sábado, 2 de junho de 2018

Reencontros marcados

Rio de Janeiro, 26 de abril de 2018. Cinco horas da manhã. Como de costume, cheguei adiantado a mais um encontro (bem adiantado, por sinal), revelando a ansiedade que jazia nas entrelinhas. A alguns metros de mim, o Hospital Servidores do Estado – HSE, com quem terei o desafio de um reencontro lá pelas 8:00.

Há trinta e cinco anos não nos vemos e o escuro da madrugada me impediu de ver como ele está atualmente. Como só encontrei lugar para estacionar à rua do Livramento, pouco pude notar da silhueta do gigante que marcou minha vida. Inseguro sobre o local onde parei, resolvi ficar por ali até que o dia clareasse e tivesse mais segurança para deixar o carro e ir para o grande momento do dia. Fiquei na companhia do senhor que vende água de coco e faz ponto em frente ao Mercadinho 2001, esquina com a rua do Livramento.

Às 7:00 saí para tomar café no bar e restaurante Cantinho dos Servidores. Durante duas horas fiquei sem nada que, por ventura, trouxesse as lembranças dos muitos e, em sua grande maioria, dolorosos encontros que eu e o ‘Servidores do Estado’ tivemos entre os anos de 1978 e 1983. No restaurante, enquanto saboreava a média e o pão na chapa, pude contemplar detalhes da sua lateral e constatar que muita coisa mudou.

Em verdade, exceto por um breve contato visual com a Rodoviária Novo Rio e pelas dependências do Moinho Fluminense, não houve nada de familiar em mais essa chegada à Sacadura Cabral, 178. Nada de Perimetral, trens de carga, navios, viagem em ônibus da empresa Eval, Praça Mauá, cheiro forte de café, ônibus das empresas Magelle, Evanil, Reginas ou Jurema, nem mesmo tinha o famoso 222 parado ali por perto. Também pudera: nosso último encontro se deu em 21 de fevereiro de 1983, às 9:00, e muita coisa mudou na nem tão maravilhosa cidade que faz o cenário dessa controvertida relação que o destino, esse ilustre senhor, criou a partir do adoecimento e tratamento da minha mãe, a partir de 1980.

Sobre o reencontro, durante anos desejei e agi como se tal relação tivesse acabado, embora soubesse que havia faltado a importantes reencontros previamente marcados para os anos seguintes, em especial ao do dia 24 de março de 1983, conforme marca o velho cartão rosado. Tal ausência implicou em deixar para traz preciosas sessões de psicoterapia, oportunidade ímpar que eu tinha para mudar a dolorosa impressão que fiquei dos encontros que tivemos e sobre a vida que conheci durante o longo período de internação e após o falecimento da minha mãe, em 17 de setembro de 1981. Depois daquele fevereiro de 1983, meu reencontro com a psicoterapia se deu em 2003, ainda perdura, mas não dediquei muita atenção nas sessões para elaborar essa complicada relação que me foi imposta e os marcantes motivos e consequências da falta ao reencontro de março de 1983. Entretanto, quis o mesmo destino — esse ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia de nossas vontades — que em abril de 2018, aos 47 anos, e como aluno de Psicologia, eu fizesse uma visita técnica ao 'Servidores do Estado', como usávamos chamar esse hospital.

Nos dias anteriores, fiz o que aprendi com a vida nos demais encontros, reencontros e desencontros marcados que o ilustre senhor me presenteou: entendi que o (re)encontro era necessário, passei a desejá-lo; tentei controlar a ansiedade e não criar expectativas, não fiz planos. Preparei-me, claro: mantive-me austero e não dediquei às magoas uma posição preponderante. Sem sinais de contrariedade me dispus a entregar no reencontro o que de melhor haveria em mim após tanto tempo. Para segurar a pressão da ansiedade, durante a viagem começada em Seropédica, fiz alguns áudios sobre esse dia.

Embora me sobrasse tempo, notei que fiquei parado no restaurante Cantinho dos Servidores por muito tempo, que me segurava por ali, retardando o (re)encontro. Decidi sair e testar o que aconteceria conforme entrasse em contato com o gigante de concreto. O granito marrom e as grades mostravam que sua frente continuava a mesma. Não entrei, apenas observei a silhueta. Lembrei-me da entrada da rua Venezuela, dos ambulatórios e decidi pelo primeiro reencontro.
A entrada continuava a mesma: as fontes d'água à direita, o guichê lotado, muita gente entrando e saindo, as primeiras escadas rolantes que vi em minha vida e onde, depois de perder o medo, adorava ficar subindo e descendo. Emocionei-me. Em busca de banheiro, entrei num corredor que me levou direto ao ano de 1983. Mais emoções. Estava tudo praticamente igual àquela época — a mesma disposição das salas, consultórios e cadeiras, as cores em tom de creme e ocre e o perfil das pessoas: gente simples, envelhecidas, trazendo nas faces à agonia de quem mais uma vez acordou muito cedo e saiu atrás de uma boa notícia. 

Peguei água num bebedouro perto do banheiro e me sentei, deixando as lembranças conduzirem o momento. As lágrimas desceram rápida e fortemente, não conseguia segurar. Como previ nos áudios que fiz na viagem para cá, aquele garoto de 12 anos tinha ficado naquele corredor à espera da psicoterapia que tanto lhe fazia bem e o ajudava a elaborar toda transformação que sua vida sofreu em praticamente três anos. Ao Marco de 47 anos caberia retirá-lo de lá e levá-lo de volta para casa. 

Imagens da época vinham com rapidez no angustiante trabalho de reconstruir aquelas memórias, de dar uma lógica ou sequência a coisas que aconteceram há mais de trinta anos e chegar aos porquês do rumo que a história tomou. Uma dessas imagens reclamou atenção naquele momento: o dia em que ficou decidido que meu pai não me levaria ao encontro de 24 de março de 1983. A lembrança me dizia que foi por algo que era importante para ele, uma pescaria, apesar dele próprio saber que tudo tinha que ser marcado no Hospital e com antecedência. Essa doída lembrança, que sempre me acompanhara, veio numa intensidade mais forte do que de costume, experimentei raiva bastante desagradável e que trouxe à tona os questionamentos que, embora fossem óbvios, nunca entraram na pauta de uma conversa séria entre nós: “Por que, àquela época, eles não se mobilizaram para me levar à terapia? O que aconteceu para que todo processo fosse esquecido, pois o cartão marca que não houve mais retorno meu ao hospital?”. 

Chorei muito, mas recobrei a consciência de que minha missão ali não era destilar ódio ou raiva, de que à frente eu certamente viveria mais momentos fortes e precisava estar preparado. Prontamente, desculpei meu pai e minha madrasta pelo o que tenha acontecido à época, pois o que importava naquele momento era o que eu iria fazer dessas lembranças e emoções, o que eu iria fazer com o garoto de 12 anos que eu resgatei e que não tinha mais aquela casa de 1983 para nela voltar, lá se recolher e, enfim, ocupar o espaço em branco na história da sua própria vida. Simbolicamente, segurei nas mãos do menino e disse: “Vem comigo, vamos para vida, Marquinho, sai da condição de vítima, perdoe as pessoas”. Abracei e levei-o para me acompanhar durante o resto da visita técnica.

Antes de encontrar meus amigos de turma, fui ao arquivo saber da possibilidade de resgatar os prontuários dos atendimentos dados a mim e minha mãe. Passei em frente ao local onde ficava a cantina que tanto gostava de frequentar quando ia ao HSE, onde normalmente pedia um suco de maracujá e um misto-quente ou coxinha de frango. Ela estava fechada, a fachada era a mesma.

Às 9:45, começamos a visitar a parte do hospital onde as pessoas ficavam internadas, onde eu vi minha mãe pela última vez. Attila, que lá trabalhava, nos conduziu num roteiro que só podia mesmo ter sido preparado por aquele ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia de nossas vontades: começaríamos pelas partes de baixo, depois iríamos ao último andar e desceríamos até o sétimo andar, local onde ele trabalhava como técnico de enfermagem e onde minha mãe ficou, entre 1980 e 1981. Como quem livremente consentia com aquele reencontro, fiquei me controlando o tempo inteiro, conforme Attila ia (re) apresentando àqueles locais algo já conhecido por mim: a recepção, os elevadores, o local de alta, o local de radioterapia etc. Ao chegar ao sétimo andar, ficou decidido que primeiro visitaríamos a Neurocirurgia e Neurologia — onde ele trabalhava e onde faríamos as perguntas-chave do trabalho — para depois visitar a Ginecologia, onde minha mãe ficou. Lá da Neurologia fiquei contemplando o corredor que dava à Ginecologia, ansiando e temendo o reencontro. Tudo foi tão estranhamente preparado que acabamos por visitar todas salas do sétimo andar no intuito de conhecer a realidade operacional do local, as condições de trabalho das equipes médicas e dos pacientes e visualizar onde e como os psicólogos da saúde podem atuar.

Acabei voltando ao quarto onde há quase 37 anos, no dia 15 de setembro de 1981, vir minha mãe pela última vez, recebi seu último abraço e perguntei quando voltaria para casa e mais uma vez estranhei o estado em que a doença a deixou; lugar onde, na verdade, ela só ficava deitada porque já não andava mais, onde eu ficava encantado pelo rádio que tinha na cabeceira e sempre estava sintonizado na rádio-relógio e eu atentamente ouvia os contínuos tique-taque de um relógio, a voz anunciando a hora certa a cada minuto, os locutores dizendo “Você sabia que tal coisa é assim ou assado. Você sabia?” e a anúncios como o de uma determinada empresa que cantava de galo com o preço de milho picado. A cama onde ela ficava era perto da janela e de onde se podia ver o morro em frente ao hospital, uma paisagem que não me pareceu nada familiar. À época eu ficava olhando para baixo, para a entrada, para o movimento na Sacadura Cabral.

Curiosamente, não chorei ao rever tudo aquilo, embora estivesse notoriamente afetado, falando bastante para compensar a emoção vivida. Talvez, pelo fato de estar acompanhado daquele garoto de 12 anos ou pelo fato de meus colegas de turma não terem a menor noção de que o que para eles era uma novidade era para mim uma delicada reprise, um reencontro especial, meus comportamentos e reações tenham passado desapercebidos. De lá fomos ao prédio dos ambulatórios e passamos no setor de psicologia onde tivemos a chance de conversar com a psicóloga Eleonor Elizabeth, que entrou pouco depois de 1983 no setor e onde uma vez mais fui visitado por imagens do passado e por emoções que mexiam profundamente comigo.

Ironicamente, após mais uma ida ao ‘Servidores do Estado’ voltei para Seropédica. Estava de carro e não precisei andar até a Praça Mauá para pegar o Tarifa A da Eval – demorava a passar, mas rápido chegava em Seropédica – nem precisei ir até a Central do Brasil para lá pegar um Tarifa B – passava mais vezes e sempre demorava a chegar ao seu destino final. Acompanhado dos meus amigos e daquele menino de 12 anos, fomos à UFRRJ para tentar assistir uma aula de Ética na Psicologia e onde horas depois estarei dando aula até as 22:00 horas. Outros reencontros nos aguardam, pois pretendo resgatar os prontuários dos atendimentos que eu e Dona Tininha tivemos e espero que essa relação finalmente acabe. 

Às 22 e 30, cheguei à casa onde atualmente moro e que será a nova casa e lar do Marquinho que resgatei no ‘Servidores do Estado’. Ironicamente, parei o carro justamente em frente à velha casa onde ele morou e de onde, simbolicamente falando, ele saiu há trinta e cinco anos para uma sessão de terapia e por lá ficou. Outro reencontro marcado acontecia.

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