quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O trabalho de aprender

Seropédica, 23 de setembro de 2020. Relembro aqui o momento bem crítico em que, numa festa de criança, conversava com um conhecido sobre a nossa realidade e a mundial. Aconteceu assim que o Temer assumiu, que o golpe parlamentar contra o governo da Dilma procedeu.

Na ocasião, meu interlocutor disse que eu não podia falar ‘mal’ do governo, que não havia nada de golpe, e que, sendo um acadêmico, um intelectual, eu era um ‘teórico’, um ‘eterno estudante’, alguém que vivia fora da realidade ou numa realidade à parte. Infelizmente, no calor da hora, não me ocorreram as palavras que agora me acorrem com facilidade e alegria.

Ele, um ‘empreendedor’ do varejo Seropedicense, continuou falando e não conseguiu explicar-me o que seria tal realidade e como e porquê dela eu distava ou a desconhecia. O impacto daquela atitude tamanha em burrice arrefeceu severamente meu ânimo e ideias, pois só consegui dizer: "Estou curioso para saber qual é o papel que você desempenha na criação e produção da realidade em que vive e que lhe permite o luxo de conversar com um estranho de uma outra realidade". 

Sem responder, a figura – um desses que crê estar ao lado de um banqueiro na produção da realidade brasileira – preferiu partir para as tradicionais frases feitas e derivações delirantes que o afastaram abruptamente do tema. Típico panfletário do “você trabalha ou só dá aula?”, ele conseguiu a façanha de colocar o ‘só dá aula’ numa realidade à parte da que ele cria estar e na qual parecia desfrutar de condição privilegiada, pois sentia-se autorizado não apenas a desconstruir ou desabilitar alguém que com ele não se parecesse, como a também subtraí-lo da realidade.

Esperando a hora de ver aquela interação findada, pensava não apenas na desabilitação do professor que sou, mas principalmente na figura do estudante, no encarceramento dele no não-lugar chamado ‘eterno estudante’; ironicamente, lembrava que não fazia muito tempo que o nobre carcereiro havia se formado num curso superior. Lamentavelmente, como muitos outros, ele realmente não sabia ou esquecera do mundo de competências ou habilidades que um estudante intuitiva e tacitamente aprende e desenvolve em sua viagem rumo à toda aprendizagem formal que lhe proverá outras competências e habilidades (codificadas); que tais qualificações e habilidades prévias somam-se às dos professores na viabilização da aprendizagem por meio do processo ensino-estudo; que todo estudante labora um bocado, pois aprender, por mais lúdico que deva ser, ‘dá trabalho’. 

Abro nesse momento as comportas das lembranças dos 45 anos em que estou fora da realidade, já que desde os quatro, quando comecei, jamais parei de estudar. Diante as imensas dificuldades de compreender de maneira linear e ainda devidamente representar em minha mente os conteúdos de matemática, línguas, ciências etc., lembro que precisei de muitas soluções incomuns e improvisadas para chegar a algum aprendizado. Lembro-me com prazer de quando comecei a usar de metáforas, associações criativas de palavras e símbolos, de exercícios de imaginação e visualização e de construção de esquemas e estruturas para acessar melhor os conteúdos. 

Como foi prazeroso pra mim colocar-me na posição de um montador ou construtor ou design ao combinar elementos para construir textos ou dar conta das desafiadoras análises sintáticas e morfológicas da Dona Inácia e da Maria da Penha. Não menos prazerosa foi a condição de sentir-me um decifrador ou investigador ao deparar-me com a necessidade de solução para problemas matemáticos: “Pistas, precisamos achar as pistas que levam às soluções; não tem só uma”, ensinou-me o primo Fernandinho. Quantas vezes estive na intuitiva e misteriosa condição de alquimista antes de encarar os desafios de física e química: eu tentava visualizar como ocorreria cada interação de elementos antes de enfrentar as transformações químicas e físicas solicitadas no papel à frente. Por fim, que dizer da criteriosa e detalhista condição de cartógrafo e desenhista ao traçar os mapas necessários para lidar com tanto informação espacial e temporal que geografia e história mobilizavam?

Toda essa informação não foi encarada de maneira linear, nem foi lógica e convenientemente acomodada em nebulosos endereços de memória de curto ou longo prazo; fizeram-se necessários mapas, esquemas, estruturas, setas para lá e para cá e pontos-chave depositados em folhas em branco para depois serem devidamente lidos e relidos. Precisei e muito ver-me nessas condições para enriquecer e potencializar as aprendizagens necessárias à minha caminhada à margem da realidade. 

Destaco também o que aconteceu quando comecei a superar os dramas da gagueira, na sexta-série; eu e Márcio Pena costumávamos voltar à pé aos sábados do Colégio Fernando Costa e, numa dessas caminhadas, ele disse que o Beto Guedes era gago e cantava e que eu deveria tentar ‘falar cantando’ ou ‘encarnar uma personagem’ para superar o problema e dar conta das leituras exigidas pelos professores; nos sábados seguintes, ele pedia que durante a caminhada fôssemos interpretando personagens num teatro improvisado. Assim, com a ajuda de um estudante de 14 anos, comecei, aos 15 anos, a vencer a gagueira, a melhorar meu desempenho social e de estudante. 

Ironicamente, lembro-me também de como precisei ser 'empreendedor' e 'inovador' no pensar e agir para lidar com a frustração de não ter conseguido falar corretamente inglês com o presidente de uma empresa em que trabalhei. Nesse mesmo dia, assistia à noite um programa sobre a ida do homem à lua quando pensei: “se o homem foi à lua na década de 60, por que não vou falar inglês em 1997? vou falar!”; disse a mim mesmo: “existe o que eu não conheça – que aliás é muita coisa! –, mas não existe o que eu não possa conhecer”. Desliguei imediatamente a TV, fui a um curso de inglês e me matriculei num intensivo de cinco dias por semana. Terminei esse curso em onze meses, com apenas três faltas e muita aplicação de velhas e novas habilidades e competências intuitiva e tacitamente obtidas. 

Bem, não foi o pensamento utilitário e o incentivo – o respeito dos que me viram falhar ou a redução da vergonha – que explicaram e responderam por isso; foi pensamento substantivo, consciência acurada da realidade, determinação e motivação intrínsecas comuns àqueles que respeitam e admiram o conhecimento, a sua produção e o trabalho que dá aprender, que me levaram ao insight de que não existe o que eu não possa estudar, compreender, aprender, por mais trabalho que isso dê. 

Atualmente, eu e meu carcereiro-empreendedor só nos encontramos pelas redes sociais e não trocamos mais que o indispensável para uma convivência digital vazia e protocolar; todo comedimento faz-se necessário para que não descambe em infrutíferas discussões em uma timeline. Ele se encontra na fase de assumir em suas postagens que o governo atual é um fracasso, embora não assuma que embarcou ingenuamente na grande fantasia de que viraríamos uma nova América. Segundo ele, o país precisa estar na 'ponteira das tecnologias' para ser mais produtivo e eficiente.

Tecnologia, como sabemos, precisa de gente que estuda e ensina com incentivo, motivação, prazer e competência; gente que, segundo ele, geralmente vive à margem da realidade em que ele se encontra. Creio estar chegando o momento em que nos reencontraremos e poderei lhe falar tudo o que só me ocorreu quando não precisava mais dele me defender. Terei a obrigação de reivindicar o reconhecimento dele do devido e imperioso lugar ocupado pelos que ensinam e estudam na produção dessa realidade que a todos desafia.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O chamado

A vacilante atenção que dou ao desejo de escrever (ou como acolho o eu-escritor) é uma questão que me incomoda bastante. Desejo mas não persevero. Um sintoma é ter começado vários textos e terminado apenas um livro que escrevi para meu filho. As elaborações que faço não conduziram a um entendimento apurado dessa vacilação. Em primeiro de julho de 2020, entretanto, um evento inesperado, marcante, atravessou essa questão, está reverberando e ainda não consigo avaliar suas consequências.

Há anos o devido acolhimento ao eu-escritor vem se arrastando, hesito em consolidar essa dimensão da minha experiência identitária. Quando não duvido e subavalio minhas competências, ataco o desejo, chamando-o de ‘fantasia estendida para lidar com a dura consciência de que se é alguém comum’. Isso revela uma representação glamorosa que fiz do escritor e péssima da vida rotineira; também pontua uma postura muito dura comigo mesmo. É algo da ordem do sequer dizer: ‘puxa, sou um escritor’ ao entrar em contato com algumas coisas que escrevo, preferindo referir a mim como diarista. Sei que há um contraditório exigente permeando a questão: assim tenho me visto desde que comecei a fazer registros, mas fazê-los sempre foi prazeroso e uma via bem eficaz para lidar com a matéria densa do viver.

“Por que lido assim com o que me mobiliza e dá prazer?”, vivo a me perguntar, sem me responder contundentemente. É uma experiência muito ruim, pois, se não consigo determinar quem sou em relação ao desejo de escrever, também não consigo ser contundente para lidar ou fazer calar vozes sorrateiras da intuição reclamando atenção ao desejo; vozes que se aproveitam de brechas abertas por pensamentos sobre o rumo que dou a minha vida para aumentar o tom. Nessas ocasiões, emerge uma péssima e arrastada experiência de insatisfação e desconforto no dia-a-dia, uma permanente sensação de não-lugar me dominando, potencializando pensamentos como: “Você realmente continuará a fazer ‘esse mesmo’ em sua vida? E o escrever? Vai lá, diga: quem é você? Cadê os papeis, lápis e canetas para a ação? Cadê o computador? Os livros, por que não os está lendo?”. 

Recentemente, depois de horas envolvido na confecção do trabalho de conclusão de curso de psicologia, me deitei para descansar e logo vieram muitos pensamentos e as sorrateiras [vozes] se fizeram presentes: “Há cinco meses você trabalha diariamente com isso, já tem quase 100 páginas. Por que não investir o mesmo e escrever uma história ou terminar uma das muitas que já começou e parou?”. Recorri à tradicional cesta de desculpas para responde-las: comecei pela defesa das demandas imediatas que emergem da vida de docente e de aluno de psicologia, passei pelas justificativas de obras e outros imprevistos em casa, para terminar com o frustrante ‘um dia, quem sabe, quando vier a aposentadoria de professor, eu me ocupo disso’. Aí é que as sorrateiras não se calaram: numa noite em que tive muitos sonhos, elas aproveitaram todas as vezes que despertei para iniciar diálogo. 

No dia primeiro de julho, essa questão sofreu uma inflexão extraordinária. Deitado para avaliar a pressão arterial, ouço o telefone tocar, mas não atendi. As chamadas continuaram e decidi que, ao terminar a medição, atenderia. Quando atendi, me deparei com uma tela diferente da tradicional: era a primeira vez que recebia ligação via facebook. Ao vir o nome João Carlos Luz na tela, me assustei e levantei na hora. Atendi e o inusitado começou: “Marco Bauhaus? É João Carlos luz!”. Ele queria saber se podíamos conversar mais, falou que estava preso em casa pela pandemia e, para fugir da rotina, começou a vasculhar quem eram os amigos do facebook que de imediato não os reconhecia. Veio uma sequência de perguntas que certamente fizeram minha pressão, que é baixa, ir às alturas: “Diz pra mim quem é você, Marco Bauhaus. O que você faz? Sabe quem eu sou? De onde nos conhecemos? Vamos lá, vamos papear um pouco aproveitando essa oportunidade que a pandemia nos faculta!” Antes que lhe respondesse, ele comentou que, devido ao nome Bauhaus, julgava que eu não fosse uma pessoa qualquer. Derivou sua fala para a escola Bauhaus, a República de Weimar, o que o nazismo havia feito com a Bauhaus e como podiam ter colocado todas aquelas pessoas incomuns para fora da Alemanha. Expliquei que Bauhaus era apelido adotado quando fui aluno do CTUR, em 1989, mas estava mobilizado pelo susto que sua inusitada aparição me deu. 

Não era uma visita qualquer: João Carlos Luz, além de grande músico, é uma especial personagem de um conto que comecei a escrever e não terminei, um dos que mais faz a alma doer quando lembro do não perseverar no desejo de escrever. Até então nos falamos apenas uma vez, em 24 de junho de 2017, na praça Nelson Mandela, em Botafogo. Ele tocava sozinho seu clarinete quando saltei do ônibus e ia em direção à padaria Le Depanneur. À época decidi que nesse dia faria um roteiro cultural por Botafogo, visitando livrarias e cinemas para extrair elementos para dar continuidade à ideia de um conto que me ocorreu no lançamento do livro ‘Despreparação para a morte’, de Roberto Bozzetti, na noite anterior, 23. Não cheguei à padaria: além da música dele chamar muita atenção, uma situação única rolava: ele tocando chorinho sem plateia e, a alguns metros dele, dezenas de pessoas participando de uma pregação religiosa e viradas na direção dele. A cena me marcou: ele mais que tocava chorinho: sozinho, disponibilizava, em praça pública e aos olhos e ouvidos de quem tivesse um mínimo quinhão de sensibilidade, um bravo ato de resistência cultural. Com coragem e simplicidade, fazia os sons da sua arma (clarinete) soar pela Nelson Mandela. A cena era chocante e irônica demais para um lugar com o nome Mandela. Decidi que participaria da resistência cultural e tentaria fazer dele uma das personagens do conto. Pedi que tocasse André de Sapato Novo, que o fez magistralmente; tocou mais algumas músicas e, ao final da sequência, compartilhei o prazer de ter participado da situação, expliquei brevemente a ideia do conto e fiz duas perguntas. Respondeu que estava ali por prazer e que eu poderia incluí-lo como personagem do conto. Elogiou a iniciativa e me passou o contato para segui-lo na rede social e informá-lo sobre o conto. 

Passados três anos, ele é quem me acorreu numa cena e contexto também chocantes e de resistência, mas lamentavelmente marcados pela covardia de uma personagem diante o próprio desejo. Assustado e envergonhado, andava pela sala e buscava palavras para dizer que não terminei o conto. Ironicamente, vi na mesa o computador e, ao lado dele, meus cadernos de registros e várias canetas, todos usados para o TCC do curso de Psicologia. Vi Rosângela tirando 'minhas armas' da mesa para colocar sobre ela o almoço. Pensei: “É o cotidiano se impondo às vacilações de quem, podendo transformá-lo, simplesmente não o faz; é sinal de que em poucos minutos eu mais uma vez me calarei com a ‘boca de feijão’ e arrastarei pela tarde a angustiante sensação de não-lugar”. 

Educadamente, João Carlos Luz ouviu as desculpas e disse: “Lembro-me vagamente dessa situação, mas por que não terminastes o conto?”. Não tive coragem para dizer que foi por covardia. Aproveitando meu silêncio, ele completou: “Então estou falando com um escritor. Quando terminar, me avisa. Quero ler”. 

Porque não é todo dia que uma personagem procura o escritor, não foi uma ligação qualquer, foi um chamado. Em verdade foi o chamado: a personagem chamou o escritor para se assumir e se autorizar na ocupação de um tempo e lugar em sua própria vida, exortou-o a pegar suas ferramentas para atender aos chamados do próprio desejo, ainda que por vezes seja necessário fazê-las de armas na resistência contra ameaças ao desejo. 

Em meio à tensa situação, buscando palavras para honrosamente agradecer, lidei com a sutil ironia do título do conto inacabado ser ‘Preparação para a vida’. Preparação para uma vida que há pouco completou três anos e vive me exigindo um efetivo começar.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Corrompido por Lucrécio, Luis Carlos, Cidinha, 14 Bis, Beatles e a Melodia-FM

Recentemente elaborei a restituição do delicado à pauta da minha vida. Vida como homem que quis ser, em contraste com o homem que meu pai, tios e o tempo deles queriam que eu fosse.

Embora eu tenha bem claro comigo alguns dos efeitos de não submeter-me à dura forja de vir-a-ser homem dos meados dos anos 80 – de ter crescido ouvindo que “filho meu não pode ser gay, ladrão, drogado ou comunista” –, ainda não tinha devidamente elaborado alguns detalhes desse processo, como o das forças que atuaram nos subterrâneos daquela bucólica Seropédica e das minhas demandas naquele momento.

Para que lançasse-me na aventura de viabilizar um jeito de ser homem mais autoral (o máximo possível autêntico, original, ainda que bem idiossincrático) foram necessários mais que meus estranhamentos e desconfortos existenciais que levaram ao conflito e à desidentificação com meu pai. Algumas forças, somadas às circunstâncias, contribuíram para que um instituído cedesse a um inusitado e atraente instituinte que, sorrateira e cuidadosamente, agiu pelas bordas naquelas teias de relações sociais e familiares tecidas (entre 1981 e 1986) no perímetro entre as ruas Tharssis e Paula, Albertina Rosa, Solange de Barros e Ana Fraga.

As palavras que aqui trago, entretanto, não darão conta do cáustico que foi essa institucionalização, do doloroso processo que fez com que um adolescente rompesse com a identificação com seu amado pai e se lançasse na aventura de viabilizar um homem diferente daquele da conhecida forja que seu meio machista oferecia. Talvez seja mais correto dizer 'institucionalização do homem que eu pude ou posso ser', algo diferente daquele que quis ser, pois, até que a noção de homem possível emergisse, tal institucionalização foi marcada pela mistura conflituosa entre fantasias, projeções e definições rígidas de como eu não queria estar no mundo e que tinham meu pai e tios como referência principal (Sim, este processo tem sua origem nos conflitos mal resolvidos do processo edipiano e que estendeu-se mais do que necessário, pois meu pai, equivocadamente, teve ciúmes de mim com sua segunda esposa, o que produziu mal estar constante entre nós até que, em 1989, eu e minhas irmãs nos mudássemos para outra casa).

De repente, no desenrolar dos conflitos da adolescência, aos 14 anos, dei-me conta de que meu pai e eu estávamos bem distantes um do outro, apesar de morarmos na mesma casa; nossa relação estava bem deteriorada. À época, emergia em mim o desconfortável sentimento de estar perdido, sem rumo ou direção na vida, e, lamentavelmente, não sentíamo-nos próximos o suficiente para amenizar isso tudo. Tanto é que não me lembro dele falando para mim sobre futuro, sobre o que eu poderia fazer ou deveria tentar fora do rígido conjunto “filho meu não pode ser gay, comunista, drogado ou ladrão” e sem a influência do seu temor de que corrompesse-me, desvirtuasse-me, e saísse do ‘caminho certo’. Lembro-me que havia nele tanto medo de que eu ficasse curioso com ‘essas coisas’, que não houve flexibilidade para perceber que eu demandava receber ou conhecer outras coisas, como as do amor, entre um homem e uma mulher ou entre irmãos ou entre pais e filhos. Demanda latente e evidente em mim, pois, hipocondríaco, medroso, gago, inculto e de baixa-autoestima como estava naquela fase, dificilmente confrontaria suas ordens e iria aos furtos ou às drogas ou aderiria a grupos ideológicos. Eu era ligado nas coisas da sexualidade, mas também muito ligado ao amor, nos dramas afetivos, e isso era visível na maneira como conectava-me com as músicas sertanejas e aos seus e aos meus dramas com a morte da minha mãe. Assim que ela se foi, dormi muitas vezes com ele e também chorei enquanto ele chorava, provavelmente por ela. Nessas ocasiões, sempre tinha ao fundo uma música tocando no rádio que raramente era desligado.

Músicas e rádios são elementos marcantes da nossa história (também na com meus tios e primos) e estão no cerne dessa institucionalização de um outro vir-a-ser homem. Alguns eventos dessa fase estão bem vívidos. Lembro-me de ver meu pai e tios tomando cervejas e ouvindo música, emocionando-se e dirigindo seus pensamentos para mulheres que parecia-me não serem aquelas que estavam na sala ao lado. Outro evento foi o dia em que eu assistia ao Gilberto Gil cantando Refazenda na TVE, e, abruptamente, meu pai veio e desligou a televisão dizendo que na casa dele não tocaria música de comunista. O cerco dele fazia-se bem sentido quando elevava as críticas às performances de Homem com H do Ney Matogrosso em programas que ele assistia.

Aos poucos, porém, a identificação que tanto tive com as músicas sertanejas e danças (como o rastapé) foram perdendo sua força. As rádios Capital e Record foram substituídas no meu gosto, primeiro pela rádio Mundial, por influência da Cidinha, que tomava conta de mim e das minhas irmãs, e, depois, pela rádio Melodia, influência dos primos Lucrécio e Luís Carlos, irmãos, que moravam a duas casas da minha; Sérgio Reis, que era o ícone da nossa convergência, foi suplantado pelos Beatles, o ícone da nossa divergência; a FM suplantava a AM na constituição da rotina da minha vida (Até que entre mim e a AM houve um reencontro por meio da minha controversa conexão com às rádios MEC-AM, CBN e Tamoio, Programa Recordações Saudade, do Jose Duba).   

Eu era bastante identificado (e ainda levo alguns resquícios) com o seu hábito de ouvir músicas sertanejas na garagem lá de casa, principalmente no final de semana, ocasião em que bebia umas cervejas e, calado, fechava-se num mundo só dele, colocava seus pensamentos sabe-se lá onde, presumidamente nas experiências afetivas que teve com minha mãe, com a trajetória da história deles. A identificação foi tanta que até hoje lembro das músicas, em especial de Cama de casal, de Chitãozinho e Chororó. Era tocar essa música e ele ficar visivelmente sensibilizado, chorando lá no fundo da garagem, perto do som, com o copo de cerveja, sem falar abertamente para mim, que por aquele espetáculo era continuamente atravessado e maculado. Essa, somada à experiência do encontro entre ele e os irmãos e amigos para tomar cerveja e se emocionar por amor, foi a minha única escola de aprendizagem do amor até que emerge o instituinte que me corrompe.

Aquelas aprendizagens sobre o amor não me faziam nada bem e, à época, achava que delas conseguiria fugir; ingenuamente, costumava dizer-me: "chorarei de alegria pela mulher que estará ao meu lado". Abri-me então à influência da Cidinha e de suas aventuras pelo amor, às histórias de como havia sido o baile no Clube Seropédica no final de semana e das músicas que eles gostavam e diziam ser a “nossa música”. Cuidando da gente e da casa, ela sintonizava o rádio na Mundial (AM-860) e adorava os programas do Alberto Brizola e do Oduvaldo Silva (show dos bairros). Quando tocava as que mais gostava, ela parava e suspirava. Eu adorava ver aquilo. Meu pai, Aloísio e Abeilardinho até criaram uma discoteca na Igreja São Benedito, em 1985, e lá aprofundei-me nessa linha, mas o forte eram músicas românticas e de discoteca estrangeiras que tocavam nas novelas.

Um dia, quando Lucrécio manobrava na esquina o chevette branco do pai, seu Nemésio, ouvi uma música que de pronto me tomou-me de assalto, mexendo bastante comigo. Lembro dele me respondendo: “é Linda Juventude, do 14 Bis, na rádio melodia, FM-91,7. É isso que você tem que ouvir”. É o marco da minha entrada no mundo FM, na MPB que não a caipira e as melosas que a Cidinha tanto gostava de ouvir o Oduvaldo Silva anunciar. Pelo Lucrécio, cheguei ao Luís Carlos, figura espetacular, apaixonado pelos Beatles e que fazia para mim uns desenhos irados de gente tocando guitarra, com umas mensagens muito loucas (que passei a colar na parede do meu quarto e ter problema com meu pai). Desenhos feitos na parte de trás de cartazes de cigarros que eu pegava nos bares ali perto. Com Luís Carlos, ouvi minha primeira música dos Beatles, Yesterday. Passei a ir direto à casa deles, para sofrimento da Dona Conceição, para ouvir os Beatles; em casa, pedia ao meu pai para ter um rádio para escutar a Melodia, afastando-me progressivamente das aprendizagens com a Cidinha e com ele.

O amor que eu queria cantar era do 14 Bis (nem tanto o dos Beatles, que virou minha banda favorita) e que tinha na música Nova manhã a principal referência. Talvez falasse-me essa música de um amar que, ainda que com pontas de dor, tivesse elaboração mais positiva da experiência, que me tirasse do fundo daquela garagem e me lançasse no mundo, em um novo dia, em uma nova manhã, enfim, em outras possibilidades de sorrir e chorar por amor que logo voltassem os envolvidos aos risos.

O instituinte estabeleceu-se e, para permanecer, exige-me um continuo processo de reelaboração de suas motivações. Tornou-se farol na formação da minha identidade, produção da minha subjetividade e navegação pela vida. Passados 35 anos, onde fui parar? Saí da garagem, estou na estrada, nesse desafio de viabilizar um ser homem em estruturas e orientações flexíveis, mais adaptativas que as do meu pai e do seu tempo. Tornei-me pai e meus filhos são os que têm a dizer algo sobre isso. Meu pai ficou naquela garagem e fez dela o seu lugar, permanecendo fiel e perseverante no que desejava para ser o homem que foi ou pôde ser: o gorilão da horda, o mítico Antônio Goulart, o Ratão, o amado Mineiro. Entre as muitas coisas que admiro nele, tem lugar especial para mim o quanto ele perseverou no desejo dele. Levo comigo a impressão de que estou perto de achar o meu ‘lugar’, um em que talvez me assente e possa lidar mais produtivamente com o perseverar no que desejo, o estabelecer regras e interdições (quem sabe a mim mesmo), o entrar em contato com os atraentes e corruptíveis instituintes e o fazer o devido luto dos destituídos. 

'Soltando as palavras nas estradas', estou a caminho e realizo que as palavras de Milton Nascimento que tanto me marcaram três anos à frente (1989) tomam outro sentido para mim. O “minha casa não é minha e nem é meu esse lugar” vai sendo ressignificado, pois aquela era mais do que minha casa -- era o meu lar -- e Seropédica é sim meu lugar. A ideia era ser o máximo possível autêntico, original e idiossincrático, mas fui atravessado pelas palavras e cenas daquela época e elas estão impressas na memória, acionando facilmente fortes emoções. Sei de cor todas as músicas que embalavam meu pai e tios, como sei as do 14 Bis, dos Beatles e do Milton Nascimento. Fica uma aprendizagem importante: ao não dar conta da importância do perseverar no desejo e de enfrentar os inevitáveis conflitos que isso faz emergir, aprendi a buscar rotas alternativas para chegar aos meus objetivos, o que tem um preço bem diferente do de preservar. Tais rotas, longas e sinuosas, trouxeram-me até os 49 anos e sei onde ficam os atalhos que me levarão àquela garagem para reconciliar-me com meu pai.


Nova Manhã - https://www.youtube.com/watch?v=zHdZi7R7Uf8

Cama de Casal - https://www.youtube.com/watch?v=GUD8JdmyDJg




sexta-feira, 1 de maio de 2020

Lembrar e esquecer, para seguir em frente

Em meio à pandemia me fiz muitas perguntas, mas recebi três que me chamaram atenção: (i) se já havia nascido em mim algo que levaria para o resto da minha vida, (ii) o que deveria fazer mais e (iii) o que deveria deixar de fazer. Nenhuma dessas perguntas eu havia me feito, confesso, embora desde o seu início o isolamento forçado tenha sido um convite a uma viagem pelos interiores da casa, do lar e de mim mesmo, convite que a ele não declinei e que me rendeu muitas reflexões.

Ao pensar sobre o que nasceu em mim durante a pandemia e que levaria para o resto da minha vida, me deparei com uma grande ironia: o que nasceu em mim na experiência de grande vulnerabilidade que é essa pandemia fora de controle é a consciência de que preciso aprender a morrer. Com a pandemia, a morte, sempre tão próxima e ignorada por mim, ficou tão evidente e tão dentro da pauta de pensamentos de todos. Comecei a compreender que temos que ser educados para a vida e para a morte. No meu caso, nada tão simples, pois contrasta com algumas crenças que embalaram minha corrida pela vida: sempre cri que viver é, acima de tudo, lutar para não morrer. De repente, tudo mudou e contrário às minhas vontades e às referências que tinha dessa luta. 

A mudança brusca de rotina, as forças que me impuseram um jeito de viver contrário ao meu desejo, o afastamento de quem amo e do que desejo, a solidão, a dificuldade de encontrar a solitude, a perda de controle sobre as coisas, o inimigo invisível e mortal...tudo isso me mostrou que nada sei sobre despedidas, resignação, conviver melhor com contrariedades, impotência, angústia de viver e de ver e sentir isso escorrer pelas mãos e sem caber em palavras. Sei o que é querer, mas nada sei sobre deixar ir ou deixar para trás; sei sobre sair e voltar, mas nada sobre ir sem olhar para trás. O isolamento deixou isso claro para mim.

Em isolamento forçado, me vi visitando realidades desagradáveis, doídas, como estar a dois metros da minha filha e não poder abraçá-la para evitar contaminação, de ir embora para minha casa sem saber se vou vê-la novamente. Principalmente, me vi revisitando situações, momentos, lugares e pessoas, onerando perigosamente meu psiquismo com duras lembranças e sentimentos tristes quando precisava dele o máximo saudável. A senha estava clara: associado ao meu não saber morrer está o meu não saber fazer luto.

À espera de um recomeço da vida, para começar a aprendizagem sobre a morte, decidi que a resposta inicial seria, no isolamento, aprender a fazer luto para fazer o luto de todos os lutos que não fiz. E assim está: com imenso medo de morrer, começo a aprender sobre morrer, fazendo não um movimento de desapego em relação ao que tenho e quero ou ao que ainda posso ter e querer, mas em relação ao que quis, tentei, tive, fiz e que ainda não aceitei ou não compreendi a sua passagem, investindo energia nisso sei lá por que.

Pensar no que deveria fazer mais e no que deveria deixar de fazer depois que a vida voltar ao normal também proporcionou um grande aprendizado. Começando pelo que deveria deixar de fazer, isso ficou bem claro para mim no dia em que assisti a uma live do Cirque du Soleil. Em meio ao extasio provocado pelo show que eles entregam, pela apreciação objetiva da incrível performance, individual e em grupo, realizei que aquilo é possível porque eles literalmente se entregam de corpo e alma ao alcance dos objetivos e metas que têm. Enquanto grupo, sabem o que querem produzir nas pessoas, entendem como cada um pode contribuir com isso, se conhecem e têm confiança uns nos outros, se comprometem, treinam e aperfeiçoam. Enquanto membro, cada um daqueles profissionais parece ter uma clareza sobre o que quer para sua vida e literalmente entrega seu corpo e alma aos papeis que desenvolve. O mínimo sinal de uma não-entrega ficaria evidente numa performance desapontadora ou pouco envolvente. Ao realizar isso, me perguntei: “Onde e quando você se entregou de corpo e alma, Marco?”.

Decepcionado, visitei as memórias e constatei que até então me entreguei bem pouco de corpo e alma, do amor ao labor; que poderia ter mergulhado nos diferentes fazeres em que me envolvi, do técnico-administrativo ao docente, passando pelo profissional de vendas e marketing e pelo ser que gosta de escrever. Invadi a seara dos meus desejos em busca do porquê, de entender se faltou a clareza sobre o que queria para minha vida, insegurança sobre minhas capacidades ou garantias de retorno ou se esbarrei no medo de me perder ou sofrer. Ainda não encontrei respostas claras, mas defini que o que deixarei de fazer é o não-fazer ou fazer menos ou fazer pouco, é o deixar de criar sentidos para minha vida poupando corpo e alma, é o poupar corpo e alma dos riscos do encontro com o que intuo e sinto ser bom para mim. Talvez precise ser mais mulher e menos menino ressentido com os dramas que experimentei nessa vida, que talvez precise dar à luz e cuidar de algo que muito desejo. 

Ao pensar sobre o que deveria fazer mais daqui para frente, me dei conta de que o mais correto seria o que não deveria deixar de fazer. Uma das coisas que o isolamento me impediu foi ir ao encontro das pessoas, amigos e parentes, de visitá-las, abraçá-las, de olhar firme em seus olhos e segurar em suas mãos, de delas e de suas vidas saber, de a suas histórias beber e comer, de a elas servir, de nelas investir e deixar claro que eu realmente me importo com elas e que são importantes para mim, de dizer que sou grato ao que por ventura fazem ou fizeram por mim ou pelo simples fato de um dia nossas trajetórias terem atravessado umas às outras. Ironicamente, pouco antes da pandemia havia pensado que buscava mais as pessoas do que elas à mim, que talvez merecesse reciprocidade, um claro instante de insegurança sobre ser desejado. Bem, fato é que estou há mais de quarenta dias sem poder fazer o que afinal muito gosto de fazer, pois muito prazer me dá e aceito que não deveria ser pautado pela reciprocidade, mas pela perseverança no que acredito e me faz bem. 

Por fim, confesso que demorei a compreender o que Renato Russo dizia com “Todos os dias/Antes de dormir/Lembro e esqueço/ Como foi o dia/Sempre em frente/Não temos tempo a perder”. E assim, depois de muito tempo, esse trecho de Tempo Perdido se tornou base para um mote do resto que ainda me há de vida: “Desejar, incidir sobre o dia, não temer, fazer, lembrar e esquecer como foi o dia, voltar a querer, seguir em frente, sem peso a carregar, sem tempo a perder”.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O encontro de dois meninos

Seropédica, 17 de setembro de 2011. Fui à casa da tia Ana, dia de festa para os aniversariantes do mês de setembro e lá são muitos. Todos festejavam, exceto eu, devidamente advertido de que naquele lugar e exatamente há trinta anos recebia de tia Ana, em companhia de Neusa e Darcy, a notícia de que minha mãe morreu. Não toquei no assunto e dele ninguém se lembrou, felizmente. As lágrimas ora as bebia ora sobre elas sorria. O clássico e pouco inspirador sorriso do autoengano, mas aquele garoto de 10 anos que um dia fui estava ali e precisava ser acolhido

Ironicamente, era um dia muito especial para o Marco Souza, um homem de 40 anos. Estava muito ansioso, pois, depois que saísse dali, entraria pela primeira vez na casa da Angélica, a quem já amava e demais detalhes de sua vida queria saber. Seria apresentado aos seus filhos como pretendente dela, não mais como conhecido que se cumprimenta à rua.

Assim que cheguei à casa de Angélica, fui avisado de que Carol dormia e Milton estava acordado. Carol foi se preparar para me receber, mas adormeceu. Quando entrei, Milton, deitado em sua cama, me olhava com tranquilidade. Seu quarto ficava de frente para a porta da sala. Meio desconcertado, da porta perguntei se poderia ir até ele para cumprimentá-lo, mas me disse que não. Logo após, saiu e veio me cumprimentar.

Percebendo a delicadeza do momento, fiz questão de terminar de chegar e bem devagar. Fiz movimentos leves, falei pouco, pedi licença, sequer toquei em sua mãe. Deixei o implícito com seu misterioso status intacto. Àquela altura e naquelas condições, qualquer insinuação de objetividade impactaria fortemente o menino de 10 anos, ao mesmo tempo em que me alçaria à condição de invasivo, uma figura desagradável ao filho da mulher que me propunha conhecer e abrir espaço em minha vida.

Na sala, novamente o cumprimentei e, na esperança de que ele ditasse o ritmo daquele inusitado encontro, esperei que falasse. Milton me recebeu com simplicidade e simpatia. Fiz perguntas sobre as coisas das quais gostava e ele foi me apresentando aos elementos do seu mundo. Apontou para o quarto, foi para lá e da sala eu via os primeiros brinquedos dele. Convidou-me, pedi licença ao entrar, não toquei em nada, esperei que me dissesse o que fazer. A primeira coisa que fez questão de mostrar foi a prateleira com seus bonecos, ressaltando que foi obra do seu pai. Deteve-se na história da prateleira, deu muitos detalhes. Olhando firmemente em seus olhos, elogiei o trabalho do pai e a coleção de brinquedos.

Enquanto fiquei no quarto, me mantive interessado pelo seu mundo e fiz de tudo para não negligenciar os recados que sutilmente me passava, um em especial: essa casa ainda pertence a um homem. Um homem que ele mantinha vivo ali dentro, embora não mais frequentasse o lugar, nem mais tivesse relação com sua mãe. 

Entre as várias e essenciais razões para manter o interesse pelo mundo do Milton, uma reclamava atenção: o destino criou um encontro especial entre dois meninos de dez anos. Era fácil estar no lugar dele: há aproximadamente trinta anos, não na mesma data, acontecia algo semelhante comigo. Em minha casa, e pela primeira vez, entrava a mulher que seria nossa madrasta e ocuparia o espaço que foi da minha mãe, recém falecida. Lamentavelmente e pouco tempo depois, as condições nas quais se deu a entrada definitiva dela em nossa casa foram tensas, deixando em mim a certeza de que não foram respeitados os aspectos simbólicos mais importantes. Durante muito tempo, foi para mim uma invasão, uma barbaridade, um completo desmantelar de todo universo objetivo e subjetivo que me localizava no mundo, no tempo. Construir um novo lar numa mesma casa requer uma engenharia especial, demanda recursos valorosos e delicados, principalmente amor, paciência, dedicação e tempo. Não foi assim que aconteceu e tudo mudou: primeiro, uma nova rotina; depois, os elementos que sinalizavam a presença da minha mãe foram retirados e ela morria mais uma vez; por fim, mudamos para o bairro Ecologia. A casa de onde saímos, aquele lar, o meu universo, me dava uma confortante sensação de pertencimento, algo importantíssimo diante toda transformação que experimentava naquela fase da vida. A senha para a aprendizagem essencial sobre o viver estava decifrada: entrar na casa do Milton significava, simbolicamente, entrar na minha casa e fazer tudo do que jeito que deveria ter sido. 

A visita me reservava mais emoções. Voltamos à sala e em seguida Milton foi ao seu quarto e voltou com uma chuteira que usava na escolinha de futebol, no Seropédica. Deu-me a chuteira e, ao tocá-la, olhei novamente no fundo dos olhos daquele menino de 10 anos, calmo, gentil, receptivo, dono do espaço e da situação. Meu olhar foi do fundo ao longe: ironia do destino ou capricho deste, um calçado, um tênis, foi o presente que minha madrasta me deu no dia em que foi à minha casa pela primeira vez. À época, vivíamos situação difícil, tínhamos pouca roupa em boas condições e o tênis chamava atenção pela novidade e beleza. Lamentavelmente, em função de falas e posições de todos envolvidos afetivamente com a situação (parentes e amigos), prevalecia a interpretação de que era uma tentativa de ‘comprar’ nossa simpatia (minhas irmãs também foram presenteadas), de ‘driblar’ a atenção do que era realmente caro: a falta de clareza no projeto de construção de um novo lar na nossa casa. Como resultado, pouco usufrui do belo presente, pois aquele simbolismo que emergiu diminuía qualquer benefício funcional ou social que pudesse me dar.

Quis o destino que Milton me desse o calçado para segurar. Toquei-o com a mente voltada para aquele garoto de 10 anos que perdeu a mãe e tinha sua vida drasticamente transformada. Ao garoto de 10 anos à minha frente eu perguntava sobre os gols que fazia e se o calçado era confortável e bom para usar. Ao garoto ‘atrás’ de mim eu disse: “Este calçado que agora seguro serve para mostrar que você deveria ir ao campo da vida jogar o jogo que não jogou porque não quis usar o calçado cujo presentear lhe foi tão desconfortável. Vá, vista o calçado, perdoe aquelas pessoas, leve uma vida mais confortável e faça finalmente esse gol”. A mim disse: “Você entrou, respeite esse universo; continue amando essa mulher e a seus filhos, ainda que um beijo possa estragar tudo”. Como nada bebia, às lágrimas novamente sobre elas sorria. Um sorriso de relaxamento, esvaziamento, reparação e reconstituição que só encontros especiais podem oferecer.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Do delicado em mim


Um dia ouvi que uma simples e despretensiosa mensagem pode mudar significativamente o rumo de um dia ou mesmo da vida de uma pessoa. Isso está acontecendo comigo, aumentando ainda mais a excepcionalidade desses dias de isolamento que enfrentamos com o pandemia do covid19.

Em 20 de março, recebi mensagem privada de alguém que há muito não via e com quem nunca tive muito contato, embora estejamos conectados via aplicativo. Conhecemo-nos pelos idos dos anos 90 e nos vimos poucas vezes desde então. A pessoa queria saber o porquê do afastamento que eu vinha mantendo da rede social. No mesmo dia, manifestei minha surpresa pela visita virtual e informei que afastei-me porque estava ficando cético em relação à possibilidade de virarmos o jogo contra essa polarização que embrutece-nos e piora a qualidade das interações nas redes sociais virtual e física; também confessei indignado que estava me sentindo numa bolha e procurei fazer algo para não ficar com a crença de que os problemas estavam nos outros e não em mim, optando por sair da ilha que vira a timeline de uma rede social e onde nela nos refugiamos; por fim, disse que estava priorizando a rede social física, aplicando mais compaixão e empatia, assumindo que o problema também está em mim, procurando rever valores, atitudes e comportamentos e enfrentando mudanças que me impus e atualmente implicam em plena reelaboração de mim. Também no mesmo dia, confessou-me ela sentir o mesmo, embora não use muito a rede social digital e prefira a física e, procurando ser empática, escreveu: “Vi você poucas vezes, mas você me passa certo conforto no trato, acho que por isso, quando vi que você tinha se afastado, ainda mais nesses tempos de quarentena, resolvi “visita-lo”, e ainda reconheceu que poderia ter ficado estranho o “certo conforto no trato”.

No dia seguinte, agradeci e manifestei que ficara mesmo curioso com “o certo conforto no trato”. No dia 22, e com visível cuidado na construção da resposta, ela disse: “trocando em miúdos, acho que quis dizer que você parece uma pessoa delicada e com quem é fácil conviver”. No dia seguinte, muito mais surpreso, respondi que estava em busca de uma resposta ideal para aquelas palavras, que até tinha começado uma digressão; reforcei que estava muito feliz com a surpresa do contato e com a restituição, via percepção e palavras dela, do delicado à minha vida, ao meu jeito de estar no mundo; assumi que a delicadeza fazia parte sim da minha vida e que dela eu muito me afastara ou pouco de atenção a ela dera, e que com a fala dela janelas para muitas ideias havia sido abertas. No mesmo dia, ela respondeu: “então, devo dizer que restituí a você o que você sempre me deu, independentemente das intenções que pudessem movê-lo. Que bom que pude fazer isso”.

No dia 26, com uma resposta aquém da ideal que buscava, mas pressionando-me para logo tê-la, consegui dar continuidade à nossa conversa, que após essa mensagem terminou: “Você me reparentalizou, pois não tive necessidades emocionais atendidas referentes a ser mais soft, light...delicado. Cresci ouvindo do meu pai: “Filho meu não pode ser gay, ladrão drogado ou comunista”. A forja que me fez homem não me deixou ser o homem que eu queria ser. Foi na marra, na rebeldia, na sublevação, que eu me lancei à transformação, ao questionamento do que queriam de mim e do onde eu chegaria sendo aquele homem que de mim fizeram. Foi na experimentação, no corpo da política e na política dos corpos, que adotei algumas postura, novas ideias”.

Findou a troca de mensagens, mas não findaram as inquietudes deste contato tão especial com o delicado em mim, com a experiência de acessar uma representação minha bem distinta da que normalmente uso para me definir e de acessar o material trazido à tona por minhas próprias palavras. Emergiu a grande senha: até aquele inusitado 20 de março eu não havia invadido esta seara tão cara à minha história de vida: a conexão entre o delicado/a delicadeza e o meu vir-a-ser homem (tampouco tenho como saber se um dia aconteceria). A oportunidade, respeitados todos os seus detalhes, tornava providencial aquela restituição; enfim, tinha que ser naquele instante e daquele jeito. 

Palavras. Quantas e fortes emergiram na troca de mensagem e em minha mente. Até 23 de março, diziam-me elas que eu não me reconhecia na delicadeza nem a ela devidamente reconhecia; que refazer-me homem fôra na marra, na rebeldia, na sublevação. Processo este que agora entendo demandar sensibilidade ou autoconhecimento ou experiência ou coragem para se ir além do enfrentamento ao dolorido e extenuante que ele produz e alçar o saber-se delicado, assumi-lo, nele se confortar, a ele proteger e com ele objetiva ou intuitivamente contar para enfrentar a vida.

Tal restituição abriu-me não apenas à compreensão do impacto, mas da necessidade de uma consistente restituição do delicado à minha vida, de modo que ele seja parte evidente e assumida do meu jeito de estar no mundo e de como continuamente me redefino, me reconstruo, me reelaboro. Fortalecido, procurei então compreender como se dera minha relação com o delicado, os nossos encontros e desencontros, o que minhas palavras iniciais não deram conta. Foram muitos e profundos os pensamentos e lembranças que somaram forças para que a partir dali eu revisitasse os pontos de contato e de atravessamento entre mim e o delicado.

Como não perguntei à pessoa o que seria este delicado que eu a entregava, os atributos que o comporiam, acessei as representações que atualmente tenho do delicado ou da delicadeza: mulheres, flores, cristais, relações e o psíquico, e onde se inscrevem o soft e o light. Baixíssimo repertório de associações e representações, confesso, dignas mesmo de uma pessoa que ouvia que homem não chora, que ele tem que se impor e que jamais deixa-se ser um réu confesso de qualquer coisa que faça ou sinta. Considerando peculiaridades da minha trajetória de vida, entendi bem que esse repertório não poderia ser muito rico, embora agora saiba haver alguma efetividade, pelo menos com uma mulher.

Mulheres. Revisitei o passado e logo encarei minha relação com elas, que, além de não ter sido fácil, foi deveras complicada por causa de algumas vontades do destino. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos e, embora ainda tivesse tido três mulheres perto de mim por um bom tempo, não houve com duas irmãs mútua cumplicidade e empatia sobre os dramas de vir-a-ser gente, nem mútua proximidade e afetuosidade com minha madrasta que pudesse viabilizar uma outra forja de vir-a-ser. Nas ruas, aprendizados comuns de meninos sobre sexualidade, com acesso a revistas pornográficas e a compartilhamento de histórias, na maioria das vezes, bastante exacerbadas sobre paqueras, transas, masturbações, etc.. Aprendizagens não sobre a inteireza, integralidade e delicadeza dos nossos e dos corpos delas, mas sobre órgãos genitais e seus excêntricos nomes, tudo muito localizado e resumido, embrutecido. Continuada a revista ao que me permitiu a memória, constatei que, naquela fase, dificilmente reagiria ao embrutecimento ou rusticidade que caracterizava aquele projeto de vir-a-ser homem que nos impunham, aquela dura forja: aos onze ou doze anos lidando com uma criação que diariamente informava que “filho meu não pode ser gay, ladrão, drogado ou comunista”, que também nessa fase me colocara num inferninho para, sob olhares ávidos de tios, ter uma mulher no colo para que ela certificasse que o “pau subia”, que aos catorze ano, quando assistia Gilberto Gil cantar Refazenda, desligava abruptamente a TV e informava que naquela casa não se assistiria a um gay e comunista cantando.

Foi um doloroso e delicado-em-si de abrir janelas para no passado entrar, tendo à mão apenas a luz da coragem e sem dispor do mapa e experiência de um bom analista. Bem mais do que mudar meu dia, essa simples e despretensiosa mensagem produziu efeitos que, bem sei, impactarão meus dias que seguem, mesmo que o fato de não ter sido de uma mulher com que tive relacionamento próximo e intimo ponha tudo isso sob ampla suspeição. A coragem acompanhou a extensão da rememoração para expor detalhes densos da minha história de vida. As janelas estão devidamente escancaradas e tudo isso vai continuar reverberando, repercutindo, atravessando a dolorida e contínua reelaboração da minha própria identidade ou subjetividade. Entretanto, por mais surpreendente e inquietante que esteja sendo, não há estranhamento, negação ou repulsa: há um delicado em mim e ele está restituído à pauta da minha vida.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Aqui e agora: eu, professor.


Noite de 26 de junho de 2019, sala 2, Instituto de Educação, UFRRJ. Estou assistindo a mais uma aula na maratona para me tornar um psicólogo, um plano antigo e que aos poucos e com muita luta vai se materializando.

Estou no oitavo período e assisto aula da disciplina Psicologia e educação: conexões e diálogos, ministrada pela querida e admirada Rosa Cristina Monteiro. Embora seja uma disciplina optativa, Rosa confere a ela a devida importância e suas aulas, sem exceção, têm sido marcantes para mim e certamente para a maioria dos colegas. Estou cansado da jornada que começara às 8 da manhã e sigo à aula sem saber que em poucos minutos eu viveria outro momento significativo nessa minha jornada pela vida.

Rosa nos surpreende solicitando que façamos uma narrativa sobre uma situação bem específica: temos que desenvolver o “eu, professor”, uma narrativa em primeira pessoa. Ela se baseia na teoria dos atos de significação, de Jerome Bruner. Como aprendido em sala de aula, procuramos significar o mundo (mente criadora de significados) e nele agimos em função dos significados e sentidos. A narrativa é uma fonte crítica para o entendimento dos significados ou sentidos que criamos, e a narrativa de si mesmo, dizia Rosa, é um modo de consolidar sua experiência, torná-la consciente e, na medida do possível, ampliar ainda mais o campo da consciência.

Rosa não queria captar as representações desse professor que muitos ali ainda o serão, seu objetivo estava no labor individual para construção do caminho que os alunos estão seguindo para formaram-se e obter o grau de licenciado, queria extrair os significados implicados no emergir do futuro professor. Como nos implicamos na construção desse professor? Tínhamos que ir além da representação para encontrar o sentido de ser professor. Teoricamente, estamos em uma estação próxima à Gare no processo de constituição dessa identidade. 

No momento em que recebo a instrução da tarefa começa um grande desafio para mim: na corrida para ser psicólogo, dou-me conta de que preciso falar do professor que sou e justamente numa das salas onde, há 28 anos, começou minha corrida para ser administrador, profissional de marketing, homem de mercado. Uma complicada questão de construção identitária reaparece, senta na cadeira ao lado e me cobra atenção, puxa assunto.

Pensando em como construir a narrativa, dado que nos foi facultado certa criatividade para fazê-lo, dou-me conta do quanto sou dividido nos meus desejos e que isso é algo com o qual ainda não aprendi a conviver, do desafio de agora ter que falar do professor cuja trajetória começou há 20 anos e que ainda o faço sem demostrar a alegria e o desejo que geralmente me atribuem como marca pessoal. Lembrei-me imediatamente de uma pergunta da terapeuta feita em 2009: “Quem é mais importante para você: o professor, o homem de mercado ou o escritor?”. Naquele dia, ela disse que estranhava o fato de ser eu um professor muito bem conceituado e falado por muitas pessoas e que não falava de mim mesmo com empolgação alguma, que estava altamente insatisfeito com a vida e que me cobrava bastante por não estar investindo no escritor, o Eu, escritor.

As lembranças continuam e relembro que professor é uma posição que neguei várias vezes, priorizando meus interesses na área de marketing, a despeito de muitos conselhos e indicações de que havia em mim vocação para tal. Quem mais me falou sobre isso foi Fernandinho, primo na casa de quem eu costumava ficar entre 1995 e 1997 para ficar mais perto do trabalho ou dos cursos de pós-graduação que tentei para ir ao mercado de trabalho. Regularmente, ele me dizia que eu deveria tentar uma carreira docente, que via em mim um “professor nato”, que eu deveria ter mais carinho com a vocação que estava evidente em mim.

Ironicamente, lembro-me que na Supergasbrás, onde tive minha primeira oportunidade de ser um “homem do mercado”, ganhei o apelido Professor. Um dia, participando de um jogo de futebol dentro da empresa, um colega de time reclamou de um passe errado meu e deixou sair: “faz isso não, Professor”. Durante o jogo fui chamado de Professor por outras pessoas. Após a partida, me explicaram que meu apelido entre era “Professor” porque eu parecia um professor, pelo meu jeito de falar e por alguns hábitos que tinha, como o de ler jornal ou livro no horário que sobrava do almoço. O apelido estava pegando e um dia, em conversa com meu chefe, ele me disse que aquilo não era nada bom para alguém que tinha ambição de crescer na empresa, que a representação de um professor não era nada boa para um gerente ou diretor, que as funções eram incompatíveis.

Aprofundo-me nas lembranças e realizo que tal dilema dentro da empresa acaba com minha saída dela e que esta, devido à maneira dolorosa como a ela reagi, acaba por influenciar negativamente minha recolocação no mercado. “Você ainda está sangrando”, disse-me uma diretora de RH de uma grande empresa para justificar minha não contratação. Minha saída da Supergasbrás praticamente marca o fim da trajetória daquele Eu, homem do mercado. Rapidamente, lembro-me do texto que escrevi justamente no dia em que saí da empresa para usá-lo em minha apresentação do Eu, professor. O texto, escrito em 10/10/1997, na base da Duque de Caxias, é significativo pois eu estava realmente muito feliz naquele dia que acabou bem mal por sinal. 


“Um inesperado e agradável surto de felicidade tomou conta de mim. Estou rindo à toa.
De uma hora pra outra fiquei leve, radiante, com a alma em êxtase.
Estou impregnado de felicidade, vertendo alegria pelos poros.
Há um doce aroma de satisfação me rodeando e que não me deixa parar de sorrir.
É uma sensação fantástica, estou contagiante, irresistível.
Planto esperança em todos os lugares em que lanço um olhar.
De minhas palavras jorram emoção.
Inesperadamente feliz, como se não houvesse no mundo outra opção.
Um réu confesso do crime da felicidade recebendo em alto astral a sentença que me condena à alegria eterna”.


A poucos minutos da minha apresentação realizo que estou bastante emocionado, dou-me conta da complexa rede de significados que estiveram presentes em todos os investimentos que fiz no complicado processo de constituição identitária do Marco Antônio Ferreira de Souza. Com certa calma, porém, contemplo com carinho os diversos projetos de eu em que me impliquei. Olho para a sala e tento revisitar momentos de 1991, quando naquela sala me sentava para algumas aulas. Não, não quero me reencontrar, nem dizer nada para aquele "eu, aluno", pois sei que minha dívida é com o professor, com aquele cara que está na viagem e coincidentemente na mesma estação em que o aluno começou a viagem.

Jamais passaria pela minha cabeça que, em mais uma etapao da corrida para edificar o "eu, psicólogo", eu precisaria prestar contas com o "eu, professor", justamente na sala onde começou minha maratona para tornar real o "eu, homem de mercado", figura de vida curta e pouco feliz e de quem demorei a fazer o devido luto. E aqui estou, professor de fato, precisando assumir essa importante dimensão da minha vida, precisando acolher-me, autorizar-me, abraçar-me, precisando urgentemente reinterpretar a tal sentença que me condena, nessa vida, a uma alegria em quantidade bem promissora. Talvez seja isso o que a terapeuta me cobrava, talvez seja isso o que Fernandinho previa para mim. Talvez.  

Fui o último a apresentar e terminei assim: Aqui e agora: eu, professor.