sábado, 19 de março de 2016
Um dia na vida
Desde que me acidentei há dias, magoando severamente ligamentos e ossos do tornozelo, hoje foi a primeira vez que fui a pé para minha casa, dado que estava impossibilitado de subir escadas.
Submeti-me à experiência porque preciso recuperar segurança para agir, mas principalmente para reativar os sensos de autonomia e de não sentir-me ou fazer de mim um estorvo. Se estes sensos ficam significativamente expostos quando você passa a depender parcialmente de outras pessoas, imagino como ficam em casos mais severos.
É uma experiência e tanta você passar vinte minutos de sua vida observando o terreno onde pisa com a concentração que não lhe é peculiar: eu senti integral e vividamente todas as pisadas que dei hoje, não houve uma como a que dei e que gerou o acidente pois estava com a atenção voltada para o mundo. Hoje eu vasculhei o terreno onde pisaria para observar contextos, objetos e desníveis que pudessem gerar um tropeção ou escorregão e repetir o episódio de dor e recomeçar o ciclo da dependência.
Eu praticamente dialoguei com o terreno onde escolhi para viver e pisar, uma conversa séria e franca entre mim, ele e todos os objetos que nele repousam e que ilustram a realidade social que experimentamos diariamente: a sinalização e divisão de poder, o sentido de igualdade e fraternidade que temos e exercemos, a relação com o consumo e o descarte de mercadorias, enfim, a cidade conforme ela é pensada e produzida pelo poder público para você provar diariamente.
Eu tive a chance de cair após tropeçar em latas de bebidas, calçadas e quebra-molas irregulares, caixas de alimentos e produtos químicos e escorregar em chorume e restos de sacolas de lixo à espera da limpeza urbana, mas que antes foram visitadas por cães e gatos.
Eu experimentei por meros vinte minutos os desejos e angústias daqueles que tem seu potencial de mobilidade totalmente ceifado, e que dependem não de maneira parcial, mas estruturalmente de pessoas próximas. Experimentei a angústia daqueles que dependem de uma sociedade que consiga fazer com que o seu terreno e a maneira de agir dos cidadãos permitam que todo e qualquer cidadão possa se apropriar desse terreno e conduzir sua vida, que possa se sentir seguro e com os sensos essenciais dignamente ativados.
Lento como nunca estive, mas como sei que à frente estarei dado que envelheço, discuti hoje com meios-fios insolentes e indiferentes, com blocos de concretos postos por moradores para afugentar carros que estacionam, com carros que estacionam e tomam as calçadas e afugentam pessoas. Discuti hoje com pessoas, mas com muitas pessoas mesmo.
Sobre as pessoas, como é interessante sentir a diversidade de energia que brota dos olhares: tem aquele olhar de pena, tem o da indiferença (ou mera alegria disfarçada em cara de paisagem), tem o do estímulo, tem o da ironia, e tem aqueles que sempre comunicam coisas sem sentido, mas que não deixam de cumprimentar. Fiquei curioso para saber das pessoas o que meus olhares normalmente comunicam para elas para poder sintonizá-los com a produção de uma vida melhor para todos nós. O que meu olhar comunicava hoje para elas?
Mas tem algo muito mais interessante do que os olhares: a reação dos motoristas ao incauto e manco que, não tendo calçada, ousa ir pela via atrapalhando as flanadas matinais em seus possantes veículos. Teve um motorista que, podendo virar o volante e diminuir o meu experimentar de uma angústia, me forçou subir numa calçada de meros 40 cm de altura, não refrescou em nada para mim e fez cara de "você está no meu terreno, saia". Teve um que ensaiou o mesmo, mas, ao me reconhecer, parou e demonstrou empatia. Sim, fosse outra pessoa, ele não pararia, continuaria a demonstrar toscamente as linhas que informam o território partido. Teve o cachorro solto na rua que, embora alimentado, fez sua ameaça -- é imanente nele esse lidar com a coisa do território, lamentável é saber que estamos muito parecidos com ele.
Também muito importante: como é pequeno o número de pessoas que querem estender o braço e dizer: vamos nessa, estamos juntos. A mesma sensação que tive quando me acidentei numa rua da Tijuca e apenas duas pessoas falaram comigo: uma que estava ao meu lado e pegou gelo para pronto atendimento e outra que passou, me viu no chão e, sem parar, disse: "meu irmão, abrace sua mochila porque vão tentar roubar".
Ainda mais importante: é imperativo que, experimentando as dificuldades dos que muito precisam e pouco tem, não deixemos que uma breve experiência de angústia obstrua o reconhecimento do auspicioso de nossa vida e caminhada, e que mudemos nossas atitudes em relação à situação daqueles que menos auspícios vivenciam.
Foram vinte minutos de mais um dia na vida, de outro e bem diferente dia na minha breve e ordinária vida, mas que é o resumo da maioria ou de todos os dias de muitas pessoas.
É uma experiência marcante que preciso internalizar com sabedoria. Sim, eu poderia ter aprendido pela observação: tal espetáculo está aí todos os dias, não é mesmo? Mas teve que ser assim, pois não seria de maneira diferente que eu exporia os caprichos do meu egoísmo, vaidade e narcisismo à necessidade de negociarmos seriamente quem e o que deve informar como será o restante dessa minha breve e ordinária vida.
Vida que no que ela tem de ordinária, é muito mais auspiciosa do que a da grande maioria das pessoas dessa e de outras cidades.
Caminhei para ver a paisagem da foto abaixo, para novamente sentir a lufada de vento que diariamente comunica o auspicioso que experimento na quase totalidade das minhas passagens por esse território. Estava com saudade. Sim, contemplar é parte do auspicioso desse minha caminhada. Agradecer e mudar de atitude também devem ser.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A melhor escola do mundo
Muriaé, 13 de agosto de 2015. No dia
12, decidi começar por Muriaé o que chamei de ‘Necessário retorno às origens da
minha origem’, que consistia basicamente em visitas às cidades onde meus pais
nasceram, Muriaé e Pedro Teixeira. Nessas viagens, além de visitar meus primos
e amigos, solicito que falem da vida que meus pais e demais familiares tiveram,
do que faziam e de como eram na infância e na juventude; procuro obter
informação para ler e entender fatos e contextos que explicam as trajetórias
que meus familiares construíram em vida. Trajetórias que, com raras exceções,
são dignas de leituras bem detalhadas para obter boas aprendizagens sobre como
lidar com a vida e seus desafios.
A vida deles não foi fácil e ela foi
a escola que tiveram, ao contrário de nós, segunda e terceira gerações, que
tiveram e têm acesso às melhores escolas do sistema educacional. Não conheci
meus avôs paternos e tive pouco contato com minhas avós maternas. Meus
familiares não deixaram documentos, não registravam suas façanhas, todo esse
patrimônio histórico familiar, tudo o que se sabe está no depoimento e na
memória de algumas pessoas que estão envelhecidas, lutando contra o pouco
apreço do tempo para com as palavras sem registros. Toda prosa que traz a vida
dessas pessoas à mesa, que conta suas aventuras e desventuras, é para mim o
tempero especial de um delicioso banquete.
Outra coisa que gosto de fazer em
Muriaé e em Pedro Teixeira é andar pelas ruas para apreciar as transformações
nas construções e nos hábitos dos moradores. A privilegiada condição de
observador, ainda que suspeitíssima nos dias atuais, permite acessar situações
repletas da rica substância oriunda da mistura de ambiguidades, tensões,
contradições, esperanças, apostas e temores experimentados pelas pessoas quando
lidam com contextos de mudanças – as que promovem e das quais são apenas meros
expectadores. Essas cidades, ainda que em ritmos bem diferentes, estão mudando.
Ando bem devagar por elas, registro o que vejo e sigo comparando com os
registros anteriores, formando um quadro particular e bastante subjetivo de
análise e avaliação dessas mudanças.
Hoje, aproveitando carona do primo
Fábio Gonçalves, comecei a andança pela praça João Pinheiro. Gosto de olhar
para as construções antigas que ainda sobrevivem e ficar imaginando onde o trem
passava e como era a rotina da cidade atualmente adoecida pela quantidade de
carro transitando. Também andei pelo comércio em busca de promoções, de
produtos que, ainda que fora da moda, atendem perfeitamente às minhas
necessidades atemporais.
Decidido a fazer logo as visitas aos
parentes, saí da praça, peguei a rua Arthur Bernardes e fui seguindo em direção
à Barra, bairro onde moram alguns parentes. Dei uma parada quase que
obrigatória para ver os colégios Santa Marcelina e São Paulo. Gerações de
Murieenses se formaram nesses colégios, entre eles muitos primos. Uma lembrança
que tenho das minhas idas à Muriaé era o cuidado que minhas tias tinham com o
ano escolar dos seus filhos. O ritual mexia demais comigo, pois da compra do
material escolar e a preparação dos uniformes, passando pelo encapar os
cadernos e livros, tudo era feito com muito calor, capricho, envolvimento,
coisa com a qual não pude mais contar com a partida de minha mãe.
Quando passava em frente à praça da
antiga prefeitura, parei para apreciar a construção. Rapidamente me dei conta
de que estava de costas para o belo prédio da biblioteca da cidade. “Preciso
visitar uns livros”. Ironicamente, no início da semana, pensei em criar uma
campanha de incentivo à leitura nas redes sociais e cujo tema era ‘Visite um
livro’ e realizado que eu próprio não tenho destinado às obras e aos seus
criadores o tempo e atenção que merecem. Mais irônico ainda era ser aquela
importante biblioteca uma ilustre desconhecida para mim. Para marcar ainda mais
o momento, nos primeiros passos dei de cara com uma exposição sobre Pedro Nava.
Há pouco tempo, conversando sobre meu desejo de ser escritor e lamentar a idade
que tenho, Césas Froes, colega de trabalho, me lembrou sobre Pedro Nava e falou
que não há idade certa para transformar inquietude e estranhamento em
literatura. Pedro Nava é outro ilustre desconhecido para mim e, conforme lia os
cartazes, realizava que o tanto que desconheço dele revela apenas pequenos
detalhes do tamanho do meu desconhecimento e ignorância em relação à literatura
brasileira.
Ao sair da biblioteca, me deparei com
um livro para registrar presenças. Preparava o registro da minha presença e me deparei
com uma situação que está entre as mais marcantes da minha breve existência. A
pessoa que assinou antes de mim deu uma demonstração sábia, simples e ao mesmo
tempo forte do valor dessa que é a melhor escola do mundo: a vida. Em uma
coluna que praticamente obriga ao assinante dizer a escola a que pertence, ele
escreveu ‘VIDA’. Lamentável a gerência da biblioteca ter a necessidade de
colocar uma coluna chamada ‘Escola’, não dando chance ao visitante que não é
estudante de poder registrar mais sobre ele, a razão da presença e a qualidade
da experiência que ali teve. É um livro que foca nos estudantes do sistema
formal, cobrando que informem o nome da escola que frequentam, como se só eles
fossem lá, como se ali fosse exclusividade desse tipo de aprendiz; não é um
livro que se abre para registrar a presença e experiência de todos aprendizes
que ali visitam.
Esta pessoa, que assina Hélio M F, 55 anos, deu, e com muita elegância, uma resposta à esdruxula sensação vivida pelo visitante que não é estudante ou não estudou, mas que é aprendiz, ou que, sendo de fora da cidade, não vê sentido em colocar o nome da escola onde tenha estudado. Na coluna escola, Hélio M F colocou um retumbante ‘VIDA’, a escola onde certamente se formou e da qual não tem vergonha alguma para demonstrar o pertencimento. Falei com o atendente se ele tinha visto aquela obra de arte e logo fui informado de que Hélio sempre faz aquilo. Infelizmente, apesar de conhecida a situação, a gerência da biblioteca não faz nada. Ele registrou que o motivo era leitura. Eu, atônito, registrei curiosidade, quando deveria ter colocado ‘aprender’.
Não sei se Hélio faz aquilo para provocar ou reclamar de fato. Entretanto, como a gerência da biblioteca não aprimora a maneira como registra frequentadores e suas metas, não faz um retorno necessário às origens de sua origem, Hélio insiste em lembrar que os alunos da Escola da VIDA, independentemente de suas origens, também visitam os livros.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Atrás da chave
A feira fica ao lado do ponto final das Kombis e seu movimento influência a rotina daquela parte da cidade de Seropédica – tudo ocorre no ritmo da feira, no vai e vem possível e completamente caótico de pessoas, veículos, motos e bicicletas. Ao final, outra recomendação dela: ‘olha, vai demorar um pouco para chegar’.
Prossegui na divagação: ‘como teria sido minha vida se eu não tivesse negligenciado essa realidade, se tivesse sido mais tranquilo e comedido na abordagem da relação entre essa dimensão especial do meu viver e o tempo em que ela transcorre?’, ‘como teria sido minha vida se eu tivesse dado atenção àquelas vozes sorrateiras da intuição que, algumas vezes, disseram-me: “importante para você não é o continente em que está, nem sua duração, mas o conteúdo com que vai preenchê-lo”’.
Dentro da feira encontro uma prima muito querida, que me diz que outra prima, também muito amada, está muito mal no hospital – ela caíra de moto ontem, quebrara alguns ossos e estava com hemorragia.
— Ela viu na velocidade a resposta para muita coisa que sentia —, disse-me a prima em natural tom de pesar e ultrapassando com facilidade peculiar a fronteira entre as paisagens do óbvio e da abstração. Ela tem esse dom.
Fiquei sabendo que ontem os técnicos haviam pedido para ela não correr demais, para andar sem pressão, pois aquela era a vitória, a chave para ela: encontrar um hobby e viver toda empolgação que ele desperta, pois a competição, para ela, era mero detalhe. Não deu. Pelo que entendi, ela acelerou, caiu e encontra-se internada e com alto risco de ficar paraplégica.
De lá fui atrás de noticias sobre o estado de saúde da prima e ter mais informações. Entrei em contato com o desânimo das pessoas, suas dores e suas reflexões objetivas sobre "obviedades" relativas ao fato de uma senhora de 68 estar andando de moto, expondo-se ao risco dessa atividade. Não encontrei quem se dedicasse aos por quês dela, do alto de seu livre arbítrio, usar essa atividade – buscar essa chave – para alçar o que queria, pois, talvez, aquela não era “a chegada, mas apenas um ponto de passagem”. Eu Chegara tarde àquela divagação: quando ela me contou que tinha começado a treinar, eu pensei tão somente que se tratava de uma distração, ocupação de mente com algo que, afinal, era conteúdo habitual do seu continente de quase sete décadas de extensão e duração. As motos fazia parte do mundo dela.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Proteja seus sonhos
Os títulos que amealhei, se por vezes afagam o ego e garantem alguma liquidez, na maioria das vezes não me são uteis – nem deveriam ser – para lidar com o constante desafio de gerenciar os ativos imanentes à trajetória. Há uma fase da vida em que o título que lhe confere bom acesso a crédito não é o de doutor, mas o de confiável, de bom pagador.
A profissão de professor, esta sim, uma grande provedora de momentos felizes. Mas sou um mero professor, um dos que, num semestre desses da vida e numa disciplina específica, cruza a trajetória de muitos outros administradores.
Portanto, se há algo que eu possa dizer para alguém, a título de conselho ou advertência, é: proteja seus sonhos. O desafio de protegê-los vai dar um toque a mais de sabor à sabedoria que lentamente vamos acumulando.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Aprendizagens que não cabem mesmo em uma embalagem
“A vida é uma escola”, ouvi há bastante tempo. Eu que já tinha lá minhas diferenças com a escola formal, fiquei ainda mais
assustado. “Se aqui na escola está assim, imagine quando eu sair daqui para
enfrentar a vida”. Diziam-me para estudar e ser alguém na vida e isso me era
assustador.
Àquela época também me diziam que só havia uma vida. Era ‘vai ou
racha’, ‘tudo ou nada’, ‘aqui se faz aqui se paga’. Também tinha uma apavorante,
mais ou menos assim: ‘aprende agora, se não é o mundo quem vai te ensinar, e sai
mais caro, às vezes pagamos com a própria vida’. Que horror ouvir aquilo. A coisa era difícil
de ser apreendida, pois tinha escola, mundo e vida e toda aprendizagem tinha
que caber na mesma embalagem, numa mesma vida e eu não sabia se daria conta.
Durante algum tempo achei que foi a escola que não me ofereceu
oportunidades e experiências que ajudassem a ter uma compreensão mais
consistente sobre o que era a vida e o mundo; depois é que entendi que eu é que
não tinha consistência para entender o que a escola me mostrou sobre o que eram
a vida e o mundo.
Sobre o tempo ou a passagem dele, na escola eu só lidei em Física – quando
sofria para entender que o tempo tinha relação com a velocidade e a
distância –, em Língua Portuguesa – quando esclareciam sobre os
tempos verbais – e no campo – quando ensinavam sobre o
preparo do solo, escolha e plantio da semente ou da muda e sobre tratos
culturais e colheita. Não tive laboratório para aprender sobre o tempo de ou numa
reação química. Mundo era Geografia, vida era Biologia.
Recentemente, ao ler meu diário de 1996 – ano que
batizei como ‘o que demoraria para acabar’ – tive uma demonstração de como
passei onerosamente pela vida, de quanto desperdicei, de energia mental e
física, para lidar com os desafios da embalagem única. É um diário de quase 600
páginas onde demonstro uma ansiedade louca para lidar com o tempo, querendo
acelerar coisas para chegar logo ao ‘próximo prato’, mas sem viver plenamente o
que tinha para comer no ‘prato à minha frente’. Após a leitura, decidido, disse
a mim mesmo: “Relaxa, vá devagar, dê tempo ao tempo. É hora de ser sábio e saiba
que você está envelhecendo”.
Hoje, quando saia de casa e fechava o portão, tinha à frente
dois vizinhos, dois senhores de idade, experientes, que conversavam alto e
anunciavam que iam à feira. Pensei: “Que legal, esses já fizeram suas vidas,
cumpriram seus compromissos; são escolados, senhores do seu tempo e agora
caminham tranquilos para fazer a feira”. Comecei a acompanhá-los, tentando
ouvir a conversa, mas ainda estava bem distante.
Quando chegou no primeiro cruzamento, eles pegavam à esquerda e
seguia direto. Vi que eles pararam e começaram a gesticular um para o outro.
Quando cheguei mais perto, um deles olhou para mim e disse:
─ Tô falando para andar mais rápido e ele diz que a feira não
vai sair do lugar. Humm, quem não tem pressa é porque não precisa chegar a
lugar algum.
O outro senhor, contrariado com a fala do amigo, virou para mim
e disse:
─ E quem disse que pressa é garantia de chegar a algum lugar? O
que você acha que devo dizer para esse velho chato e apressado?
Surpreso com o que me mostravam ‘os dois professores’ cheios de
vida e mundo em suas costas, logo relacionei a situação com o que tenho pensado
sobre como vivi e vivo. Esbocei um sorriso amarelo e caí no lugar comum,
poderia ser mais profundo:
─ É, tem que negociar direitinho as vontades de vocês aí.
terça-feira, 9 de abril de 2013
A mão que faltava
Em 19 de março de 2013, estava na casa de Carlos Augusto, o Cacau, no Aterrado, em Volta Redonda. Começamos o contato por questões profissionais, mas logo fomos para a interação menos formal, muito em função do seu carisma e acolhimento. Além disso, eu retornava à cidade que marcou muitas das minhas voltas pelo mundo, voltas que dei ora como uma pessoa que queria, mas não sabia definir o que buscava, ora como uma pessoa que até sabia definir o que queria, mas que vacilava ao buscar.
Fui participar de um concurso na UFF, atendendo ao pedido de um saudoso colega de trabalho que há meses, ironicamente, me pediu para dar ‘uma mão’ nessa dura empreitada. Desta vez, encontrei dicas para perguntas que ainda não sabia fazer sobre como conduzir futuras voltas que ainda espero dar em minha vida, e dicas sobre como agi em muitas das voltas que dei. Conheci um pouco mais sobre o mundo que se descortina aos nossos olhos quando colocamos, com vontade e intensidade, as ‘duas mãos’ no timão do navio que escolhemos para navegar pela vida.
O dia de trabalho foi cansativo, um dos menos inspiradores e mais tênues da vivência acadêmica: em um concurso, decidimos, ao mesmo tempo, sobre o futuro da organização e das pessoas que nele se inscreveram. Concurso público para professor é algo muito sério: um "sim" abre as portas da organização para alguém que terá a responsabilidade de construir, junto com os demais colegas, o futuro da organização; se ele não tiver essa vontade, ou alguma outra que seja nobre, quem paga é a organização. Por sua vez, um "não" aponta portas de futuros possíveis a serem desconfortavelmente abertas pelos que ficam pelo caminho. Infelizmente, não alcançamos as sutilezas da alma no processo de avaliação do concurso; fazemos as avaliações possíveis e rigorosas em provas nas quais constam códigos de inscrição, não nomes, nem aspectos ricos da subjetividade. Após horas de análise de documentos e provas, e de discussões, escolhemos os que se aproximavam um pouco mais da porta de entrada da universidade: estavam com as mãos praticamente na porta, bastava não errar demais no dia seguinte.
No fim da tarde, saí da prova e fui visitar Cacau, em sua empresa, localizada no mesmo bairro da universidade. Participei de uma breve reunião junto com alguns membros de sua equipe e conversamos sobre negócios e dramas organizacionais, como conflitos interpessoais que, por hora, abalavam sua equipe. Apesar da agradável conversa, em pouco tempo estava extenuado, desejando fortemente ir para um hotel e ficar sozinho. Recebi a visita de um conhecido sopro de sensibilidade que levou para longe o meu desejo de falar e me entregou uma imperiosa necessidade de calar. Naquele instante, tudo o que eu acreditava precisar era ficar sozinho e refletir sobre a vida, recorrer ao expediente de ficar pensando sobre o que fiz no dia, o que tenho deixado de fazer e o que preciso fazer à frente. Estava ensaiando minha ida para a busca de um quarto quando Cacau me solicitou uma carona e me convidou para dormir em sua casa.
Atendi ao seu generoso pedido e logo estava em sua casa, já ensaiando as ações que faria para ir direto ao descanso. Assim que chegamos, fomos recebidos pelo barulho de seus filhos, Olívia e Tom. Olívia, de três anos, me chamou para sentar no chão do quarto e ler o livro da Bela Adormecida. Sem a menor cerimônia, foi me contando a história. Do seu jeito e com sua voz trêmula, por vezes gaga, me contava o que via naquelas figuras. Chamou-me a atenção duas sonoplastias: imitou o som do fogo do dragão saindo pela boca e a dor da Bela Adormecida que se machucava no tear. Lembrou-me das maldades da Bruxa e fazia a careta ideal para aquela interpretação. Como num passe de mágica, levantou e começou a procurar um termômetro para medir a febre de um boneco da Galinha Pintadinha que pairava ao seu lado. Em minutos, o desconhecido que chegou com o pai já fazia parte do mundo dela.
Após muita insistência da mãe, que há minutos pedia para que me deixasse lanchar, fomos para a sala – não para lanchar, mas para achar o termômetro. No meio do caminho, estava um velocípede da Galinha Pintadinha, ganhado naquele mesmo dia. Olívia imediatamente me pediu para empurrá-la pela sala. Comecei a empurrar o carrinho e a pensar no que precisava fazer nos dias seguintes. Empurrava com uma mão, enquanto tinha a outra no bolso da calça. Enquanto empurrava, só fazia olhar para as águas que passavam no Rio Paraíba do Sul e pensava nas minhas questões. De repente, Olívia pediu que parasse, virou para mim e, com cara de descontentamento e fazendo o sinal negativo, me disse: “Está errado.” Pediu minha ajuda para se levantar, pôs a chupeta na boca, me mostrou as duas mãos espalmadas, segurou com ambas a haste para empurrar e disse: “É assim que se brinca.” Displicente, não percebi antes sua cara sem sorrisos; estava fora da brincadeira, não honrava, naquele momento, o estatuto do envolvimento, algo que fiz por merecer após os primeiros contatos com ela.
Mensagem copiada e decodificada, aceitei meu enquadramento na brincadeira e também numa vida inteira que me visitava enquanto a empurrava. Pus as duas mãos, me envolvi na brincadeira, olhei fixamente para nosso momento, sorrindo inicialmente, enquanto ela, por várias vezes, se virava para ver se estava ‘brincando direito’, se eu ia tirar a mão que faltava. Ela começou a sorrir feliz e seguiu na brincadeira.
Foi um enquadramento histórico. Pensei em quantas vezes minha filha quis me mostrar que faltava uma mão e não teve a coragem da Olívia ou eu, displicentemente, não percebi o que ela me comunicava em suas palavras e caretas. Lembrei de quando ela tinha cinco anos de idade e, num evento do Dia dos Pais da creche, quando perguntada sobre o que ela gostaria de fazer quando crescer, ela disse o que não faria: doutorado. Até brincávamos juntos nessa época, mas estava claro que o doutorado roubava a outra mão. Imaginei o marido que fui e era: a mão que faltava e explicava a maneira como me envolvi com a casa, os afazeres e os sonhos que cultivei junto com minhas mulheres. Imaginei a mão que faltava em diversas situações de trabalho, e para os amigos, vizinhos e conhecidos. Lembrei de um amigo oculto diferente que participei em 2003, e no qual, ao invés de comprar, tínhamos que fazer o presente do amigo tirado. Que angústia senti por não ter habilidade para fazer algo, enquanto os demais faziam artesanatos, doces, comidas, roupas, danças e músicas para seus amigos ocultos! Fiz uma poesia sobre a importância do fazer para o meu amigo oculto.
Comecei a chorar, enquanto mantinha com firmeza as duas mãos na haste, os olhos em Olívia e a mente visitando esses momentos da minha vida. Um choro sentido, de culpa mesmo. Olívia se envolveu com outras coisas e eu fui liberado para por as duas mãos nos meus pensamentos e lembranças. Na cama e com as duas mãos no peito, enquanto punha o pé na parede para facilitar o retorno do sangue venoso, realizei que o grande vilão era o hábito de me concentrar demais no que preciso fazer para alcançar objetivos, coisas que estão distantes no tempo, e não captar os chamados do agora. Devoto muita atenção a essas demandas reflexivas; às vezes penso antecipadamente sobre coisas que sequer se manifestaram. “Ambiciono o controle das situações,” me diz Angélica, minha mulher. Quando estou assim, como hoje, dificilmente me desligo das metas ou oriento minha energia para outro assunto. Em verdade, fico dividido entre diferentes eventos, me desgasto sem ter abraçado, de fato, o que me levaria a um sentido maior de contentamento, mesmo uma brincadeira como essa que tive hoje. Uma herança, assim acredito, do fato de, durante minha vida, ter dedicado mais ao aprimoramento de habilidades verbais e cognitivas e ter deixado de lado as habilidades manuais, de capitalizar na fala e na reflexão como forças centrais com as quais enfrentaria os desafios que comecei a me propor. Desarticulei o imperioso encontro entre mãos, mente e fala, que tão bem explica a força do ‘entrar de corpo e alma’ ou com as duas mãos, como faz uma criança.
As breves lembranças confirmavam que, a partir de um determinado momento, me afastei de um envolvimento maior com os distintos afazeres que a vida me apresentou, deixando de entrar de corpo e alma, ou com as duas mãos, para aprendê-los com a dignidade dos grandes aprendizes. Não logrei o aprendizado central de pessoas que, em determinados contextos, me foram essenciais: entrar com mãos, sentimentos, pensamentos e verbalização em todos os eventos que a vida lhes apresentava e dar os exemplos essenciais para que o grupo completasse os passos que seguiam.
De alguns desses afazeres me afastei radicalmente por puro preconceito, por achá-los comezinhos demais ou que me diminuísse fazê-los. Resgate importante: minha arrogância não permitiu me envolver mais intensamente com tudo o que definiu a vida das famílias dos meus pais – as lides agropecuária e supermercadista, ricas em manipulação de objetos e solicitantes da destreza que explicava a sobrevivência deles. Resultado: pensando sofrer ao fazê-las, me afastei e acabei por sofrer de outra maneira: por antecedência. Angustiei-me demais durante minha vida pela demora para acontecer das coisas que elegi como mais adequadas para mim, a maioria delas associadas à intensa prática reflexiva e comunicativa.
Olívia me alertou para a importância de sempre atentar para o Estatuto do Envolvimento: é ele que ensina, a quem realmente lê ou o intui, que nenhuma palavra ou pensamento, por mais bonito e complexo que seja e salvo raras exceções, compensa a experiência vivida de corpo e alma, com as duas mãos.



