sozinho -, que é gostoso demais quando vivido a dois, mas que deve ser sabiamente aprendido a viver em grupo - mesmo que esse seja apenas de três -, mas que seja essencialmente um grupo. Soletrando este caprichoso encontro de sílabas, compreenderá você um pouco da força dessa senha que, conforme será verificado mais a frente, jamais deve ser falada da boca pra fora.

Ao fechar o dicionário e olhar para os lados, encontrará você um dos primeiros mistérios dessa jornada: existem aqueles que, mesmo não sabendo ler ou escrever, são felizes, vivem a felicidade. É assim porque felicidade, um substantivo feminino, devido a sua inerente fecundidade, tem o poder da luz que identifica e qualifica, em qualquer lugar, o indivíduo que mantém a preciosa substância da bem aventurança. A felicidade empresta luz ao sujeito que a contem e, principalmente, a elabora.

Ao ver como mesmo os não doutos podem ser felizes, você naturalmente sentirá a necessidade de mudar o rumo da jornada. Subitamente, a resposta sobre a felicidade deixará de estar no mundo das coisas e nas coisas do mundo, mostrando-se estar inscrita no interior do indivíduo, dentro das pessoas, de onde emerge a luz que as torna imprescindíveis. Ao partir em direção ao outro, ao dirigir sua jornada para desbravar o interior alheio para descobrir sobre a felicidade, você logo verá que dificilmente chegará a algum lugar. Sozinho, constatará você que melhor fará se se dirigir ao próprio interior para continuar a jornada para aprender o caminho da luz.

Seguindo o caminho que leva a luz, você aprenderá que felicidade não se compra, empresta ou dá, que ela é produzida. Ao saber mais sobre você, lembrará que um dia, quando não falava e tampouco escrevia, você respondia, gratuita e generosamente, ao mundo que experimentava. Quando criança, independente da nossa aparência e da do mundo que nos rodeava, exalávamos bem-estar, contentamento, tínhamos um estado de espírito surpreendentemente revolucionário, pois a todos contagiávamos. Porem crescemos, saímos para o mundo, seguimos em direção ao mundo das coisas e às coisas do mundo, atrás de respostas, sem mesmo ter aprendido a fazer perguntas.

De posse da senha, estará você de frente para a fábrica de felicidade que todos nós trazemos internamente. Você logo perceberá que a chave da fábrica da felicidade está com você próprio, e que jamais deve negligenciar sua guarda, deixando-a em qualquer lugar ou confiando-a a qualquer pessoa. Você verá que é sua a responsabilidade pela produção do bem-estar, contentamento e estado de espírito surpreendentemente revolucionário capaz de contagiar as pessoas que o rodeia. Principalmente, você aprenderá a duvidar, afastar-se e proteger-se de toda pretensa felicidade, de tudo que não tem a simplicidade como essência, enfim, de todo projeto de ser feliz que o leve justamente ao caminho contrário a jornada que empreendeu.

Assim, ao final da jornada, solitário, sabendo-se mais rico do que nunca, aprenderá você que, por mais que ame outra pessoa, apenas poderá compartilhar as vibrações desse labor fundamental. Labor que vivido internamente, transforma o indivíduo que o pratica e o mundo que o rodeia. Então, mãos a obra, pois um novo ano, uma nova vida, começam agora! Vá, experimente saudavelmente o mundo, aprenda novas coisas, melhore ainda mais essa substância que você encerra, deixe o mundo mais feliz!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

“Curiosar” - descobrir mais sobre a vida e o mundo; manter as origens, ter onde pousar.

Rio de Janeiro, manhã, 14 de maio de 1998. Em mais um interessante capítulo da minha vida, fui ontem com minha namorada ao Museu do Índio, em Botafogo. Ela foi entrevistar o índio Carlos Tucano, para uma matéria da revista onde trabalha. No fim, o que seria mais um momento para fugir do ócio desse desemprego que já dura cinco meses, tornou-se outro momento de lição e aprendizagem sobre nossa passagem pelo tempo. Foi a primeira vez que estive frente a frente e que pude conversar com um índio, a base da sociedade brasileira, enfim, os primeiros brasileiros.

Ficamos quarenta e cinco minutos ouvindo Carlos Tucano contar sua história, a do seu povo e as lutas para a sobrevivência e preservação de sua cultura. Abri mão das minhas apreensões de ser urbano, desempregado, para ouvir o índio discursar sobre a importância da preservação dos valores, rituais e costumes de sua gente. Gente que, segundo ele, não deixa registros, apenas vivem. O índio não escreve, filma ou pinta, mas planta, caça, faz artesanato e, agora, absorve e é absorvido pela civilização, disse ele.

Carlos Tucano falou de suas raízes, da interferência dos missionários, da demarcação de suas terras, dos seus deuses e do mundo. Em um momento chegou a falar sobre a globalização e de como inserir sua gente nesse contexto! Um povo que luta pela demarcação de suas terras, preservação da sua história, e com o desafio de viver em um mundo globalizado, sem fronteira. Um índio falando da importância de resgatar a sua história em um mundo onde o tempo não pára.

Um dos grandes momentos da entrevista foi quando Carlos Tucano falou com sua calma, aparentemente inabalável, que o que ele mais gosta de fazer é “curiosar”. É importante “curiosar” para descobrir mais sobre a vida e o mundo, disse o índio, mas sem perder de vista as origens e as lutas pela sua preservação. Ele falava da fragilidade do ser indígena pulverizado pelo mundo, deslumbrado, encantado pelo “mundo das coisas”, mas que, se não se cuidar, não terá terra para pousar.

Ouvindo estas palavras, voltei-me imediatamente para a história da minha família, boa parte sedimentada em algumas cidades, mas que não se cuida e está pulverizada pelo Brasil desse fim de século. Somos muitos, mas atualmente estamos distantes, banalizados pelo consumo e pelo trabalho, apenas acompanhando, e sem deixar qualquer registro, o tempo que não pára. Somos muito semelhantes ao índio: meus familiares não escrevem, filmam, caçam ou pintam, poucos ainda plantam, trabalhamos isoladamente, sem compartilhar conhecimentos e aprendizagens; absorvemos e somos absorvidos pela vida econômica.

Existem poucos registros dos meus antepassados, sequer temos a posse de algum pedaço da terra de onde vieram meus avôs. Os parentes mais velhos estão falecendo e com eles vão, sem registro algum, as lembranças de quando tudo começou, em Pedro Teixeira e Muriaé. Meus avôs paternos e maternos já estão mortos; os primos e irmãos que ainda vivem estão longe de nós, mas perto das terras de onde viemos, morrendo no anonimato. Ironicamente não temos registro algum, apesar de terem tantas histórias para contar.

Levei as lições do Índio para o apartamento onde moro, na Tijuca, atual quartel general das minhas angustias e estranhamentos com a vida. Aqui estou mais longe ainda da nossa “mineiridade”, distante inclusive de Seropédica, onde meus pais se encontraram após suas famílias terem deixado as Minas Gerais. Em Seropédica estão meu pai, tios e primos, todos envelhecendo sem que sejam feitos registros, levando com eles os fragmentos de nossas raízes. Família que só sobreviveu às primeiras ameaças porque seus membros estavam juntos, somaram forças, compartilharam a sabedoria da "lide" na roça e que, depois que saíram de Minas, aprenderam novas “lides”, como a da mercearia e a de dar aula.

Aqui estou, homem urbano, desempregado, desbravando o tempo, querendo aprender nova "lide" longe das minhas raízes da roça, da mercearia e da lousa. Aqui estou, homem urbano, aprendendo com o índio sobre ir ao mundo sem perder os rumos de casa. Desse novo verbo, humildemente colocado, tirei mais uma lição e força para enfrentar esse momento de aflição: é preciso “curiosar” para descobrir mais sobre a vida e o mundo, sem perder de vista as origens e, principalmente, tendo onde pousar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Caprichosas, irônicas, insensatas e sempre marcantes remontagens de cenas da vida

Rio de Janeiro, 12 de Novembro de 2011. Por vezes a vida nos faz relembrar os diferentes papeis que nela desempenhamos, quando tínhamos a fala e o domínio da cena ou quando fomos apenas coadjuvantes ou figurantes neste fantástico teatro. Caprichosas, irônicas, insensatas, às vezes trágicas, mas sempre marcantes, são as remontagens que o viver patrocina.

Hoje, 14 meses depois que experimentei, pela primeira vez, um pouco da violência urbana há muito em cena por aqui, vi-me novamente envolvido nesta que é uma das piores produções que temos. Mudaram o cenário, meu papel, alguns personagens e parte do enredo. Mudança última esta que, não fossem as forças superiores, acredito, daria um desfecho mais tenso a esta segunda montagem, onde eu, minha filha e outros mais, não passamos de coadjuvantes de um espetáculo promovido pelo poder público e esses políticos que nos governam e as custas dos nossos recursos.

O cenário agora é o Rio de Janeiro. As cenas dão-se na Perimetral, e não mais no Morumbi, na opulenta São Paulo. Agora é o Rio de Janeiro, a marca registrada do Brasil, onde “se soma forças”, como diz a propaganda política. A cena se repete e, outra vez, bandidos fecham o trânsito e atacam os carros, destilando e distribuindo terror. Desta vez sou o motorista, não mais o passageiro. Como companhia a minha filha, não mais meu primo e sua família. Outra vez o humilhante contato com o que o poder público chama de estrutura de segurança pública. Um detalhe horrível do enredo, sabido apenas depois que tudo ocorreu: em São Paulo eu fui roubado, aqui eu e minha filha seríamos seqüestrados, para ir a bancos fazer saques, pegar valores em casa.

Eram quase 20:00 quando eu e minha filha passávamos pela Perimetral em direção a Av. Brasil para passar o feriadão juntos. Saí de Vila Isabel, calibrei os pneus na Praça da Bandeira e, na Francisco Bicalho, começávamos a falar sobre como tinham sido os últimos dias dela e dos planos para o feriadão. Ela pôs para tocar um cd com músicas das quais gostamos bastante, uma coleção de rock antigos e atuais. Na perimetral, tivemos o assunto cortado pela imagem de um imenso navio parado no cais, comentada esta com gargalhadas e pequenos palavrões que davam conta do tamanho da embarcação. Antes de chegar a alça que leva a Av. Brasil, noto intensa movimentação de carros atrás de mim, em perigosas ultrapassagens, estou na última faixa da esquerda, sou ultrapassado por quatro carros que se dividem na pista e começam a diminuir a velocidade, o que me chama atenção, fazendo-me frear. Por fim, em cima da hora, sou ultrapassado por dois carros, que ficam entre o meu e os carros que pararam de vez. Freadas buscas. No rádio, Amy Winehouse canta: “They tried to make me go to rehab/ But I said 'no, no, no'/ Yes, I've been black, but when I come back/ You'll know-know-know”. É irônico: em São Paulo, era uma canção da igreja, que dizia: Vem amigo vem /Vem para entregar este coração que Deus te deu/ para amar não para odiar...”.

Dos carros saem bandidos armados e encapuzados. Abaixo o som, ligo as luzes e digo para minha filha que tem um assalto naquele momento e que ela vai fazer tudo o que eu pedir. Libero o celular, mas minha carteira fica presa no bolso, estou nervoso. Os bandidos vem em direção ao meu carro e um coloca duas pistolas apontadas para a cabeça da minha filha. Este diz: “passa tudo de valor, bolsas, celular, tudo, porra!”. Digo que as bolsas estão atrás. Dou o celular e ele pede a carteira, dizendo que vai matar. Muito nervoso, digo que a carteira está em meu bolso de trás, peço calma a ele e para colocar a minha mão para trás e pegar a carteira. A carteira não sai, estou nervoso, temo pelo pior. Ele grita, eu me desespero, dizendo bobamente: “calma, estou pegando a carteira, Senhor, a carteira, não faça nada, por favor”. De repente um tiro para o alto, meu coração gela, e uma correria intensa. Abaixo-me com minha filha numa tentativa de proteção. Ela entra em estado de choque. Começam choro e gritos desesperados de minha filha que durariam, ao final, mais de 15 minutos. Deitados, abraçados, ouço repetidas vezes: “me tira daqui pai, quero a minha mãe, vamos embora!”. Nada pude fazer. Chega um policial e nos aborda.

À pedido do policial, saio do carro. Um pouco mais aliviado, realizo que voltarei a uma delegacia, como foi em São Paulo. Fico ao lado da minha filha, que chora e grita sem parar. A frente um carro parado e quatro homens. O transito começa a fluir. O policial os aborda. Três eram seqüestrados, estavam com os bandidos, que os levaram sem sucesso para caixas automáticos de bancos. Na correria, foram libertados. Um deles me diz: “você deu sorte. Era a sua vez. Estava em um dos carros, que é meu, e eles diziam que era para pegar você, mas o carro dele - apontou para um rapaz -, entrou em cima da hora entre você e eles, e estragou tudo”. Ficou claro que com o tiro, o carro do rapaz é que fora roubado. Ele próprio pensou que fosse morrer, pois cortou e parou em cima da hora, mas os bandidos foram em direção ao meu carro.

Começou a peregrinação. A polícia nos guia e, logo a frente, um policial e um carro roubado. Era o carro que os ladrões levaram! O policial diz que tem uma bolsa preta. Reconheço que era uma das minhas bolsas. Ele diz que a frente, três homens, em uma Kombi, em atitude suspeita, também foram detidos. Com eles tinha uma mochila preta, diz o policial. Peço para ver a mochila e aviso que também é minha. Diferente de São Paulo, os pertences foram recuperados, a exceção do celular. As 21:30 chegamos a 17ª DP, em São Cristóvão. O policial civil adverte: os flagrantes estão sendo feitos na 6ª DP, Cidade Nova. Em função da operação da Rocinha, policiais foram deslocados e houve concentração em algumas delegacias. Em São Paulo também peregrinei, e tive o desprazer de ver mais daquilo que a polícia pode fazer com pessoas de bem.

Chegamos a 6ª DP as 22:10. Aquela altura tinha apenas um caso sendo atendido e o balcão vazio. A nossa vista três policiais e o delegado. Dez minutos depois um policial aparece e fala com os PM. Ele diz que não pode atender, pois o flagrante daquela área é da 17ª DP. Ele desconhecia a mudança anunciada! Os rapazes detidos são levados para dentro da delegacia por outro policial. O Delegado pergunta se reconhecemos alguns dos detidos. Começam a chegar novos flagrantes, a sala fica cheia. As 23:00, o outro policial começa a atender os PM do nosso flagrante. A delegacia continua a encher e a fala com os policiais demora bastante. Aqui no Rio a relação entre policias parece ser mais amena do que a de São Paulo. De repente, com vários PMs no balcão pedindo atenção, o policial que atende nosso flagrante simplesmente levanta-se, liga a televisão e começa a assistir a luta do UFC, deixando sentado os PMs do nosso flagrante. É inacreditável, mas é real. Somos obrigados a vê-lo, feliz, dizer: deu Brasil! Ao seu lado, outros policiais, inclusive PMs, assistem a luta. Irônico, e escorchante, foi ouvir o Galvão Bueno descrever, em um replay, a seqüência de golpes que derrubara o americano: “esquerda, esquerda, direita, ... ai ai ai ....Cigano Venceu!”. Estávamos há mais de quatro horas naquela peregrinação, numa seqüência de eventos que nocautearam nossa cidadania, auto-estima, o emocional e que nos jogou sem piedade na lona que, naquele momento, era o balcão. Aquele policial nos dava mais um golpe. Contrariado, apos discussão com um colega sobre o seu ato, ele volta à mesa. As 1:15 da manhã começo a ser ouvido. O policial ainda pede desculpas pela demora, tenta explicar que só tinham duas pessoas para atender a todos os flagrantes.

Reaproveito e adapto o que escrevi em são Paulo: "em uma delegacia do Rio, as imagens das propagandas que tentam nos vender segurança e progresso assumem contornos que igualam todo e qualquer brasileiro: entramos com muito pouco, cidadania é uma mera aspiração, uma abstração, algo sem valor. E o pouco que nos resta, por aquela estrutura apodrecida, adoecida, nos será subtraído". Ironicamente, estamos numa Delegacia Legal, um factóide criado por um governo que teve o apoio irrestrito do atual governador. Nas paredes, vários certificados de reconhecimento da qualidade dos serviços ali prestados. Um quadro anuncia a missão da delegacia: “buscar o aperfeiçoamento otimizado das atividades desenvolvidas na unidade, desde o atendimento inicial ao público até os atos precípuos de polícia judiciária”. Outra ironia: o programa de qualidade se chamava PQSP – Programa de Qualidade no Serviço Público. Repetidas vezes, aquela delegacia ganhou o prêmio Gestão Nível 1 (100 a 199 pontos). Nos mandaram para a PQSP, sem dúvida alguma.

As 1:50 da manhã deixo a Delegacia, certamente muito parecido com o americano derrotado por Cigano. Nocauteado, nesta remontagem restou-me a irônica e humilhante cena de comemorar que ninguém tenha se ferido, feita solitariamente ao dirigir-me para o carro. Na semana em que o Ministro do Trabalho diz amar a presidente e que só sai do cargo com “bala pesada”, apesar dos escândalos em sua pasta, o policial somou suas forças com o Cigano. É isso: nocautear, humilhar, destruir o cidadão: marca registrada do Rio de Janeiro, marca registrada do Brasil. Espetáculo este remontado a todo instante Brasil a fora. Deu Brasil. Vamos comemorar?  

sábado, 15 de outubro de 2011

Da paixão que me move

UFRRJ, 25 de maio de 2011, prédio do PPG, 22 horas. Acabo de sair de uma das melhores aulas que dei em minha curta vida de professor. Ao menos para mim, os sessenta minutos em que tratei o tema comunicações de marketing foram sensacionais. Em verdade, foi a primeira vez que dei uma boa aula sobre esse tema do qual tanto gosto. Espero que os alunos tenham vivenciado bons momentos de aprendizagem nesses contagiantes minutos em que vivenciei intensamente o bom de ser um educador apaixonado pelo o que faz.

Saio da aula com uma ingênua ambição: se do tema central nada ficar, que da paixão com que atuei venha uma lição. Que a paixão seja o elemento que estimule e oriente mudanças sensíveis e objetivas no comportamento daqueles alunos. Principalmente o comportamento em relação ao envolvimento com o ensino e a postura enquanto aluno. Eles precisam cobrar mais dos professores e deles mesmos. Pois quem dá paixão merece, no mínimo, uma recepção apaixonada, um ambiente que fomente a paixão e seus desdobramentos positivos contagiantes.

O apaixonado é gratuito, generoso, quer a interação e a gostosa experiência do compartilhamento da energia que o move. Ele quer mais: é insatisfeito e não vai medir esforços para descobrir mais do que torna a vida mais interessante. Em sua ingenuidade, ele não verá os pequenos obstáculos convenientes aos pessimistas, o deserto de idéias e sentimentos familiar aos pragmáticos e as pequenas conveniências que inspiram os miseráveis de alma. O apaixonado vai acreditar que algo novo será produzido e vivenciado, que valerá a pena doar-se para essa busca que inevitavelmente leva a uma nova realidade, esta pedindo para ser aprendida, ensinada, compartilhada, transformada e experimentada.

Foi essa ingenuidade inspirada - e espero inspiradora - que me lançou hoje em direção ao que para mim torna a vida mais interessante: ver e ajudar o outro a crescer. Entendo ser este o meu papel enquanto educador. É uma experiência que ajuda a tornar o mundo melhor. Acredito muito nisso: no crescimento humano resultante da força transformadora do conhecimento. Foi assim que transformei as realidades que tive para experimentar, que plantei os sonhos e esperanças que empolgaram minha caminhada até aqui. Mais: foi pelo conhecimento que me apresentaram, ainda que dele pouco tenha apreendido, que mudei a mim, que jamais serei novamente aquilo que um dia fui. Mudei minhas atitudes e comportamentos em relação ao meu devir e a minha posição em relação aos outros, os objetos e ao planeta. Aprendi que viver é percorrer e preencher, com o que temos de melhor, o lapso de tempo e espaço entre a vida e a morte.

Contagiante e oportuno este dia de aula, esta sublevação da paixão. Sim, sublevação.  Pois apesar da minha vontade e consciência de que devemos lutar pela imanência do nosso sopro de vida, minha atual fase de professor anda seca, morna, insossa. Ando muito exposto a força negativa do meu coletivo de trabalho, com reflexos claros sobre meu desempenho. Ambiente de trabalho este marcado pelo pragmatismo, oportunismo e miséria de alma. Não vejo brotar do nosso fazer diário as boas idéias, nem reflexões responsáveis sobre o papel da educação e da universidade para a transformação social; não vejo emergir projetos coletivos ou pequenos e breves consensos de que devemos responder a altura o gasto do dinheiro público para manter nossa estrutura. Minha sensação diária é a de que para o nosso trabalho levamos e deixamos pouco, que de lá pouco extraímos, e que lá quase nada compartilhamos.

Hoje a paixão subverteu as regras da minha apatia e reivindicou a aplicação do estatuto da imanência. Ela ditou as regras e, quando percebi, apenas deixei-me levar, apenas consenti àquele assalto que, oportunamente, distanciou-me do cativeiro em que se transforma o dia a dia de uma universidade pública onde as pessoas estão orientadas para o seu próprio umbigo, que se aprofundam em suas ambigüidades, veleidades e narcisismos. Rendi-me a paixão. Lancei-me com força ao ato de doar-me para, uma vez exaurido, como encontro-me agora, abrir as portas para um outro dia em que algo novo será produzido e vivenciado. Ou melhor, aprendido, ensinado, compartilhado e transformado.

domingo, 25 de setembro de 2011

Dos riscos de acelerar as águas do rio

Vila Isabel, 24 de setembro de 2011, noite. Estudo matemática com Maria Luiza, uma rotina que se repete por apuros e não para confirmação de um percurso natural na formação de um estudante. Aula extra às que tem com professor particular. No sexto ano do ensino fundamental, onze anos recém completados, ela periga não mudar de série, ainda que tenha todo potencial de raciocínio lógico e matemático a ser explorado. Suas notas não avançam e os resultados mostram os efeitos drásticos da desatenção, falta de concentração, ansiedade e de um comportamento particular de não dar o braço a torcer quando alguém aponta que ela está equivocada.

A dinâmica do nosso momento hoje revela, caprichosamente, os problemas a serem enfrentados. Frente a um exercício de medição de área de uma superfície, ela não consegue fazer uma conversão de medidas. Paralisa. Abaixa a cabeça. Pergunto-a sobre o conceito: “quando ele foi estudado? Em que aula havia sido dado?”. Ela mexe no caderno pra trás e pra frente, numa busca tão desorganizada quanto inútil. Pego o livro, localizo a lição, datada e com exercício feito. Ela senta no chão, dobra os joelhos junto ao peito e fala: “queria que o ano estivesse começando de novo. Ano passado eu era desatenta, desorganizada, fazia tudo do mesmo jeito que faço, e dava certo. Esse ano não está dando certo. Está tudo muito rápido. Eu não sei o que está acontecendo”.

Penso nos detalhes de uma dinâmica de sala de aula que, distante, nem meu coração alcança. Calmamente deixo a mesa, deito junto aos seus pés, seguro suas mão e digo: “pronto, filha, chegamos a uma das respostas de que tanto precisamos para vencer esse desafio: você sabe matemática, apenas tem que mudar seu jeito de estudar. Pare de resistir a necessidade de mudança de comportamento. Você precisa mudar, aprender um novo jeito de fazer as coisas. Que tal tentar, a partir de agora, prestar mais atenção na aula, deixar as pessoas lhe ajudarem, e lutar para fazer bonito nesse restinho do ano? Não dá para voltar atrás. É para o futuro que devemos olhar”. A minha frente estava a mesma menina que, aos cinco anos, pedia aos pais para ir para um colégio para poder aprender a ler. Naquela época, pedia que lêssemos todos os outdoors, cartazes, letreiros, capas de revistas; dizia que queria aprender a ler. Levantei e deixei que ela se recompusesse e ditasse o ritmo do estudo.

Imediatamente lembrei-me dos pedidos da dona da creche onde ela estudava, em 2005, para que não acelerássemos a alfabetização. Nesta fase da vida, um ano faz muita diferença, dizia ela aos pais, vaidosos e otimistas com o desejo da filha de ler. Lembrei-me também dos dizeres de Brechet, presentes em uma placa que li há bastante tempo. Ensinava a placa que das águas bravas de um rio que, ao passar, tudo arrastava, muito se falava, mas nunca se falava das margens que comprimiam este rio.

Aceleramos as água do rio quando não havia quaisquer margens comprimindo-as. Então, conforme diminuem as margens a cada ano que passa, a cada cobrança de uma nova série, anseia minha filha por voltar o tempo. Ela não dá conta da situação. Erramos. Desde que um rio nasce, as águas não param, não retornam a nascente, seguem seu curso até desaguar em outro rio ou em um mar. É como a criança: cresce, deságua em um adolescente, que deságua em um jovem, que deságua em um adulto, que deságua em um idoso e que, por sua vez, deságua em um mar. Fica o aprendizado: como pais, devemos respeitar a topografia do leito, isto é, da vida e de seus percalços, e proporcionar as margens que acolhem as águas plácidas. Uma pequena contribuição para criar crianças saudáveis que desaguem em cidadãos saudáveis.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O caminho do coração e o do vento

UFRuralRJ, 21 de fevereiro de 2009, sábado. Eu e Malu, minha filha, passeávamos pela UFRRJ, de bicicleta, quando ela me proporcionou um momento inesquecível. Ao chegarmos numa encruzilhada, perguntei-a sobre o rumo que seguiríamos, se voltaríamos pelo mesmo caminho da ida ou se seguiríamos outra direção. Estava nublado e o horário avançado chamava-me atenção. Sorridente, disse ela: “Bem, vamos ver. Tem o caminho do coração e o do vento”. Em seguida, pôs o dedo na boca, encheu de saliva, o ergueu, dizendo: “vamos seguir o caminho do coração”. Ela definiu o caminho do vento como sendo o que já estávamos. "Esse a gente já conhece", disse ela. Seguimos o caminho do coração.

Instantes muito bonitos, inesquecíveis, mesmo sabendo que aos 8 anos de idade uma criança não segue outro caminho que não o do coração. Como uma doce e tenra criança, o mundo dela é o da imaginação, das brincadeiras, das mais puras emoções. É o mundo onde se cai, machuca, assopra a ferida e recomeça-se tudo de novo. É o mundo da magia. O mais belo dos mundos, porque sai direto do coração.

Naquele instante, o caminho do vento era o caminho da razão, aquele que já fora percorrido ou que se está percorrendo. Sim, uma leitura que foge ao senso comum do que seja o caminho do vento, o de ir sem rumo certo. Naquele instante, o caminho do vento era o da não surpresa, do revisitar o conhecido, do não surpreender e do não ser surpreendido. Malu deu ao vento a cara da razão e perpetuou no coração a cara da emoção.

Comecei a pensar nos rumos que sigo em minha vida, nos que segui e nos que devo seguir. Visualizei que, na maioria das vezes, havia seguido o caminho do vento, que havia negligenciado o caminho do coração. Pelo mais puro medo de sofrer, acabei sofrendo por ter faltado na trajetória que empreendi o mais gostoso da emoção. Quantas vezes fugi da surpresa, revisitando o conhecido! O medo da emoção, de experimentar decepções, levava-me a querer controlá-la, aprisionando-a. Pura ilusão. Aprisionado estava eu. E também perdido: conforme fui pelo vento, mais me senti perdido, sem chão, pois fui atrás de quem eu jamais seria: um homem movido basicamente pela razão.

Naqueles instantes, com a ajuda da Malu, eu chegava à encruzilhada da qual mais precisava. Decidi reaprender a caminhar pelo caminho do coração, que é o caminho que sempre me gerou o senso de pertencimento a algo que seja confortante neste mundo. Pois, definitivamente, estou onde meu coração está, onde meus afetos mais caros e fortes se manifestam. Estou professor, pois adoro aprender e contribuir para que o outro cresça. Estou em minha família, pois sinto muito orgulho e admiração pela trajetória deles. Estou na literatura, pois adoro o caminho das palavras e as palavras do caminho. É nesse estar que, apesar das decepções, mais vivo e feliz estou.

Seguirei o caminho do coração, que não é o da inconsequência, como me ensinou minha filha. É o caminho da emoção que anima, que nos torna mais humano, que nos dá a noção correta da nossa fragilidade e finitude, permitindo-nos uma doce alforria da ilusão de que podemos controlar tudo. Vou sem pressa, feliz, consciente de que não posso mais me submeter aos caprichos da ilusão de querer ter o controle de tudo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A primeira morada

Muriaé, 7 de Fevereiro de 2010. Aproveitei que passava pela cidade, retornando de uma viagem a trabalho, para visitar, brevemente, parentes e amigos. Algo que faço com muito carinho por aqui é passar na casa da Hérika, amiga de longa data, onde aproveito de uma recepção sempre muito agradável. Nessa época, o clima de sua família fica ainda mais gostoso, pois sua irmã, cunhado e filhos, costumam ficar lá nas férias.

Seus pais sempre me receberam com muita distinção. Com sua mãe, Marli, tenho abertura para boas conversas, estas que abordam família, profissão, vida econômica, história da família do meu pai e detalhes do cotidiano da cidade. Se deixarmos, conversamos por horas, pois somos bons de prosa. Também gosto muito de ficar naquele quintal, com uma mangueira que torna bonita a divisa do lote com a Rio-Bahia, e que compõe uma bela visão daquela casa diferente, pois ela acompanha o formato da esquina ao final da rua Eucário Godinho, para quem segue do Centro em direção ao bairro Dornelas. 

Em determinado momento da visita, a última antes de continuar a viagem em direção ao Rio de Janeiro, Marli perguntou-me sobre minha vida. Ela queria saber mais sobre mudanças que, em outra conversa, eu mencionara querer fazer. Mudanças como a de retornar à UFF, Volta Redonda, movimento que fiz em 2008 e que acabei não levando a frente, retornando à UFRRJ, Seropédica, no início de 2009. A realidade que criei com a mudança foi tal que não consegui sustentá-la, disse a ela. Retornei para repensar e refazer com calma aquele movimento, procurando dar sentido à bagunça em que se transformara meu cotidiano. Sobre a retomada desse projeto, contei-lhe sobre o que queria alcançar no futuro, como a construção, juntos com os colegas de trabalho, de uma escola de negócios diferenciada. Esta que seria um estímulo a mais para usar de minhas energias, coisa que o ambiente da UFRRJ e do meu departamento não propiciavam. Falei do quanto estava difícil ficar trabalhando num local onde não se fala em projetos para o futuro nem se demonstra algum envolvimento com a lide de educadores. Disse a ela que o concurso nos dava a condição de professores, mas que não buscávamos ser educadores. Por fim, em tom de pesar, falei da casa que deixaria em Seropédica caso materializasse a escolha, e reforcei a necessidade que tenho de encontrar um lar e, enfim, fixar meu pouso.

Vendo minha euforia -- e nesses dias eu estava de fato exasperado -- e meu discurso, que me transformava numa insatisfação ambulante, Marli falou-me de duas moradas: a da alma e a do corpo. Com seu jeito calmo, didático e franco, ao mesmo tempo em que levava sua mão à altura do meu peito, falou-me que eu só irei encontrar essa morada, lar, ninho, pouso, etc. se tiver encontrado a morada da minha alma, indicando com um dedo o meu peito. ─ Primeiro encontre essa morada para repousar ─, disse ela. Pediu para que eu repousasse minha alma para ter a paz, harmonia, força, fé necessárias para enfrentar a vida, seus desafios e desdobramentos. Via-me afoito, nervoso, ansioso, querendo fazer as coisas, mas não sentia em mim a plenitude para realizar o que queria. ─ Esta plenitude só se alcança com a alma acolhida, protegida, alimentada ─ complementou.

─ Quando sua alma estiver na morada dela, as coisas ficarão menos difíceis do que realmente são, e, quem sabe, não encontra a outra morada? ─, disse ela. Sem mudar seu tom, finalizou lembrando que quando a morada da alma está bem alicerçada, somos capazes de enfrentar qualquer intempérie, qualquer mudanças, que somos capazes de viver mesmo na morada física menos remediada. ─ Todos precisam dessa primeira morada ─, finalizou.

Não foi preciso mais conversa. Guardei aquela mensagem em meu coração, protegida e reforçada com a força do meu silêncio, enquanto refletia. Além disso, deixei a casa naquele dia com um CD de mantras católicos, dado-me para escutar durante o retorno ao Rio de Janeiro. Deixei a casa e fiquei espreitando-a alguns segundos antes de pegar a estrada. Uma fotografia única. Para quem passa pela Rio-Bahia, em direção ao Nordeste (ou à Itaperuna), logo após a primeira entrada para a cidade, lá estão a casa, a esquina e a Mangueira. Dentro deles, ou abraçando-os, uma morada da paz.