segunda-feira, 23 de junho de 2014

Aprendizagens que não cabem mesmo em uma embalagem

“A vida é uma escola”, ouvi há bastante tempo. Eu que já tinha lá minhas diferenças com a escola formal, fiquei ainda mais assustado. “Se aqui na escola está assim, imagine quando eu sair daqui para enfrentar a vida”. Diziam-me para estudar e ser alguém na vida e isso me era assustador.

Àquela época também me diziam que só havia uma vida. Era ‘vai ou racha’, ‘tudo ou nada’, ‘aqui se faz aqui se paga’. Também tinha uma apavorante, mais ou menos assim: ‘aprende agora, se não é o mundo quem vai te ensinar, e sai mais caro, às vezes pagamos com a própria vida’.  Que horror ouvir aquilo. A coisa era difícil de ser apreendida, pois tinha escola, mundo e vida e toda aprendizagem tinha que caber na mesma embalagem, numa mesma vida e eu não sabia se daria conta.

Durante algum tempo achei que foi a escola que não me ofereceu oportunidades e experiências que ajudassem a ter uma compreensão mais consistente sobre o que era a vida e o mundo; depois é que entendi que eu é que não tinha consistência para entender o que a escola me mostrou sobre o que eram a vida e o mundo.

Sobre o tempo ou a passagem dele, na escola eu só lidei em Física – quando sofria para entender que o tempo tinha relação com a velocidade e a distância –, em Língua Portuguesa – quando esclareciam sobre os tempos verbais – e no campo – quando ensinavam sobre o preparo do solo, escolha e plantio da semente ou da muda e sobre tratos culturais e colheita. Não tive laboratório para aprender sobre o tempo de ou numa reação química. Mundo era Geografia, vida era Biologia.

Recentemente, ao ler meu diário de 1996 – ano que batizei como ‘o que demoraria para acabar’ – tive uma demonstração de como passei onerosamente pela vida, de quanto desperdicei, de energia mental e física, para lidar com os desafios da embalagem única. É um diário de quase 600 páginas onde demonstro uma ansiedade louca para lidar com o tempo, querendo acelerar coisas para chegar logo ao ‘próximo prato’, mas sem viver plenamente o que tinha para comer no ‘prato à minha frente’. Após a leitura, decidido, disse a mim mesmo: “Relaxa, vá devagar, dê tempo ao tempo. É hora de ser sábio e saiba que você está envelhecendo”.

Hoje, quando saia de casa e fechava o portão, tinha à frente dois vizinhos, dois senhores de idade, experientes, que conversavam alto e anunciavam que iam à feira. Pensei: “Que legal, esses já fizeram suas vidas, cumpriram seus compromissos; são escolados, senhores do seu tempo e agora caminham tranquilos para fazer a feira”. Comecei a acompanhá-los, tentando ouvir a conversa, mas ainda estava bem distante.

Quando chegou no primeiro cruzamento, eles pegavam à esquerda e seguia direto. Vi que eles pararam e começaram a gesticular um para o outro. Quando cheguei mais perto, um deles olhou para mim e disse:

─ Tô falando para andar mais rápido e ele diz que a feira não vai sair do lugar. Humm, quem não tem pressa é porque não precisa chegar a lugar algum.

O outro senhor, contrariado com a fala do amigo, virou para mim e disse: 

─ E quem disse que pressa é garantia de chegar a algum lugar? O que você acha que devo dizer para esse velho chato e apressado?

Surpreso com o que me mostravam ‘os dois professores’ cheios de vida e mundo em suas costas, logo relacionei a situação com o que tenho pensado sobre como vivi e vivo. Esbocei um sorriso amarelo e caí no lugar comum, poderia ser mais profundo:

─ É, tem que negociar direitinho as vontades de vocês aí.

Os amigos foram resmungando e gesticulando rua afora e segui meu rumo pensando na resposta miserável que dei e que sequer refletia algum aprendizado que carrego nas costas dessa embalagem. Afinal, como eu negócio as diferentes vontades que tenho, com as diferentes maneiras que se pode aprender nessa ‘escola-mundo-vida’ e com o que, afinal, deva ou não caber numa mesma embalagem?

terça-feira, 9 de abril de 2013

A mão que faltava

Em 19 de março de 2013, estava na casa de Carlos Augusto, o Cacau, no Aterrado, em Volta Redonda. Começamos o contato por questões profissionais, mas logo fomos para a interação menos formal, muito em função do seu carisma e acolhimento. Além disso, eu retornava à cidade que marcou muitas das minhas voltas pelo mundo, voltas que dei ora como uma pessoa que queria, mas não sabia definir o que buscava, ora como uma pessoa que até sabia definir o que queria, mas que vacilava ao buscar.

Fui participar de um concurso na UFF, atendendo ao pedido de um saudoso colega de trabalho que há meses, ironicamente, me pediu para dar ‘uma mão’ nessa dura empreitada. Desta vez, encontrei dicas para perguntas que ainda não sabia fazer sobre como conduzir futuras voltas que ainda espero dar em minha vida, e dicas sobre como agi em muitas das voltas que dei. Conheci um pouco mais sobre o mundo que se descortina aos nossos olhos quando colocamos, com vontade e intensidade, as ‘duas mãos’ no timão do navio que escolhemos para navegar pela vida.

O dia de trabalho foi cansativo, um dos menos inspiradores e mais tênues da vivência acadêmica: em um concurso, decidimos, ao mesmo tempo, sobre o futuro da organização e das pessoas que nele se inscreveram. Concurso público para professor é algo muito sério: um "sim" abre as portas da organização para alguém que terá a responsabilidade de construir, junto com os demais colegas, o futuro da organização; se ele não tiver essa vontade, ou alguma outra que seja nobre, quem paga é a organização. Por sua vez, um "não" aponta portas de futuros possíveis a serem desconfortavelmente abertas pelos que ficam pelo caminho. Infelizmente, não alcançamos as sutilezas da alma no processo de avaliação do concurso; fazemos as avaliações possíveis e rigorosas em provas nas quais constam códigos de inscrição, não nomes, nem aspectos ricos da subjetividade. Após horas de análise de documentos e provas, e de discussões, escolhemos os que se aproximavam um pouco mais da porta de entrada da universidade: estavam com as mãos praticamente na porta, bastava não errar demais no dia seguinte.

No fim da tarde, saí da prova e fui visitar Cacau, em sua empresa, localizada no mesmo bairro da universidade. Participei de uma breve reunião junto com alguns membros de sua equipe e conversamos sobre negócios e dramas organizacionais, como conflitos interpessoais que, por hora, abalavam sua equipe. Apesar da agradável conversa, em pouco tempo estava extenuado, desejando fortemente ir para um hotel e ficar sozinho. Recebi a visita de um conhecido sopro de sensibilidade que levou para longe o meu desejo de falar e me entregou uma imperiosa necessidade de calar. Naquele instante, tudo o que eu acreditava precisar era ficar sozinho e refletir sobre a vida, recorrer ao expediente de ficar pensando sobre o que fiz no dia, o que tenho deixado de fazer e o que preciso fazer à frente. Estava ensaiando minha ida para a busca de um quarto quando Cacau me solicitou uma carona e me convidou para dormir em sua casa.

Atendi ao seu generoso pedido e logo estava em sua casa, já ensaiando as ações que faria para ir direto ao descanso. Assim que chegamos, fomos recebidos pelo barulho de seus filhos, Olívia e Tom. Olívia, de três anos, me chamou para sentar no chão do quarto e ler o livro da Bela Adormecida. Sem a menor cerimônia, foi me contando a história. Do seu jeito e com sua voz trêmula, por vezes gaga, me contava o que via naquelas figuras. Chamou-me a atenção duas sonoplastias: imitou o som do fogo do dragão saindo pela boca e a dor da Bela Adormecida que se machucava no tear. Lembrou-me das maldades da Bruxa e fazia a careta ideal para aquela interpretação. Como num passe de mágica, levantou e começou a procurar um termômetro para medir a febre de um boneco da Galinha Pintadinha que pairava ao seu lado. Em minutos, o desconhecido que chegou com o pai já fazia parte do mundo dela.

Após muita insistência da mãe, que há minutos pedia para que me deixasse lanchar, fomos para a sala – não para lanchar, mas para achar o termômetro. No meio do caminho, estava um velocípede da Galinha Pintadinha, ganhado naquele mesmo dia. Olívia imediatamente me pediu para empurrá-la pela sala. Comecei a empurrar o carrinho e a pensar no que precisava fazer nos dias seguintes. Empurrava com uma mão, enquanto tinha a outra no bolso da calça. Enquanto empurrava, só fazia olhar para as águas que passavam no Rio Paraíba do Sul e pensava nas minhas questões. De repente, Olívia pediu que parasse, virou para mim e, com cara de descontentamento e fazendo o sinal negativo, me disse: “Está errado.” Pediu minha ajuda para se levantar, pôs a chupeta na boca, me mostrou as duas mãos espalmadas, segurou com ambas a haste para empurrar e disse: “É assim que se brinca.” Displicente, não percebi antes sua cara sem sorrisos; estava fora da brincadeira, não honrava, naquele momento, o estatuto do envolvimento, algo que fiz por merecer após os primeiros contatos com ela.

Mensagem copiada e decodificada, aceitei meu enquadramento na brincadeira e também numa vida inteira que me visitava enquanto a empurrava. Pus as duas mãos, me envolvi na brincadeira, olhei fixamente para nosso momento, sorrindo inicialmente, enquanto ela, por várias vezes, se virava para ver se estava ‘brincando direito’, se eu ia tirar a mão que faltava. Ela começou a sorrir feliz e seguiu na brincadeira.

Foi um enquadramento histórico. Pensei em quantas vezes minha filha quis me mostrar que faltava uma mão e não teve a coragem da Olívia ou eu, displicentemente, não percebi o que ela me comunicava em suas palavras e caretas. Lembrei de quando ela tinha cinco anos de idade e, num evento do Dia dos Pais da creche, quando perguntada sobre o que ela gostaria de fazer quando crescer, ela disse o que não faria: doutorado. Até brincávamos juntos nessa época, mas estava claro que o doutorado roubava a outra mão. Imaginei o marido que fui e era: a mão que faltava e explicava a maneira como me envolvi com a casa, os afazeres e os sonhos que cultivei junto com minhas mulheres. Imaginei a mão que faltava em diversas situações de trabalho, e para os amigos, vizinhos e conhecidos. Lembrei de um amigo oculto diferente que participei em 2003, e no qual, ao invés de comprar, tínhamos que fazer o presente do amigo tirado. Que angústia senti por não ter habilidade para fazer algo, enquanto os demais faziam artesanatos, doces, comidas, roupas, danças e músicas para seus amigos ocultos! Fiz uma poesia sobre a importância do fazer para o meu amigo oculto.

Comecei a chorar, enquanto mantinha com firmeza as duas mãos na haste, os olhos em Olívia e a mente visitando esses momentos da minha vida. Um choro sentido, de culpa mesmo. Olívia se envolveu com outras coisas e eu fui liberado para por as duas mãos nos meus pensamentos e lembranças. Na cama e com as duas mãos no peito, enquanto punha o pé na parede para facilitar o retorno do sangue venoso, realizei que o grande vilão era o hábito de me concentrar demais no que preciso fazer para alcançar objetivos, coisas que estão distantes no tempo, e não captar os chamados do agora. Devoto muita atenção a essas demandas reflexivas; às vezes penso antecipadamente sobre coisas que sequer se manifestaram. “Ambiciono o controle das situações,” me diz Angélica, minha mulher. Quando estou assim, como hoje, dificilmente me desligo das metas ou oriento minha energia para outro assunto. Em verdade, fico dividido entre diferentes eventos, me desgasto sem ter abraçado, de fato, o que me levaria a um sentido maior de contentamento, mesmo uma brincadeira como essa que tive hoje. Uma herança, assim acredito, do fato de, durante minha vida, ter dedicado mais ao aprimoramento de habilidades verbais e cognitivas e ter deixado de lado as habilidades manuais, de capitalizar na fala e na reflexão como forças centrais com as quais enfrentaria os desafios que comecei a me propor. Desarticulei o imperioso encontro entre mãos, mente e fala, que tão bem explica a força do ‘entrar de corpo e alma’ ou com as duas mãos, como faz uma criança.

As breves lembranças confirmavam que, a partir de um determinado momento, me afastei de um envolvimento maior com os distintos afazeres que a vida me apresentou, deixando de entrar de corpo e alma, ou com as duas mãos, para aprendê-los com a dignidade dos grandes aprendizes. Não logrei o aprendizado central de pessoas que, em determinados contextos, me foram essenciais: entrar com mãos, sentimentos, pensamentos e verbalização em todos os eventos que a vida lhes apresentava e dar os exemplos essenciais para que o grupo completasse os passos que seguiam.

De alguns desses afazeres me afastei radicalmente por puro preconceito, por achá-los comezinhos demais ou que me diminuísse fazê-los. Resgate importante: minha arrogância não permitiu me envolver mais intensamente com tudo o que definiu a vida das famílias dos meus pais – as lides agropecuária e supermercadista, ricas em manipulação de objetos e solicitantes da destreza que explicava a sobrevivência deles. Resultado: pensando sofrer ao fazê-las, me afastei e acabei por sofrer de outra maneira: por antecedência. Angustiei-me demais durante minha vida pela demora para acontecer das coisas que elegi como mais adequadas para mim, a maioria delas associadas à intensa prática reflexiva e comunicativa.

Olívia me alertou para a importância de sempre atentar para o Estatuto do Envolvimento: é ele que ensina, a quem realmente lê ou o intui, que nenhuma palavra ou pensamento, por mais bonito e complexo que seja e salvo raras exceções, compensa a experiência vivida de corpo e alma, com as duas mãos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Usar e desembolar fios: viver mais, melhor, e sem estancar.

Nunca devemos esquecer das sutis e tênues linhas que ligam as diferentes fases de nossas vidas. Linhas que ligam a infância ao envelhecimento, passando por todos os outros pontos dessa trajetória que normalmente empreendemos enquanto amadurecemos: adolescência, juventude e fase adulta.

Parecem invisíveis, até. Mas elas existem e sempre esbarramos nelas, que servem como sinalizadores de que percorremos essa estrada chamada “Vida” não somente para conquistas materiais, sociais, mas também para conquistas espirituais, morais. Todas as vezes que esbarramos nelas, em algum evento ou dimensão significativa da vida, é como se tocasse um sino. Sino cujo som nos leva – automaticamente e por imagens –, a um evento ocorrido no passado e faz surgir na face ou o sorriso de quem apreciou a situação ou a lágrima ou desconforto de quem ainda a traz entalada na garganta ou com dificuldades para digeri-la. Essas linhas e badaladas existem para ilustrar, delimitar e pontuar se, como e quanto um indivíduo aprendeu moral e espiritualmente em sua trajetória; quanto ele chega a uma nova fase trazendo no olhar, linguagem e comportamentos, os frutos dessa aprendizagem essencial.

Em minha trajetória, muitas foram (e ainda são) as vezes em que toco nessas linhas, em que ouço badaladas de sinos que marcam o ritmo em que ocorre minha evolução moral e espiritual, ou o quanto aprendi e ainda preciso aprender nessa vida. Uma delas, relativas aos meus afetos, tem forte relação com o meu aprendizado de soltar pipa, ocorrido lá na infância.

No relacionamento amoroso, casamento e em organizações em que interajo para trabalho, formação escolar, lazer e professar da minha fé, estão as principais instâncias em que os sinos badalam para mim. Automaticamente, ou nos momentos em que paro para refletir sobre essas instâncias, veem à mente as imagens de quando eu aprendia a soltar pipa. Chama atenção a maneira com que faço e o quanto invisto de emoção e afeto nas relações e contextos vividos. Geralmente crio muito expectativa, espero demais das outras pessoas envolvidas, e uso o que é natural para mim para fazer as avaliações. Como resultado: sempre me vejo em situações desconfortáveis, sangrando no coração, quando tudo poderia ser mais fácil e alegre. Muitas foram as vezes em que sofri e fiz alguém sofrer; em que alimentei demais uma esperança, elevei as expectativas, cobrei demais do outro, no que para ele era uma troca gratuita, fortuita, sem maiores investimentos de emoção.

Mas se olharmos detidamente, veremos que essas situações ilustram que aquilo que chamamos de relação afetiva, de amor ou amizade, conforme vai evoluindo – ganhando dias, contextos e produtos da nossa emoção –, assumem o formato de um complexo novelo de fios que se amontoam e se acomodam na sensível área demarcada por nossos egos e pela memória.

Por ter muito do que nos é muito caro, é tão belo quanto precioso esse novelo; também é muito sensível, pois é a maturidade que explica a densidade, integridade, firmeza e maneira com que dispomos os fios nesse emaranhado simbólico de afetos e emoções, essencial à nossa condição humana. Quando ocorre de termos que mexer nos novelos, ou mesmo de desfazê-los, devido às circunstancias da vida, tomam relevo não apenas os fatos geradores, mas a maneira como os envolvidos retiram seus fios, isto é, como negociam movimentos e palavras ao desfazer o complexo emaranhado de fios de afeto e emoção que dispuseram e os deixavam ligado um ao outro. Se feito de maneira brusca, machuca a área, arrebenta a linha - que ganha um nó, uma parte fragilizada do fio. É da vida acontecer isso, ter que desfazer o novelo. Também é esperado que cada envolvido traga seus fios intactos para seu carretel com vistas a um momento em que novamente dará linha a seus desejos, carências ou imaginação, em que formará mais um belo e precioso novelo de emoções e afetos.

A vida me mostrou que não aprendi a fazer corretamente o emprego dos fios do afeto e da emoção, qual era a hora certa de fazer, tampouco a maneira mais correta e oportuna para começar a retira-los dos novelos. E não faltaram lições sobre como lidar com fios, em minha vida. Principalmente, de quando saltava pipa na rua onde passei minha infância.

Soltar pipa – enquanto uma gostosa brincadeira –, tem todo um ritual para acontecer: início, meio e fim são muito bem marcados, interligados, e precisam ser respeitados. Do contrário, ou a pipa não sobe, ou, ao subir, corre logo o risco de estancar, o que marca o fim da brincadeira, se você não tem uma sobressalente, mas que ainda sim, deixa muita tristeza.

Empinar uma pipa requeria muitas habilidades, que iam do preparo da rabiola à arte do debico, passando pelo ajuste do cabresto, envergadura e do soltar e enrolar a linha com firmeza na lata ou carretel, este para os mais experientes. Dias a fios de umas boas férias eram necessários para formar o pipeiro. O bom pipeiro não ocupava mais do que o espaço necessário para seus movimentos, e nunca deixava a linha dele embolar ou embolar com a dos outros. Às vezes aconteciam embolos, mais explicados pela quantidade de meninos por m2, do que pela falta de habilidade deles. Desembolar linha era aprendizado fundamental, e marcava o fim do dia.

Confesso que nunca fui um bom pipeiro – talvez tenha sido o pior de todos os meninos da minha rua –, e as maiores provas do meu pouco honroso título, eram os constantes embolos em minhas linhas e a frouxidão da linha enrolada em minhas latas. Eram marcas registradas da minha chegada, permanência e saída daqueles trechos mágicos que ocupávamos da rua em nossas férias. Lembro-me que Marcio Pena, meu inseparável amigo, alertava-me sobre aquilo: “você precisa enrolar direito a sua linha na lata, senão vai atrapalhar a gente aqui ou vai prejudicar a sua vez. Quando o vento estiver forte, o nó não vai aguentar, e você vai estancar; quando a pipa agarrar, o nó vai atrapalhar você trazer a pipa de volta ou é nele que a linha vai arrebentar”.

Muitos foram os fins de tarde em que tive a chance de aprender o precioso ofício de desembolar linhas de pipa, mas negligencie bastante essa lição. Dei voz ao meu nervosismo, que facilmente emergia quando mexia nos embolos, ao invés de ficar pacientemente sentado desembolando a linha para que não tivesse que arrebentar e fazer nó para continuar enrolando na lata. Assim que era vencido por um embolo, eu arrebentava e fazia um nó na linha, e a enrolava: frouxa e cheia de nó. Marcio ficava pacientemente desembolando, e só terminava quando vencia o embolo.

Apropriadamente, os sinos badalaram todas as vezes em que estanquei, que machuquei a área do ego onde formava os novelos de emoções e afetos: "aprendi a dar linhas, nela deixei muitos nós; poucas vezes a retornei segura ao carretel, sem embolo. Mas no elo mais fraco da linha, a emoção e o afeto arrebentam".

sábado, 21 de julho de 2012

Fazer o básico já faz uma grande diferença


Uma vez recebi em uma rede social o retumbante comentário de um ex-aluno: “Grande Mestre, saiba que você fez a diferença na minha formação e na minha vida”. Esta parte estava em letras maiúsculas e os demais dizeres tornavam inquestionável sua alegria e gratidão.

Iniciei um natural processo de regozijo, ensaiei uma resposta à altura, também deveras retumbante, mas os escrúpulos da sobriedade lembraram-me de que estou no Brasil, de como anda a educação por aqui e de detalhes do local onde trabalho, uma Universidade Federal, o que, automaticamente, levou-me a dar um click no botão curtir e comentar: "obrigado! Fico muito feliz com sua manifestação de carinho. Paz e saúde na sua caminhada, amigo administrador”.

Comecei a refletir sobre a essência do comentário -- fazer a diferença. Breves minutos foram necessários para confirmar, sem deméritos ao meu querido ex-aluno, algo que já tinha percebido: uma síndrome coletiva do “fazer a diferença”. Algo que avança sobre nós principalmente no ambiente organizacional e nas sessões de tratamento ou terapia motivacional que temos em Igrejas, ONGs, Associações etc. A todo instante somos instados, estimulados ou obrigados a "fazer a diferença", tornando-nos míopes para o simples, o básico, aquilo que a experiência, o estudo e a negociação de interesses apontam como o que é o melhor a ser feito.

A síndrome avança e isso me assusta, pois, pelo menos em relação à educação, sabemos que ainda nem chegamos ao nível do fazer “o que deve ser feito”, o básico. Como poderíamos, então, fazer a diferença, inovar o que e no que fazemos? Considerando que faz-se a diferença quando é superada uma regra ou consenso sobre como fazer algo, pois esta(e) já não produz mais resultados, embotando-nos o agir e o pensar, ou quando, em momentos cruciais, geralmente no plano das iminências, alguém toma a decisão marcante que produziu resultados significativos, excepcionais, digamos heroicos.

Sobre o meu estar professor, é notório que a ele não se aplicam as condições anteriores do fazer a diferença. Eu seria insensato se não reconhecesse que, como a maioria dos colegas, tornei-me professor por causa de um concurso e que não fui preparado para ser educador, nem no mestrado, nem no doutorado. Também nunca vi qualquer movimento, política e programa de qualificação ou reciclagem para melhoria das práticas de ensino dentro da Instituição onde trabalho. Isso não é uma das prioridades nas universidades, pois todos parecem se achar autossuficientes no tema; nunca vi discussões ou compartilhamento de material e práticas que levassem a melhorias no que fazemos semestralmente. Apesar da eminente agonia da educação no Brasil, é notório que os momentos cruciais ficam para o ensino público fundamental, pois é ali, naquele eminente e permanente ocaso, que muitas pessoas tomam decisões marcantes que produzem resultados significativos, excepcionais, digamos heroicos. O plano das iminências nas universidades públicas é outro, e este é geralmente confrontado com as longas greves e com o notório esbanjamento de recursos em obras problemáticas e de recursos como luz e água.

Olho para minha universidade e vejo a maneira pouco pudica com que nos relacionamos com os esbanjamentos e a apatia. Estranhos consensos. Professores faltam aula sem aviso prévio e não repõem as mesmas, e os alunos, os mais prejudicados, não cobram a reposição. Nas primeiras semanas de aula de cada semestre, a frequência de professores e alunos é baixíssima. Olho para nossa atuação e vejo que foram defenestradas coisas básicas do ensinar-aprender, como a cobrança de presença e o acompanhamento, dentro de um curso, dos desempenhos individuais. Sem contar no suporte psicopedagógico, uma eminência esquecida em um algum lugar bem distante do passado. 

Olho especificamente para mim e vejo que, enquanto professor, muito me comprazo de dizer que geralmente atuo de maneira apaixonada. Sempre procuro comunicar aos alunos que se do tema central nada ficar, que da paixão com que atuo venha uma lição. Que ela, a paixão, seja o elemento que estimule e oriente mudanças sensíveis e objetivas no comportamento em relação ao envolvimento com o ensino e a postura enquanto aluno. Pois quem dá paixão merece, no mínimo, uma recepção apaixonada, um ambiente que fomente a paixão e seus contagiantes desdobramentos positivos. No mais, procuro cumprir aquilo que nos cabe.

O que acontece com a educação já é o bastante para nos sinalizar que essa síndrome que leva as pessoas a irreflexivamente tentar fazer a diferença precisa ser combatida. Não é anacrônica, pois ela vai ao encontro dos usos e costumes de uma época de deslumbramento com o individualismo, modismos e presumidas inovações, e de contínuo menosprezo às coisas mais simples, básicas e aprovadas pela experiência. O resultado é que, com gente demais tentando fazer a diferença, temos uma diversidade de contribuições que em nada ajuda e, para piorar, só faz aumentar o afastamento delas da reta da equação daquilo que deve ser  realmente feito, deixando-nos perdidos.

Está na hora de começarmos a envolver-nos e aplicarmo-nos com “o que deve ser feito”, com o fazer o básico, pois o que vemos na maioria das dimensões que compõem a nossa vida é que estamos aquém, bem distantes por sinal, de um fazer padrão que seja de qualidade ou que digne nossas vidas, condições profissionais e eminente investimento feito, com dinheiro público, em educação superior no Brasil. Nosso deslumbramento não nos deixa perceber que continuamos fazendo as coisas de qualquer jeito, ou do jeito que nos é mais conveniente, um jeito que satisfaz ao nosso narcisismo e a outras sutilezas da nossa alma. Se fizermos o que deve ser feito, isso já será uma grande diferença em relação ao que estamos acostumados. Principalmente, porque chegar à determinação do que deve ser feito exige uma complexa estrutura de produção e negociações de consensos sobre elementos que, necessariamente, nos remeterão ao envolvimento com  aspectos mais módicos, sóbrios e nobres da nossa vida.

Respondendo ao comentário: "Obrigado pela consideração, meu nobre amigo e aluno. Em verdade eu tentei, e apaixonadamente, fazer o que eu devia fazer. Sei que no geral, na soma das contribuições, que é o que realmente interessa, nós fizemos aquém do que você, os demais alunos e toda sociedade que paga seus impostos merecem".

sábado, 31 de dezembro de 2011

O ano novo é você quem faz

Se você quiser conhecer a felicidade, empreenderá uma solitária e desafiadora jornada que o levará ao encontro de uma palavra que funciona como senha de entrada para acessar o fantástico mundo de um sentimento capaz de transformar qualquer indivíduo.  Ao contrário da maioria das jornadas, esta começa em direção ao mundo das coisas e, subitamente, muda seu rumo para o mundo que habita o interior do viajante.

Em sua jornada, você primeiro encontrará felicidade no dicionário. Abra este precioso livro e continue a viagem. Nesta parte da jornada que, recomenda-se, seja gradual, moderada, você aprenderá que alegria vem antes de dor, que felicidade sempre antecede tristeza. Você também aprenderá que ela, ele, elas e eles sempre aparecem antes de você, e que juntos com você, somados, esses monossílabos transformam-se surpreendentemente em nós, um monossílabo também poderoso. 

Ao encontrar a felicidade, você verá que ela pode ser lida, escrita, e, principalmente, que deve ser vivida, pois, como ensina o precioso livro, felicidade é um paroxítono que denota, de maneira acentuada, ventura, bem-estar, contentamento, um estado de espírito surpreendentemente revolucionário.

Lida ou escrita, verá você que felicidade é um polissílabo, um grupamento de sílabas, composto este de quatro consoantes e três vogais, onde algumas se desdobram para apresentar aos luso-brasileiros um sentimento que pode ser vivido a um - sozinho -, que é gostoso demais quando vivido a dois, mas que deve ser sabiamente aprendido a viver em grupo - mesmo que esse seja apenas de três -, mas que seja essencialmente um grupo. Soletrando este caprichoso encontro de sílabas, compreenderá você um pouco da força dessa senha que, conforme será verificado mais a frente, jamais deve ser falada da boca pra fora.

Ao fechar o dicionário e olhar para os lados, encontrará você um dos primeiros mistérios dessa jornada: existem aqueles que, mesmo não sabendo ler ou escrever, são felizes, vivem a felicidade. É assim porque felicidade, um substantivo feminino, devido a sua inerente fecundidade, tem o poder da luz que identifica e qualifica, em qualquer lugar, o indivíduo que mantém a preciosa substância da bem aventurança. A felicidade empresta luz ao sujeito que a contem e, principalmente, a elabora.

Ao ver como mesmo os não doutos podem ser felizes, você naturalmente sentirá a necessidade de mudar o rumo da jornada. Subitamente, a resposta sobre a felicidade deixará de estar no mundo das coisas e nas coisas do mundo, mostrando-se estar inscrita no interior do indivíduo, dentro das pessoas, de onde emerge a luz que as torna imprescindíveis. Ao partir em direção ao outro, ao dirigir sua jornada para desbravar o interior alheio para descobrir sobre a felicidade, você logo verá que dificilmente chegará a algum lugar. Sozinho, constatará você que melhor fará se se dirigir ao próprio interior para continuar a jornada para aprender o caminho da luz.

Seguindo o caminho que leva a luz, você aprenderá que felicidade não se compra, empresta ou dá, que ela é produzida. Ao saber mais sobre você, lembrará que um dia, quando não falava e tampouco escrevia, você respondia, gratuita e generosamente, ao mundo que experimentava. Quando criança, independente da nossa aparência e da do mundo que nos rodeava, exalávamos bem-estar, contentamento, tínhamos um estado de espírito surpreendentemente revolucionário, pois a todos contagiávamos. Porem crescemos, saímos para o mundo, seguimos em direção ao mundo das coisas e às coisas do mundo, atrás de respostas, sem mesmo ter aprendido a fazer perguntas.

De posse da senha, estará você de frente para a fábrica de felicidade que todos nós trazemos internamente. Você logo perceberá que a chave da fábrica da felicidade está com você próprio, e que jamais deve negligenciar sua guarda, deixando-a em qualquer lugar ou confiando-a a qualquer pessoa. Você verá que é sua a responsabilidade pela produção do bem-estar, contentamento e estado de espírito surpreendentemente revolucionário capaz de contagiar as pessoas que o rodeia. Principalmente, você aprenderá a duvidar, afastar-se e proteger-se de toda pretensa felicidade, de tudo que não tem a simplicidade como essência, enfim, de todo projeto de ser feliz que o leve justamente ao caminho contrário a jornada que empreendeu.

Assim, ao final da jornada, solitário, sabendo-se mais rico do que nunca, aprenderá você que, por mais que ame outra pessoa, apenas poderá compartilhar as vibrações desse labor fundamental. Labor que vivido internamente, transforma o indivíduo que o pratica e o mundo que o rodeia. Então, mãos a obra, pois um novo ano, uma nova vida, começam agora! Vá, experimente saudavelmente o mundo, aprenda novas coisas, melhore ainda mais essa substância que você encerra, deixe o mundo mais feliz!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

“Curiosar” - descobrir mais sobre a vida e o mundo; manter as origens, ter onde pousar.

Rio de Janeiro, manhã, 14 de maio de 1998. Em mais um interessante capítulo da minha vida, fui ontem com minha namorada ao Museu do Índio, em Botafogo. Ela foi entrevistar o índio Carlos Tucano, para uma matéria da revista onde trabalha. No fim, o que seria mais um momento para fugir do ócio desse desemprego que já dura cinco meses, tornou-se outro momento de lição e aprendizagem sobre nossa passagem pelo tempo. Foi a primeira vez que estive frente a frente e que pude conversar com um índio, a base da sociedade brasileira, enfim, os primeiros brasileiros.

Ficamos quarenta e cinco minutos ouvindo Carlos Tucano contar sua história, a do seu povo e as lutas para a sobrevivência e preservação de sua cultura. Abri mão das minhas apreensões de ser urbano, desempregado, para ouvir o índio discursar sobre a importância da preservação dos valores, rituais e costumes de sua gente. Gente que, segundo ele, não deixa registros, apenas vivem. O índio não escreve, filma ou pinta, mas planta, caça, faz artesanato e, agora, absorve e é absorvido pela civilização, disse ele.

Carlos Tucano falou de suas raízes, da interferência dos missionários, da demarcação de suas terras, dos seus deuses e do mundo. Em um momento chegou a falar sobre a globalização e de como inserir sua gente nesse contexto! Um povo que luta pela demarcação de suas terras, preservação da sua história, e com o desafio de viver em um mundo globalizado, sem fronteira. Um índio falando da importância de resgatar a sua história em um mundo onde o tempo não pára.

Um dos grandes momentos da entrevista foi quando Carlos Tucano falou com sua calma, aparentemente inabalável, que o que ele mais gosta de fazer é “curiosar”. É importante “curiosar” para descobrir mais sobre a vida e o mundo, disse o índio, mas sem perder de vista as origens e as lutas pela sua preservação. Ele falava da fragilidade do ser indígena pulverizado pelo mundo, deslumbrado, encantado pelo “mundo das coisas”, mas que, se não se cuidar, não terá terra para pousar.

Ouvindo estas palavras, voltei-me imediatamente para a história da minha família, boa parte sedimentada em algumas cidades, mas que não se cuida e está pulverizada pelo Brasil desse fim de século. Somos muitos, mas atualmente estamos distantes, banalizados pelo consumo e pelo trabalho, apenas acompanhando, e sem deixar qualquer registro, o tempo que não pára. Somos muito semelhantes ao índio: meus familiares não escrevem, filmam, caçam ou pintam, poucos ainda plantam, trabalhamos isoladamente, sem compartilhar conhecimentos e aprendizagens; absorvemos e somos absorvidos pela vida econômica.

Existem poucos registros dos meus antepassados, sequer temos a posse de algum pedaço da terra de onde vieram meus avôs. Os parentes mais velhos estão falecendo e com eles vão, sem registro algum, as lembranças de quando tudo começou, em Pedro Teixeira e Muriaé. Meus avôs paternos e maternos já estão mortos; os primos e irmãos que ainda vivem estão longe de nós, mas perto das terras de onde viemos, morrendo no anonimato. Ironicamente não temos registro algum, apesar de terem tantas histórias para contar.

Levei as lições do Índio para o apartamento onde moro, na Tijuca, atual quartel general das minhas angustias e estranhamentos com a vida. Aqui estou mais longe ainda da nossa “mineiridade”, distante inclusive de Seropédica, onde meus pais se encontraram após suas famílias terem deixado as Minas Gerais. Em Seropédica estão meu pai, tios e primos, todos envelhecendo sem que sejam feitos registros, levando com eles os fragmentos de nossas raízes. Família que só sobreviveu às primeiras ameaças porque seus membros estavam juntos, somaram forças, compartilharam a sabedoria da "lide" na roça e que, depois que saíram de Minas, aprenderam novas “lides”, como a da mercearia e a de dar aula.

Aqui estou, homem urbano, desempregado, desbravando o tempo, querendo aprender nova "lide" longe das minhas raízes da roça, da mercearia e da lousa. Aqui estou, homem urbano, aprendendo com o índio sobre ir ao mundo sem perder os rumos de casa. Desse novo verbo, humildemente colocado, tirei mais uma lição e força para enfrentar esse momento de aflição: é preciso “curiosar” para descobrir mais sobre a vida e o mundo, sem perder de vista as origens e, principalmente, tendo onde pousar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Caprichosas, irônicas, insensatas e sempre marcantes remontagens de cenas da vida

Rio de Janeiro, 12 de Novembro de 2011. Por vezes a vida nos faz relembrar os diferentes papeis que nela desempenhamos, quando tínhamos a fala e o domínio da cena ou quando fomos apenas coadjuvantes ou figurantes neste fantástico teatro. Caprichosas, irônicas, insensatas, às vezes trágicas, mas sempre marcantes, são as remontagens que o viver patrocina.

Hoje, 14 meses depois que experimentei, pela primeira vez, um pouco da violência urbana há muito em cena por aqui, vi-me novamente envolvido nesta que é uma das piores produções que temos. Mudaram o cenário, meu papel, alguns personagens e parte do enredo. Mudança última esta que, não fossem as forças superiores, acredito, daria um desfecho mais tenso a esta segunda montagem, onde eu, minha filha e outros mais, não passamos de coadjuvantes de um espetáculo promovido pelo poder público e esses políticos que nos governam e as custas dos nossos recursos.

O cenário agora é o Rio de Janeiro. As cenas dão-se na Perimetral, e não mais no Morumbi, na opulenta São Paulo. Agora é o Rio de Janeiro, a marca registrada do Brasil, onde “se soma forças”, como diz a propaganda política. A cena se repete e, outra vez, bandidos fecham o trânsito e atacam os carros, destilando e distribuindo terror. Desta vez sou o motorista, não mais o passageiro. Como companhia a minha filha, não mais meu primo e sua família. Outra vez o humilhante contato com o que o poder público chama de estrutura de segurança pública. Um detalhe horrível do enredo, sabido apenas depois que tudo ocorreu: em São Paulo eu fui roubado, aqui eu e minha filha seríamos seqüestrados, para ir a bancos fazer saques, pegar valores em casa.

Eram quase 20:00 quando eu e minha filha passávamos pela Perimetral em direção a Av. Brasil para passar o feriadão juntos. Saí de Vila Isabel, calibrei os pneus na Praça da Bandeira e, na Francisco Bicalho, começávamos a falar sobre como tinham sido os últimos dias dela e dos planos para o feriadão. Ela pôs para tocar um cd com músicas das quais gostamos bastante, uma coleção de rock antigos e atuais. Na perimetral, tivemos o assunto cortado pela imagem de um imenso navio parado no cais, comentada esta com gargalhadas e pequenos palavrões que davam conta do tamanho da embarcação. Antes de chegar a alça que leva a Av. Brasil, noto intensa movimentação de carros atrás de mim, em perigosas ultrapassagens, estou na última faixa da esquerda, sou ultrapassado por quatro carros que se dividem na pista e começam a diminuir a velocidade, o que me chama atenção, fazendo-me frear. Por fim, em cima da hora, sou ultrapassado por dois carros, que ficam entre o meu e os carros que pararam de vez. Freadas buscas. No rádio, Amy Winehouse canta: “They tried to make me go to rehab/ But I said 'no, no, no'/ Yes, I've been black, but when I come back/ You'll know-know-know”. É irônico: em São Paulo, era uma canção da igreja, que dizia: Vem amigo vem /Vem para entregar este coração que Deus te deu/ para amar não para odiar...”.

Dos carros saem bandidos armados e encapuzados. Abaixo o som, ligo as luzes e digo para minha filha que tem um assalto naquele momento e que ela vai fazer tudo o que eu pedir. Libero o celular, mas minha carteira fica presa no bolso, estou nervoso. Os bandidos vem em direção ao meu carro e um coloca duas pistolas apontadas para a cabeça da minha filha. Este diz: “passa tudo de valor, bolsas, celular, tudo, porra!”. Digo que as bolsas estão atrás. Dou o celular e ele pede a carteira, dizendo que vai matar. Muito nervoso, digo que a carteira está em meu bolso de trás, peço calma a ele e para colocar a minha mão para trás e pegar a carteira. A carteira não sai, estou nervoso, temo pelo pior. Ele grita, eu me desespero, dizendo bobamente: “calma, estou pegando a carteira, Senhor, a carteira, não faça nada, por favor”. De repente um tiro para o alto, meu coração gela, e uma correria intensa. Abaixo-me com minha filha numa tentativa de proteção. Ela entra em estado de choque. Começam choro e gritos desesperados de minha filha que durariam, ao final, mais de 15 minutos. Deitados, abraçados, ouço repetidas vezes: “me tira daqui pai, quero a minha mãe, vamos embora!”. Nada pude fazer. Chega um policial e nos aborda.

À pedido do policial, saio do carro. Um pouco mais aliviado, realizo que voltarei a uma delegacia, como foi em São Paulo. Fico ao lado da minha filha, que chora e grita sem parar. A frente um carro parado e quatro homens. O transito começa a fluir. O policial os aborda. Três eram seqüestrados, estavam com os bandidos, que os levaram sem sucesso para caixas automáticos de bancos. Na correria, foram libertados. Um deles me diz: “você deu sorte. Era a sua vez. Estava em um dos carros, que é meu, e eles diziam que era para pegar você, mas o carro dele - apontou para um rapaz -, entrou em cima da hora entre você e eles, e estragou tudo”. Ficou claro que com o tiro, o carro do rapaz é que fora roubado. Ele próprio pensou que fosse morrer, pois cortou e parou em cima da hora, mas os bandidos foram em direção ao meu carro.

Começou a peregrinação. A polícia nos guia e, logo a frente, um policial e um carro roubado. Era o carro que os ladrões levaram! O policial diz que tem uma bolsa preta. Reconheço que era uma das minhas bolsas. Ele diz que a frente, três homens, em uma Kombi, em atitude suspeita, também foram detidos. Com eles tinha uma mochila preta, diz o policial. Peço para ver a mochila e aviso que também é minha. Diferente de São Paulo, os pertences foram recuperados, a exceção do celular. As 21:30 chegamos a 17ª DP, em São Cristóvão. O policial civil adverte: os flagrantes estão sendo feitos na 6ª DP, Cidade Nova. Em função da operação da Rocinha, policiais foram deslocados e houve concentração em algumas delegacias. Em São Paulo também peregrinei, e tive o desprazer de ver mais daquilo que a polícia pode fazer com pessoas de bem.

Chegamos a 6ª DP as 22:10. Aquela altura tinha apenas um caso sendo atendido e o balcão vazio. A nossa vista três policiais e o delegado. Dez minutos depois um policial aparece e fala com os PM. Ele diz que não pode atender, pois o flagrante daquela área é da 17ª DP. Ele desconhecia a mudança anunciada! Os rapazes detidos são levados para dentro da delegacia por outro policial. O Delegado pergunta se reconhecemos alguns dos detidos. Começam a chegar novos flagrantes, a sala fica cheia. As 23:00, o outro policial começa a atender os PM do nosso flagrante. A delegacia continua a encher e a fala com os policiais demora bastante. Aqui no Rio a relação entre policias parece ser mais amena do que a de São Paulo. De repente, com vários PMs no balcão pedindo atenção, o policial que atende nosso flagrante simplesmente levanta-se, liga a televisão e começa a assistir a luta do UFC, deixando sentado os PMs do nosso flagrante. É inacreditável, mas é real. Somos obrigados a vê-lo, feliz, dizer: deu Brasil! Ao seu lado, outros policiais, inclusive PMs, assistem a luta. Irônico, e escorchante, foi ouvir o Galvão Bueno descrever, em um replay, a seqüência de golpes que derrubara o americano: “esquerda, esquerda, direita, ... ai ai ai ....Cigano Venceu!”. Estávamos há mais de quatro horas naquela peregrinação, numa seqüência de eventos que nocautearam nossa cidadania, auto-estima, o emocional e que nos jogou sem piedade na lona que, naquele momento, era o balcão. Aquele policial nos dava mais um golpe. Contrariado, apos discussão com um colega sobre o seu ato, ele volta à mesa. As 1:15 da manhã começo a ser ouvido. O policial ainda pede desculpas pela demora, tenta explicar que só tinham duas pessoas para atender a todos os flagrantes.

Reaproveito e adapto o que escrevi em são Paulo: "em uma delegacia do Rio, as imagens das propagandas que tentam nos vender segurança e progresso assumem contornos que igualam todo e qualquer brasileiro: entramos com muito pouco, cidadania é uma mera aspiração, uma abstração, algo sem valor. E o pouco que nos resta, por aquela estrutura apodrecida, adoecida, nos será subtraído". Ironicamente, estamos numa Delegacia Legal, um factóide criado por um governo que teve o apoio irrestrito do atual governador. Nas paredes, vários certificados de reconhecimento da qualidade dos serviços ali prestados. Um quadro anuncia a missão da delegacia: “buscar o aperfeiçoamento otimizado das atividades desenvolvidas na unidade, desde o atendimento inicial ao público até os atos precípuos de polícia judiciária”. Outra ironia: o programa de qualidade se chamava PQSP – Programa de Qualidade no Serviço Público. Repetidas vezes, aquela delegacia ganhou o prêmio Gestão Nível 1 (100 a 199 pontos). Nos mandaram para a PQSP, sem dúvida alguma.

As 1:50 da manhã deixo a Delegacia, certamente muito parecido com o americano derrotado por Cigano. Nocauteado, nesta remontagem restou-me a irônica e humilhante cena de comemorar que ninguém tenha se ferido, feita solitariamente ao dirigir-me para o carro. Na semana em que o Ministro do Trabalho diz amar a presidente e que só sai do cargo com “bala pesada”, apesar dos escândalos em sua pasta, o policial somou suas forças com o Cigano. É isso: nocautear, humilhar, destruir o cidadão: marca registrada do Rio de Janeiro, marca registrada do Brasil. Espetáculo este remontado a todo instante Brasil a fora. Deu Brasil. Vamos comemorar?