sexta-feira, 1 de maio de 2020

Lembrar e esquecer, para seguir em frente

Em meio à pandemia me fiz muitas perguntas, mas recebi três que me chamaram atenção: (i) se já havia nascido em mim algo que levaria para o resto da minha vida, (ii) o que deveria fazer mais e (iii) o que deveria deixar de fazer. Nenhuma dessas perguntas eu havia me feito, confesso, embora desde o seu início o isolamento forçado tenha sido um convite a uma viagem pelos interiores da casa, do lar e de mim mesmo, convite que a ele não declinei e que me rendeu muitas reflexões.

Ao pensar sobre o que nasceu em mim durante a pandemia e que levaria para o resto da minha vida, me deparei com uma grande ironia: o que nasceu em mim na experiência de grande vulnerabilidade que é essa pandemia fora de controle é a consciência de que preciso aprender a morrer. Com a pandemia, a morte, sempre tão próxima e ignorada por mim, ficou tão evidente e tão dentro da pauta de pensamentos de todos. Comecei a compreender que temos que ser educados para a vida e para a morte. No meu caso, nada tão simples, pois contrasta com algumas crenças que embalaram minha corrida pela vida: sempre cri que viver é, acima de tudo, lutar para não morrer. De repente, tudo mudou e contrário às minhas vontades e às referências que tinha dessa luta. 

A mudança brusca de rotina, as forças que me impuseram um jeito de viver contrário ao meu desejo, o afastamento de quem amo e do que desejo, a solidão, a dificuldade de encontrar a solitude, a perda de controle sobre as coisas, o inimigo invisível e mortal...tudo isso me mostrou que nada sei sobre despedidas, resignação, conviver melhor com contrariedades, impotência, angústia de viver e de ver e sentir isso escorrer pelas mãos e sem caber em palavras. Sei o que é querer, mas nada sei sobre deixar ir ou deixar para trás; sei sobre sair e voltar, mas nada sobre ir sem olhar para trás. O isolamento deixou isso claro para mim.

Em isolamento forçado, me vi visitando realidades desagradáveis, doídas, como estar a dois metros da minha filha e não poder abraçá-la para evitar contaminação, de ir embora para minha casa sem saber se vou vê-la novamente. Principalmente, me vi revisitando situações, momentos, lugares e pessoas, onerando perigosamente meu psiquismo com duras lembranças e sentimentos tristes quando precisava dele o máximo saudável. A senha estava clara: associado ao meu não saber morrer está o meu não saber fazer luto.

À espera de um recomeço da vida, para começar a aprendizagem sobre a morte, decidi que a resposta inicial seria, no isolamento, aprender a fazer luto para fazer o luto de todos os lutos que não fiz. E assim está: com imenso medo de morrer, começo a aprender sobre morrer, fazendo não um movimento de desapego em relação ao que tenho e quero ou ao que ainda posso ter e querer, mas em relação ao que quis, tentei, tive, fiz e que ainda não aceitei ou não compreendi a sua passagem, investindo energia nisso sei lá por que.

Pensar no que deveria fazer mais e no que deveria deixar de fazer depois que a vida voltar ao normal também proporcionou um grande aprendizado. Começando pelo que deveria deixar de fazer, isso ficou bem claro para mim no dia em que assisti a uma live do Cirque du Soleil. Em meio ao extasio provocado pelo show que eles entregam, pela apreciação objetiva da incrível performance, individual e em grupo, realizei que aquilo é possível porque eles literalmente se entregam de corpo e alma ao alcance dos objetivos e metas que têm. Enquanto grupo, sabem o que querem produzir nas pessoas, entendem como cada um pode contribuir com isso, se conhecem e têm confiança uns nos outros, se comprometem, treinam e aperfeiçoam. Enquanto membro, cada um daqueles profissionais parece ter uma clareza sobre o que quer para sua vida e literalmente entrega seu corpo e alma aos papeis que desenvolve. O mínimo sinal de uma não-entrega ficaria evidente numa performance desapontadora ou pouco envolvente. Ao realizar isso, me perguntei: “Onde e quando você se entregou de corpo e alma, Marco?”.

Decepcionado, visitei as memórias e constatei que até então me entreguei bem pouco de corpo e alma, do amor ao labor; que poderia ter mergulhado nos diferentes fazeres em que me envolvi, do técnico-administrativo ao docente, passando pelo profissional de vendas e marketing e pelo ser que gosta de escrever. Invadi a seara dos meus desejos em busca do porquê, de entender se faltou a clareza sobre o que queria para minha vida, insegurança sobre minhas capacidades ou garantias de retorno ou se esbarrei no medo de me perder ou sofrer. Ainda não encontrei respostas claras, mas defini que o que deixarei de fazer é o não-fazer ou fazer menos ou fazer pouco, é o deixar de criar sentidos para minha vida poupando corpo e alma, é o poupar corpo e alma dos riscos do encontro com o que intuo e sinto ser bom para mim. Talvez precise ser mais mulher e menos menino ressentido com os dramas que experimentei nessa vida, que talvez precise dar à luz e cuidar de algo que muito desejo. 

Ao pensar sobre o que deveria fazer mais daqui para frente, me dei conta de que o mais correto seria o que não deveria deixar de fazer. Uma das coisas que o isolamento me impediu foi ir ao encontro das pessoas, amigos e parentes, de visitá-las, abraçá-las, de olhar firme em seus olhos e segurar em suas mãos, de delas e de suas vidas saber, de a suas histórias beber e comer, de a elas servir, de nelas investir e deixar claro que eu realmente me importo com elas e que são importantes para mim, de dizer que sou grato ao que por ventura fazem ou fizeram por mim ou pelo simples fato de um dia nossas trajetórias terem atravessado umas às outras. Ironicamente, pouco antes da pandemia havia pensado que buscava mais as pessoas do que elas à mim, que talvez merecesse reciprocidade, um claro instante de insegurança sobre ser desejado. Bem, fato é que estou há mais de quarenta dias sem poder fazer o que afinal muito gosto de fazer, pois muito prazer me dá e aceito que não deveria ser pautado pela reciprocidade, mas pela perseverança no que acredito e me faz bem. 

Por fim, confesso que demorei a compreender o que Renato Russo dizia com “Todos os dias/Antes de dormir/Lembro e esqueço/ Como foi o dia/Sempre em frente/Não temos tempo a perder”. E assim, depois de muito tempo, esse trecho de Tempo Perdido se tornou base para um mote do resto que ainda me há de vida: “Desejar, incidir sobre o dia, não temer, fazer, lembrar e esquecer como foi o dia, voltar a querer, seguir em frente, sem peso a carregar, sem tempo a perder”.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O encontro de dois meninos

Seropédica, 17 de setembro de 2011. Fui à casa da tia Ana, dia de festa para os aniversariantes do mês de setembro e lá são muitos. Todos festejavam, exceto eu, devidamente advertido de que naquele lugar e exatamente há trinta anos recebia de tia Ana, em companhia de Neusa e Darcy, a notícia de que minha mãe morreu. Não toquei no assunto e dele ninguém se lembrou, felizmente. As lágrimas ora as bebia ora sobre elas sorria. O clássico e pouco inspirador sorriso do autoengano, mas aquele garoto de 10 anos que um dia fui estava ali e precisava ser acolhido

Ironicamente, era um dia muito especial para o Marco Souza, um homem de 40 anos. Estava muito ansioso, pois, depois que saísse dali, entraria pela primeira vez na casa da Angélica, a quem já amava e demais detalhes de sua vida queria saber. Seria apresentado aos seus filhos como pretendente dela, não mais como conhecido que se cumprimenta à rua.

Assim que cheguei à casa de Angélica, fui avisado de que Carol dormia e Milton estava acordado. Carol foi se preparar para me receber, mas adormeceu. Quando entrei, Milton, deitado em sua cama, me olhava com tranquilidade. Seu quarto ficava de frente para a porta da sala. Meio desconcertado, da porta perguntei se poderia ir até ele para cumprimentá-lo, mas me disse que não. Logo após, saiu e veio me cumprimentar.

Percebendo a delicadeza do momento, fiz questão de terminar de chegar e bem devagar. Fiz movimentos leves, falei pouco, pedi licença, sequer toquei em sua mãe. Deixei o implícito com seu misterioso status intacto. Àquela altura e naquelas condições, qualquer insinuação de objetividade impactaria fortemente o menino de 10 anos, ao mesmo tempo em que me alçaria à condição de invasivo, uma figura desagradável ao filho da mulher que me propunha conhecer e abrir espaço em minha vida.

Na sala, novamente o cumprimentei e, na esperança de que ele ditasse o ritmo daquele inusitado encontro, esperei que falasse. Milton me recebeu com simplicidade e simpatia. Fiz perguntas sobre as coisas das quais gostava e ele foi me apresentando aos elementos do seu mundo. Apontou para o quarto, foi para lá e da sala eu via os primeiros brinquedos dele. Convidou-me, pedi licença ao entrar, não toquei em nada, esperei que me dissesse o que fazer. A primeira coisa que fez questão de mostrar foi a prateleira com seus bonecos, ressaltando que foi obra do seu pai. Deteve-se na história da prateleira, deu muitos detalhes. Olhando firmemente em seus olhos, elogiei o trabalho do pai e a coleção de brinquedos.

Enquanto fiquei no quarto, me mantive interessado pelo seu mundo e fiz de tudo para não negligenciar os recados que sutilmente me passava, um em especial: essa casa ainda pertence a um homem. Um homem que ele mantinha vivo ali dentro, embora não mais frequentasse o lugar, nem mais tivesse relação com sua mãe. 

Entre as várias e essenciais razões para manter o interesse pelo mundo do Milton, uma reclamava atenção: o destino criou um encontro especial entre dois meninos de dez anos. Era fácil estar no lugar dele: há aproximadamente trinta anos, não na mesma data, acontecia algo semelhante comigo. Em minha casa, e pela primeira vez, entrava a mulher que seria nossa madrasta e ocuparia o espaço que foi da minha mãe, recém falecida. Lamentavelmente e pouco tempo depois, as condições nas quais se deu a entrada definitiva dela em nossa casa foram tensas, deixando em mim a certeza de que não foram respeitados os aspectos simbólicos mais importantes. Durante muito tempo, foi para mim uma invasão, uma barbaridade, um completo desmantelar de todo universo objetivo e subjetivo que me localizava no mundo, no tempo. Construir um novo lar numa mesma casa requer uma engenharia especial, demanda recursos valorosos e delicados, principalmente amor, paciência, dedicação e tempo. Não foi assim que aconteceu e tudo mudou: primeiro, uma nova rotina; depois, os elementos que sinalizavam a presença da minha mãe foram retirados e ela morria mais uma vez; por fim, mudamos para o bairro Ecologia. A casa de onde saímos, aquele lar, o meu universo, me dava uma confortante sensação de pertencimento, algo importantíssimo diante toda transformação que experimentava naquela fase da vida. A senha para a aprendizagem essencial sobre o viver estava decifrada: entrar na casa do Milton significava, simbolicamente, entrar na minha casa e fazer tudo do que jeito que deveria ter sido. 

A visita me reservava mais emoções. Voltamos à sala e em seguida Milton foi ao seu quarto e voltou com uma chuteira que usava na escolinha de futebol, no Seropédica. Deu-me a chuteira e, ao tocá-la, olhei novamente no fundo dos olhos daquele menino de 10 anos, calmo, gentil, receptivo, dono do espaço e da situação. Meu olhar foi do fundo ao longe: ironia do destino ou capricho deste, um calçado, um tênis, foi o presente que minha madrasta me deu no dia em que foi à minha casa pela primeira vez. À época, vivíamos situação difícil, tínhamos pouca roupa em boas condições e o tênis chamava atenção pela novidade e beleza. Lamentavelmente, em função de falas e posições de todos envolvidos afetivamente com a situação (parentes e amigos), prevalecia a interpretação de que era uma tentativa de ‘comprar’ nossa simpatia (minhas irmãs também foram presenteadas), de ‘driblar’ a atenção do que era realmente caro: a falta de clareza no projeto de construção de um novo lar na nossa casa. Como resultado, pouco usufrui do belo presente, pois aquele simbolismo que emergiu diminuía qualquer benefício funcional ou social que pudesse me dar.

Quis o destino que Milton me desse o calçado para segurar. Toquei-o com a mente voltada para aquele garoto de 10 anos que perdeu a mãe e tinha sua vida drasticamente transformada. Ao garoto de 10 anos à minha frente eu perguntava sobre os gols que fazia e se o calçado era confortável e bom para usar. Ao garoto ‘atrás’ de mim eu disse: “Este calçado que agora seguro serve para mostrar que você deveria ir ao campo da vida jogar o jogo que não jogou porque não quis usar o calçado cujo presentear lhe foi tão desconfortável. Vá, vista o calçado, perdoe aquelas pessoas, leve uma vida mais confortável e faça finalmente esse gol”. A mim disse: “Você entrou, respeite esse universo; continue amando essa mulher e a seus filhos, ainda que um beijo possa estragar tudo”. Como nada bebia, às lágrimas novamente sobre elas sorria. Um sorriso de relaxamento, esvaziamento, reparação e reconstituição que só encontros especiais podem oferecer.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Do delicado em mim


Um dia ouvi que uma simples e despretensiosa mensagem pode mudar significativamente o rumo de um dia ou mesmo da vida de uma pessoa. Isso está acontecendo comigo, aumentando ainda mais a excepcionalidade desses dias de isolamento que enfrentamos com o pandemia do covid19.

Em 20 de março, recebi mensagem privada de alguém que há muito não via e com quem nunca tive muito contato, embora estejamos conectados via aplicativo. Conhecemo-nos pelos idos dos anos 90 e nos vimos poucas vezes desde então. A pessoa queria saber o porquê do afastamento que eu vinha mantendo da rede social. No mesmo dia, manifestei minha surpresa pela visita virtual e informei que afastei-me porque estava ficando cético em relação à possibilidade de virarmos o jogo contra essa polarização que embrutece-nos e piora a qualidade das interações nas redes sociais virtual e física; também confessei indignado que estava me sentindo numa bolha e procurei fazer algo para não ficar com a crença de que os problemas estavam nos outros e não em mim, optando por sair da ilha que vira a timeline de uma rede social e onde nela nos refugiamos; por fim, disse que estava priorizando a rede social física, aplicando mais compaixão e empatia, assumindo que o problema também está em mim, procurando rever valores, atitudes e comportamentos e enfrentando mudanças que me impus e atualmente implicam em plena reelaboração de mim. Também no mesmo dia, confessou-me ela sentir o mesmo, embora não use muito a rede social digital e prefira a física e, procurando ser empática, escreveu: “Vi você poucas vezes, mas você me passa certo conforto no trato, acho que por isso, quando vi que você tinha se afastado, ainda mais nesses tempos de quarentena, resolvi “visita-lo”, e ainda reconheceu que poderia ter ficado estranho o “certo conforto no trato”.

No dia seguinte, agradeci e manifestei que ficara mesmo curioso com “o certo conforto no trato”. No dia 22, e com visível cuidado na construção da resposta, ela disse: “trocando em miúdos, acho que quis dizer que você parece uma pessoa delicada e com quem é fácil conviver”. No dia seguinte, muito mais surpreso, respondi que estava em busca de uma resposta ideal para aquelas palavras, que até tinha começado uma digressão; reforcei que estava muito feliz com a surpresa do contato e com a restituição, via percepção e palavras dela, do delicado à minha vida, ao meu jeito de estar no mundo; assumi que a delicadeza fazia parte sim da minha vida e que dela eu muito me afastara ou pouco de atenção a ela dera, e que com a fala dela janelas para muitas ideias havia sido abertas. No mesmo dia, ela respondeu: “então, devo dizer que restituí a você o que você sempre me deu, independentemente das intenções que pudessem movê-lo. Que bom que pude fazer isso”.

No dia 26, com uma resposta aquém da ideal que buscava, mas pressionando-me para logo tê-la, consegui dar continuidade à nossa conversa, que após essa mensagem terminou: “Você me reparentalizou, pois não tive necessidades emocionais atendidas referentes a ser mais soft, light...delicado. Cresci ouvindo do meu pai: “Filho meu não pode ser gay, ladrão drogado ou comunista”. A forja que me fez homem não me deixou ser o homem que eu queria ser. Foi na marra, na rebeldia, na sublevação, que eu me lancei à transformação, ao questionamento do que queriam de mim e do onde eu chegaria sendo aquele homem que de mim fizeram. Foi na experimentação, no corpo da política e na política dos corpos, que adotei algumas postura, novas ideias”.

Findou a troca de mensagens, mas não findaram as inquietudes deste contato tão especial com o delicado em mim, com a experiência de acessar uma representação minha bem distinta da que normalmente uso para me definir e de acessar o material trazido à tona por minhas próprias palavras. Emergiu a grande senha: até aquele inusitado 20 de março eu não havia invadido esta seara tão cara à minha história de vida: a conexão entre o delicado/a delicadeza e o meu vir-a-ser homem (tampouco tenho como saber se um dia aconteceria). A oportunidade, respeitados todos os seus detalhes, tornava providencial aquela restituição; enfim, tinha que ser naquele instante e daquele jeito. 

Palavras. Quantas e fortes emergiram na troca de mensagem e em minha mente. Até 23 de março, diziam-me elas que eu não me reconhecia na delicadeza nem a ela devidamente reconhecia; que refazer-me homem fôra na marra, na rebeldia, na sublevação. Processo este que agora entendo demandar sensibilidade ou autoconhecimento ou experiência ou coragem para se ir além do enfrentamento ao dolorido e extenuante que ele produz e alçar o saber-se delicado, assumi-lo, nele se confortar, a ele proteger e com ele objetiva ou intuitivamente contar para enfrentar a vida.

Tal restituição abriu-me não apenas à compreensão do impacto, mas da necessidade de uma consistente restituição do delicado à minha vida, de modo que ele seja parte evidente e assumida do meu jeito de estar no mundo e de como continuamente me redefino, me reconstruo, me reelaboro. Fortalecido, procurei então compreender como se dera minha relação com o delicado, os nossos encontros e desencontros, o que minhas palavras iniciais não deram conta. Foram muitos e profundos os pensamentos e lembranças que somaram forças para que a partir dali eu revisitasse os pontos de contato e de atravessamento entre mim e o delicado.

Como não perguntei à pessoa o que seria este delicado que eu a entregava, os atributos que o comporiam, acessei as representações que atualmente tenho do delicado ou da delicadeza: mulheres, flores, cristais, relações e o psíquico, e onde se inscrevem o soft e o light. Baixíssimo repertório de associações e representações, confesso, dignas mesmo de uma pessoa que ouvia que homem não chora, que ele tem que se impor e que jamais deixa-se ser um réu confesso de qualquer coisa que faça ou sinta. Considerando peculiaridades da minha trajetória de vida, entendi bem que esse repertório não poderia ser muito rico, embora agora saiba haver alguma efetividade, pelo menos com uma mulher.

Mulheres. Revisitei o passado e logo encarei minha relação com elas, que, além de não ter sido fácil, foi deveras complicada por causa de algumas vontades do destino. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos e, embora ainda tivesse tido três mulheres perto de mim por um bom tempo, não houve com duas irmãs mútua cumplicidade e empatia sobre os dramas de vir-a-ser gente, nem mútua proximidade e afetuosidade com minha madrasta que pudesse viabilizar uma outra forja de vir-a-ser. Nas ruas, aprendizados comuns de meninos sobre sexualidade, com acesso a revistas pornográficas e a compartilhamento de histórias, na maioria das vezes, bastante exacerbadas sobre paqueras, transas, masturbações, etc.. Aprendizagens não sobre a inteireza, integralidade e delicadeza dos nossos e dos corpos delas, mas sobre órgãos genitais e seus excêntricos nomes, tudo muito localizado e resumido, embrutecido. Continuada a revista ao que me permitiu a memória, constatei que, naquela fase, dificilmente reagiria ao embrutecimento ou rusticidade que caracterizava aquele projeto de vir-a-ser homem que nos impunham, aquela dura forja: aos onze ou doze anos lidando com uma criação que diariamente informava que “filho meu não pode ser gay, ladrão, drogado ou comunista”, que também nessa fase me colocara num inferninho para, sob olhares ávidos de tios, ter uma mulher no colo para que ela certificasse que o “pau subia”, que aos catorze ano, quando assistia Gilberto Gil cantar Refazenda, desligava abruptamente a TV e informava que naquela casa não se assistiria a um gay e comunista cantando.

Foi um doloroso e delicado-em-si de abrir janelas para no passado entrar, tendo à mão apenas a luz da coragem e sem dispor do mapa e experiência de um bom analista. Bem mais do que mudar meu dia, essa simples e despretensiosa mensagem produziu efeitos que, bem sei, impactarão meus dias que seguem, mesmo que o fato de não ter sido de uma mulher com que tive relacionamento próximo e intimo ponha tudo isso sob ampla suspeição. A coragem acompanhou a extensão da rememoração para expor detalhes densos da minha história de vida. As janelas estão devidamente escancaradas e tudo isso vai continuar reverberando, repercutindo, atravessando a dolorida e contínua reelaboração da minha própria identidade ou subjetividade. Entretanto, por mais surpreendente e inquietante que esteja sendo, não há estranhamento, negação ou repulsa: há um delicado em mim e ele está restituído à pauta da minha vida.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Aqui e agora: eu, professor.


Noite de 26 de junho de 2019, sala 2, Instituto de Educação, UFRRJ. Estou assistindo a mais uma aula na maratona para me tornar um psicólogo, um plano antigo e que aos poucos e com muita luta vai se materializando.

Estou no oitavo período e assisto aula da disciplina Psicologia e educação: conexões e diálogos, ministrada pela querida e admirada Rosa Cristina Monteiro. Embora seja uma disciplina optativa, Rosa confere a ela a devida importância e suas aulas, sem exceção, têm sido marcantes para mim e certamente para a maioria dos colegas. Estou cansado da jornada que começara às 8 da manhã e sigo à aula sem saber que em poucos minutos eu viveria outro momento significativo nessa minha jornada pela vida.

Rosa nos surpreende solicitando que façamos uma narrativa sobre uma situação bem específica: temos que desenvolver o “eu, professor”, uma narrativa em primeira pessoa. Ela se baseia na teoria dos atos de significação, de Jerome Bruner. Como aprendido em sala de aula, procuramos significar o mundo (mente criadora de significados) e nele agimos em função dos significados e sentidos. A narrativa é uma fonte crítica para o entendimento dos significados ou sentidos que criamos, e a narrativa de si mesmo, dizia Rosa, é um modo de consolidar sua experiência, torná-la consciente e, na medida do possível, ampliar ainda mais o campo da consciência.

Rosa não queria captar as representações desse professor que muitos ali ainda o serão, seu objetivo estava no labor individual para construção do caminho que os alunos estão seguindo para formaram-se e obter o grau de licenciado, queria extrair os significados implicados no emergir do futuro professor. Como nos implicamos na construção desse professor? Tínhamos que ir além da representação para encontrar o sentido de ser professor. Teoricamente, estamos em uma estação próxima à Gare no processo de constituição dessa identidade. 

No momento em que recebo a instrução da tarefa começa um grande desafio para mim: na corrida para ser psicólogo, dou-me conta de que preciso falar do professor que sou e justamente numa das salas onde, há 28 anos, começou minha corrida para ser administrador, profissional de marketing, homem de mercado. Uma complicada questão de construção identitária reaparece, senta na cadeira ao lado e me cobra atenção, puxa assunto.

Pensando em como construir a narrativa, dado que nos foi facultado certa criatividade para fazê-lo, dou-me conta do quanto sou dividido nos meus desejos e que isso é algo com o qual ainda não aprendi a conviver, do desafio de agora ter que falar do professor cuja trajetória começou há 20 anos e que ainda o faço sem demostrar a alegria e o desejo que geralmente me atribuem como marca pessoal. Lembrei-me imediatamente de uma pergunta da terapeuta feita em 2009: “Quem é mais importante para você: o professor, o homem de mercado ou o escritor?”. Naquele dia, ela disse que estranhava o fato de ser eu um professor muito bem conceituado e falado por muitas pessoas e que não falava de mim mesmo com empolgação alguma, que estava altamente insatisfeito com a vida e que me cobrava bastante por não estar investindo no escritor, o Eu, escritor.

As lembranças continuam e relembro que professor é uma posição que neguei várias vezes, priorizando meus interesses na área de marketing, a despeito de muitos conselhos e indicações de que havia em mim vocação para tal. Quem mais me falou sobre isso foi Fernandinho, primo na casa de quem eu costumava ficar entre 1995 e 1997 para ficar mais perto do trabalho ou dos cursos de pós-graduação que tentei para ir ao mercado de trabalho. Regularmente, ele me dizia que eu deveria tentar uma carreira docente, que via em mim um “professor nato”, que eu deveria ter mais carinho com a vocação que estava evidente em mim.

Ironicamente, lembro-me que na Supergasbrás, onde tive minha primeira oportunidade de ser um “homem do mercado”, ganhei o apelido Professor. Um dia, participando de um jogo de futebol dentro da empresa, um colega de time reclamou de um passe errado meu e deixou sair: “faz isso não, Professor”. Durante o jogo fui chamado de Professor por outras pessoas. Após a partida, me explicaram que meu apelido entre era “Professor” porque eu parecia um professor, pelo meu jeito de falar e por alguns hábitos que tinha, como o de ler jornal ou livro no horário que sobrava do almoço. O apelido estava pegando e um dia, em conversa com meu chefe, ele me disse que aquilo não era nada bom para alguém que tinha ambição de crescer na empresa, que a representação de um professor não era nada boa para um gerente ou diretor, que as funções eram incompatíveis.

Aprofundo-me nas lembranças e realizo que tal dilema dentro da empresa acaba com minha saída dela e que esta, devido à maneira dolorosa como a ela reagi, acaba por influenciar negativamente minha recolocação no mercado. “Você ainda está sangrando”, disse-me uma diretora de RH de uma grande empresa para justificar minha não contratação. Minha saída da Supergasbrás praticamente marca o fim da trajetória daquele Eu, homem do mercado. Rapidamente, lembro-me do texto que escrevi justamente no dia em que saí da empresa para usá-lo em minha apresentação do Eu, professor. O texto, escrito em 10/10/1997, na base da Duque de Caxias, é significativo pois eu estava realmente muito feliz naquele dia que acabou bem mal por sinal. 


“Um inesperado e agradável surto de felicidade tomou conta de mim. Estou rindo à toa.
De uma hora pra outra fiquei leve, radiante, com a alma em êxtase.
Estou impregnado de felicidade, vertendo alegria pelos poros.
Há um doce aroma de satisfação me rodeando e que não me deixa parar de sorrir.
É uma sensação fantástica, estou contagiante, irresistível.
Planto esperança em todos os lugares em que lanço um olhar.
De minhas palavras jorram emoção.
Inesperadamente feliz, como se não houvesse no mundo outra opção.
Um réu confesso do crime da felicidade recebendo em alto astral a sentença que me condena à alegria eterna”.


A poucos minutos da minha apresentação realizo que estou bastante emocionado, dou-me conta da complexa rede de significados que estiveram presentes em todos os investimentos que fiz no complicado processo de constituição identitária do Marco Antônio Ferreira de Souza. Com certa calma, porém, contemplo com carinho os diversos projetos de eu em que me impliquei. Olho para a sala e tento revisitar momentos de 1991, quando naquela sala me sentava para algumas aulas. Não, não quero me reencontrar, nem dizer nada para aquele "eu, aluno", pois sei que minha dívida é com o professor, com aquele cara que está na viagem e coincidentemente na mesma estação em que o aluno começou a viagem.

Jamais passaria pela minha cabeça que, em mais uma etapao da corrida para edificar o "eu, psicólogo", eu precisaria prestar contas com o "eu, professor", justamente na sala onde começou minha maratona para tornar real o "eu, homem de mercado", figura de vida curta e pouco feliz e de quem demorei a fazer o devido luto. E aqui estou, professor de fato, precisando assumir essa importante dimensão da minha vida, precisando acolher-me, autorizar-me, abraçar-me, precisando urgentemente reinterpretar a tal sentença que me condena, nessa vida, a uma alegria em quantidade bem promissora. Talvez seja isso o que a terapeuta me cobrava, talvez seja isso o que Fernandinho previa para mim. Talvez.  

Fui o último a apresentar e terminei assim: Aqui e agora: eu, professor.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Fomos pipeiros



Seropédica, 28 de julho de 2018. Sábado. Despertei perturbado por um som insistente e desagradável que, embora não me fosse desconhecido, dele não recordava com facilidade. A memória falhou, mas a curiosidade falou mais alto. Desisti de voltar a dormir, levantei-me, abri a porta da frente e, da sacada, deparei-me com uma marcante em minha vida: uma pipa agonizando na rede elétrica de alta tensão bem em frente. Fui tomar café.

À mesa do café, um outro ângulo me permitiu mais alguns instantes de contemplação, pela janela, da cena que muitas vezes vi no tempo em que ficava os dias de férias escolares olhando para os céus soltando ou correndo atrás de pipas voadas, escalando muros e árvores para apanhá-las e retornar à brincadeira, tempo que se estende entre 1979 e 1985.

'Que cena desoladora!', informou imediatamente os sentimentos de pipeiro. Também sou visitado por lembranças recentes e antigas relacionadas ao soltar pipas. Vem à mente o ano 2007, quando uma médica que atendia minha filha, que à época estava muito ansiosa, disse com seriedade que Malu precisava soltar pipas, ter uma vida menos assoberbada com a atividades extraescolar ao invés de tomar remédios para ansiedade, atenção, depressão e coisas parecidas (Não só ela, claro, mas crianças, adolescentes e adultos, dizia a médica sobre a vida que levamos e que conflita com nossas condições fisiológicas e psíquicas). Também vem à mente imagens e noticias recentes sobre incidentes envolvendo pipas e atropelamentos e mortes de motociclistas feridos pelas linhas com ceróis.

Acesso distintos e intensos sentimentos enquanto realizo o irônico e o contraditório de vermos uma atividade tão significativa imbricar-se com dores morais, físicas e psíquicas que podem ser experimentadas em nossas trajetórias.

Visitam-me reflexões que misturam e o alerta do médico com mudanças no nosso mundo e na maneira como entendemos e exercemos nosso viver. Penso nos conflitos e consequente desconfortos e dores físicos, morais e psíquicos que estão associados aos elementos visíveis e invisíveis à cena: a pipa perdida na rede elétrica; a urbanização crescente e desorganizada e a correria para dar conta de necessidades e desejos sem fim e, atrelados a eles, um jeito de viver que equivocadamente prescinde do estar na rua; o sufocamento e marginalização de uma atividade lúdica e terapêutica como o soltar pipas; e, consequentemente, o acirramento dos conflitos entre pipeiros, motociclistas, motoristas, ciclistas e proprietários de casas e lojas.

Como estou de férias, sei que enquanto o vento, a chuva e o sol não destruírem essa pipa, conviverei diariamente com o chato som que faz a sonoplastia dessa cena desoladora. Ela me conduzirá a diversos e diferentes momentos da minha vida. Nesse exato instante, a cena e o som me conduzem direto a diversos e marcantes momentos, muitos que se deram na mesma rua.

Em 2007, saí do consultório bastante impressionado e a primeira coisa que fiz foi comprar linha, pipa e rabiola para, no dia seguinte, ir com Malu aos gramados da Embrapa e da UFRRJ e começar o saudável tratamento. Primeiro, fomos à UFRRJ, mas logo fomos afugentados: a todo instante vinham pipas querendo cruzar e aquele não era o nosso propósito, nem cerol tínhamos. Só conseguimos soltar pipa em paz em frente à Pesagro. Ironicamente, após termos conseguidos bons momentos de distração e alegria, houve mudança da direção do vento e, ao tentar ajudar Malu com a pipa dela, acabei agarrando-a na rede elétrica de alta tensão que fica na entrada entre a Pesagro e a UFRRJ. Com a minha eu fiz algo que há muito desejava, embora até hoje não entenda bem o por quê: dei linha até o final do carretel, deixei a pipa subir bastante e, junto com a Malu, depois de muito debicar, subindo e descendo, indo de um lado para o outro, deixei a pipa ir e se perder no horizonte. À Malu, uma vez perguntado, disse a ela que alguém pegaria a pipa e a brincadeira continuaria.

Com relação ao meu passado, sei que pelo tanto que tem ventado desde ontem eu o visitarei bastante, remontarei aos meus saudosos anos de pipeiro, que reconheço não terem sido tão gloriosos como o de muitos amigos, mas que foi muito rico em ludicidade, uma vida vivida mais do portão de casa para a rua do que o inverso e com quase nenhum remédio a ser tomado, exceto analgésicos, vermífugos, antitetânicas, antirrábicas e os biotônicos da vida para despertar apetite.  

Quando a rede de alta tensão chegou à essa rua, essa cena foi ficando comum e praticamente forçou a migração do soltar pipa dessa parte aqui da esquina com a rua 7 para o fim da rua, e, vale a menção, ainda não havia a minha casa e o colégio à frente, onde ficava a casa da dona Edméia. Foram os primeiros conflitos mas, embora nos anos seguintes ficassem comuns os conflitos entre essa prática lúdica e bastante saudável e a maneira como nossas famílias progressivamente estruturavam nossas vidas, vivenciamos mais as dores morais comuns à rotina de um pipeiro do que as dores físicas (sim, tínhamos dedos das mãos cortados, pés e canelas machucados), e sofrimentos psíquicos.

Sobre as dores morais, sei de uma leitura mais otimista e que depõe contra o agonizante que a minha leitura retrata dessa cena. Esta diz que no final da temporada de férias as pipas nas árvores, antenas e redes elétricas tornam-se memória, provas irrefutáveis de que adultos e garotos viveram intensamente seus dias de ócio nas férias escolares e que para cada uma dessas pipas haverá um depoimento de alegria e dor vividas com dignidade e altivez. Entretanto, uma pipa agonizando na rede elétrica significa que muita frustração foi vivenciada em algum dos instantes mágicos da vida de um pipeiro. Alguém certamente perdeu essa que agora observo enquanto a empinava ou arrastava para cruzar com alguém ou tentava aparar outra pipa ou perdera a rabiola dela e tentava trazer para o chão ou, o que é a situação mais chocante, enquanto estava a poucos metros e segundos de pegá-la voada e dar o homérico, terapêutico e libertador grito “É minha! Tá na mão!”. Existem outras maneiras de calar esse grito, mas uma pipa voada ir direto à rede elétrica e lá ficar encabrestada é a pior, pois, além de todo risco e lendas que circulam sobre fatalidades, com a rede elétrica “não tem negociação” e prevalece a dor moral que se acentua com o calar desse grito. Bem, se por ventura alguém pegar a pipa quando você vai dar o grito libertador, ainda há chance de negociar ou de lutar para minimizar essa dor. 

Embora conheça bastante dos relatos heroicos que uma temporada de pipas produz, sei bem que, para quem solta pipa, ver uma pipa na rede elétrica é uma das cenas mais horríveis de se ver. Em termos de dor moral, no meu tempo de pipeiro, que foi dos 8 aos 14 anos, ela se equiparava à de ver a pipa estancar e se perder no horizonte ou parar na mão de alguém que não vai lhe entregar, o que também era avassalador. A despeito de toda dor que essa última cena enseja, dado que pode ser uma alma sebosa que ficará com sua pipa e linha, do fundo da alma de um verdadeiro pipeiro emergirá um pensamento bastante oportuno que lhe dirá para erguer a cabeça e superar essa dor, pois, pelo menos, a brincadeira irá continuar e, quem sabe, o jogo vira como o vento muda de direção, e ele reaverá a pipa ou cruzará e cortará a alma sebosa que ficou com sua pipa. 

Essa dor moral reside no complicado que se torna o resgate da pipa na rede elétrica. Devido à histórias de gente que fora eletrocutada – algo que felizmente nunca presenciamos na rua Albertina Rosa ou simplesmente rua do Hotel (atual Rua Iná Nascimento de Souza) –, tentar resgatar pipas nas redes elétricas nunca foi uma ação simples ou isenta de riscos e medos. Além disso, ela inibia toda engenharia coletiva para resgate de pipas que tão bem exercíamos quando elas estavam agarradas em árvores ou antenas e, consequentemente, fazia com que deixássemos para trás os bambus, marimbas e demais artefatos tecnológicos nos quais o tempo de traquinagem nos tornava peritos.

Nos dias que seguem, graças a esses oportunos cena e barulho, revisitarei com carinho meu passado e irei contrastá-lo com o presente que a pouca molecada que vive nessa rua enfrenta. Lamentavelmente, essas férias estão acabando e não vi ninguém soltar pipa por aqui. Está tudo bastante mudado, a começar pela minha casa e pelo colégio â frente que, pela altura que têm, tomam considerável parte do espaço para empinar pipas. Os lotes vazios escasseiam, bem como as árvores; aumentam o número e o tamanho das casas, bem como o de estranhas e complexas antenas de tv e internet; o soltar pipa exige ainda mais habilidade, perícia e audácia. Também mudou o acesso às pipas, linhas, rabiolas e cerol; no nosso tempo, uma pipa e uma linha eram caros e tinham que durar muito; na maioria das vezes, quando o Marco Cocota não estava fazendo pipas, nós tínhamos que fazê-las, bem como às rabiolas.

Irônico, lamentável e desconfortável é constatar o quanto estou envolvido nessa dessa dinâmica de fazer e se acostumar com que as dores físicas e o sofrimento psíquico superem em quantidade e intensidade as dores morais que acima menciono. Ao fazer essa casa desse jeito, bem alta, eu contribui para esse acirramento do conflito, preenchi a paisagem da rua com obstáculos às pipas, fiz do mesmo que atualmente transforma pipeiros em verdadeiros inimigos de motociclistas, ciclistas e donos de antenas. Ao viver do jeito que vivo, ajudo a emergir figuras como a que encerro, cheias de dores psíquicas e físicas, e a pôr no limbo o pipeiro, sua mítica trajetória e seus desafios com alegrias e dores morais.

Ainda à mesa do café, mudo o ângulo de visão e fico a pensar nos pipeiros famosos da minha rua, como o Marcio, o Basa, o Sergio, o Zezé, o Jô e muitos outros. Após uma tarde movimentada, cheia de cruzamentos, estancamentos, sobe e desce de peões, pipas e gerecos, o ápice de um pipeiro era ser ele o único a sobrar no céu da região onde ele estava soltando sua pipa; é bem verdade que ele não estava, como eu sempre estava, entre os que sempre eram cortados ou que estavam correndo atrás de pipas voadas para continuar a brincadeira; mas todos nós estávamos envolvidos com as dores, alegrias e aprendizados inerentes ao dar ou tomar cabresto, cortar ou ser cortado na mão, embolar de linha e evitar fazer nós nela, nos dramas dos dias sem vento, dos roubos de linha, das perdas das rabiolas, dos dilados que impediam as pipas de subir e ficar no ar.

sábado, 2 de junho de 2018

Reencontros marcados

Rio de Janeiro, 26 de abril de 2018. Cinco horas da manhã. Como de costume, cheguei adiantado a mais um encontro (bem adiantado, por sinal), revelando a ansiedade que jazia nas entrelinhas. A alguns metros de mim, o Hospital Servidores do Estado – HSE, com quem terei o desafio de um reencontro lá pelas 8:00.

Há trinta e cinco anos não nos vemos e o escuro da madrugada me impediu de ver como ele está atualmente. Como só encontrei lugar para estacionar à rua do Livramento, pouco pude notar da silhueta do gigante que marcou minha vida. Inseguro sobre o local onde parei, resolvi ficar por ali até que o dia clareasse e tivesse mais segurança para deixar o carro e ir para o grande momento do dia. Fiquei na companhia do senhor que vende água de coco e faz ponto em frente ao Mercadinho 2001, esquina com a rua do Livramento.

Às 7:00 saí para tomar café no bar e restaurante Cantinho dos Servidores. Durante duas horas fiquei sem nada que, por ventura, trouxesse as lembranças dos muitos e, em sua grande maioria, dolorosos encontros que eu e o ‘Servidores do Estado’ tivemos entre os anos de 1978 e 1983. No restaurante, enquanto saboreava a média e o pão na chapa, pude contemplar detalhes da sua lateral e constatar que muita coisa mudou.

Em verdade, exceto por um breve contato visual com a Rodoviária Novo Rio e pelas dependências do Moinho Fluminense, não houve nada de familiar em mais essa chegada à Sacadura Cabral, 178. Nada de Perimetral, trens de carga, navios, viagem em ônibus da empresa Eval, Praça Mauá, cheiro forte de café, ônibus das empresas Magelle, Evanil, Reginas ou Jurema, nem mesmo tinha o famoso 222 parado ali por perto. Também pudera: nosso último encontro se deu em 21 de fevereiro de 1983, às 9:00, e muita coisa mudou na nem tão maravilhosa cidade que faz o cenário dessa controvertida relação que o destino, esse ilustre senhor, criou a partir do adoecimento e tratamento da minha mãe, a partir de 1980.

Sobre o reencontro, durante anos desejei e agi como se tal relação tivesse acabado, embora soubesse que havia faltado a importantes reencontros previamente marcados para os anos seguintes, em especial ao do dia 24 de março de 1983, conforme marca o velho cartão rosado. Tal ausência implicou em deixar para traz preciosas sessões de psicoterapia, oportunidade ímpar que eu tinha para mudar a dolorosa impressão que fiquei dos encontros que tivemos e sobre a vida que conheci durante o longo período de internação e após o falecimento da minha mãe, em 17 de setembro de 1981. Depois daquele fevereiro de 1983, meu reencontro com a psicoterapia se deu em 2003, ainda perdura, mas não dediquei muita atenção nas sessões para elaborar essa complicada relação que me foi imposta e os marcantes motivos e consequências da falta ao reencontro de março de 1983. Entretanto, quis o mesmo destino — esse ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia de nossas vontades — que em abril de 2018, aos 47 anos, e como aluno de Psicologia, eu fizesse uma visita técnica ao 'Servidores do Estado', como usávamos chamar esse hospital.

Nos dias anteriores, fiz o que aprendi com a vida nos demais encontros, reencontros e desencontros marcados que o ilustre senhor me presenteou: entendi que o (re)encontro era necessário, passei a desejá-lo; tentei controlar a ansiedade e não criar expectativas, não fiz planos. Preparei-me, claro: mantive-me austero e não dediquei às magoas uma posição preponderante. Sem sinais de contrariedade me dispus a entregar no reencontro o que de melhor haveria em mim após tanto tempo. Para segurar a pressão da ansiedade, durante a viagem começada em Seropédica, fiz alguns áudios sobre esse dia.

Embora me sobrasse tempo, notei que fiquei parado no restaurante Cantinho dos Servidores por muito tempo, que me segurava por ali, retardando o (re)encontro. Decidi sair e testar o que aconteceria conforme entrasse em contato com o gigante de concreto. O granito marrom e as grades mostravam que sua frente continuava a mesma. Não entrei, apenas observei a silhueta. Lembrei-me da entrada da rua Venezuela, dos ambulatórios e decidi pelo primeiro reencontro.
A entrada continuava a mesma: as fontes d'água à direita, o guichê lotado, muita gente entrando e saindo, as primeiras escadas rolantes que vi em minha vida e onde, depois de perder o medo, adorava ficar subindo e descendo. Emocionei-me. Em busca de banheiro, entrei num corredor que me levou direto ao ano de 1983. Mais emoções. Estava tudo praticamente igual àquela época — a mesma disposição das salas, consultórios e cadeiras, as cores em tom de creme e ocre e o perfil das pessoas: gente simples, envelhecidas, trazendo nas faces à agonia de quem mais uma vez acordou muito cedo e saiu atrás de uma boa notícia. 

Peguei água num bebedouro perto do banheiro e me sentei, deixando as lembranças conduzirem o momento. As lágrimas desceram rápida e fortemente, não conseguia segurar. Como previ nos áudios que fiz na viagem para cá, aquele garoto de 12 anos tinha ficado naquele corredor à espera da psicoterapia que tanto lhe fazia bem e o ajudava a elaborar toda transformação que sua vida sofreu em praticamente três anos. Ao Marco de 47 anos caberia retirá-lo de lá e levá-lo de volta para casa. 

Imagens da época vinham com rapidez no angustiante trabalho de reconstruir aquelas memórias, de dar uma lógica ou sequência a coisas que aconteceram há mais de trinta anos e chegar aos porquês do rumo que a história tomou. Uma dessas imagens reclamou atenção naquele momento: o dia em que ficou decidido que meu pai não me levaria ao encontro de 24 de março de 1983. A lembrança me dizia que foi por algo que era importante para ele, uma pescaria, apesar dele próprio saber que tudo tinha que ser marcado no Hospital e com antecedência. Essa doída lembrança, que sempre me acompanhara, veio numa intensidade mais forte do que de costume, experimentei raiva bastante desagradável e que trouxe à tona os questionamentos que, embora fossem óbvios, nunca entraram na pauta de uma conversa séria entre nós: “Por que, àquela época, eles não se mobilizaram para me levar à terapia? O que aconteceu para que todo processo fosse esquecido, pois o cartão marca que não houve mais retorno meu ao hospital?”. 

Chorei muito, mas recobrei a consciência de que minha missão ali não era destilar ódio ou raiva, de que à frente eu certamente viveria mais momentos fortes e precisava estar preparado. Prontamente, desculpei meu pai e minha madrasta pelo o que tenha acontecido à época, pois o que importava naquele momento era o que eu iria fazer dessas lembranças e emoções, o que eu iria fazer com o garoto de 12 anos que eu resgatei e que não tinha mais aquela casa de 1983 para nela voltar, lá se recolher e, enfim, ocupar o espaço em branco na história da sua própria vida. Simbolicamente, segurei nas mãos do menino e disse: “Vem comigo, vamos para vida, Marquinho, sai da condição de vítima, perdoe as pessoas”. Abracei e levei-o para me acompanhar durante o resto da visita técnica.

Antes de encontrar meus amigos de turma, fui ao arquivo saber da possibilidade de resgatar os prontuários dos atendimentos dados a mim e minha mãe. Passei em frente ao local onde ficava a cantina que tanto gostava de frequentar quando ia ao HSE, onde normalmente pedia um suco de maracujá e um misto-quente ou coxinha de frango. Ela estava fechada, a fachada era a mesma.

Às 9:45, começamos a visitar a parte do hospital onde as pessoas ficavam internadas, onde eu vi minha mãe pela última vez. Attila, que lá trabalhava, nos conduziu num roteiro que só podia mesmo ter sido preparado por aquele ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia de nossas vontades: começaríamos pelas partes de baixo, depois iríamos ao último andar e desceríamos até o sétimo andar, local onde ele trabalhava como técnico de enfermagem e onde minha mãe ficou, entre 1980 e 1981. Como quem livremente consentia com aquele reencontro, fiquei me controlando o tempo inteiro, conforme Attila ia (re) apresentando àqueles locais algo já conhecido por mim: a recepção, os elevadores, o local de alta, o local de radioterapia etc. Ao chegar ao sétimo andar, ficou decidido que primeiro visitaríamos a Neurocirurgia e Neurologia — onde ele trabalhava e onde faríamos as perguntas-chave do trabalho — para depois visitar a Ginecologia, onde minha mãe ficou. Lá da Neurologia fiquei contemplando o corredor que dava à Ginecologia, ansiando e temendo o reencontro. Tudo foi tão estranhamente preparado que acabamos por visitar todas salas do sétimo andar no intuito de conhecer a realidade operacional do local, as condições de trabalho das equipes médicas e dos pacientes e visualizar onde e como os psicólogos da saúde podem atuar.

Acabei voltando ao quarto onde há quase 37 anos, no dia 15 de setembro de 1981, vir minha mãe pela última vez, recebi seu último abraço e perguntei quando voltaria para casa e mais uma vez estranhei o estado em que a doença a deixou; lugar onde, na verdade, ela só ficava deitada porque já não andava mais, onde eu ficava encantado pelo rádio que tinha na cabeceira e sempre estava sintonizado na rádio-relógio e eu atentamente ouvia os contínuos tique-taque de um relógio, a voz anunciando a hora certa a cada minuto, os locutores dizendo “Você sabia que tal coisa é assim ou assado. Você sabia?” e a anúncios como o de uma determinada empresa que cantava de galo com o preço de milho picado. A cama onde ela ficava era perto da janela e de onde se podia ver o morro em frente ao hospital, uma paisagem que não me pareceu nada familiar. À época eu ficava olhando para baixo, para a entrada, para o movimento na Sacadura Cabral.

Curiosamente, não chorei ao rever tudo aquilo, embora estivesse notoriamente afetado, falando bastante para compensar a emoção vivida. Talvez, pelo fato de estar acompanhado daquele garoto de 12 anos ou pelo fato de meus colegas de turma não terem a menor noção de que o que para eles era uma novidade era para mim uma delicada reprise, um reencontro especial, meus comportamentos e reações tenham passado desapercebidos. De lá fomos ao prédio dos ambulatórios e passamos no setor de psicologia onde tivemos a chance de conversar com a psicóloga Eleonor Elizabeth, que entrou pouco depois de 1983 no setor e onde uma vez mais fui visitado por imagens do passado e por emoções que mexiam profundamente comigo.

Ironicamente, após mais uma ida ao ‘Servidores do Estado’ voltei para Seropédica. Estava de carro e não precisei andar até a Praça Mauá para pegar o Tarifa A da Eval – demorava a passar, mas rápido chegava em Seropédica – nem precisei ir até a Central do Brasil para lá pegar um Tarifa B – passava mais vezes e sempre demorava a chegar ao seu destino final. Acompanhado dos meus amigos e daquele menino de 12 anos, fomos à UFRRJ para tentar assistir uma aula de Ética na Psicologia e onde horas depois estarei dando aula até as 22:00 horas. Outros reencontros nos aguardam, pois pretendo resgatar os prontuários dos atendimentos que eu e Dona Tininha tivemos e espero que essa relação finalmente acabe. 

Às 22 e 30, cheguei à casa onde atualmente moro e que será a nova casa e lar do Marquinho que resgatei no ‘Servidores do Estado’. Ironicamente, parei o carro justamente em frente à velha casa onde ele morou e de onde, simbolicamente falando, ele saiu há trinta e cinco anos para uma sessão de terapia e por lá ficou. Outro reencontro marcado acontecia.