quarta-feira, 31 de julho de 2019
Aqui e agora: eu, professor.
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Fomos pipeiros
À mesa do café, um outro ângulo me permitiu mais alguns instantes de contemplação, pela janela, da cena que muitas vezes vi no tempo em que ficava os dias de férias escolares olhando para os céus soltando ou correndo atrás de pipas voadas, escalando muros e árvores para apanhá-las e retornar à brincadeira, tempo que se estende entre 1979 e 1985.
'Que cena desoladora!', informou imediatamente os sentimentos de pipeiro. Também sou visitado por lembranças recentes e antigas relacionadas ao soltar pipas. Vem à mente o ano 2007, quando uma médica que atendia minha filha, que à época estava muito ansiosa, disse com seriedade que Malu precisava soltar pipas, ter uma vida menos assoberbada com a atividades extraescolar ao invés de tomar remédios para ansiedade, atenção, depressão e coisas parecidas (Não só ela, claro, mas crianças, adolescentes e adultos, dizia a médica sobre a vida que levamos e que conflita com nossas condições fisiológicas e psíquicas). Também vem à mente imagens e noticias recentes sobre incidentes envolvendo pipas e atropelamentos e mortes de motociclistas feridos pelas linhas com ceróis.
Acesso distintos e intensos sentimentos enquanto realizo o irônico e o contraditório de vermos uma atividade tão significativa imbricar-se com dores morais, físicas e psíquicas que podem ser experimentadas em nossas trajetórias.
Visitam-me reflexões que misturam e o alerta do médico com mudanças no nosso mundo e na maneira como entendemos e exercemos nosso viver. Penso nos conflitos e consequente desconfortos e dores físicos, morais e psíquicos que estão associados aos elementos visíveis e invisíveis à cena: a pipa perdida na rede elétrica; a urbanização crescente e desorganizada e a correria para dar conta de necessidades e desejos sem fim e, atrelados a eles, um jeito de viver que equivocadamente prescinde do estar na rua; o sufocamento e marginalização de uma atividade lúdica e terapêutica como o soltar pipas; e, consequentemente, o acirramento dos conflitos entre pipeiros, motociclistas, motoristas, ciclistas e proprietários de casas e lojas.
Como estou de férias, sei que enquanto o vento, a chuva e o sol não destruírem essa pipa, conviverei diariamente com o chato som que faz a sonoplastia dessa cena desoladora. Ela me conduzirá a diversos e diferentes momentos da minha vida. Nesse exato instante, a cena e o som me conduzem direto a diversos e marcantes momentos, muitos que se deram na mesma rua.
sábado, 2 de junho de 2018
Reencontros marcados
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2018. Cinco horas da manhã. Como
de costume, cheguei adiantado a mais um encontro (bem adiantado, por sinal),
revelando a ansiedade que jazia nas entrelinhas. A alguns metros de mim, o
Hospital Servidores do Estado – HSE, com quem terei o desafio de um reencontro
lá pelas 8:00.
Há trinta e cinco anos não nos vemos e o escuro da madrugada me
impediu de ver como ele está atualmente. Como só encontrei lugar para
estacionar à rua do Livramento, pouco pude notar da silhueta do gigante que
marcou minha vida. Inseguro sobre o local onde parei, resolvi ficar por ali até
que o dia clareasse e tivesse mais segurança para deixar o carro e ir para o
grande momento do dia. Fiquei na companhia do senhor que vende água de coco e
faz ponto em frente ao Mercadinho 2001, esquina com a rua do Livramento.
Às 7:00 saí para tomar café no bar e restaurante Cantinho dos
Servidores. Durante duas horas fiquei sem nada que, por ventura, trouxesse as
lembranças dos muitos e, em sua grande maioria, dolorosos encontros que eu e o ‘Servidores
do Estado’ tivemos entre os anos de 1978 e 1983. No restaurante, enquanto
saboreava a média e o pão na chapa, pude contemplar detalhes da sua lateral e
constatar que muita coisa mudou.
Em verdade, exceto por um breve contato visual com a Rodoviária
Novo Rio e pelas dependências do Moinho Fluminense, não houve nada de familiar
em mais essa chegada à Sacadura Cabral, 178. Nada de Perimetral, trens de
carga, navios, viagem em ônibus da empresa Eval, Praça Mauá, cheiro forte de
café, ônibus das empresas Magelle, Evanil, Reginas ou Jurema, nem mesmo tinha o
famoso 222 parado ali por perto. Também pudera: nosso último encontro se deu em
21 de fevereiro de 1983, às 9:00, e muita coisa mudou na nem tão maravilhosa
cidade que faz o cenário dessa controvertida relação que o destino, esse
ilustre senhor, criou a partir do adoecimento e tratamento da minha mãe, a
partir de 1980.
Sobre o reencontro, durante anos desejei e agi como se tal
relação tivesse acabado, embora soubesse que havia faltado a importantes
reencontros previamente marcados para os anos seguintes, em especial ao do dia
24 de março de 1983, conforme marca o velho cartão rosado. Tal ausência
implicou em deixar para traz preciosas sessões de psicoterapia, oportunidade ímpar
que eu tinha para mudar a dolorosa impressão que fiquei dos encontros que
tivemos e sobre a vida que conheci durante o longo período de internação e após
o falecimento da minha mãe, em 17 de setembro de 1981. Depois daquele fevereiro
de 1983, meu reencontro com a psicoterapia se deu em 2003, ainda perdura, mas
não dediquei muita atenção nas sessões para elaborar essa complicada relação
que me foi imposta e os marcantes motivos e consequências da falta ao
reencontro de março de 1983. Entretanto, quis o mesmo destino — esse ilustre
senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia
de nossas vontades — que em abril de 2018, aos 47 anos, e como aluno de
Psicologia, eu fizesse uma visita técnica ao 'Servidores do Estado', como usávamos
chamar esse hospital.
Nos dias anteriores, fiz o que aprendi com a vida nos demais
encontros, reencontros e desencontros marcados que o ilustre senhor me
presenteou: entendi que o (re)encontro era necessário, passei a desejá-lo;
tentei controlar a ansiedade e não criar expectativas, não fiz planos.
Preparei-me, claro: mantive-me austero e não dediquei às magoas uma posição
preponderante. Sem sinais de contrariedade me dispus a entregar no reencontro o
que de melhor haveria em mim após tanto tempo. Para segurar a pressão da
ansiedade, durante a viagem começada em Seropédica, fiz alguns áudios sobre
esse dia.
Embora me sobrasse tempo, notei que fiquei parado no restaurante
Cantinho dos Servidores por muito tempo, que me segurava por ali,
retardando o (re)encontro. Decidi sair e testar o que aconteceria conforme
entrasse em contato com o gigante de concreto. O granito marrom e as grades
mostravam que sua frente continuava a mesma. Não entrei, apenas observei a
silhueta. Lembrei-me da entrada da rua Venezuela, dos ambulatórios e decidi
pelo primeiro reencontro.
A entrada continuava a mesma: as fontes d'água à direita, o guichê lotado,
muita gente entrando e saindo, as primeiras escadas rolantes que vi em minha
vida e onde, depois de perder o medo, adorava ficar subindo e descendo. Emocionei-me.
Em busca de banheiro, entrei num corredor que me levou direto ao ano de
1983. Mais emoções. Estava tudo praticamente igual àquela época — a mesma
disposição das salas, consultórios e cadeiras, as cores em tom de creme e ocre
e o perfil das pessoas: gente simples, envelhecidas, trazendo nas faces à
agonia de quem mais uma vez acordou muito cedo e saiu atrás de uma boa
notícia.
Peguei água num bebedouro perto do banheiro e me sentei,
deixando as lembranças conduzirem o momento. As lágrimas desceram rápida e
fortemente, não conseguia segurar. Como previ nos áudios que fiz na viagem para
cá, aquele garoto de 12 anos tinha ficado naquele corredor à espera da
psicoterapia que tanto lhe fazia bem e o ajudava a elaborar toda transformação
que sua vida sofreu em praticamente três anos. Ao Marco de 47 anos caberia
retirá-lo de lá e levá-lo de volta para casa.
Imagens da época vinham com rapidez no angustiante trabalho de
reconstruir aquelas memórias, de dar uma lógica ou sequência a coisas que
aconteceram há mais de trinta anos e chegar aos porquês do rumo que a história
tomou. Uma dessas imagens reclamou atenção naquele momento: o dia em que ficou
decidido que meu pai não me levaria ao encontro de 24 de março de 1983. A
lembrança me dizia que foi por algo que era importante para ele, uma pescaria,
apesar dele próprio saber que tudo tinha que ser marcado no Hospital e com
antecedência. Essa doída lembrança, que sempre me acompanhara, veio numa
intensidade mais forte do que de costume, experimentei raiva bastante
desagradável e que trouxe à tona os questionamentos que, embora fossem óbvios,
nunca entraram na pauta de uma conversa séria entre nós: “Por que, àquela
época, eles não se mobilizaram para me levar à terapia? O que aconteceu para
que todo processo fosse esquecido, pois o cartão marca que não houve mais
retorno meu ao hospital?”.
Chorei muito, mas recobrei a consciência de que minha missão ali
não era destilar ódio ou raiva, de que à frente eu certamente viveria mais
momentos fortes e precisava estar preparado. Prontamente, desculpei meu pai e
minha madrasta pelo o que tenha acontecido à época, pois o que importava
naquele momento era o que eu iria fazer dessas lembranças e emoções, o que eu
iria fazer com o garoto de 12 anos que eu resgatei e que não tinha mais aquela
casa de 1983 para nela voltar, lá se recolher e, enfim, ocupar o espaço em
branco na história da sua própria vida. Simbolicamente, segurei nas mãos do
menino e disse: “Vem comigo, vamos para vida, Marquinho, sai da condição de
vítima, perdoe as pessoas”. Abracei e levei-o para me acompanhar durante o
resto da visita técnica.
Antes de encontrar meus amigos de turma, fui ao arquivo saber da
possibilidade de resgatar os prontuários dos atendimentos dados a mim e minha
mãe. Passei em frente ao local onde ficava a cantina que tanto gostava de
frequentar quando ia ao HSE, onde normalmente pedia um suco de maracujá e um
misto-quente ou coxinha de frango. Ela estava fechada, a fachada era a mesma.
Às 9:45, começamos a visitar a parte do hospital onde as pessoas
ficavam internadas, onde eu vi minha mãe pela última vez. Attila, que lá
trabalhava, nos conduziu num roteiro que só podia mesmo ter sido preparado por
aquele ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros
feitos à revelia de nossas vontades: começaríamos pelas partes de baixo, depois
iríamos ao último andar e desceríamos até o sétimo andar, local onde ele
trabalhava como técnico de enfermagem e onde minha mãe ficou, entre 1980 e
1981. Como quem livremente consentia com aquele reencontro, fiquei me
controlando o tempo inteiro, conforme Attila ia (re) apresentando àqueles
locais algo já conhecido por mim: a recepção, os elevadores, o local de alta, o
local de radioterapia etc. Ao chegar ao sétimo andar, ficou decidido que
primeiro visitaríamos a Neurocirurgia e Neurologia — onde ele trabalhava e onde
faríamos as perguntas-chave do trabalho — para depois visitar a Ginecologia,
onde minha mãe ficou. Lá da Neurologia fiquei contemplando o corredor que dava
à Ginecologia, ansiando e temendo o reencontro. Tudo foi tão estranhamente
preparado que acabamos por visitar todas salas do sétimo andar no intuito de
conhecer a realidade operacional do local, as condições de trabalho das equipes
médicas e dos pacientes e visualizar onde e como os psicólogos da saúde podem
atuar.
Acabei voltando ao quarto onde há quase 37 anos, no dia 15 de
setembro de 1981, vir minha mãe pela última vez, recebi seu último abraço e
perguntei quando voltaria para casa e mais uma vez estranhei o estado em que a
doença a deixou; lugar onde, na verdade, ela só ficava deitada porque já não
andava mais, onde eu ficava encantado pelo rádio que tinha na cabeceira e
sempre estava sintonizado na rádio-relógio e eu atentamente ouvia os contínuos
tique-taque de um relógio, a voz anunciando a hora certa a cada minuto, os
locutores dizendo “Você sabia que tal coisa é assim ou assado. Você sabia?” e a
anúncios como o de uma determinada empresa que cantava de galo com o preço de
milho picado. A cama onde ela ficava era perto da janela e de onde se podia ver
o morro em frente ao hospital, uma paisagem que não me pareceu nada familiar. À
época eu ficava olhando para baixo, para a entrada, para o movimento na
Sacadura Cabral.
Curiosamente, não chorei ao rever tudo aquilo, embora estivesse
notoriamente afetado, falando bastante para compensar a emoção vivida. Talvez,
pelo fato de estar acompanhado daquele garoto de 12 anos ou pelo fato de meus
colegas de turma não terem a menor noção de que o que para eles era uma
novidade era para mim uma delicada reprise, um reencontro especial, meus
comportamentos e reações tenham passado desapercebidos. De lá fomos ao prédio
dos ambulatórios e passamos no setor de psicologia onde tivemos a chance de
conversar com a psicóloga Eleonor Elizabeth, que entrou pouco depois de 1983 no
setor e onde uma vez mais fui visitado por imagens do passado e por emoções que
mexiam profundamente comigo.
Ironicamente, após mais uma ida ao ‘Servidores do Estado’ voltei
para Seropédica. Estava de carro e não precisei andar até a Praça Mauá para
pegar o Tarifa A da Eval – demorava a passar, mas rápido chegava em Seropédica
– nem precisei ir até a Central do Brasil para lá pegar um Tarifa B – passava
mais vezes e sempre demorava a chegar ao seu destino final. Acompanhado dos
meus amigos e daquele menino de 12 anos, fomos à UFRRJ para tentar assistir uma
aula de Ética na Psicologia e onde horas depois estarei dando aula até as 22:00
horas. Outros reencontros nos aguardam, pois pretendo resgatar os
prontuários dos atendimentos que eu e Dona Tininha tivemos e espero que essa
relação finalmente acabe.
Às 22 e 30, cheguei à casa onde atualmente moro e que será a nova casa e lar do Marquinho que resgatei no ‘Servidores do Estado’. Ironicamente, parei o carro justamente em frente à velha casa onde ele morou e de onde, simbolicamente falando, ele saiu há trinta e cinco anos para uma sessão de terapia e por lá ficou. Outro reencontro marcado acontecia.
domingo, 21 de maio de 2017
Sobre querer 'querer mudar'.
Hoje, aproximadamente quatorze meses depois que rompi os ligamentos do pé direito, consegui ir caminhando até a entrada do Instituto de Veterinária. Não senti dor, nem o medo de caminhar sozinho por aquelas paragens que deixavam-me inseguro. Até então, eu ia caminhando até a ponte da linha do trem. Quando lá chegava, sentia dores, medo de me machucar, de ser assaltado e ia me encolhendo progressivamente, chegando até a conceber padrões de pensamento como “eu tenho 46 anos, preciso entender que meu corpo não é mais o mesmo” ou “agora preciso me acostumar com essa nova fase da minha vida”.
Hoje eu fui caminhar, pensei em fazer meia volta, senti algumas dores, mas quando cheguei na ponte, fui em frente. Era necessário ir em frente, dar valor ao padrão de pensamento que me fez sair de casa, que é o de fazer mudanças na minha rotina e preparo para entrar com mais saúde e disposição para novos desafios que quero e vou me propor. Fui e senti-me muito bem, vencendo todos os medos e pensamentos que me prendiam ao pensamento que me conecta a um presente limitado e me deixa nostálgico de um tempo em que estive melhor. Há mais de um ano eu só consegui fazer esse percurso de bicicleta e nos horários mais cedo. Hoje foi às 18. Consegui.
Na quarta-feira, dia 17, fui operado e novamente enfrentei um fantasma: entrar na sala de cirurgia. A razão? Há aproximadamente 12 anos, fui com meu pai até a sala de cirurgia e, vendo-o tirar o relógio e me entregar, ouvi dele quando se abria a porta: “eu não volto. Cuide da Maluzinha e do Leozinho”. Ele foi operado, entrou em coma e partiu. Não nos falamos mais. Fiquei com aquela impressão da entrada da sala de cirurgia na mente. Passei por duas outras cirurgias, mas numa eu estava quase inconsciente e, na outra vez, no mesmo hospital onde fui operado no dia 17 e onde tive um problema sério, não teve momentos esperando que a tal porta se abrisse.
Tudo na quarta-feira teve um requinte do destino. Pra começar, o maqueiro veio, cantou meu nome e disse: “hora de partir, Marco”. Olhei pra ele e disse: “hora de dar um passeio, meu amigo, e depois voltar”. Ele nada entendeu, claro. Ao chegar no mesmo local de 2015, ainda pensando sobre o partir e o dar um passeio, ele tocou uma companhia, afastou-se, deixando-me sozinho, sentado numa cadeira de roda, esperando que a porta se abrisse. Que padrão de pensamento ter naquele momento? O que devo pensar agora?, pensei. Eu agarrei-me ao “dar um passeio e voltar”, ao “confiar nas pessoas que estariam ali”, ao “esse desafio faz parte da minha luta para aprender a viver e entender os meus limites e os das pessoas”. E tinha outro desafio: em 2015, após a cirurgia, já no quarto, tive um pico de queda de pressão forte que deixou-me em momentos de muitos apuros e risco de morte. Foram as enfermeiras que fizeram as manobras que me levantaram, soube depois.
Quando a porta se abriu, tive a péssima imagem de uma pessoa que acabara de ser operada, totalmente desacordada e vestida como recém-operado. Deixaram-me sentado de frente para o rosto dela, que esperava um maqueiro para ir ao quarto. Olhei seu rosto e virei. Mirei uma parte da sala, até que veio uma senhora e me levou à sala de cirurgia. Conversei com o anestesista sobre os riscos de um pico de pressão, sobre o procedimento e lentamente fechei os olhos e deixei de reagir à força que já me derrubava. Quando dei-me conta, voltava do passeio, ia para o quarto e a procura da face e voz da Rosangela, que me acompanhava.
Aprendo que toda mudança requer um padrão de pensamento que a dê suporte e enriqueça os seus significados. Há um querer 'querer mudar' que é fundamental nessas ocasiões em que transformações fazem-se necessárias em nossas vidas e não se chega a ele sem que antes tenhamos sentimentos de confiança nas pessoas, nas próprias possibilidades, de gratidão à vida e um real desejo de viver novas fases. São lutas sozinhas que travamos e, digo, procuremos ajuda. A minha era pequena e demorou muito, pois fui sozinho. Demorei a pensar sobre como pensava e o efeito dele sobre as mudanças que busco e preciso.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Mudar a rota do pensamento na estrada da vida
Rio de Janeiro, 22 de julho de 2016. Estava em Vila Isabel, no estacionamento do colégio Nossa Senhora de Lourdes esperando Malu sair da escola para passarmos o final de semana juntos. Havia um mês que não ficávamos juntos.
Eu sei que preciso mudar, mas engarrafamentos conseguem afetar-me certeiramente. "Preciso mudar", disse-me uma vez mais.
A conversa mudou de tom, ganhou outro paladar: minha grande companheira de viagem, a pessoa com quem mais viajei nesta vida, está com quinze anos e tem novos ingredientes a colocar na mistura que nos alimenta pelas estradas e na estrada da vida.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Dia de mães
Neste ano farão 35 anos que minha mãe faleceu. Tenho poucos registros fotográficos com ela. A sua ausência – se já não é tão dolorida como antes, se emergiram outras leituras menos densas sobre isso – ainda é lastimada, provoca desconfortos, ainda incita questionamento fugidios, imaturos na essência, sobre essa lógica apresentada pela vida de mexer com o que mais nos aprazeria na tensa e tóxica relação entre encontros e despedidas.
Em verdade, tudo seria melhor se não houvesse: mudança na ordem de quem chega ou vai, pressa para partidas, muitas ansiedades nas chegadas ou dores na despedida. Ambas causam ansiedade, mas a despedida me faz mais mal, ainda me provoca. Recorrendo a uma imagem, diria que a danada da despedida passa seu lenço de maneira irônica sobre meu rosto à beira da estação e sai correndo para dentro do trem.
Um dia essa mudança de interpretação ocorreu em mim: não posso transformar ou mentir para mim dizendo que algo que foi triste e me marcou virou algo alegre, mas posso fazer com que os pensamentos relativos a esse algo não sejam tão sofríveis e negativos e disparem sentimentos de dor e tristeza. Funcionou bem essa perspectiva de que eu minha mãe nos distanciamos tecnicamente do cenário onde atuávamos, de que o espetáculo continuava, de que contracenávamos sim e de outra maneira.
Com o tempo ganhei habilidade para lidar com um dos maiores desafios da minha vida: a naturalização da figura, da presença e do relacionamento com a madrasta. Este senso claro da maternidade contribuiu muito para que eu e Alice experimentássemos uma melhoria significativa na qualidade da nossa relação de madrasta e enteado. Eu -- e creio que tenha ocorrido com ela também -- aprendi a prestigiar muito mais a contribuição do que nos era possível fazer, do que ficar pautando nossos dias em torno do que não ocorria devido às nossas limitações. E ela fez bastante por mim durante os anos que passaram.
Já no momento crítico do início do ‘distanciamento técnico’, naquela quinta-feira de 17 de setembro de 1981, muitas mães me acudiram. Quando me tiraram do Colégio Fernando Costa e deixaram-me na casa da tia Ana, ela própria, Darci e Neusa me puseram nos ‘ventres que seus braços formavam’ enquanto me abraçavam e davam a triste notícia. Eu estava em berços plenos e seguros naquele momento triste, confuso. Como podiam, todas as outras tias e primas vieram me acolher nos dias e anos que seguiram: foi assim que ganhei mães tão especiais nas tias Iris, Maria José, Mariana, Terezinha, Julinha, Petita, Diná e Cida; foi assim que Irene e Chiquita me recebiam na casa delas quando meu pai me deixava lá nas férias e nos finais de semana; foi assim que ganhei uma mãe na tia Beth, em Muriaé, e na dona Tereza, em Paracambi; foi assim com a madrinha Dorinha que -- vendo-me obeso, pequeno, exposto e frágil -- levava-me ao médico para consultas e exames, lutava para me alimentar com legumes e verduras para que eu vencesse recorrentes problemas no sangue e cuja causa só conheci bem mais tarde; foi assim que a vó Sebastiana também foi minha mãe; é assim que Rosângela, por vezes, exerce seu amor de mãe comigo; foi assim que tive mães especiais nas tias Naná e Conceição – ah, com elas passei momentos diferenciados, tivemos um grau de liberdade e confiança para falar de coisas extremamente sérias sobre nossas vidas.
Sou muito grato à experiência com a maternidade. Sou grato à minha mãe, às mães que me acolheram quando mais precisei, àquelas que subitamente emergiam nas mulheres que me amavam e às que desesperada e equivocadamente busquei em todas as mulheres com quem me relacionei -- neste caso, não encontrá-las tornou-me mais forte, ajudou-me a tornar-me homem.
Há algo a celebrar no meu dia de mães e peço mil desculpas às mães que esqueci de mencionar. Mas sei que elas se sentem representadas quando falo de todas as boas mães do mundo.


