quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Uma Rural todinha em mim

A UFRRJ faz 111 anos. Recebo algumas perguntas para expressar minha relação com ela. Vejo-me diante do desafio de, em poucas palavras e à queima-roupa, falar dos sentimentos e do que me marca na experiência de ruralino, do que a Rural representa para mim e da percepção que hoje tenho dela.

Aceito o desafio. Falo e, ao mesmo tempo, ouço imaginariamente “Um girassol da cor do seu cabelo”, de Lo Borges. A sensação é a mesma de quando ouvi essa música pela primeira vez, lá na Casa Rosada, graças ao amigo Fernando Duque: o corpo ficou todo arrepiado no encontro entre mim, a música e o vento que só venta na Rural.

Falar do que a Rural representa para mim não é fácil — dá choro e dá risadas em proporções absurdas. São 50 anos de idade e 50 anos de Rural. Tirando pouquíssimos anos em que estive distante, todos os outros anos são Rural, são ruralinos. A Rural é definitiva em tudo o que me constitui: afetos, memórias, encontros, valores e sonhos.

O que dizer dos sentimentos? Lembro-me de que sou filho de funcionário e residi aqui dentro, de que estudei na escolinha do IZ quando ela era de fato no IZ, de que fui aluno do CTUR, duas vezes aluno de graduação e uma de doutorado, de que fui técnico-administrativo e estou docente. São muitas as emoções e os sentimentos envolvidos na minha relação com a Rural.

A Rural atravessa e marca definitivamente a minha história.
As ligações são muitas, e descrever meus sentimentos de ruralino não é tarefa fácil.

É tudo muito denso e tenso nessa relação — são muitas memórias, desde o momento de criança em que comi, ao lado do meu pai, no Bandejão, onde ele um dia foi garçom; até o momento em que, já docente, assisto lá de cima do palco do Gustavão à alegria dos formandos e das famílias na formatura; passando por uma cirurgia no antigo hospital do IF, por andar num ônibus dirigido pelo senhor Modesto, por estar conversando com o João, porteiro do Clube Social, por estagiar no plantio do arroz e na ranicultura, por ter sido do CPD e participar da informatização e da implantação da internet na Rural, por plantar árvores ou hortaliças no CTUR, por ter vivido amores aqui, por ter conhecido pessoas sensacionais… a lista é grande. Ah — sem falar no sentimento de ciúme do meu pai, que amava e vivia a Rural numa proporção assustadora.

É tanta coisa que me marca; minha memória ilustra as diferentes posições ou lugares em que estive por aqui. Mas há algo que deixou marcas profundas. Meu pai, o saudoso Antônio Goulart (ou “Mineiro”), trabalhou nos alojamentos e, nas datas de Natal e Ano-Novo, eu fazia-lhe companhia para levar alimentos e cumprimentos aos alunos que não tinham recursos. Ele fazia pequenas ceias, distribuía abraços e palavras de apoio, convidava as pessoas para virem à nossa casa.

Minha casa sempre foi cheia de pessoas da Rural — elas passavam Natal, Ano-Novo, aniversários e outras datas conosco.

Vi meu pai chorar abraçado a muitos, nos seus piores ou melhores momentos; como no dia, em plena ditadura, em que ele chegou em casa após ser testemunha de defesa de um aluno preso por supostos atos terroristas; ele chegou e começou a chorar: chorou pela injustiça, pelo mal que faziam ao aluno — que estava em péssimo estado — e chorou porque achava que o aluno morreria e não podia fazer nada.

Meu pai também tinha uma memória impressionante: conhecia todos pelo nome, sabia os cursos que faziam, os alojamentos em que viviam e as cidades de onde vinham. Muitas foram as vezes em que visitávamos as famílias de alunos e ex-alunos nas férias em suas cidades de origem. Meu pai acolhia, ajudava e orientava como podia as pessoas, e exigia que eu respeitasse alunos, professores e técnicos; sempre ilustrava as qualidades e esforços que faziam para levar suas vidas.

Passados os anos, que percepções tenho da Rural? Sem exagero, não tenho apenas percepções da Rural, como se estas fossem impressões que ficam após um encontro involuntário ou passageiro. Tenho vivência dela — nela, com ela e por ela. Minha experiência com a Rural é involuntária, dado que sou filho de funcionário, mas é principalmente voluntária, pois nela fiquei, nela estou, ainda que tenha me afastado em alguns momentos.

A influência da Rural na minha estrutura identitária e na produção da minha subjetividade é da ordem do inexorável e do indelével; é punk, submete-se apenas às artimanhas da demência. Conheço o que alunos de todos os níveis experimentam. Conheço o que o morador experimenta, o técnico-administrativo, o docente (dei aula em todos os campi) e o que aquele que tem cargo ou função de coordenação ou executiva experimenta.

Sim — hoje tenho uma visão diferenciada da Rural, pois preciso transcender os afetos mais ingênuos e ter em mente que ela é um organismo complexo: é uma universidade, uma cidade e uma organização ao mesmo tempo. E isso exige modelo de gestão ou de lida e esquemas de observação e interpretação diferenciados.

Se chama UFRRJ, mas ela é universidade nos institutos, campi e na biblioteca, onde se produzem produtos e serviços de alto valor agregado, como ensino, pesquisa e extensão; ela é inteirinha uma cidade, com todos os desafios de se produzir uma vida coletiva; e ela é uma organização — um nexo de funções e recursos que existe para abastecer a si própria e à universidade e à cidade com o que é fundamental à existência. É todinha Rural.

A Rural é única, imensa em todos os sentidos e desafiadora. E ela, de uma maneira bem peculiar e figurada, está toda em mim. Lamento, mas essa história não cabe aqui.

domingo, 23 de maio de 2021

Chão manchado de cabelo e pelo de barba

Saía de casa quando minha vizinha parou, reclamou da minha barba a fazer e ainda disse “Está deprimido, meu filho?”. Curiosamente, vieram à mente imagens da última vez em que deixei o chão de uma barbearia manchado de cabelos e me deu imensa vontade de falar sobre o tema.

De volta ao momento, contive o impulso de falar sobre o tema e de dar uma resposta moleca, deixei um sorriso de boa vizinhança e saí educadamente. Ainda que mais velha e bem-intencionada e mesmo sendo eu careca, ela não entenderia o significado que um chão manchado de cabelo tem para mim, não acessaria as delicadas senhas aí inscritas e pedindo decifração.

A última vez foi na barbearia do Zé João, em 1988. Ele ainda avisou: “Ratinho, seu cabelo é fraco, nunca mais vai ficar do jeito que está. Passa a zero mesmo?" Como eu tinha 17 anos, ele ainda falou: “Seu pai sabe que você vai fazer isso?”. Em seguida, lembrou-se de que cortava o meu cabelo desde a infância, de que meu pai sempre me levava lá, de que aquela era a última vez em que ele efetivamente teria cabelo em minha cabeça para cortar com tesoura e que dali para frente seria só máquina. Acertou.

À época, muita coisa se alinhou: algumas pessoas de referência para mim tinham passado a zero no cabelo e eu queria aquela onda; era uma fase rebelde, de confronto com meu pai, de complexa reafirmação do édipo mal finalizado, éramos puro conflito. Conflito e ondas me embalavam sim. Ondas como aquela de usar bonés de roupas de marca. Para além das ondas e do édipo, o que queria mesmo era me ver diferente: não me contentava em me ver o mesmo a cada dia, sempre queria me ver diferente, um outro eu ou eu num outro lugar. Creio que nem tinha cabelo quando essa inquietude fez morada especial em mim. Sintoma do édipo e de algo que ainda preciso elaborar quando o espelho responde ao meu olhar.

Quando Zé João falou “Pronto, Ratinho, veja se tá do jeito que você quer”, me virei lentamente para o espelho e ele, com aquele sorriso lindo que sempre teve, falou: “Seu futuro vai ser assim. Vai ser engraçado ver você assim depois de tanto tempo cortando o seu cabelo”.

Quando me vi careca fiquei meio assustado, mas não tive arrependimento; tive a breve alegria de alguém que fazia algo que tinha um grande significado, pelo resultado e pelo ato em si. Olhei para o chão e o vi todo manchado do meu cabelo. Foi a última vez. Lembro-me de que não tive coragem de olhar o processo de corte, fiquei de costas para o espelho e o Zé João, rindo de minha covardia, brincava: “Ué, Ratinho, você é homem ou um rato?”. Porque sou filho do Ratão - o carismático Antônio Mineiro, o Antônio Goulart - ele só me chamava de Ratinho, dificilmente de Marquinho.

Quando cheguei em casa e tirei o boné, meu pai disse: “Porra, você é demente, gosta de me provocar mesmo”. Tremi feito vara verde. Não falou mais nada, sequer teve a típica reação de quando via que entre nós as coisas não fluíam bem. Também pudera: o tão esperado filho homem vivia em conflitos com ele, não convergia a ponto dele orgulhosamente dizer “esse é meu sucessor”. Eu não vivia o futebol na intensidade que ele queria, troquei o Botafogo pelo Vasco, a música caipira pelos Beatles e a MPB; não jogava cartas, não pensava a política como ele e, principalmente, não tive a humildade de captar como ele pensava a vida e suas surpresas. Em vida, passados alguns bons momentos da infância, fomos só amor e conflito. Hoje, evidentemente, é fácil perceber que os conflitos foram uma das maiores burrices que juntos cometemos e, mesmo inteligentes, sensíveis e criativos, nos amamos muito pouco.

Horas antes da última vez que manchei o chão com cabelo, Roninho, meu amado primo e com quem eu vivia a onda do cabelo enrolado e do uso do neutrox, disse para eu não cortar com máquina; disse que jamais faria no dele, poupando-me de ouvir que meu cabelo era ruim. Antes dele, quando estive em suas barbearias, Mamede avisou sobre meu uso de bonés, que eles enfraqueciam os fios e tal, e Jairo, que via a situação que se desenhava, nada falou. Sempre fui impaciente, se não tinha vaga no Zé João, ia nos outros dois e assim puderam eles fazer ou não o vaticínio: meu futuro sem a chance de manchar o chão com cabelos.

Passados 33 anos, não tive paciência para explicar à minha preocupada vizinha que não estava deprimido, que deixar o cabelo e a barba crescerem tem muito significado para mim, que toda vez que o faço e desfaço estou reelaborando e ressignificando muitas coisas na minha história.

Ela não teve a sensibilidade de perceber que, ao assim fazê-lo, busco certa proximidade com meu amado pai, que cultivava uma bela barba e tinha forte e invejáveis fios de cabelo. Toda vez que estou barbudo, recebo alguns adoráveis comentários de que estou a cara dele. Entenderia ela que barbudo o Ratinho vira, ainda que por poucos dias ou semanas ou meses, o Ratão? Não, ela não entenderia que nesses desencontrados momentos, já que ele faleceu em 2005, todo conflito entre nós acaba: já não se faz mais necessário ao Ratinho afirmar que ele não é o Ratão, que quando ouço esses comentários é como se ele estivesse me abraçando e dizendo que me ama.

Ela não acessaria que deixar barba e cabelos crescerem, de me esvaziar das demandas narcísicas, é uma das maneiras que uso para visitar o vale das minhas sombras, das mazelas de minha alma. É lá que me sento sob árvores pouco folhosas e contemplo os momentos em que estou ou fui ruim, em que não estou ou não fui tão bom quanto penso e desejo; é lá que choro com mais liberdade as dores de ser alguém que ainda não aprendeu a lidar direito com as perdas e os laços afetivos mal resolvidos. Ela não acessaria que sigo pela vida tentando entender o que Milton Nascimento canta em Travessia e Caçador de Mim, pois ainda vivo a me procurar e do nada a me caçar, me abater e que também do nada uso me cassar dos lugares em que mais bem estou e em seguida saio soltando a voz nas estradas. Cada vez mais cansado disso, já que no espelho vejo e começo a aceitar o homem de 50.

Ela não entenderia se dissesse sorrindo e otimista que deixar barba e cabelo crescer para ver o chão manchado de cabelo e pelo de barba é uma maneira simbólica de lidar com a terrível dor da alma do dia em que cortei meu rosto tentando ser igual ao pai que contestei édipo afora. Ah, embora tenha doído apenas na alma, que agonia foi aquele dia: aos 12 anos, escondido no banheiro, fiz todo ritual que ele fazia: primeiro, pus um pouco de Bozanno no pincel e enchi de espuma a cara que só tinha poucos pelos; depois, peguei o aparelho de barbear de metal, pus cuidadosamente a gilete na parte de cima, enrosquei bem a parte debaixo do barbeador e fechei a parte superior; então, olhei-me no espelho e tentei fazer como há anos o via fazer; fiz a primeira passada e logo veio o corte e o sangue a escorrer pelo canto da boca e a manchar a pia bege escuro.

Sangrando, assustei-me, chorei, sujei muitos pedaços de papel higiênico para não deixar rastros na toalha de rosto e tomei a infeliz decisão de, como fazia meu pai, por álcool no rosto. Ao meu jeito fui às alturas com a ardência e ao chão com a bronca que me deu quando viu o corte no meu rosto. Minha vizinha não entenderia que ao me ver homem no espelho, barbudo e com um pouco de cabelo para cortar, eu olho para aquele menino de 12 anos a chorar, o abraço e o acolho, já que o pai dele não o fez, apenas falou duro e o criticou.

Por fim, ela não entenderia que deixar barba e cabelo crescer para depois ver o chão manchado de cabelo e pelo, ainda que jamais como da última vez, é um ato de resistência contra o passar do tempo: tenho 50, mas ainda resisto à presença dos rostos dos meninos de 12 e de 17, do meu pai, do Zé João e do Mamede apenas no espelho da lembrança (não sei do Jairo). Também é uma insistência para resolver o terrível dilema de que vira e mexe me inquieto, creio que preciso mudar e então movo o mundo que me cerca e por vezes me assusto com o resultado, como aos 12 anos. Talvez seja o dilema de que ainda não fiz meu os lugares em que estou e que, mesmo me sabendo forte, contabilizo apenas o muito que ainda tenho para falar.

Dilemas de ainda percorrer solitária e desajeitadamente os desertos do édipo. Ela não entenderia isso, não acessaria as senhas desse código do viver.

23-5-2021

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Foi um Martin Freire que passou em minha vida

 


Em Setembro de 1990, apaixonado por uma menina, fui à casa da sua avó, lugar onde costumava ficar em alguns finais de semana. Era semana do aniversário dela. Para declarar minha paixão, preparei todos argumentos possíveis, pus a melhor roupa que tinha. Ao chegar, sou informado de que ela estava na casa do Martin Freire: “Ah, ela vai demorar por lá. Ela adora ele, são grandes amigos”. “Esse Martin está indo longe demais”, pensei à época.

Martin Freire marcou definitivamente a minha vida e, mesmo tendo sido informado disso, não se permitiu saber quando, como e quanto. Curiosamente, o não-dito ficará como a marca do nosso encontro nessa vida. Para mim, o pouco dito foi surpreendente, restaurador, reparentalizador, apaziguador. Martin chegou onde só os que têm muitos dons chegam, e, por mais que não cresse nisso, foi um homem de realizações.

O final dos anos 80 e início dos 90 foram definitivos para minha história e Martin Freire é uma importante personagem dela. Não mais que de repente ele emerge nas crônicas diárias da vida que eu levava entre o km 49, o Ecologia e a UFRRJ. Emerge e assume uma centralidade que, somada a outros fatores, provocará uma das maiores inflexões em minha história. Não foi coisa qualquer: foi coisa grande, imensa e intensa, como ele era. Foi da ordem do como eu mudo a maneiro como me compreendo, me defino e me enuncio ao mundo. Foi da ordem do identitário, do desenvolvimento, realização e consolidação da minha identidade pessoal e social, do autoconceito pessoal. Foi o processo de saber quais eram os meus dons e como eles deveriam informar o meu viver. Processo que passa pela emergência do Marco Bauhaus, da minha conexão com o ideário urbano e cosmopolita, ao marketing e à propaganda, em contraposição à escolha de ser da área de agropecuária e que me conectava ao CTUR, e que culmina no Marco Souza que estou e ainda reinvento. Processo que passa pela minha identificação com a criatividade, a literatura, a escrita, o jazz, o chorinho, arte... cultura, e que me fez dizer: é isso o que eu quero para mim.
A passagem do início do texto é uma inúmeras aparições dele na crônica da minha vida. Ele já pairava e muito nas falas de amigos do CTUR (1988-90) e de amigos do km 49: era Martin Freire aqui, ali, lá e acolá, figura fácil e destacada em todas as narrativas sobre o que era feito e podia ser feito naquela época: “Fomos à casa do Martin”; “Estivemos com o Martin”; “Fizemos um churrasco, aí o Martin chegou”; etc. Só dava Martin Freire e aquilo me incomodava: o cara era insaciável, articulado, polivalente, brilhante, quase imanente, um furacão que passava em paralelo a minha vida. As narrativas sobre aquela figura eram as mais ricas e interessantes possíveis e eu vivia, à distância, a mapear seus dons. A dinâmica da aparição dessa personagem ganha em volume com o passar do tempo: presença no teatro, na política, nos grupos da UFRRJ, nas noites em Seropédica. Marcas da avassaladora vida de Martin Freire.
Quem era afinal a figura cuja presumida onipresença e onipotência me incomodava tanto? Por que me incomodava tanto? Onde ficava a mágica casa que todos amavam estar nela? Que jogos eram aqueles que envolvia a todos? O que fazia ele para ter desempenho social tão marcante? Por que tantos e fantásticos dons?
Eu não assumia os sentimentos que emergiam em mim até o dia em que finalmente eu vi quem era Martin Freire, numa peça de teatro, no Gustavão. Quando o vi antes da peça, pensei assim: “É esse aí o encantador das multidões de jovens, que rouba a atenção e o coração dos meus amigos e colegas? Essa figura extravagante e ruidosa que tem passe livre para incidir sobre os grupos e rodas, para do nada se jogar nos colos, dar gritos etc.?”. Começa a peça, ele dá um show, cresce ainda mais. Adorei a peça e a personagem dele. A senha do viver estava clara: “Assume que você tem inveja. Você inveja Martin Freire, Marco”.
Foi chocante o dia do teatro. Fisicamente, ele não tinha nada a ver com a figura que eu imaginava e projetava ser, mas em termos de espírito, aura, energia, ah, estava tudo confirmado. Eu fantasiava ser ele metido, arrogante, soberbo etc. e ele não era nada daquilo. Um pouco mais à frente, vem o período da rendição e a providencial atualização da senha: assumo minha admiração por Martin Freire. Ele continuará a fazer parte da crônica. Estará no histórico dia em que um grupo de amigos pega a caixa de cerveja no alto de um pau de sebo numa festa em frente à sala de estudo (Aliás, este grupo não demorará para apresentar uma das safras mais ricas de profissionais e cidadãos que a UFRRJ já formou. Que grupo!). Depois vem mais teatro, parceria com Nogueira, KIHU pra lá e pra cá, Seropédica e as noites, as conexões políticas, e por aí vai se estendendo a força mobilizadora da presença de Martin Freire.
Por anos nutri gratuita e silenciosamente um ingênuo desafeto pelo Martin, enquanto ele cumpria o importante papel de ser a referência marcante e ruidosa que eu usaria para pautar decisões importantes que tomei sobre o quê e quem eu poderia ser nessa vida. Na maior parte do tempo, isso deu-se de maneira 'inconsciente', pois ele não constava nos meus diários, não foi pauta de resenhas com amigos, nem assunto em setting terapêutico, onde eu poderia lidar com o por que e como seus dons me afetavam. Invejei Martin Freire e o usei como referência para definir o percurso que seguiria para conscientizar-me dos meus dons e estabelecer-me, e o fiz sem saber como ele era, sem jamais ter interagido com ele, baseado apenas nas narrativas, nas reações das pessoas quando falavam dele e de estar com ele. No fundo, eu não queria ser igual a ele, pois meu querer ser alguém passava pelo autentico e o original, mas eu queria ser tão interessante, intenso, arrebatador ou criativo quanto ele.
Eu morria de inveja de uma personagem com quem só tive a primeira conversa pessoal em 2011, no trailer do Marcelo. Estava sentado à espera do Ricardo Oliveira para beber cerveja e falar da nossa candidatura a diretores do ICHS. Martin aparece, vai até minha mesa, me cumprimenta e do nada começa a falar: “Ó, estou apoiando a chapa de vocês, pedindo voto. Vocês vão ganhar. Ricardo é um cara muito bom dessa safra nova do Reuni. E, para mim, Marco Souza, você é uma das pessoas mais inteligentes da Rural. Eu concordo com suas falas nas reuniões e tudo o que você fala nos seus blogues. Se você vier candidato a alguma coisa na Rural, eu voto em você. É sério tá, pois vou começar a beber agora”. Ouvir aquelas palavras direto de Martin Freire foi surpreendente, contagiante. Eu queria dizer que o que ele via em mim também era reflexo do que ele fora para mim, mas ele saiu, foi para o balcão e lá ficou bom tempo conversando com outras pessoas, sempre chamando atenção, sempre marcante. Depois aproximou-se da nossa mesa. Na ocasião, tentando dizer tudo o que ele significava para mim, confessei minha inveja e a importância que ele tinha e sua reação foi: “Ah, para Marco, um professor com inveja de mim? Quem sou eu?”. Tentei explicar que era verdade e ele não deixava eu continuar. Eu dizia que ele estava atualizando a conversa, que a coisa era mais pretérita e longeva, mas ele não deixava: “Outra hora a gente fala disso”. Algo o incomodava e ele não me deixava acessar.
Voltamos a nos encontrar outras vezes e ele passou a me cumprimentar com um abraço gostoso, acolhedor e validador que sempre encantou a todos. Ele sempre me reforçava, elogiava, incentivava. Descobrimos ter a mesma idade. Falávamos de Seropédica, da UFRRJ, da vida, de filhos, de tudo o que acontecia nas rodas em que estávamos, mas quando eu falava sobre ele ter sido importante em minha vida, ele sempre dizia: “Ah, lá vem você com essa história...um professor com inveja de mim...cara, fiz muita loucura nessa vida, algumas coisas podiam ser diferentes...ainda tem a porra da tese...etc. etc.”. Falava como se tivesse que dar para mim explicação sobre como viveu, o que fez ou deixou de fazer, mas não deixava que falássemos do que ele sentia e talvez precisasse por pra fora. Nunca falamos abertamente de que ser alguém mais pleno, original, intenso e denso era mais importante do que ter o título de professor ou coisa parecida. Não consegui realmente conhecer Martin e a mítica casa dele, como meus amigos conseguiram.
Sua passagem deixa escancarada a cratera que jaz sob todo não-dito das relações humanas. Não-dito que em parte agora segue escrito. Obrigado por tudo, Martin Freire. Invejei você e aprendi que mais gratificante e transformador era admirar e ser o máximo possível parecido com você: um viver informado pelos dons, não pelos medos. Você foi rico em dons, pleno, absoluto, intenso, denso, possível e realizador. Seu viver dispensava justificativas, explicações ou esclarecimentos.

domingo, 20 de dezembro de 2020

A poda

Seropédica, km 54, 16 de dezembro de 2020.

Durante dois meses, deixei as ixoras crescerem sem poda. Desde que foram plantadas, foi o maior tempo que assim ficaram. Avolumaram-se, floresceram... ficaram lindas.

É um espetáculo ver flores rosas, vermelhas e amarelas misturadas ao verde forte da folha de ixora. Entretanto, vivenciar tal beleza tem seus preços: aumenta a sujeira, pois as flores desbotam bastante; os galhos avançam sobre a área da varanda, diminuindo nosso espaço para perambular; e sempre aumenta a possibilidade de aparecerem lagartos, aranhas e pequenas cobras.

Fiz a concessão de não podar devido ao ninho que um casal de biquinho de laca começou a construir entre as folhas. Convivem por aqui sabiás, rolinhas, beija-flores, mas há muito não apareciam biquinhos de laca e canarinhos. Antes da decisão, porém, passei por uma pequena indefinição: o ninho estava bem exposto, uma ótima oportunidade para pequenos répteis se alimentarem. Pensei na alegria que é ter tantos cantos de pássaros durante o dia e decidi correr os riscos, permitindo que as plantas crescessem e encobrissem o ninho. Nesta semana, comecei a ver pequenos biquinhos de laca voando por aqui, sinal de que já haviam deixado a morada. Havia chegado a hora da poda.

Decidi que mexeria nas ixoras hoje e que tiraria fotos do antes e do depois. Ao contemplar o espetáculo de cores pela tela do celular, confesso que bateu um sentimento de pena. Peguei a tesoura e, antes de fazer a primeira intervenção, ouço a voz da Malu:

— Caramba, você vai acabar com toda essa beleza?

— Malu, estamos diante da beleza de plantas robustas, saudáveis e cheias de flores, mas temos um problema prático: elas cresceram demais e estão atrapalhando a passagem [Apontei para ela o caminho bloqueado]. Sem falar na ameaça dos bichos.

— Você vai realmente trocar beleza por isso aí?

O dilema estava posto: podar as ixoras sem sentir dó, sem me sentir mal por acabar com um espetáculo tão lindo. Em outras palavras: atender a demandas de funcionalidade e fluidez da vida cotidiana ou atender a demandas estéticas, também muito caras para nós? Eu estava dividido, mas tentava não transparecer. Fui tomado pelo pragmatismo e não dei muita atenção a outra resolução que não fosse a poda. Cheguei a pensar: "Resolva isso logo, sua vida é cheia de dilemas precisando de soluções."

Comecei a poda e Malu apontava as flores lindas caídas no chão, misturadas aos galhos, pontuando o "absurdo" que eu estava fazendo. Afastei-me para contemplar por outro ângulo: o visual havia se transformado. Deu dó ver que "matei tantas flores, que acabei com o espetáculo". Falei para Malu que o que eu fazia era uma poda, e que esta tinha uma função vital na história da planta, pois elas voltariam a se desenvolver, com mais força até, e continuariam a cumprir seu papel em nossas vidas. Ela se calou, e eu continuei a poda, torcendo para que não me questionasse se a mesma não exigia conhecimento e destreza para obter o seu máximo efeito. Além de a poda ser literalmente desorganizada, comecei a questionar: "O que você entende de poda, Marco? Chame alguém que realmente saiba para dar um resultado melhor." Não voltei atrás. "Tenho que passar por isso", pensei.

Concentrei-me no corte dos galhos, mas imediatamente me dei conta da sutileza de um conteúdo implícito e inerente àquela interação com Malu: eu falava de poda de flor, mas, figuradamente, nós, humanos, também sofremos podas. Baseado no que falei para ela, comecei a me questionar sobre o que, de fato, eu entendia sobre podar e ser podado e como me saí em ambas situações. Podar alguém soa meio autoritário ou violento, mas em nosso processo de desenvolvimento passamos por muitas podas. Lembrei de Freud e da castração, uma interdição que é quase um podar ou corte drástico no prazeroso fluxo relacional da criança com o seu primeiro e caro objeto: a mãe. Insistindo na metáfora da poda em nós, percebi que ela ocorre em diversas fases do nosso desenvolvimento, neste processo de, via renúncias e cortes, chegarmos ao nosso melhor jeito de estar no mundo.

Parei, sentei em frente às ixoras e fiquei pensando: "O que meu jeito de estar no mundo indica sobre como sou ou fui ixora nesta vida?" Lidar com podas ou limites, perdas e cortes, não foi nada fácil para mim. Veio à mente uma verdade inconveniente: sempre fui muito sensível e reagi mal às limitações e impossibilidades que tive e estive continuamente voltado às satisfações das minhas demandas, sem me permitir viver, resignada e amadurecidamente, as podas; isto é, sem ter aprendido a conviver com as renúncias e os vazios e dissabores inerentes que elas geram.

Aprofundei-me nos pensamentos e captei a irônica situação em que se via o homem da poda: ainda não aprendi a fazer devidamente a escolha imposta pela vida entre privilegiar demandas funcionais (que atenderão ao coletivo) ou estéticas (que atenderão às minhas satisfações). O sentimento de dó que experimentei por cortar as belas flores das ixoras era uma senha clara: o podador não amadureceu o suficiente para compreender que ao sorriso de ver uma nova flor brotar sempre precederá um choro com a flor que cairá (e este choro, confesso, sempre me foi mais caro).

Sentado em meio a flores e galhos caídos, os pensamentos escancaravam a ironia da minha vida: ela se encontra totalmente transformada por mudanças que quis empreender e que acabei por não negociar devidamente com as pessoas que seriam afetadas. Mudanças que geraram transformações na rotina dessas pessoas e em conflitos de interesses que demandavam minha liderança para o manejo. Acabei por não me sair muito bem no manejo do processo que começou quando decidi por coisas como morar no Rio de Janeiro, me reaproximar do meu filho e sair da área de marketing e gestão para fazer psicologia. Passados sete anos do início do processo de alcançar meus objetivos, tudo mudou em minha vida: moro em outro lugar, dou aula em uma área nova, estou longe de pessoas que realmente amo, enfim, diariamente lido com o enorme furo, vazio ou dissabor que se estabeleceu ou se acentuou devido a tantas transformações e às consequências psíquicas, afetivas e econômicas das mudanças. Por vezes, me pego "olhando para trás" e assustado com tantas flores que caíram.

Fazendo a poda das ixoras e dialogando com Malu, aumentei a consciência de que há tempo para chorar a flor que cai e também para notar e acompanhar a flor que brota, apesar de tudo parecer tão corrido atualmente. Preciso aumentar a consciência dessa transição e vivê-la adequadamente: prestando atenção ao jardim e à varanda e com eles me envolver, deles cuidar e, junto a eles, encarar os ciclos da vida e o inerente perde e ganha.

Terminei a poda no mesmo dia e, apesar de ainda engatinhar no aprendizado sobre podas, me contentei por ter sido "suficientemente bom" no que fiz. Sobre as flores que brotam após cortes, sei que logo, logo as ixoras se avolumarão e belas flores aparecerão, gerando novamente o dilema entre viabilizar o fluxo pela varanda ou ficar mais tempo contemplando o ganho estético de ter belas flores. Da mesma maneira, sei que as mudanças que empreendi já começaram a surtir efeitos positivos, que novas e belas flores brotaram em minha vida, mas ainda preciso prestar a devida atenção a elas. Fundamentalmente, captei a sutil mensagem do viver entremeada numa simples interação entre mim e Malu: elaborar adequadamente o dilema entre viabilizar o fluxo pela varanda (o viver saudável de um coletivo) ou desfrutar da beleza de tantas flores (continuar sendo tão sensível e orientado às satisfações das minhas demandas individuais). Quanto a ser podado, perto dos 50 anos e mesmo não querendo sofrer podas, sei que a cada dia a vida está fazendo muitas em mim. Envelheço. Além disso, estou realmente aprendendo a renunciar satisfações e a negociar mudanças.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Apaixonado sublimando

 Malu e Leo,

Novamente desabafo com vocês. Afinal, vocês têm a sensibilidade e inequívoca relação com a arte e a escrita; algo que pensei ter, mas que pelo entendi de um evento recente, não é bem assim: foi um engano.

Na sexta, primeiro de abril, tive mais um daqueles momentos que classifico como fundamentais para a análise e entendimento da minha vida e do meu viver. Outra vez ocorre num momento tão despretensioso, comezinho, quando não estou com a disposição nem com a mente orientada para temas existenciais. Outra vez acontece algo a emergir do nada e a atingir diretamente uma questão central da minha vida, esta que é cheia delas.

Assim que entrei na sala de aula, o professor perguntava à turma: vocês sabem o que difere um poeta genuíno, um escritor de fato, de um apaixonado sublimando? A turma tentou algumas respostas, mas o professor sentenciou: o primeiro não para de escrever quando suas dores passam; e continuou explicando que o apaixonado direciona sua energia ou impulso sexual, a energia da libido, para uma atividade aceitável, com valor social positivo. Toda energia que embala a paixão, toda pulsão, principalmente se há frustração de uma realização, é convertida numa criação que protege o ego do apaixonado. Ele escreve como mecanismo de defesa do ego dele, não como seu ofício, lide, vocação ou prática com a qual se encontrou ou que a ela dedique sua vida. Assim que sai da sua frustração, que sua paixão volte ao rumo sem frustração, o apaixonado para de escrever.

Esclareço a seguir o ponto em que esta pergunta do professor alcança minha vida. Desde muito cedo pergunto-me sobre minhas vocações, para o que eu serviria nessa vida, para o que eu haveria nascido. Fui à vida tentando encontrar respostas. Nunca me identifiquei com as atividades da roça ou de ficar dentro de supermercados, estas que minhas duas famílias tão bem executaram. Eu logo vi que elas não eram a “minha praia”, mas me envolvi para ver o que aconteceria. Tenho muitas coisas a lhes falar sobre meu envolvimento com elas. Identifiquei-me com a atividade empreendedora – tive meu pequeno negócio de venda de peixes –, com marketing – cheguei a estudar na ESPM e tentar carreira no mercado. Cheguei de pára-quedas à carreira de docente e pesquisador, identificando-me mais com a primeira do que com a segunda. Tornei-me professor universitário, tentei fazer atividades de consultoria em marketing, mas sempre dei pouca atenção à atividade de escrever, que um dia emergiu para mim e com a qual, de fato, mais me identifiquei.

Em busca do que me fazia bem, de uma prática com a qual me identificasse, descobri-me um dia escrevendo num bloco que há muito jazia pela casa. Não mais que de repente, comecei a escrever, fazer registros, ter diários e por para fora minhas apreensões. Quando em contato com elas, eu naturalmente corria aos lápis ou canetas e às folhas para por pra fora o que sentia, pois infelizmente nem sempre tive ouvintes para elaborá-las comigo. Também sempre quis registrar temendo não estar aqui para contar a vocês e aos netos o que vi da vida. Comecei a escrever.

Escrevi e pus muitas coisas nos cadernos, diários. De ideias quaisquer às minhas alegrias e dores com o amor, registrei boa parte do que me aconteceu dos 18 anos até aqui, 45 anos. Digo boa parte porque tem coisas que não escrevi, houve época em que não recorri aos cadernos para desabafar ou para soltar o que me vinha à mente. A rotina estava pesada, as lutas da alma acontecendo e eu deixando de ir às páginas. Eu sempre leio estas épocas de apagão como ‘vacilos que dei na lide de escrever’.

Fui para vida carregando comigo a sensação de que deveria dar mais atenção à escrita, que deveria dar mais atenção à minha fantasia de ser escritor. Confesso-lhes que nada do que fiz em termos de ocupação, ainda que a maioria tenha me dado alegria, proporcionou-me alegria semelhante a da criação e conclusão de um texto. Que prazer me dão os textos! Mas eu sempre acreditei que não dei a eles a atenção que deveria. Como resultado, chego aos 45 anos tendo escrito livros técnicos de marketing e gestão e ainda doido para ir às páginas ou tela de computador e escrever.

Quanto me vi na vida gastando energia na indefinição sobre o quê e quando eu iria concentrar meus esforços vitais. Passei os últimos 10 anos experimentando momentos muito desagradáveis questionando-me sobre qual atividade eu deveria focar na minha vida, dado o descontentamento e cansaço relacionados a esta rotina que levo como professor e pesquisador. Ainda desenvolvo muitas atividades que consomem muitas energias e sem que elas me gerem um contentamento de alma realizada, sempre levo comigo a sensação de que me falta algo e que este estaria relacionado à lide de escrever.

Mas no dia primeiro, ao ouvir o professor, saí com a sensação de que uma vez mais não fui sensível ao identificar o ofício, lide, vocação ou prática com a qual me encontrarei e à qual deveria ter dedicado a minha vida; a que enfim explicaria para o que eu sirvo nessa vida, para o quê eu nasci. Doeu-me pensar que minha recorrida aos diários, às folhas e lápis ou canetas, nada mais era do que um mecanismo de defesa do meu ego, de que não passo de um desorientado apaixonado a sublimar.

13-04-16

domingo, 1 de novembro de 2020

Da riqueza em que não se toca e que nos trouxe até aqui

Seropédica, 22 de agosto de 2006. Experimentei hoje um dos momentos mais bonitos e felizes da minha vida. Meu objetivo era visitar tia Conceição e saber da sua saúde, assolada por forte depressão, mas o que lá ocorreu superou minhas expectativas, ensinando-me algo mais sobre o que significa riqueza.

Quando cheguei em sua casa, ela conversava com o tio Antônio na sala, enquanto tia Ana e tia Mariana faziam sala para os dois. Na cozinha tinha mais pessoas, mas resolvi permanecer para depois cumprimentar os outros. Pelas vozes que ouvia, sabia se tratar de outros tios e primos, muitos deles filhos da tia Conceição. Em silêncio observei a conversa dos tios mais velhos da família da minha mãe, ambos com mais de 70 anos. Falavam da infância vivida em Pedro Teixeira, da vida dura que tiveram, das limitações e desafios para sobreviver quando as crianças mais velhas tinham que ajudar os pais na lide diária. Uma vez mais a vida me colocava na posição de observador privilegiado de pessoas cujas narrativas dão conta de toda história que antecede minha vinda ao mundo: suas vidas atravessam a vida da minha mãe, irmã mais nova. Contavam suas vidas e eu no gostoso de exercício de imaginar os momentos narrados, mesmo sabendo que conhecia Pedro Teixeira e Lima Duarte o suficiente para reconhecer os locais descritos.

Um momento de extrema sensibilidade ver meus tios falarem de uma vida da qual estamos bem distantes hoje em dia. Suas falas mostravam a relação mais próxima com a natureza e, consequentemente, com os alimentos que consumiam e com a paisagem da qual faziam parte. Palavras e rostos que comunicavam quanto sofreram e lutaram. Meus tios e tias atravessaram décadas e caminhos acreditando na vida, na família, em Deus, no trabalho e na correção de caráter; passaram por muitas mudanças do mundo sem que tivessem o auxílio de conhecimentos obtidos em escolas e livros; ao seu jeito resistiam e se adaptavam a essa loucura que é a mudança de valores experimentada pela sociedade. Inevitavelmente, lembrei-me da minha mãe e em silencio chorei sua morte, que completará 25 anos no mês seguinte. Ela fez parte dessa jornada de Ferreiras e Oliveiras que começou em Pedro Teixeira e Lima Duarte. Jornadas marcadas por dificuldades, mas também por muitos êxitos. 

Tempo depois chegaram outros primos e também os tios Tiãozinho e Zé Grande e as respectivas esposas. A casa encheu ainda mais. Finalmente, fui para a cozinha, repleta de pessoas que estavam bem, sorriam soltas e aliviadas, faziam barulho comemorando a melhora da tia Conceição e, certamente, a dinâmica daquele encontro marcado pelo destino, por Deus. A impressionante cena da casa cheia me fazia fixar numa imagem que carrego de como deveria ser a minha vida: próxima dos parentes e sempre os encontrando em cozinhas repletas de gente proseando e narrando suas histórias. 

Todos na cozinha proseavam animadamente e, depois de cumprimentá-los, fiquei apenas observando. Dei-me conta de que era 18 horas, horário que automaticamente me leva ao tempo em que meu pai ouvia a ave-Maria pelo rádio, pedia que ficássemos em silêncio e ao final nos dava água benta para beber. Não sou religioso, desenvolvi pouca espiritualidade, mas são sagradas para mim a imagem do copo sobre o rádio e a inconfundível melodia da ave-Maria saindo de uma frequência AM. Nossa casa era iluminada por fortes lâmpadas florescentes, as mesmas que iluminavam a cozinha da tia Conceição e faziam aumentar a intensidade da experiência. Hoje, não tinha rádio ligado, nem a ave-maria sendo declamada, mas tinha um raro encontro de gente de muita fé; encontro que há muito eu não via e que a alegria generalizada tornava o momento ainda mais importante. Lamentavelmente, criamos o mal hábito de só nos encontrarmos para chorar e nos despedirmos dos mortos. 

O cheiro de café passado na hora deixava o ambiente ainda mais gostoso e eu, que a tudo observava, ia súbita e imageticamente sendo abraçado por minha mãe. Estava na privilegiada condição de representante dela naquele momento que tinha a cara dela: se lá estivesse, estaria gargalhando alto na cozinha, como sempre fazia. Como me fez bem o momento em que pude ser o representante de um dos 12 filhos que Marcelino e Júlia tiveram, e que passaram, ainda que por momentos e intensidade diferentes, por tudo o que Tia Conceição e tio Antônio falavam na sala. Pessoas que sobreviveram aos desafios de uma vida estabelecida num lugar pobre e adverso, que venceram picadas de cobras e as desventuras do vovô, que cedo adoeceu e pobre ficou; pessoas que, como puderam, ajudaram-se umas as outras para prosseguir. 

Mesmo estando na condição privilegiada, acabei lamentando a ausência da minha mãe. Lamentei e chorei, ainda que ela me abraçasse naquele instante e que ao meu lado estivesse sentada e olhando feliz tudo o que acontecia. Essa sensação de perda é irreparável e quantos encontros como esses não se perderam nesses quase 25 anos em que se foi. Toquei o território das perdas e logo o traço melancólico que herdo dessa família se fez presente: entre todos que lá estavam, eu era o mais novo; fiquei fitando homens e mulheres com mais de 50 anos e que trazem no rosto a marca do tempo que passou de forma muito especial: nossa família foi marcada por perdas muito prematuras como a da minha mãe, dos tios Jacinto e do tio Fernando, dos primos Vilmar, Pedrinho, Marinho, Rosângela e de outros primos e tios de quem não me lembrava no momento. 

Sob forte emoção, tentei me prender ao que posso viver, esquecendo o que não pode mais ser vivido. Transitava entre a sala e a cozinha ouvindo atentamente às conversas e em silêncio permaneci tentando decifrar a senha do extraordinário momento. Até que veio um estalo: os desafios que nos espreitam hoje são bem diferentes dos que essas mulheres e homens tiveram lá atrás; nós, mais remediados e estudados, precisamos reconhecer que o grande fantasma é a desintegração das relações provocadas por essa vida que nos faz sair para outras cidades e viver outros grupos de pessoas, negligenciando os reencontros com os que proporcionaram oportunidade e aprendizagens fundamentais para que muito bem estejamos.

Sim, ali estava apenas uma parte da família de minha mãe, uma parte de toda riqueza imaterial que nos trouxe até aqui. Sim, foi uma festa rever tio Noquinha, tia Zilda, tia Julinha e muitos outros. Ainda assim, feliz e sensibilizado com a experiência e sabedor da senha desse código do viver, revisitei uma sensação desconfortável: nós, os mais jovens, as segunda e terceira gerações, deveríamos estar mais próximos e unidos para enfrentar os desafios desse tempo, mantendo alguns valores históricos. A riqueza material média que temos, maior que a da geração anterior, passa a falsa sensação de que somos melhores ou mais fortes e não fará brotar nos amigos de ocasião os sentimentos e emoções que ajudam a explicar a trajetória da família até aqui. Não podemos nos esquecer de que sozinhos não vamos longe e que é muito rico, raro e nobre o que move os que realmente escolhem estar ao nosso lado nessa dura caminhada pela vida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O trabalho de aprender

Seropédica, 23 de setembro de 2020. Relembro aqui o momento bem crítico em que, numa festa de criança, conversava com um conhecido sobre a nossa realidade e a mundial. Aconteceu assim que o Temer assumiu, que o golpe parlamentar contra o governo da Dilma procedeu.

Na ocasião, meu interlocutor disse que eu não podia falar ‘mal’ do governo, que não havia nada de golpe, e que, sendo um acadêmico, um intelectual, eu era um ‘teórico’, um ‘eterno estudante’, alguém que vivia fora da realidade ou numa realidade à parte. Infelizmente, no calor da hora, não me ocorreram as palavras que agora me acorrem com facilidade e alegria.

Ele, um ‘empreendedor’ do varejo Seropedicense, continuou falando e não conseguiu explicar-me o que seria tal realidade e como e porquê dela eu distava ou a desconhecia. O impacto daquela atitude tamanha em burrice arrefeceu severamente meu ânimo e ideias, pois só consegui dizer: "Estou curioso para saber qual é o papel que você desempenha na criação e produção da realidade em que vive e que lhe permite o luxo de conversar com um estranho de uma outra realidade". 

Sem responder, a figura – um desses que crê estar ao lado de um banqueiro na produção da realidade brasileira – preferiu partir para as tradicionais frases feitas e derivações delirantes que o afastaram abruptamente do tema. Típico panfletário do “você trabalha ou só dá aula?”, ele conseguiu a façanha de colocar o ‘só dá aula’ numa realidade à parte da que ele cria estar e na qual parecia desfrutar de condição privilegiada, pois sentia-se autorizado não apenas a desconstruir ou desabilitar alguém que com ele não se parecesse, como a também subtraí-lo da realidade.

Esperando a hora de ver aquela interação findada, pensava não apenas na desabilitação do professor que sou, mas principalmente na figura do estudante, no encarceramento dele no não-lugar chamado ‘eterno estudante’; ironicamente, lembrava que não fazia muito tempo que o nobre carcereiro havia se formado num curso superior. Lamentavelmente, como muitos outros, ele realmente não sabia ou esquecera do mundo de competências ou habilidades que um estudante intuitiva e tacitamente aprende e desenvolve em sua viagem rumo à toda aprendizagem formal que lhe proverá outras competências e habilidades (codificadas); que tais qualificações e habilidades prévias somam-se às dos professores na viabilização da aprendizagem por meio do processo ensino-estudo; que todo estudante labora um bocado, pois aprender, por mais lúdico que deva ser, ‘dá trabalho’. 

Abro nesse momento as comportas das lembranças dos 45 anos em que estou fora da realidade, já que desde os quatro, quando comecei, jamais parei de estudar. Diante as imensas dificuldades de compreender de maneira linear e ainda devidamente representar em minha mente os conteúdos de matemática, línguas, ciências etc., lembro que precisei de muitas soluções incomuns e improvisadas para chegar a algum aprendizado. Lembro-me com prazer de quando comecei a usar de metáforas, associações criativas de palavras e símbolos, de exercícios de imaginação e visualização e de construção de esquemas e estruturas para acessar melhor os conteúdos. 

Como foi prazeroso pra mim colocar-me na posição de um montador ou construtor ou design ao combinar elementos para construir textos ou dar conta das desafiadoras análises sintáticas e morfológicas da Dona Inácia e da Maria da Penha. Não menos prazerosa foi a condição de sentir-me um decifrador ou investigador ao deparar-me com a necessidade de solução para problemas matemáticos: “Pistas, precisamos achar as pistas que levam às soluções; não tem só uma”, ensinou-me o primo Fernandinho. Quantas vezes estive na intuitiva e misteriosa condição de alquimista antes de encarar os desafios de física e química: eu tentava visualizar como ocorreria cada interação de elementos antes de enfrentar as transformações químicas e físicas solicitadas no papel à frente. Por fim, que dizer da criteriosa e detalhista condição de cartógrafo e desenhista ao traçar os mapas necessários para lidar com tanto informação espacial e temporal que geografia e história mobilizavam?

Toda essa informação não foi encarada de maneira linear, nem foi lógica e convenientemente acomodada em nebulosos endereços de memória de curto ou longo prazo; fizeram-se necessários mapas, esquemas, estruturas, setas para lá e para cá e pontos-chave depositados em folhas em branco para depois serem devidamente lidos e relidos. Precisei e muito ver-me nessas condições para enriquecer e potencializar as aprendizagens necessárias à minha caminhada à margem da realidade. 

Destaco também o que aconteceu quando comecei a superar os dramas da gagueira, na sexta-série; eu e Márcio Pena costumávamos voltar à pé aos sábados do Colégio Fernando Costa e, numa dessas caminhadas, ele disse que o Beto Guedes era gago e cantava e que eu deveria tentar ‘falar cantando’ ou ‘encarnar uma personagem’ para superar o problema e dar conta das leituras exigidas pelos professores; nos sábados seguintes, ele pedia que durante a caminhada fôssemos interpretando personagens num teatro improvisado. Assim, com a ajuda de um estudante de 14 anos, comecei, aos 15 anos, a vencer a gagueira, a melhorar meu desempenho social e de estudante. 

Ironicamente, lembro-me também de como precisei ser 'empreendedor' e 'inovador' no pensar e agir para lidar com a frustração de não ter conseguido falar corretamente inglês com o presidente de uma empresa em que trabalhei. Nesse mesmo dia, assistia à noite um programa sobre a ida do homem à lua quando pensei: “se o homem foi à lua na década de 60, por que não vou falar inglês em 1997? vou falar!”; disse a mim mesmo: “existe o que eu não conheça – que aliás é muita coisa! –, mas não existe o que eu não possa conhecer”. Desliguei imediatamente a TV, fui a um curso de inglês e me matriculei num intensivo de cinco dias por semana. Terminei esse curso em onze meses, com apenas três faltas e muita aplicação de velhas e novas habilidades e competências intuitiva e tacitamente obtidas. 

Bem, não foi o pensamento utilitário e o incentivo – o respeito dos que me viram falhar ou a redução da vergonha – que explicaram e responderam por isso; foi pensamento substantivo, consciência acurada da realidade, determinação e motivação intrínsecas comuns àqueles que respeitam e admiram o conhecimento, a sua produção e o trabalho que dá aprender, que me levaram ao insight de que não existe o que eu não possa estudar, compreender, aprender, por mais trabalho que isso dê. 

Atualmente, eu e meu carcereiro-empreendedor só nos encontramos pelas redes sociais e não trocamos mais que o indispensável para uma convivência digital vazia e protocolar; todo comedimento faz-se necessário para que não descambe em infrutíferas discussões em uma timeline. Ele se encontra na fase de assumir em suas postagens que o governo atual é um fracasso, embora não assuma que embarcou ingenuamente na grande fantasia de que viraríamos uma nova América. Segundo ele, o país precisa estar na 'ponteira das tecnologias' para ser mais produtivo e eficiente.

Tecnologia, como sabemos, precisa de gente que estuda e ensina com incentivo, motivação, prazer e competência; gente que, segundo ele, geralmente vive à margem da realidade em que ele se encontra. Creio estar chegando o momento em que nos reencontraremos e poderei lhe falar tudo o que só me ocorreu quando não precisava mais dele me defender. Terei a obrigação de reivindicar o reconhecimento dele do devido e imperioso lugar ocupado pelos que ensinam e estudam na produção dessa realidade que a todos desafia.