sexta-feira, 1 de maio de 2020

Lembrar e esquecer, para seguir em frente

Em meio à pandemia me fiz muitas perguntas, mas recebi três que ganharam a minha atenção: (i) se já havia nascido em mim algo que levaria para o resto da minha vida, (ii) o que eu deveria fazer mais e (iii) o que deveria deixar de fazer. Nenhuma dessas perguntas eu havia me feito, confesso, embora desde o seu início o isolamento forçado tenha sido um convite a uma viagem pelos interiores da casa, do lar e de mim próprio, convite que a ele não declinei e que me rendeu muitas reflexões.

Ao pensar em algo que havia nascido em mim e que levaria para o resto da minha vida, deparei-me com uma grande ironia: o que havia nascido em mim na experiencia de grande vulnerabilidade que é essa pandemia fora de controle é a consciência de que eu preciso aprender a morrer. A morte, sempre tão próxima e ignorada, ficou tão evidente, tão dentro da pauta de pensamentos de todos, é bem verdade. Comecei a compreender que temos que ser educados para a vida e para a morte. No meu caso, nada tão simples, pois contrasta com algumas crenças que sempre embalaram minha corrida pela vida: sempre cri que viver é, acima de tudo, lutar para não morrer. De repente tudo mudou e contrário às minha vontades. 

A mudança brusca de rotina, as forças que me impuseram um jeito de viver contrário ao meu desejo, o afastamento de quem amo e do que desejo, a solidão, a dificuldade de encontrar a solitude, a perda de controle sobre as coisas, o inimigo invisível e mortal...tudo isso me mostrou que nada sei sobre despedir-me, sobre resignar-me, sobre conviver melhor com a contrariedade, a impotência, a angústia de viver e de ver e sentir isso escorrer pelas mãos e sem caber em palavras. Sei o que é querer, mas nada sei sobre deixar ir ou deixar pra trás; sei sobre sair e voltar, mas nada sobre ir sem olhar pra trás. O isolamento deixou isso claro para mim.

Isolado, vi-me visitando realidades desagradáveis, doídas, como estar a dois metros da minha filha e não poder abraçá-la para evitar contaminação, de ir embora pra minha casa sem saber se vou vê-la novamente. Principalmente, vi-me revisitando situações, momentos, lugares e pessoas, onerando perigosamente meu psiquismo com duras lembranças e sentimentos tristes quando precisava dele o máximo saudável. A senha estava clara: associado ao meu não saber morrer está o meu não saber fazer luto...fechar gestalten.

À espera de um recomeço da vida, para começar a aprendizagem sobre a morte, decidi que a resposta inicial seria, no isolamento, aprender a fazer luto, para fazer o luto de todos os lutos que não fiz. E assim está: com imenso medo de morrer, começo a aprender sobre morrer, fazendo não um movimento de desapego em relação ao que tenho e quero ou ao que ainda posso ter e querer, mas em relação ao que quis, tentei, tive, fiz e que ainda não aceitei ou não compreendi a sua passagem, investindo energia nisso sei lá por que e pra que.

Pensar no que deveria fazer mais e no que deveria deixar de fazer depois que a vida voltar ao normal também proporcionou um grande aprendizado. Começando pelo que deveria deixar de fazer, isso ficou bem claro para mim no dia em que assisti a uma live do Cirque du Soleil. Em meio ao extasio provocado pela show que eles entregam, pela apreciação objetiva da incrível performance, individual e em grupo, realizei que aquilo é possível porque eles literalmente se entregam de corpo e alma ao alcance dos objetivos e metas que têm. Enquanto grupo, sabem o que querem produzir nas pessoas, entendem como cada um pode contribuir com isso, se conhecem e têm confiança uns nos outros, se comprometem, treinam e aperfeiçoam. Enquanto membro, cada um daqueles profissionais parece ter uma clareza sobre o que quer pra sua vida e literalmente entrega seu corpo e alma aos papeis que desenvolve, pois o mínimo sinal de uma não-entrega ficaria evidente numa performance desapontadora ou pouco envolvente. Ao realizar isso, perguntei-me: onde e quando você se entregou de corpo e alma, Marco?

Decepcionado, visitei as memórias e constatei que até então entreguei-me bem pouco de corpo e alma, do amor ao labor; constatei que poderia ter mergulhado nos diferentes fazeres em que me envolvi, do técnico-administrativo ao docente, passando pelo profissional de vendas e marketing e pelo ser que gosta de escrever. Invadi a seara dos meus desejos em busca do porquê, de entender se faltou a clareza sobre o que queria pra minha vida, insegurança sobre minhas capacidades ou garantias de retorno ou se esbarrei no medo de me perder ou sofrer. Ainda não encontrei respostas claras, mas defini que o que deixarei de fazer é o não-fazer ou fazer menos ou fazer pouco, é o deixar de criar sentidos para minha vida poupando corpo e alma, é o poupar corpo e alma dos riscos do encontro com o que intuo e sinto ser bom para mim. Talvez precise ser mais mulher e menos menino ressentido com os dramas que experimentei nessa vida, que talvez precise dar à luz e cuidar de algo que muito desejo. 

Ao pensar sobre o que deveria fazer mais daqui para frente, dei-me conta de que o mais correto seria o que não deveria deixar de fazer. Uma das coisas que o isolamento me impediu foi ir ao encontro das pessoas, amigos e parentes, de visitá-las, abraçá-las, de olhar firme em seus olhos e segurar em suas mãos, de delas e de suas vidas saber, de a suas histórias beber e comer, de a elas me servir, de nelas investir e deixar claro que eu realmente me importo com elas e que elas são importantes para mim, de dizer que sou grato ao que por ventura fazem ou fizeram por mim ou pelo simples fato de um dia nossas trajetórias terem atravessado umas às outras. Ironicamente, pouco antes da pandemia eu havia pensado que buscava mais as pessoas do que elas à mim, que talvez merecesse reciprocidade, um claro instante de insegurança sobre ser desejado. Bem, fato é que estou há mais de quarenta dias sem poder fazer o que afinal muito gosto de fazer, pois muito prazer me dá e aceito que não deveria ser pautado pela reciprocidade, mas pela perseverança no que acredito e me faz bem. 

Por fim, confesso que demorei a compreender o que Renato Russo dizia com "Todos os dias/Antes de dormir/Lembro e esqueço/ Como foi o dia/Sempre em frente/Não temos tempo a perder". Assim, depois de muito tempo, esse trecho de Tempo Perdido tornou-se base para um mote do resto que ainda me há de vida: "Desejar, incidir sobre o dia, não temer, fazer, lembrar e esquecer como foi o dia, voltar a querer, seguir em frente, sem peso a carregar, sem tempo a perder".

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O encontro de dois meninos.


Seropédica, 17 de setembro de 2011. Fui à casa da tia Ana, era dia de festa, dos aniversariantes do mês de setembro. Provavelmente, todos festejavam, exceto eu. Estava advertido de que exatamente  há trinta anos e naquele lugar, eu recebia da tia Ana, esta na companhia da Neusa e da Darcy, a notícia de que minha mãe havia morrido. Não toquei no assunto e dele ninguém lembrou-se também. Muito melhor assim. As lágrimas, ora as bebia ora sobre elas sorria. O clássico e pouco inspirador sorriso do autoengano, mas àquele garoto de 10 anos eu tinha que acolher como podia, pois ele estava ali.

Ironicamente, aquele era um dia muito especial para o Marco Souza, um homem de 40 anos. Estava muito ansioso, pois, depois que saísse da tia Ana, eu entraria pela primeira vez na casa da Angélica, a quem já amava e cuja vida de mais detalhes queria saber. Seria apresentado aos seus filhos como pretendente dela, não mais como ao conhecido que se cumprimenta à rua.

Assim que cheguei, fui avisado de que Carol estava dormindo e que Milton estava acordado. Carol fora se trocar para me receber, mas adormeceu, disse Angélica. Quando entrei, Milton estava deitado em sua cama, olhando-me com tranquilidade. Seu quarto ficava de frente para a porta da sala. Meio desconcertado, da porta perguntei se poderia ir até ele para cumprimentá-lo, mas me disse que não. Logo após, saiu e veio me cumprimentar.

Percebendo a delicadeza do momento, fiz questão de terminar de chegar e bem devagar. Fiz movimentos leves, falei pouco, pedi licença, sequer toquei em sua mãe. Deixei o implícito com seu misterioso status intacto. Àquela altura, naquelas condições, qualquer insinuação de objetividade impactaria fortemente aquele menino, ao mesmo tempo em que me alçaria à condição de bruto, invasivo, uma figura desagradável ao filho da mulher que eu me propunha conhecer e a abrir espaço em minha vida.

Na sala, novamente o cumprimentei e esperei que ele falasse, na esperança de que ele ditasse o ritmo daquele inusitado encontro. Milton me recebeu com simplicidade e simpatia. Fiz perguntas sobre as coisas de que ele gostava e ele foi me apresentando rapidamente os elementos do seu mundo. Apontou para o quarto, foi para lá e da sala eu via os primeiros brinquedos dele. Chamou-me ao quarto. Pedi licença ao entrar, não toquei em nada, esperei que me dissesse para fazê-lo. A primeira coisa que fez questão de mostrar foi a prateleira com seus bonecos, ressaltando que ela fora obra do seu pai. Deteve-se na história da prateleira. Olhando firmemente em seus olhos, elogiei o trabalho do pai e a coleção de brinquedos.

Enquanto fiquei no quarto, mantive-me interessado pelo seu mundo e fiz de tudo para não negligenciar os recados que ele sutilmente me passava: aquela casa ainda pertence a um homem. Um homem que ele mantinha vivo, embora não mais frequentasse o lugar, nem mais tivesse relação com sua mãe. 

Entre as várias e essenciais razões para manter o interesse pelo mundo do Milton, uma reclamava atenção: o destino criara um encontro especial entre dois meninos de dez anos. Era fácil estar no  lugar do Milton: há aproximadamente trinta anos, acontecia algo semelhante comigo. Em minha casa, e pela primeira vez, entrava a mulher que seria nossa madrasta. Ela ocuparia o espaço que fora da minha mãe, morta de pouco tempo. Lamentavelmente e pouco tempo depois, as condições nas quais se deu a entrada definitiva dela em nossa casa foram tensas, deixando em mim a sensação de que não foram respeitadas os aspectos simbólicos mais importantes. Durante muito tempo, aquilo foi para mim uma invasão, uma barbaridade, um completo desmantelar de todo universo objetivo e subjetivo que me localizava no mundo, no tempo. Construir um novo lar numa mesma casa requer um engenharia especial, demanda recursos valorosos e delicados, principalmente amor, paciência, dedicação e tempo. Não foi assim que aconteceu e tudo mudou: primeiro, uma nova rotina; depois, os elementos que sinalizavam a presença da minha mãe foram retirados -- ela morria mais uma vez; por fim, mudamos para o bairro Ecologia. Aquela casa, aquele lar, o meu universo, me dava uma confortante sensação de pertencimento, algo muito importante diante toda transformação que eu experimentava àquela altura. A senha para aquela aprendizagem essencial sobre o viver estava decifrada: entrar na casa do Milton significava, simbolicamente, entrar na minha casa e fazer tudo do que jeito que deveria ter sido. 

A visita reservava-me mais emoções. Voltamos à sala e em seguida Milton foi ao seu quarto e voltou com uma chuteira à mão, que usava na escolinha de futebol, no Seropédica. Deu-me a chuteira e, ao tocá-la, olhei fundo nos olhos daquele menino de 10 anos, calmo, gentil, receptivo, dono do espaço e da situação. Meu olhar foi longe: ironia do destino ou capricho deste, um calçado, um tênis, foi o presente que minha madrasta me deu no dia em que foi à minha casa pela primeira vez. À época, vivíamos situação difícil, tínhamos pouca roupa em boas condições e o tênis chamava atenção pela novidade e beleza. Lamentavelmente, em função de falas e posições de todos envolvidos afetivamente com a situação, tios e amigos, prevalecia a interpretação de que era uma tentativa de “comprar” nossa simpatia (minhas irmãs também foram presenteadas), de “driblar” a atenção daquilo que realmente era mais caro: a falta de clareza no projeto de construção de um novo lar na nossa casa. Como resultado, pouco usufrui do belo presente, pois aquele simbolismo que emergira diminuia qualquer benefício funcional ou social que pudesse me dar.

Quis o destino, porém, que Milton me desse o calçado para segurar. Toquei-o com a mente voltada para aquele garoto de 10 anos que perdera a sua mãe e tinha sua vida drasticamente transformada. Ao garoto de 10 anos a minha frente eu perguntava sobre os gols que fazia e se o calçado era confortável e bom para usar. Ao garoto ‘atrás’ de mim eu disse: "este calçado que agora seguro serve para mostrar que você deveria ir ao campo da vida jogar o jogo que não jogou porque não quis usar o calçado cujo presentear lhe fora tão desconfortável. Vá, vista o calçado, perdoe aquelas pessoas, leve uma vida mais confortável, faça finalmente esse gol!". A mim eu disse: você entrou, respeite esse universo; continue amando essa mulher e a seus filhos, ainda que um beijo possa estragar tudo. Como nada bebia, às lágrimas novamente sobre elas sorria. Mas já era um outro sorriso, de relaxamento, esvaziamento, reconstituição.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Do delicado em mim


Um dia ouvi que uma simples e despretensiosa mensagem pode mudar significativamente o rumo de um dia ou mesmo da vida de uma pessoa. Está acontecendo comigo, aumentando ainda mais a excepcionalidade desses dias de isolamento social que enfrentamos com o pandemia do covid19.

Em 20 de março, recebi mensagem privada de alguém que há muito não via e com quem nunca tive muito contato, embora estejamos conectados via aplicativo. Conhecemo-nos pelos idos dos anos 90 e nos vimos poucas vezes desde então. A pessoa queria saber o porquê do afastamento que eu vinha mantendo da rede social. No mesmo dia, manifestei minha surpresa pela visita virtual e informei que afastei-me porque estava ficando cético em relação à possibilidade de virarmos o jogo contra essa polarização que embrutece-nos e piora a qualidade das interações na rede social virtual e física; também confessei que, indignado, estava me sentindo numa bolha e procurei fazer algo para não ficar com a crença de que os problemas estavam nos outros e não em mim, optando por sair da ilha que vira a timeline de uma rede social e onde nela nos refugiamos; por fim, disse que estava priorizando a rede social física, aplicando mais compaixão e empatia, assumindo que o problema também está em mim, procurando rever valores, atitudes e comportamentos e enfrentando mudanças que me impus e atualmente implicam em plena reelaboração de mim. Também no mesmo dia, confessou-me ela sentir o mesmo, embora não use muito a rede social digital e prefira a física e, procurando ser empática, escreveu: “Vi você poucas vezes, mas você me passa certo conforto no trato, acho que por isso, quando vi que você tinha se afastado, ainda mais nesses tempos de quarentena, resolvi “visita-lo”, e ainda reconheceu que poderia ter ficado estranho o “certo conforto no trato”.

No dia seguinte, agradeci e manifestei que ficara mesmo curioso com “o certo conforto no trato”. No dia 22, e com visível cuidado na construção da resposta, ela disse: “trocando em miúdos, acho que quis dizer que você parece uma pessoa delicada e com quem é fácil conviver”. No dia seguinte, muito mais surpreso, respondi que estava em busca de uma resposta ideal para aquelas palavras, que até tinha começado uma digressão; reforcei que estava muito feliz com a surpresa do contato e com a restituição, via percepção e palavras dela, do delicado à minha vida, ao meu jeito de estar no mundo; assumi que a delicadeza fazia parte sim da minha vida e que dela eu muito me afastara ou pouco de atenção a ela dera, e que com a fala dela janelas para muitas ideias havia sido abertas. No mesmo dia, ela respondeu: “então, devo dizer que restituí a você o que você sempre me deu, independentemente das intenções que pudessem movê-lo. Que bom que pude fazer isso”.

No dia 26, com uma resposta aquém da ideal que buscava, mas pressionando-me para logo tê-la, consegui dar continuidade a nossa conversa, que naquela mensagem terminou: “Você me reparentalizou, pois não tive necessidades emocionais atendidas referentes a ser mais soft, light...delicado. Cresci ouvindo do meu pai: “Filho meu não pode ser gay, ladrão drogado ou comunista”. A forja que me fez homem não me deixou ser o homem que eu queria ser. Foi na marra, na rebeldia, na sublevação, que eu me lancei à transformação, ao questionamento do que queriam de mim e do onde eu chegaria sendo aquele homem que de mim fizeram. Foi na experimentação, no corpo da política e na política dos corpos, que adotei algumas postura, novas ideias”.

Findou a troca de mensagens, mas não findaram as inquietudes deste contato tão especial com o delicado em mim, com a experiência de acessar uma representação minha bem distinta da que normalmente uso para me definir e de acessar o material trazido à tona por minhas próprias palavras. Emergiu a grande senha: até aquele inusitado 20 de março eu não havia invadido esta seara tão cara a minha história de vida: a conexão entre o delicado/a delicadeza e o meu vir-a-ser homem (tampouco tenho como saber se um dia aconteceria). A oportunidade, respeitados todos os seus detalhes, tornava providencial aquela restituição, enfim, tinha que ser naquele instante e daquele jeito. 

Palavras. Quantas e fortes emergiram na troca de mensagem, em minha mente. Até 23 de março, diziam-me elas que eu não me reconhecia na delicadeza nem a ela devidamente reconhecia; que refazer-me homem fora na marra, na rebeldia, na sublevação. Processo este que agora entendo demandar sensibilidade ou autoconhecimento ou experiência ou coragem para se ir além do enfrentamento ao dolorido e extenuante que ele produz e alçar o saber-se delicado, assumi-lo, nele se confortar, a ele proteger e com ele objetiva ou intuitivamente contar para enfrentar a vida.

Tal restituição abriu-me não apenas à compreensão do impacto, mas da necessidade de uma consistente restituição do delicado à minha vida, de modo que ele seja parte evidente e assumida do meu jeito de estar no mundo e de como continuamente me redefino, me reconstruo, me reelaboro. Fortalecido, procurei então compreender como se dera minha relação com o delicado, os nossos encontros e desencontros, o que minhas palavras iniciais não deram conta. Foram muitos e profundos os pensamentos e lembranças que somaram forças para que a partir dali eu revisitasse os pontos de contato e de atravessamento entre mim e o delicado

Como não perguntei à pessoa o que seria este delicado que eu a entregava, os atributos que o comporiam, acessei as representações que atualmente tenho do delicado ou da delicadeza: mulheres, flores, cristais, relações e o psíquico, e onde se inscrevem o soft e o light. Baixíssimo repertório de associações e representações, confesso, dignas mesmo de uma pessoa que ouvia que homem não chora, que ele tem que se impor e que jamais deixa-se ser um réu confesso de qualquer coisa que faça ou sinta. Considerando peculiaridades da minha trajetória de vida, entendi bem que esse repertório não poderia ser muito rico, embora agora saiba haver alguma efetividade, pelo menos com uma mulher.

Mulheres. Revisitei o passado e logo encarei minha relação com elas, que, além de não ter sido fácil, foi deveras complicada por causa de algumas vontades do destino. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos e, embora ainda tivesse tido três mulheres perto de mim por um bom tempo, não houve com duas irmãs mútua cumplicidade e empatia sobre os dramas de vir-a-ser gente, nem mútua proximidade e afetuosidade com minha madrasta que pudesse viabilizar uma outra forja de vir-a-ser. Nas ruas, aprendizados comuns de meninos sobre sexualidade, com acesso a revistas pornográficas e a compartilhamento de histórias, na maioria das vezes, bastante exacerbadas sobre paqueras, transas, masturbações, etc.. Aprendizagens não sobre a inteireza, integralidade e delicadeza dos nossos e dos corpos delas, mas sobre órgãos genitais e seus excêntricos nomes, tudo muito localizado e resumido, embrutecido. Continuada a revista ao que me permitiu a memória, constatei que, naquela fase, dificilmente reagiria ao embrutecimento ou rusticidade que caracterizava aquele projeto de vir-a-ser homem que impunham a gente, aquela dura forja: aos onze ou doze anos lidando com uma criação que diariamente informava que “filho meu não pode ser gay, ladrão, drogado ou comunista”, que também nessa fase me colocara num inferninho para, sob olhares ávidos de tios, ter uma mulher no colo para que ela certificasse que o “pau subia”, que aos catorze ano, quando assistia Gilberto Gil cantar Refazenda, desligara abruptamente a TV e informava que naquela casa não se assistiria a um gay e comunista cantando. Foi um doloroso e delicado-em-si de abrir janelas para no passado entrar, tendo à mão apenas a luz da coragem e sem dispor do mapa e experiência de um bom analista.

Mais do que mudar meu dia, essa simples e despretensiosa mensagem produziu efeitos que, bem sei, impactarão meus dias que seguem, mesmo que o fato de não ter sido uma mulher com que tive relacionamento próximo e intimo ponha tudo isso sob ampla suspeição. A coragem acompanhou a extensão da rememoração para expor detalhes densos da minha história de vida. As janelas estão devidamente escancaradas e tudo isso vai continuar reverberando, repercutindo, atravessando a dolorida e contínua reelaboração da minha própria identidade ou subjetividade. Entretanto, por mais surpreendente e inquietante que esteja sendo, não há estranhamento, negação ou repulsa: há um delicado em mim e ele está restituído à pauta da minha vida.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Aqui e agora: eu, professor.


Noite de 26 de junho de 2019, sala 2, Instituto de Educação, UFRRJ. Estou assistindo a mais uma aula na maratona para me tornar um psicólogo, um plano antigo e que aos poucos e com muita luta vai se materializando.

Estou no oitavo período e assisto aula da disciplina Psicologia e educação: conexões e diálogos, ministrada pela querida e admirada Rosa Cristina Monteiro. Embora seja uma disciplina optativa, Rosa confere a ela a devida importância e suas aulas, sem exceção, têm sido marcantes para mim e certamente para a maioria dos colegas. Estou cansado da jornada que começara às 8 da manhã e sigo à aula sem saber que em poucos minutos eu viveria outro momento significativo nessa minha jornada pela vida.

Rosa nos surpreende solicitando que façamos uma narrativa sobre uma situação bem específica: temos que desenvolver o “eu, professor”, uma narrativa em primeira pessoa. Ela se baseia na teoria dos atos de significação, de Jerome Bruner. Como aprendido em sala de aula, procuramos significar o mundo (mente criadora de significados) e nele agimos em função dos significados e sentidos. A narrativa é uma fonte crítica para o entendimento dos significados ou sentidos que criamos, e a narrativa de si mesmo, dizia Rosa, é um modo de consolidar sua experiência, torná-la consciente e, na medida do possível, ampliar ainda mais o campo da consciência.

Rosa não queria captar as representações desse professor que muitos ali ainda o serão, seu objetivo estava no labor individual para construção do caminho que os alunos estão seguindo para formaram-se e obter o grau de licenciado, queria extrair os significados implicados no emergir do futuro professor. Como nos implicamos na construção desse professor? Tínhamos que ir além da representação para encontrar o sentido de ser professor. Teoricamente, estamos em uma estação próxima à Gare no processo de constituição dessa identidade. 

No momento em que recebo a instrução da tarefa começa um grande desafio para mim: na corrida para ser psicólogo, dou-me conta de que preciso falar do professor que sou e justamente numa das salas onde, há 28 anos, começou minha corrida para ser administrador, profissional de marketing, homem de mercado. Uma complicada questão de construção identitária reaparece, senta na cadeira ao lado e me cobra atenção, puxa assunto.

Pensando em como construir a narrativa, dado que nos foi facultado certa criatividade para fazê-lo, dou-me conta do quanto sou dividido nos meus desejos e que isso é algo com o qual ainda não aprendi a conviver, do desafio de agora ter que falar do professor cuja trajetória começou há 20 anos e que ainda o faço sem demostrar a alegria e o desejo que geralmente me atribuem como marca pessoal. Lembrei-me imediatamente de uma pergunta da terapeuta feita em 2009: “Quem é mais importante para você: o professor, o homem de mercado ou o escritor?”. Naquele dia, ela disse que estranhava o fato de ser eu um professor muito bem conceituado e falado por muitas pessoas e que não falava de mim mesmo com empolgação alguma, que estava altamente insatisfeito com a vida e que me cobrava bastante por não estar investindo no escritor, o Eu, escritor.

As lembranças continuam e relembro que professor é uma posição que neguei várias vezes, priorizando meus interesses na área de marketing, a despeito de muitos conselhos e indicações de que havia em mim vocação para tal. Quem mais me falou sobre isso foi Fernandinho, primo na casa de quem eu costumava ficar entre 1995 e 1997 para ficar mais perto do trabalho ou dos cursos de pós-graduação que tentei para ir ao mercado de trabalho. Regularmente, ele me dizia que eu deveria tentar uma carreira docente, que via em mim um “professor nato”, que eu deveria ter mais carinho com a vocação que estava evidente em mim.

Ironicamente, lembro-me que na Supergasbrás, onde tive minha primeira oportunidade de ser um “homem do mercado”, ganhei o apelido Professor. Um dia, participando de um jogo de futebol dentro da empresa, um colega de time reclamou de um passe errado meu e deixou sair: “faz isso não, Professor”. Durante o jogo fui chamado de Professor por outras pessoas. Após a partida, me explicaram que meu apelido entre era “Professor” porque eu parecia um professor, pelo meu jeito de falar e por alguns hábitos que tinha, como o de ler jornal ou livro no horário que sobrava do almoço. O apelido estava pegando e um dia, em conversa com meu chefe, ele me disse que aquilo não era nada bom para alguém que tinha ambição de crescer na empresa, que a representação de um professor não era nada boa para um gerente ou diretor, que as funções eram incompatíveis.

Aprofundo-me nas lembranças e realizo que tal dilema dentro da empresa acaba com minha saída dela e que esta, devido à maneira dolorosa como a ela reagi, acaba por influenciar negativamente minha recolocação no mercado. “Você ainda está sangrando”, disse-me uma diretora de RH de uma grande empresa para justificar minha não contratação. Minha saída da Supergasbrás praticamente marca o fim da trajetória daquele Eu, homem do mercado. Rapidamente, lembro-me do texto que escrevi justamente no dia em que saí da empresa para usá-lo em minha apresentação do Eu, professor. O texto, escrito em 10/10/1997, na base da Duque de Caxias, é significativo pois eu estava realmente muito feliz naquele dia que acabou bem mal por sinal. 


“Um inesperado e agradável surto de felicidade tomou conta de mim. Estou rindo à toa.
De uma hora pra outra fiquei leve, radiante, com a alma em êxtase.
Estou impregnado de felicidade, vertendo alegria pelos poros.
Há um doce aroma de satisfação me rodeando e que não me deixa parar de sorrir.
É uma sensação fantástica, estou contagiante, irresistível.
Planto esperança em todos os lugares em que lanço um olhar.
De minhas palavras jorram emoção.
Inesperadamente feliz, como se não houvesse no mundo outra opção.
Um réu confesso do crime da felicidade recebendo em alto astral a sentença que me condena à alegria eterna”.


A poucos minutos da minha apresentação realizo que estou bastante emocionado, dou-me conta da complexa rede de significados que estiveram presentes em todos os investimentos que fiz no complicado processo de constituição identitária do Marco Antônio Ferreira de Souza. Com certa calma, porém, contemplo com carinho os diversos projetos de eu em que me impliquei. Olho para a sala e tento revisitar momentos de 1991, quando naquela sala me sentava para algumas aulas. Não, não quero me reencontrar, nem dizer nada para aquele "eu, aluno", pois sei que minha dívida é com o professor, com aquele cara que está na viagem e coincidentemente na mesma estação em que o aluno começou a viagem.

Jamais passaria pela minha cabeça que, em mais uma etapao da corrida para edificar o "eu, psicólogo", eu precisaria prestar contas com o "eu, professor", justamente na sala onde começou minha maratona para tornar real o "eu, homem de mercado", figura de vida curta e pouco feliz e de quem demorei a fazer o devido luto. E aqui estou, professor de fato, precisando assumir essa importante dimensão da minha vida, precisando acolher-me, autorizar-me, abraçar-me, precisando urgentemente reinterpretar a tal sentença que me condena, nessa vida, a uma alegria em quantidade bem promissora. Talvez seja isso o que a terapeuta me cobrava, talvez seja isso o que Fernandinho previa para mim. Talvez.  

Fui o último a apresentar e terminei assim: Aqui e agora: eu, professor.