sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A melhor escola do mundo

Muriaé, 13 de agosto de 2015. No dia 12, decidi começar por Muriaé o que chamei de ‘Necessário retorno às origens da minha origem’, que consistia basicamente em visitas às cidades onde meus pais nasceram, Muriaé e Pedro Teixeira. Nessas viagens, além de visitar meus primos e amigos, solicito que falem da vida que meus pais e demais familiares tiveram, do que faziam e de como eram na infância e na juventude; procuro obter informação para ler e entender fatos e contextos que explicam as trajetórias que meus familiares construíram em vida. Trajetórias que, com raras exceções, são dignas de leituras bem detalhadas para obter boas aprendizagens sobre como lidar com a vida e seus desafios. 

A vida deles não foi fácil e ela foi a escola que tiveram, ao contrário de nós, segunda e terceira gerações, que tiveram e têm acesso às melhores escolas do sistema educacional. Não conheci meus avôs paternos e tive pouco contato com minhas avós maternas. Meus familiares não deixaram documentos, não registravam suas façanhas, todo esse patrimônio histórico familiar, tudo o que se sabe está no depoimento e na memória de algumas pessoas que estão envelhecidas, lutando contra o pouco apreço do tempo para com as palavras sem registros. Toda prosa que traz a vida dessas pessoas à mesa, que conta suas aventuras e desventuras, é para mim o tempero especial de um delicioso banquete.

Outra coisa que gosto de fazer em Muriaé e em Pedro Teixeira é andar pelas ruas para apreciar as transformações nas construções e nos hábitos dos moradores. A privilegiada condição de observador, ainda que suspeitíssima nos dias atuais, permite acessar situações repletas da rica substância oriunda da mistura de ambiguidades, tensões, contradições, esperanças, apostas e temores experimentados pelas pessoas quando lidam com contextos de mudanças – as que promovem e das quais são apenas meros expectadores. Essas cidades, ainda que em ritmos bem diferentes, estão mudando. Ando bem devagar por elas, registro o que vejo e sigo comparando com os registros anteriores, formando um quadro particular e bastante subjetivo de análise e avaliação dessas mudanças.

Hoje, aproveitando carona do primo Fábio Gonçalves, comecei a andança pela praça João Pinheiro. Gosto de olhar para as construções antigas que ainda sobrevivem e ficar imaginando onde o trem passava e como era a rotina da cidade atualmente adoecida pela quantidade de carro transitando. Também andei pelo comércio em busca de promoções, de produtos que, ainda que fora da moda, atendem perfeitamente às minhas necessidades atemporais.

Decidido a fazer logo as visitas aos parentes, saí da praça, peguei a rua Arthur Bernardes e fui seguindo em direção à Barra, bairro onde moram alguns parentes. Dei uma parada quase que obrigatória para ver os colégios Santa Marcelina e São Paulo. Gerações de Murieenses se formaram nesses colégios, entre eles muitos primos. Uma lembrança que tenho das minhas idas à Muriaé era o cuidado que minhas tias tinham com o ano escolar dos seus filhos. O ritual mexia demais comigo, pois da compra do material escolar e a preparação dos uniformes, passando pelo encapar os cadernos e livros, tudo era feito com muito calor, capricho, envolvimento, coisa com a qual não pude mais contar com a partida de minha mãe.

Quando passava em frente à praça da antiga prefeitura, parei para apreciar a construção. Rapidamente me dei conta de que estava de costas para o belo prédio da biblioteca da cidade. “Preciso visitar uns livros”. Ironicamente, no início da semana, pensei em criar uma campanha de incentivo à leitura nas redes sociais e cujo tema era ‘Visite um livro’ e realizado que eu próprio não tenho destinado às obras e aos seus criadores o tempo e atenção que merecem. Mais irônico ainda era ser aquela importante biblioteca uma ilustre desconhecida para mim. Para marcar ainda mais o momento, nos primeiros passos dei de cara com uma exposição sobre Pedro Nava. Há pouco tempo, conversando sobre meu desejo de ser escritor e lamentar a idade que tenho, Césas Froes, colega de trabalho, me lembrou sobre Pedro Nava e falou que não há idade certa para transformar inquietude e estranhamento em literatura. Pedro Nava é outro ilustre desconhecido para mim e, conforme lia os cartazes, realizava que o tanto que desconheço dele revela apenas pequenos detalhes do tamanho do meu desconhecimento e ignorância em relação à literatura brasileira.

Ao sair da biblioteca, me deparei com um livro para registrar presenças. Preparava o registro da minha presença e me deparei com uma situação que está entre as mais marcantes da minha breve existência. A pessoa que assinou antes de mim deu uma demonstração sábia, simples e ao mesmo tempo forte do valor dessa que é a melhor escola do mundo: a vida. Em uma coluna que praticamente obriga ao assinante dizer a escola a que pertence, ele escreveu ‘VIDA’. Lamentável a gerência da biblioteca ter a necessidade de colocar uma coluna chamada ‘Escola’, não dando chance ao visitante que não é estudante de poder registrar mais sobre ele, a razão da presença e a qualidade da experiência que ali teve. É um livro que foca nos estudantes do sistema formal, cobrando que informem o nome da escola que frequentam, como se só eles fossem lá, como se ali fosse exclusividade desse tipo de aprendiz; não é um livro que se abre para registrar a presença e experiência de todos aprendizes que ali visitam. 



Esta pessoa, que assina Hélio M F, 55 anos, deu, e com muita elegância, uma resposta à esdruxula sensação vivida pelo visitante que não é estudante ou não estudou, mas que é aprendiz, ou que, sendo de fora da cidade, não vê sentido em colocar o nome da escola onde tenha estudado. Na coluna escola, Hélio M F colocou um retumbante ‘VIDA’, a escola onde certamente se formou e da qual não tem vergonha alguma para demonstrar o pertencimento. Falei com o atendente se ele tinha visto aquela obra de arte e logo fui informado de que Hélio sempre faz aquilo. Infelizmente, apesar de conhecida a situação, a gerência da biblioteca não faz nada. Ele registrou que o motivo era leitura. Eu, atônito, registrei curiosidade, quando deveria ter colocado ‘aprender’. 

Não sei se Hélio faz aquilo para provocar ou reclamar de fato. Entretanto, como a gerência da biblioteca não aprimora a maneira como registra frequentadores e suas metas, não faz um retorno necessário às origens de sua origem, Hélio insiste em lembrar que os alunos da Escola da VIDA, independentemente de suas origens, também visitam os livros.

   

terça-feira, 14 de abril de 2015

Atrás da chave

Domingo, oito de março de 2015. Acordei na casa da minha namorada e não encontrei as chaves da minha casa. O dia prometia: preparávamo-nos para fazer um passeio e eu precisava tão somente cuidar dos cães, trocar de roupas, tirar o carro da garagem e aproveitar o nosso tempo.

Procurei bastante as chaves e a demora em encontrá-las dentro da paisagem conhecida – na casa, no carro dela e onde estivéramos ontem – angustiava-me. ‘Onde, afinal, pusera eu as benditas chaves da minha casa?’, perguntava a mim mesmo em sonoros pensamentos. Meu mal estar com a situação era notório e, para agravar, minha namorada não demonstrava empatia, preferindo, após breve ajuda, ficar parada e fazer a famosa cara de "a chave é dele e ele é quem tem que se virar".

Apesar do mal estar, meus pensamentos automaticamente conduziam-me para uma outra paisagem – a da abstração –, um pouco longínqua, mas que a alçamos com facilidade quando declinamos ao óbvio que rotineiramente nos espreita. ‘Por que deixei-me nessa condição de não poder exercer plenamente meus planos e escolhas e justamente por causa do sumiço das chaves de casa?’, questionei-me. Esse padrão de divagação sinaliza minha chegada à fronteira entre as paisagens. É nessas horas que recorremos ao que acreditamos saber de psicologia, aderindo a bordões como: ‘Pense no significado de perder a própria chave – isso tem algo a lhe dizer’; ‘Tem fatos por trás do óbvio pedindo sua atenção, reclamando uma leitura diferenciada sua’.

Longa viagem de reflexão para um domingo de manhã, para a necessidade óbvia de alimentar os cães e dar a eles atenção merecida. Tratei de ligar para a pessoa que trabalha em minha casa e que geralmente sai com essas perguntas de difícil resposta. Ela comenta: como é que você perde as chaves da sua casa?. Evitei seus difíceis questionamentos. As chaves viriam por uma das Kombis que ela pega para ir trabalhar. Caberia a mim ir até o ponto final e pegá-las, o que demoraria um pouco mais que de costume dado que no domingo a frequência diminui bastante e porque, afinal, é dia de feira.

A feira fica ao lado do ponto final das Kombis e seu movimento influência a rotina daquela parte da cidade de Seropédica – tudo ocorre no ritmo da feira, no vai e vem possível e completamente caótico de pessoas, veículos, motos e bicicletas. Ao final, outra recomendação dela: ‘olha, vai demorar um pouco para chegar’.

Terminada a ligação, dirigindo-me ao ponto final, ultrapassei de vez os limites entre as paisagens e rendi-me à divagação. Comecei a perguntar-me: ‘de onde eu não quero sair ou aonde eu não quero entrar, perdendo essas chaves?’. Rapidamente cheguei ao ponto final, sem ao menos saber em qual Kombi viria e quando. Para chegar lá, passei apressado pela feira, esbarrando em pessoas, indiferente àquela paisagem real.

— Já estou aqui. — digo após saber do número da Kombi.
— Hoje é domingo, vai demorar. Saiba esperar. — reforça ela.
— Pode deixar, espero. Demorei nove meses para nascer. — finalizo de pronto.

Após o breve contato, dou-me conta de que foi a primeira vez que fiz uso dessa expressão e que demorei bem mais do que nove meses para nasce. Durante um bom tempo minha mãe tentou engravidar, o que só ocorreu após tratamento com hormônios. Realizo ser um fato sabido, porém altamente negligenciado de minha parte; que passei boa parte desses 43 anos em correria desabalada pela vida, experimentando bastante angústia e desconforto para alcançar logo alguns objetivos que elegi como especiais; que considerei alguns pontos da minha trajetória como sendo mais importantes do que a edificação dela como um todo; que a trajetória soma o tempo que paguei nos bastidores dos sonhos, vontades, tentativas, limites e frustrações dos meus pais a este tempo que transcorre; que a trajetória liga dois continentes simbólicos – este após o nascimento e o outro em que meus pais ficaram tentando ter o primeiro filho.

Prossegui na divagação: ‘como teria sido minha vida se eu não tivesse negligenciado essa realidade, se tivesse sido mais tranquilo e comedido na abordagem da relação entre essa dimensão especial do meu viver e o tempo em que ela transcorre?’, ‘como teria sido minha vida se eu tivesse dado atenção àquelas vozes sorrateiras da intuição que, algumas vezes, disseram-me: “importante para você não é o continente em que está, nem sua duração,  mas o conteúdo com que vai preenchê-lo”’.

Surpreendentemente, esperei com calma a chegada das chaves, sentado em um meio fio naquela pitoresca paisagem seropedicense. Assim que as peguei, decidi passar lentamente pela feira, tentando ter outra percepção daquela realidade. Decidi que olharia com calma, e detalhadamente, o “conteúdo daquele continente de todas as manhãs de domingo”, enriquecendo de novos significados o novo tempo em que minha trajetória acabara de entrar, pois, afinal, havia encontrado as chaves.

Dentro da feira encontro uma prima muito querida, que me diz que outra prima, também muito amada, está muito mal no hospital  – ela caíra de moto ontem, quebrara alguns ossos e estava com hemorragia.

Aos 68 anos, há pouco tempo esta prima começou a frequentar os treinos de motocross do neto e a dar algumas voltas de moto. Seu filho foi um grande corredor – um campeão – e seu neto ainda compete e tem o mesmo sucesso. Dias atrás, em breve conversa, disse-me ela que viu no motocross uma renovação para os dias em que se encontra: deprimida, tensa com a realidade simbólica de substituir a mãe recém-falecida no cuidado aos irmãos altamente dependentes.

— Ela viu na velocidade a resposta para muita coisa que sentia —, disse-me a prima em natural tom de pesar e ultrapassando com facilidade peculiar a fronteira entre as paisagens do óbvio e da abstração. Ela tem esse dom.

Concordei plenamente, como se fôssemos dois contumazes confidentes sobre as escolhas mais complexas que nossos próximos (e os nem tão próximos assim) fazem sobre quais portas abrir ou fechar, quais caminhos a seguir e qual velocidade imprimir; como se habitualmente aplicássemos aquela nossa presumida sabedoria ao nosso próprio dia-a-dia. Logo eu, que tinha perdido as chaves.

Fiquei sabendo que ontem os técnicos haviam pedido para ela não correr demais, para andar sem pressão, pois aquela era a vitória, a chave para ela: encontrar um hobby e viver toda empolgação que ele desperta, pois a competição, para ela, era mero detalhe. Não deu. Pelo que entendi, ela acelerou, caiu e encontra-se internada e com alto risco de ficar paraplégica.

De lá fui atrás de noticias sobre o estado de saúde da prima e ter mais informações. Entrei em contato com o desânimo das pessoas, suas dores e suas reflexões objetivas sobre "obviedades" relativas ao fato de uma senhora de 68 estar andando de moto, expondo-se ao risco dessa atividade. Não encontrei quem se dedicasse aos por quês dela, do alto de seu livre arbítrio, usar essa atividade – buscar essa chave – para alçar o que queria, pois, talvez, aquela não era “a chegada, mas apenas um ponto de passagem”. Eu Chegara tarde àquela divagação: quando ela me contou que tinha começado a treinar, eu pensei tão somente que se tratava de uma distração, ocupação de mente com algo que, afinal, era conteúdo habitual do seu continente de quase sete décadas de extensão e duração. As motos fazia parte do mundo dela.

Fiz o que pretendia fazer e voltei à casa da minha namorada para olhar mais detidamente a paisagem conhecida. Sentei-me no banco de passageiro do seu carro e refiz a busca. As chaves estavam em uma posição específica embaixo do banco e para onde eu anteriormente havia lançado um olhar displicente e recusado-me a estender um pouco mais a mão para vasculhar a área. 'Por que recusei-me, naquele instante, estender um pouco mais a mão?', perguntei-me com as chaves à mão. 

Não fizemos o passeio nem aproveitamos o nosso tempo. O dia foi péssimo, pois, além da tristeza com a situação da minha prima, eu ainda prolonguei meu descontentamento por não ter vivenciado, do jeito que queria, o envolvimento de minha namorada para encontrar as chaves que, quem sabe, me tirariam de onde eu precisava sair ou me colocariam onde eu precisava entrar.

(Os dias se passaram e eu pretendia visitar minha prima, pois queria ouvi-la, confortá-la, dar a atenção e carinho que sempre me dera; tínhamos intimidade para essa "abertura de porta" que seria tênue, densa e tensa. Não deu. Aos dezesseis de março ela veio a falecer, após os médicos terem debelado a forte hemorragia, feito a primeira cirurgia reparadora; quando ela estava  bem).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Proteja seus sonhos

Usando linguagem que me é peculiar, e tentando relacionar a escolha profissional com o desafio de edificar uma trajetória de vida digna, ofereço uma leitura desses 20 anos de formado em Administração.

Há 20 anos administrador formado, 43 anos de idade, mas ainda em processo de consolidação para desempenhar decentemente as atribuições dessa carreira e função. Ser um bom tomador de decisões ou um grande estrategista, por exemplo. Em uma dessas atribuições preciso e muito melhorar o desempenho: gerir o complexo de atributos cognitivos, culturais e emocionais que todo grupo encerra.

Todos os dias acordo e durmo com a sensação e a certeza de que ainda tenho muito a aprender. Porque é imanente à função de gestão que todo bom gestor desenvolve e protege os ativos ou principais recursos de uma organização, evitando uma gestão temerária. Como desenvolver e proteger ativos sem conhecimento? Gerenciando aprende-se muito, principalmente que não existem ganhos sem que se incorra em custos e sacrifícios.

Não tenho mais os 19 anos de quando deixei o Colégio Técnico da Universidade Rural (CTUR) para entrar na UFRRJ e ainda assim continua extremamente delicado pensar na gestão dos ativos que podem constituir ou fazer parte da trajetória de uma pessoa por esta vida.

Olhando com cuidado, vemos que uma vida implica, com o passar do tempo, num misterioso e desafiador processo de transformação de ativos extremamente delicados (sentimentos, valores, atitudes,  comportamentos e sonhos) em ativos não menos delicados, como conhecimento técnico e profissional, sabedoria, reputação, redes relacionais e patrimônio material ou ser economicamente ativo.

Entendo que envelhecer seja isso: transformar sonhos e sentimentos – o que temos de maior valor na juventude – em todos os outros ativos sequenciais, até chegar à fase em que constatamos que tudo o que temos, de fato, é sabedoria, lembranças e saudade. Ativos estes que ainda podem ser corroídos pela inexorável dinâmica da realidade biológica quepor vezes nos traz, antes do perecimento absoluto, o esquecimento total.

Admitidas algumas exceções, passamos boa parte desse processo de envelhecer alavancados, isto é, dependendo e muito dos imperiosos aportes que só os outros podem prover. Quando jovens, temos muitos sonhos e sentimentos, mas quase nada dos outros ativos, dependendo bastante das constantes negociações de tempo e espaço inerentes ao que nomeamos "busca por oportunidades (ou seria aquisição de crédito?)". Quando amadurecidos, ainda que tenhamos sido felizes ou muito tristes, estudados ou não, que sejamos ou não capazes de ensinar ao outro, temos sim bastante sabedoria, toda ela devidamente tatuada no que brejeiramente chamamos “lombo”. Ao final, todos os créditos que amealhamos são imobilizados no "lombo". 

Aos 43 anos, levo comigo a certeza de que sei muito pouco, o que por vezes me assusta, dada a frenética produção de conhecimento. Mas isso não me desanima, pois se há o muito que não sei, não existe o que eu não possa saber. O sopro de vida para manter-se aprendendo é outro ativo que devemos proteger.

Os títulos que amealhei, se por vezes afagam o ego e garantem alguma liquidez, na maioria das vezes não me são uteis – nem deveriam ser – para lidar com o constante desafio de gerenciar os ativos imanentes à trajetória. Há uma fase da vida em que o título que lhe confere bom acesso a crédito não é o de doutor, mas o de confiável, de bom pagador.

A profissão de professor, esta sim, uma grande provedora de momentos felizes. Mas sou um mero professor, um dos que, num semestre desses da vida e numa disciplina específica, cruza a trajetória de muitos outros administradores.

Aos trancos e barrancos, tentativas e erros, aproveito a dádiva de ter a rede relacional – formada de amigos, colegas e parentes – que me deu suporte nesta vida. Se não fossem essas pessoas, eu não teria cumprido o pouco que andei. O que tenho de material, aprendo, não é motivo de orgulho, e, se é para ter orgulho, que seja da saudabilidade e vigor transformador dessa rede relacional. Orgulho-me de tê-los por perto e a eles muito admiro, pois continuam fazendo muito.

Apesar dos meros 43 anos, por vezes a sabedoria dá sinais do seu processo de consolidação. Por exemplo, às vezes surpreendo-me com algumas soluções que apresento para problemas que me criam ou que eu mesmo crio para mim e com os desafios que coloco-me para encarar os dias que chegam. Sim, é sim sinal de alguma sabedoria sendo tatuada no lombo. É o que tenho a dizer sobre alguns sorrisos que trago estampados no rosto em situações em que outrora estaria chorando ou amarrando uma cara de assustar. O feedback que recebo de minha filha, Maria Luiza, é o melhor certificado dessa consolidação, e com ele protejo a riqueza que é esse amor que sentimos um pelo outro.

Lá atrás, em 1988, quando entrei no CTUR, queria ter logo uma profissão para ser independente do meu pai. Enquanto estudante, conheci a área de marketing e comecei a sonhar intensamente em ser profissional de marketing ou de propaganda. Fui para o curso de Administração pensando em ser um executivo de marketing. Inclusive escrevi num diário que eu jamais seria professor. Sim, gastei nessa escrita muitos dos créditos que temos para dizer coisas sem se preocupar com o impacto do que estamos dizendo sobre nossas próprias vidas.

Cheguei à UFRRJ com muitos sonhos, mas com algum dinheiro e conhecimento que amealhei no ultimo ano do CTUR, quando vendi algumas coisas da horta escolar e, junto com um primo, comecei a vender peixe em Seropédica. Fiz um concurso público e tornei-me servidor de nível de apoio da UFRRJ. Formei-me Administrador sem muitos sustos, pois tinha uma reserva.

A semana que culminou no dia 24 de setembro de 1994 foi intensa e desafiadora. Eu era puro amor e sonhos, os caros e delicados ativos intangíveis que eu tanto sentia. No dia 23 de setembro, na rua onde morava, fui surpreendido pelo pedido de noivado mais espetacular que experimentei. A aliança nos dedos intensificava a conexão entre os sonhos de ser executivo de marketing e o desafio de ir morar em BH. Na formatura, lembro-me, apesar das apreensões com o futuro, eu era um homem experimentando gostosa e verdadeira alegria. Passaram-se vinte anos.

Os vinte anos culminaram num administrador, professor de marketing, pai, irmão, colega de trabalho, amigo, cidadão, em busca da edificação de uma trajetória de vida digna. Foi-se o executivo, mas a arte do possível fez-me professor. Aqui estou, 43 anos, cada vez mais atento à responsabilidade de continuamente transformar e proteger ativos ou, lido de outra maneira, de esmerar-me para que seja o menos oneroso possível a meu corpo e minha alma transformar sonho e sentimento em alguma sabedoria.

Portanto, se há algo que eu possa dizer para alguém, a título de conselho ou advertência, é: proteja seus sonhos. O desafio de protegê-los vai dar um toque a mais de sabor à sabedoria que lentamente vamos acumulando.

Marco Souza

24-9-1994 --> 24-9-2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Aprendizagens que não cabem mesmo em uma embalagem

“A vida é uma escola”, ouvi há bastante tempo. Eu que já tinha lá minhas diferenças com a escola formal, fiquei ainda mais assustado. “Se aqui na escola está assim, imagine quando eu sair daqui para enfrentar a vida”. Diziam-me para estudar e ser alguém na vida e isso me era assustador.

Àquela época também me diziam que só havia uma vida. Era ‘vai ou racha’, ‘tudo ou nada’, ‘aqui se faz aqui se paga’. Também tinha uma apavorante, mais ou menos assim: ‘aprende agora, se não é o mundo quem vai te ensinar, e sai mais caro, às vezes pagamos com a própria vida’.  Que horror ouvir aquilo. A coisa era difícil de ser apreendida, pois tinha escola, mundo e vida e toda aprendizagem tinha que caber na mesma embalagem, numa mesma vida e eu não sabia se daria conta.

Durante algum tempo achei que foi a escola que não me ofereceu oportunidades e experiências que ajudassem a ter uma compreensão mais consistente sobre o que era a vida e o mundo; depois é que entendi que eu é que não tinha consistência para entender o que a escola me mostrou sobre o que eram a vida e o mundo.

Sobre o tempo ou a passagem dele, na escola eu só lidei em Física – quando sofria para entender que o tempo tinha relação com a velocidade e a distância –, em Língua Portuguesa – quando esclareciam sobre os tempos verbais – e no campo – quando ensinavam sobre o preparo do solo, escolha e plantio da semente ou da muda e sobre tratos culturais e colheita. Não tive laboratório para aprender sobre o tempo de ou numa reação química. Mundo era Geografia, vida era Biologia.

Recentemente, ao ler meu diário de 1996 – ano que batizei como ‘o que demoraria para acabar’ – tive uma demonstração de como passei onerosamente pela vida, de quanto desperdicei, de energia mental e física, para lidar com os desafios da embalagem única. É um diário de quase 600 páginas onde demonstro uma ansiedade louca para lidar com o tempo, querendo acelerar coisas para chegar logo ao ‘próximo prato’, mas sem viver plenamente o que tinha para comer no ‘prato à minha frente’. Após a leitura, decidido, disse a mim mesmo: “Relaxa, vá devagar, dê tempo ao tempo. É hora de ser sábio e saiba que você está envelhecendo”.

Hoje, quando saia de casa e fechava o portão, tinha à frente dois vizinhos, dois senhores de idade, experientes, que conversavam alto e anunciavam que iam à feira. Pensei: “Que legal, esses já fizeram suas vidas, cumpriram seus compromissos; são escolados, senhores do seu tempo e agora caminham tranquilos para fazer a feira”. Comecei a acompanhá-los, tentando ouvir a conversa, mas ainda estava bem distante.

Quando chegou no primeiro cruzamento, eles pegavam à esquerda e seguia direto. Vi que eles pararam e começaram a gesticular um para o outro. Quando cheguei mais perto, um deles olhou para mim e disse:

─ Tô falando para andar mais rápido e ele diz que a feira não vai sair do lugar. Humm, quem não tem pressa é porque não precisa chegar a lugar algum.

O outro senhor, contrariado com a fala do amigo, virou para mim e disse: 

─ E quem disse que pressa é garantia de chegar a algum lugar? O que você acha que devo dizer para esse velho chato e apressado?

Surpreso com o que me mostravam ‘os dois professores’ cheios de vida e mundo em suas costas, logo relacionei a situação com o que tenho pensado sobre como vivi e vivo. Esbocei um sorriso amarelo e caí no lugar comum, poderia ser mais profundo:

─ É, tem que negociar direitinho as vontades de vocês aí.

Os amigos foram resmungando e gesticulando rua afora e segui meu rumo pensando na resposta miserável que dei e que sequer refletia algum aprendizado que carrego nas costas dessa embalagem. Afinal, como eu negócio as diferentes vontades que tenho, com as diferentes maneiras que se pode aprender nessa ‘escola-mundo-vida’ e com o que, afinal, deva ou não caber numa mesma embalagem?

terça-feira, 9 de abril de 2013

A mão que faltava

Em 19 de março de 2013, estava na casa de Carlos Augusto, o Cacau, no Aterrado, em Volta Redonda. Começamos o contato por questões profissionais, mas logo fomos para a interação menos formal, muito em função do seu carisma e acolhimento. Além disso, eu retornava à cidade que marcou muitas das minhas voltas pelo mundo, voltas que dei ora como uma pessoa que queria, mas não sabia definir o que buscava, ora como uma pessoa que até sabia definir o que queria, mas que vacilava ao buscar.

Fui participar de um concurso na UFF, atendendo ao pedido de um saudoso colega de trabalho que há meses, ironicamente, me pediu para dar ‘uma mão’ nessa dura empreitada. Desta vez, encontrei dicas para perguntas que ainda não sabia fazer sobre como conduzir futuras voltas que ainda espero dar em minha vida, e dicas sobre como agi em muitas das voltas que dei. Conheci um pouco mais sobre o mundo que se descortina aos nossos olhos quando colocamos, com vontade e intensidade, as ‘duas mãos’ no timão do navio que escolhemos para navegar pela vida.

O dia de trabalho foi cansativo, um dos menos inspiradores e mais tênues da vivência acadêmica: em um concurso, decidimos, ao mesmo tempo, sobre o futuro da organização e das pessoas que nele se inscreveram. Concurso público para professor é algo muito sério: um "sim" abre as portas da organização para alguém que terá a responsabilidade de construir, junto com os demais colegas, o futuro da organização; se ele não tiver essa vontade, ou alguma outra que seja nobre, quem paga é a organização. Por sua vez, um "não" aponta portas de futuros possíveis a serem desconfortavelmente abertas pelos que ficam pelo caminho. Infelizmente, não alcançamos as sutilezas da alma no processo de avaliação do concurso; fazemos as avaliações possíveis e rigorosas em provas nas quais constam códigos de inscrição, não nomes, nem aspectos ricos da subjetividade. Após horas de análise de documentos e provas, e de discussões, escolhemos os que se aproximavam um pouco mais da porta de entrada da universidade: estavam com as mãos praticamente na porta, bastava não errar demais no dia seguinte.

No fim da tarde, saí da prova e fui visitar Cacau, em sua empresa, localizada no mesmo bairro da universidade. Participei de uma breve reunião junto com alguns membros de sua equipe e conversamos sobre negócios e dramas organizacionais, como conflitos interpessoais que, por hora, abalavam sua equipe. Apesar da agradável conversa, em pouco tempo estava extenuado, desejando fortemente ir para um hotel e ficar sozinho. Recebi a visita de um conhecido sopro de sensibilidade que levou para longe o meu desejo de falar e me entregou uma imperiosa necessidade de calar. Naquele instante, tudo o que eu acreditava precisar era ficar sozinho e refletir sobre a vida, recorrer ao expediente de ficar pensando sobre o que fiz no dia, o que tenho deixado de fazer e o que preciso fazer à frente. Estava ensaiando minha ida para a busca de um quarto quando Cacau me solicitou uma carona e me convidou para dormir em sua casa.

Atendi ao seu generoso pedido e logo estava em sua casa, já ensaiando as ações que faria para ir direto ao descanso. Assim que chegamos, fomos recebidos pelo barulho de seus filhos, Olívia e Tom. Olívia, de três anos, me chamou para sentar no chão do quarto e ler o livro da Bela Adormecida. Sem a menor cerimônia, foi me contando a história. Do seu jeito e com sua voz trêmula, por vezes gaga, me contava o que via naquelas figuras. Chamou-me a atenção duas sonoplastias: imitou o som do fogo do dragão saindo pela boca e a dor da Bela Adormecida que se machucava no tear. Lembrou-me das maldades da Bruxa e fazia a careta ideal para aquela interpretação. Como num passe de mágica, levantou e começou a procurar um termômetro para medir a febre de um boneco da Galinha Pintadinha que pairava ao seu lado. Em minutos, o desconhecido que chegou com o pai já fazia parte do mundo dela.

Após muita insistência da mãe, que há minutos pedia para que me deixasse lanchar, fomos para a sala – não para lanchar, mas para achar o termômetro. No meio do caminho, estava um velocípede da Galinha Pintadinha, ganhado naquele mesmo dia. Olívia imediatamente me pediu para empurrá-la pela sala. Comecei a empurrar o carrinho e a pensar no que precisava fazer nos dias seguintes. Empurrava com uma mão, enquanto tinha a outra no bolso da calça. Enquanto empurrava, só fazia olhar para as águas que passavam no Rio Paraíba do Sul e pensava nas minhas questões. De repente, Olívia pediu que parasse, virou para mim e, com cara de descontentamento e fazendo o sinal negativo, me disse: “Está errado.” Pediu minha ajuda para se levantar, pôs a chupeta na boca, me mostrou as duas mãos espalmadas, segurou com ambas a haste para empurrar e disse: “É assim que se brinca.” Displicente, não percebi antes sua cara sem sorrisos; estava fora da brincadeira, não honrava, naquele momento, o estatuto do envolvimento, algo que fiz por merecer após os primeiros contatos com ela.

Mensagem copiada e decodificada, aceitei meu enquadramento na brincadeira e também numa vida inteira que me visitava enquanto a empurrava. Pus as duas mãos, me envolvi na brincadeira, olhei fixamente para nosso momento, sorrindo inicialmente, enquanto ela, por várias vezes, se virava para ver se estava ‘brincando direito’, se eu ia tirar a mão que faltava. Ela começou a sorrir feliz e seguiu na brincadeira.

Foi um enquadramento histórico. Pensei em quantas vezes minha filha quis me mostrar que faltava uma mão e não teve a coragem da Olívia ou eu, displicentemente, não percebi o que ela me comunicava em suas palavras e caretas. Lembrei de quando ela tinha cinco anos de idade e, num evento do Dia dos Pais da creche, quando perguntada sobre o que ela gostaria de fazer quando crescer, ela disse o que não faria: doutorado. Até brincávamos juntos nessa época, mas estava claro que o doutorado roubava a outra mão. Imaginei o marido que fui e era: a mão que faltava e explicava a maneira como me envolvi com a casa, os afazeres e os sonhos que cultivei junto com minhas mulheres. Imaginei a mão que faltava em diversas situações de trabalho, e para os amigos, vizinhos e conhecidos. Lembrei de um amigo oculto diferente que participei em 2003, e no qual, ao invés de comprar, tínhamos que fazer o presente do amigo tirado. Que angústia senti por não ter habilidade para fazer algo, enquanto os demais faziam artesanatos, doces, comidas, roupas, danças e músicas para seus amigos ocultos! Fiz uma poesia sobre a importância do fazer para o meu amigo oculto.

Comecei a chorar, enquanto mantinha com firmeza as duas mãos na haste, os olhos em Olívia e a mente visitando esses momentos da minha vida. Um choro sentido, de culpa mesmo. Olívia se envolveu com outras coisas e eu fui liberado para por as duas mãos nos meus pensamentos e lembranças. Na cama e com as duas mãos no peito, enquanto punha o pé na parede para facilitar o retorno do sangue venoso, realizei que o grande vilão era o hábito de me concentrar demais no que preciso fazer para alcançar objetivos, coisas que estão distantes no tempo, e não captar os chamados do agora. Devoto muita atenção a essas demandas reflexivas; às vezes penso antecipadamente sobre coisas que sequer se manifestaram. “Ambiciono o controle das situações,” me diz Angélica, minha mulher. Quando estou assim, como hoje, dificilmente me desligo das metas ou oriento minha energia para outro assunto. Em verdade, fico dividido entre diferentes eventos, me desgasto sem ter abraçado, de fato, o que me levaria a um sentido maior de contentamento, mesmo uma brincadeira como essa que tive hoje. Uma herança, assim acredito, do fato de, durante minha vida, ter dedicado mais ao aprimoramento de habilidades verbais e cognitivas e ter deixado de lado as habilidades manuais, de capitalizar na fala e na reflexão como forças centrais com as quais enfrentaria os desafios que comecei a me propor. Desarticulei o imperioso encontro entre mãos, mente e fala, que tão bem explica a força do ‘entrar de corpo e alma’ ou com as duas mãos, como faz uma criança.

As breves lembranças confirmavam que, a partir de um determinado momento, me afastei de um envolvimento maior com os distintos afazeres que a vida me apresentou, deixando de entrar de corpo e alma, ou com as duas mãos, para aprendê-los com a dignidade dos grandes aprendizes. Não logrei o aprendizado central de pessoas que, em determinados contextos, me foram essenciais: entrar com mãos, sentimentos, pensamentos e verbalização em todos os eventos que a vida lhes apresentava e dar os exemplos essenciais para que o grupo completasse os passos que seguiam.

De alguns desses afazeres me afastei radicalmente por puro preconceito, por achá-los comezinhos demais ou que me diminuísse fazê-los. Resgate importante: minha arrogância não permitiu me envolver mais intensamente com tudo o que definiu a vida das famílias dos meus pais – as lides agropecuária e supermercadista, ricas em manipulação de objetos e solicitantes da destreza que explicava a sobrevivência deles. Resultado: pensando sofrer ao fazê-las, me afastei e acabei por sofrer de outra maneira: por antecedência. Angustiei-me demais durante minha vida pela demora para acontecer das coisas que elegi como mais adequadas para mim, a maioria delas associadas à intensa prática reflexiva e comunicativa.

Olívia me alertou para a importância de sempre atentar para o Estatuto do Envolvimento: é ele que ensina, a quem realmente lê ou o intui, que nenhuma palavra ou pensamento, por mais bonito e complexo que seja e salvo raras exceções, compensa a experiência vivida de corpo e alma, com as duas mãos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Usar e desembolar fios: viver mais, melhor, e sem estancar.

Nunca devemos esquecer das sutis e tênues linhas que ligam as diferentes fases de nossas vidas. Linhas que ligam a infância ao envelhecimento, passando por todos os outros pontos dessa trajetória que normalmente empreendemos enquanto amadurecemos: adolescência, juventude e fase adulta.

Parecem invisíveis, até. Mas elas existem e sempre esbarramos nelas, que servem como sinalizadores de que percorremos essa estrada chamada “Vida” não somente para conquistas materiais, sociais, mas também para conquistas espirituais, morais. Todas as vezes que esbarramos nelas, em algum evento ou dimensão significativa da vida, é como se tocasse um sino. Sino cujo som nos leva – automaticamente e por imagens –, a um evento ocorrido no passado e faz surgir na face ou o sorriso de quem apreciou a situação ou a lágrima ou desconforto de quem ainda a traz entalada na garganta ou com dificuldades para digeri-la. Essas linhas e badaladas existem para ilustrar, delimitar e pontuar se, como e quanto um indivíduo aprendeu moral e espiritualmente em sua trajetória; quanto ele chega a uma nova fase trazendo no olhar, linguagem e comportamentos, os frutos dessa aprendizagem essencial.

Em minha trajetória, muitas foram (e ainda são) as vezes em que toco nessas linhas, em que ouço badaladas de sinos que marcam o ritmo em que ocorre minha evolução moral e espiritual, ou o quanto aprendi e ainda preciso aprender nessa vida. Uma delas, relativas aos meus afetos, tem forte relação com o meu aprendizado de soltar pipa, ocorrido lá na infância.

No relacionamento amoroso, casamento e em organizações em que interajo para trabalho, formação escolar, lazer e professar da minha fé, estão as principais instâncias em que os sinos badalam para mim. Automaticamente, ou nos momentos em que paro para refletir sobre essas instâncias, veem à mente as imagens de quando eu aprendia a soltar pipa. Chama atenção a maneira com que faço e o quanto invisto de emoção e afeto nas relações e contextos vividos. Geralmente crio muito expectativa, espero demais das outras pessoas envolvidas, e uso o que é natural para mim para fazer as avaliações. Como resultado: sempre me vejo em situações desconfortáveis, sangrando no coração, quando tudo poderia ser mais fácil e alegre. Muitas foram as vezes em que sofri e fiz alguém sofrer; em que alimentei demais uma esperança, elevei as expectativas, cobrei demais do outro, no que para ele era uma troca gratuita, fortuita, sem maiores investimentos de emoção.

Mas se olharmos detidamente, veremos que essas situações ilustram que aquilo que chamamos de relação afetiva, de amor ou amizade, conforme vai evoluindo – ganhando dias, contextos e produtos da nossa emoção –, assumem o formato de um complexo novelo de fios que se amontoam e se acomodam na sensível área demarcada por nossos egos e pela memória.

Por ter muito do que nos é muito caro, é tão belo quanto precioso esse novelo; também é muito sensível, pois é a maturidade que explica a densidade, integridade, firmeza e maneira com que dispomos os fios nesse emaranhado simbólico de afetos e emoções, essencial à nossa condição humana. Quando ocorre de termos que mexer nos novelos, ou mesmo de desfazê-los, devido às circunstancias da vida, tomam relevo não apenas os fatos geradores, mas a maneira como os envolvidos retiram seus fios, isto é, como negociam movimentos e palavras ao desfazer o complexo emaranhado de fios de afeto e emoção que dispuseram e os deixavam ligado um ao outro. Se feito de maneira brusca, machuca a área, arrebenta a linha - que ganha um nó, uma parte fragilizada do fio. É da vida acontecer isso, ter que desfazer o novelo. Também é esperado que cada envolvido traga seus fios intactos para seu carretel com vistas a um momento em que novamente dará linha a seus desejos, carências ou imaginação, em que formará mais um belo e precioso novelo de emoções e afetos.

A vida me mostrou que não aprendi a fazer corretamente o emprego dos fios do afeto e da emoção, qual era a hora certa de fazer, tampouco a maneira mais correta e oportuna para começar a retira-los dos novelos. E não faltaram lições sobre como lidar com fios, em minha vida. Principalmente, de quando saltava pipa na rua onde passei minha infância.

Soltar pipa – enquanto uma gostosa brincadeira –, tem todo um ritual para acontecer: início, meio e fim são muito bem marcados, interligados, e precisam ser respeitados. Do contrário, ou a pipa não sobe, ou, ao subir, corre logo o risco de estancar, o que marca o fim da brincadeira, se você não tem uma sobressalente, mas que ainda sim, deixa muita tristeza.

Empinar uma pipa requeria muitas habilidades, que iam do preparo da rabiola à arte do debico, passando pelo ajuste do cabresto, envergadura e do soltar e enrolar a linha com firmeza na lata ou carretel, este para os mais experientes. Dias a fios de umas boas férias eram necessários para formar o pipeiro. O bom pipeiro não ocupava mais do que o espaço necessário para seus movimentos, e nunca deixava a linha dele embolar ou embolar com a dos outros. Às vezes aconteciam embolos, mais explicados pela quantidade de meninos por m2, do que pela falta de habilidade deles. Desembolar linha era aprendizado fundamental, e marcava o fim do dia.

Confesso que nunca fui um bom pipeiro – talvez tenha sido o pior de todos os meninos da minha rua –, e as maiores provas do meu pouco honroso título, eram os constantes embolos em minhas linhas e a frouxidão da linha enrolada em minhas latas. Eram marcas registradas da minha chegada, permanência e saída daqueles trechos mágicos que ocupávamos da rua em nossas férias. Lembro-me que Marcio Pena, meu inseparável amigo, alertava-me sobre aquilo: “você precisa enrolar direito a sua linha na lata, senão vai atrapalhar a gente aqui ou vai prejudicar a sua vez. Quando o vento estiver forte, o nó não vai aguentar, e você vai estancar; quando a pipa agarrar, o nó vai atrapalhar você trazer a pipa de volta ou é nele que a linha vai arrebentar”.

Muitos foram os fins de tarde em que tive a chance de aprender o precioso ofício de desembolar linhas de pipa, mas negligencie bastante essa lição. Dei voz ao meu nervosismo, que facilmente emergia quando mexia nos embolos, ao invés de ficar pacientemente sentado desembolando a linha para que não tivesse que arrebentar e fazer nó para continuar enrolando na lata. Assim que era vencido por um embolo, eu arrebentava e fazia um nó na linha, e a enrolava: frouxa e cheia de nó. Marcio ficava pacientemente desembolando, e só terminava quando vencia o embolo.

Apropriadamente, os sinos badalaram todas as vezes em que estanquei, que machuquei a área do ego onde formava os novelos de emoções e afetos: "aprendi a dar linhas, nela deixei muitos nós; poucas vezes a retornei segura ao carretel, sem embolo. Mas no elo mais fraco da linha, a emoção e o afeto arrebentam".

sábado, 21 de julho de 2012

Fazer o básico já faz uma grande diferença


Uma vez recebi em uma rede social o retumbante comentário de um ex-aluno: “Grande Mestre, saiba que você fez a diferença na minha formação e na minha vida”. Esta parte estava em letras maiúsculas e os demais dizeres tornavam inquestionável sua alegria e gratidão.

Iniciei um natural processo de regozijo, ensaiei uma resposta à altura, também deveras retumbante, mas os escrúpulos da sobriedade lembraram-me de que estou no Brasil, de como anda a educação por aqui e de detalhes do local onde trabalho, uma Universidade Federal, o que, automaticamente, levou-me a dar um click no botão curtir e comentar: "obrigado! Fico muito feliz com sua manifestação de carinho. Paz e saúde na sua caminhada, amigo administrador”.

Comecei a refletir sobre a essência do comentário -- fazer a diferença. Breves minutos foram necessários para confirmar, sem deméritos ao meu querido ex-aluno, algo que já tinha percebido: uma síndrome coletiva do “fazer a diferença”. Algo que avança sobre nós principalmente no ambiente organizacional e nas sessões de tratamento ou terapia motivacional que temos em Igrejas, ONGs, Associações etc. A todo instante somos instados, estimulados ou obrigados a "fazer a diferença", tornando-nos míopes para o simples, o básico, aquilo que a experiência, o estudo e a negociação de interesses apontam como o que é o melhor a ser feito.

A síndrome avança e isso me assusta, pois, pelo menos em relação à educação, sabemos que ainda nem chegamos ao nível do fazer “o que deve ser feito”, o básico. Como poderíamos, então, fazer a diferença, inovar o que e no que fazemos? Considerando que faz-se a diferença quando é superada uma regra ou consenso sobre como fazer algo, pois esta(e) já não produz mais resultados, embotando-nos o agir e o pensar, ou quando, em momentos cruciais, geralmente no plano das iminências, alguém toma a decisão marcante que produziu resultados significativos, excepcionais, digamos heroicos.

Sobre o meu estar professor, é notório que a ele não se aplicam as condições anteriores do fazer a diferença. Eu seria insensato se não reconhecesse que, como a maioria dos colegas, tornei-me professor por causa de um concurso e que não fui preparado para ser educador, nem no mestrado, nem no doutorado. Também nunca vi qualquer movimento, política e programa de qualificação ou reciclagem para melhoria das práticas de ensino dentro da Instituição onde trabalho. Isso não é uma das prioridades nas universidades, pois todos parecem se achar autossuficientes no tema; nunca vi discussões ou compartilhamento de material e práticas que levassem a melhorias no que fazemos semestralmente. Apesar da eminente agonia da educação no Brasil, é notório que os momentos cruciais ficam para o ensino público fundamental, pois é ali, naquele eminente e permanente ocaso, que muitas pessoas tomam decisões marcantes que produzem resultados significativos, excepcionais, digamos heroicos. O plano das iminências nas universidades públicas é outro, e este é geralmente confrontado com as longas greves e com o notório esbanjamento de recursos em obras problemáticas e de recursos como luz e água.

Olho para minha universidade e vejo a maneira pouco pudica com que nos relacionamos com os esbanjamentos e a apatia. Estranhos consensos. Professores faltam aula sem aviso prévio e não repõem as mesmas, e os alunos, os mais prejudicados, não cobram a reposição. Nas primeiras semanas de aula de cada semestre, a frequência de professores e alunos é baixíssima. Olho para nossa atuação e vejo que foram defenestradas coisas básicas do ensinar-aprender, como a cobrança de presença e o acompanhamento, dentro de um curso, dos desempenhos individuais. Sem contar no suporte psicopedagógico, uma eminência esquecida em um algum lugar bem distante do passado. 

Olho especificamente para mim e vejo que, enquanto professor, muito me comprazo de dizer que geralmente atuo de maneira apaixonada. Sempre procuro comunicar aos alunos que se do tema central nada ficar, que da paixão com que atuo venha uma lição. Que ela, a paixão, seja o elemento que estimule e oriente mudanças sensíveis e objetivas no comportamento em relação ao envolvimento com o ensino e a postura enquanto aluno. Pois quem dá paixão merece, no mínimo, uma recepção apaixonada, um ambiente que fomente a paixão e seus contagiantes desdobramentos positivos. No mais, procuro cumprir aquilo que nos cabe.

O que acontece com a educação já é o bastante para nos sinalizar que essa síndrome que leva as pessoas a irreflexivamente tentar fazer a diferença precisa ser combatida. Não é anacrônica, pois ela vai ao encontro dos usos e costumes de uma época de deslumbramento com o individualismo, modismos e presumidas inovações, e de contínuo menosprezo às coisas mais simples, básicas e aprovadas pela experiência. O resultado é que, com gente demais tentando fazer a diferença, temos uma diversidade de contribuições que em nada ajuda e, para piorar, só faz aumentar o afastamento delas da reta da equação daquilo que deve ser  realmente feito, deixando-nos perdidos.

Está na hora de começarmos a envolver-nos e aplicarmo-nos com “o que deve ser feito”, com o fazer o básico, pois o que vemos na maioria das dimensões que compõem a nossa vida é que estamos aquém, bem distantes por sinal, de um fazer padrão que seja de qualidade ou que digne nossas vidas, condições profissionais e eminente investimento feito, com dinheiro público, em educação superior no Brasil. Nosso deslumbramento não nos deixa perceber que continuamos fazendo as coisas de qualquer jeito, ou do jeito que nos é mais conveniente, um jeito que satisfaz ao nosso narcisismo e a outras sutilezas da nossa alma. Se fizermos o que deve ser feito, isso já será uma grande diferença em relação ao que estamos acostumados. Principalmente, porque chegar à determinação do que deve ser feito exige uma complexa estrutura de produção e negociações de consensos sobre elementos que, necessariamente, nos remeterão ao envolvimento com  aspectos mais módicos, sóbrios e nobres da nossa vida.

Respondendo ao comentário: "Obrigado pela consideração, meu nobre amigo e aluno. Em verdade eu tentei, e apaixonadamente, fazer o que eu devia fazer. Sei que no geral, na soma das contribuições, que é o que realmente interessa, nós fizemos aquém do que você, os demais alunos e toda sociedade que paga seus impostos merecem".