segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Fomos pipeiros, tínhamos mais alegrias e dores morais que dores psíquicas, hoje, porém...



Seropédica, 28 de julho de 2018. Sábado. Despertei perturbado por um som insistente e desagradável que, embora não me fosse desconhecido, dele não recordei com facilidade. A memória falhou, a curiosidade falou mais alto, desisti de voltar a dormir, levantei-me, abri a porta da frente e, da sacada, deparei-me com a cena de uma pipa agonizando na rede elétrica de alta tensão que passa em frente à minha casa. À mesa do café, um outro ângulo me permitiu mais alguns instantes de contemplação, pela janela, da cena que muitas vezes vi no tempo em eu que ficava boa parte dos meus dias de férias escolares olhando para os céus soltando ou correndo atrás de pipas, escalando muros e árvores para apanhá-las e retornar à brincadeira, tempo que se estende entre 1979 e 1985.

Uma cena desoladora, é o que imediatamente me informam sentimentos de pipeiro que oportunamente emergem. Também sou visitado por lembranças nem tão distantes assim e por questões mais atuais relacionadas ao soltar pipas. Vem à mente o ano 2007, quando uma médica que atendia a minha filha, que à época estava muito ansiosa, disse com seriedade que Malu precisava soltar pipas, ter uma vida menos assoberbada com a atividades extraescolar e não tomar remédios para ansiedade, atenção, depressão e coisas parecidas (Não só ela, claro, mas crianças, adolescentes e adultos, dizia a médica sobre a vida que engendrávamos enquanto sociedade e que era conflitante com nossas condições fisiológicas e psíquicas). Também vem à mente imagens e noticias recentes sobre incidentes envolvendo pipas e atropelamentos e mortes de motociclistas feridos pelas linhas com ceróis.

Em pouco tempo de contemplação, entro em contato com distintos e intensos sentimentos enquanto realizo o irônico e o contraditório de termos uma atividade tão significativa imbricar-se com dores morais, físicas e psíquicas que podem ser experimentadas em nossas trajetórias. Visitam-me reflexões que misturam mudanças no nosso mundo e na maneira como entendemos e exercemos nosso viver e o alerta do médico. Penso nos conflitos e consequente desconfortos e dores físicos, morais e psíquicos que estão associados aos elementos visíveis e invisíveis à cena: a pipa perdida na rede elétrica; a urbanização crescente e desorganizada e a correria para dar conta de necessidades e desejos sem fim e, atrelados a eles, um jeito de viver que equivocadamente prescinde do estar na rua, o sufocamento e marginalização de uma atividade lúdica e terapêutica como o soltar pipas e, consequentemente, o acirramento dos conflitos entre pipeiros, motociclistas, motoristas, ciclistas e proprietários de casas e lojas.

Como estou de férias, sei que enquanto o vento, a chuva e o sol não destruírem essa pipa, conviverei diariamente com o chato som que faz a sonoplastia dessa cena que, enquanto pipeiro que fui um dia, considero desoladora, e ela me conduzirá a diversos e diferentes momentos da minha vida. Nesse instante, a cena e o som me conduzem direto a diversos momentos marcantes: aos anos de infância e adolescência, entre 1978 e 1985, que se deu na mesma rua onde atualmente moro e, especificamente, 

Em 2007, lembro que saí do consultório bastante impressionado e a primeira coisa que fiz foi comprar linha, pipa e rabiola para, no dia seguinte, ir com Malu para os gramados da Embrapa e da UFRRJ começar o saudável tratamento, que incluía uma revisão da vida que dávamos à ela. Fomos primeiro à UFRRJ, mas logo fomos afugentados: a todo instante vinham pipas querendo cruzar e aquele não era o nosso propósito, nem cerol tínhamos. Só conseguimos soltar pipa em paz em frente à Pesagro. Ironicamente, após termos conseguidos bons momentos de distração e alegria, houve mudança da direção do vento e, ao tentar ajudar Malu com a pipa dela, acabei agarrando-a na rede elétrica de alta tensão que fica na entrada entre a Pesagro e a UFRRJ. Com a minha eu fiz algo que há muito desejava, embora até hoje não entenda bem o por quê: dei linha até o final do carretel, deixei a pipa subir bastante e, junto com a Malu, depois de muito debicar, subindo e descendo, indo de um lado para o outro, deixei a pipa ir e se perder no horizonte. À Malu, uma vez perguntado, disse a ela que alguém pegaria a pipa e a brincadeira continuaria.

Com relação ao meu passado, sei que, pelo tanto que tem ventado desde ontem, eu o visitarei bastante, remontarei aos meus saudosos anos de pipeiro, que reconheço não ter sido tão glorioso como o de muitos amigos, mas que foi muito rico em ludicidade, uma vida vivida mais do portão de casa para a rua do que o inverso e com quase nenhum remédio a ser tomado, exceto analgésicos, vermífugos, antitetânicas, antirrábicas e os biotônicos da vida para despertar apetite.  



Quando a rede de alta tensão chegou à essa rua, essa cena foi ficando comum e praticamente forçou a migração do soltar pipa dessa parte aqui da esquina com a rua 7 para o fim da rua, e, vale a menção, ainda não havia a minha casa e o colégio à frente, onde ficava a casa da dona Edméia. Foram os primeiros conflitos mas, embora nos anos seguintes ficassem comuns os conflitos entre essa prática lúdica e bastante saudável e a maneira como nossas famílias progressivamente estruturavam nossas vidas, vivenciamos mais as dores morais comuns à rotina de um pipeiro do que as dores físicas (sim, tínhamos dedos das mãos cortados, pés e canelas machucados), e sofrimentos psíquicos.

Sobre as dores morais, sei de uma leitura mais otimista e que depõe contra o agonizante que a minha leitura retrata dessa cena. Esta diz que no final da temporada de férias as pipas nas árvores, antenas e redes elétricas tornam-se memória, provas irrefutáveis de que adultos e garotos viveram intensamente seus dias de ócio nas férias escolares e que para cada uma dessas pipas haverá um depoimento de alegria e dor vividas com dignidade e altivez. Entretanto, uma pipa agonizando na rede elétrica significa que muita frustração foi vivenciada em algum dos instantes mágicos da vida de um pipeiro. Alguém certamente perdeu essa que agora observo enquanto a empinava ou arrastava para cruzar com alguém ou tentava aparar outra pipa ou perdera a rabiola dela e tentava trazer para o chão ou, o que é a situação mais chocante, enquanto estava a poucos metros e segundos de pegá-la voada e dar o homérico, terapêutico e libertador grito “É minha! Tá na mão!”. Existem outras maneiras de calar esse grito, mas uma pipa voada ir direto à rede elétrica e lá ficar encabrestada é a pior, pois, além de todo risco e lendas que circulam sobre fatalidades, com a rede elétrica “não tem negociação” e prevalece a dor moral que se acentua com o calar desse grito. Bem, se por ventura alguém pegar a pipa quando você vai dar o grito libertador, ainda há chance de negociar ou de lutar para minimizar essa dor. 

Embora conheça bastante dos relatos heroicos que uma temporada de pipas produz, sei bem que, para quem solta pipa, ver uma pipa na rede elétrica é uma das cenas mais horríveis de se ver. Em termos de dor moral, no meu tempo de pipeiro, que foi dos 8 aos 14 anos, ela se equiparava à de ver a pipa estancar e se perder no horizonte ou parar na mão de alguém que não vai lhe entregar, o que também era avassalador. A despeito de toda dor que essa última cena enseja, dado que pode ser uma alma sebosa que ficará com sua pipa e linha, do fundo da alma de um verdadeiro pipeiro emergirá um pensamento bastante oportuno que lhe dirá para erguer a cabeça e superar essa dor, pois, pelo menos, a brincadeira irá continuar e, quem sabe o jogo vira como o vento muda de direção, e ele reaverá a pipa ou cruzará e cortará a alma sebosa que ficou com sua pipa. 

Essa dor moral reside no complicado que se torna o resgate da pipa na rede elétrica. Devido à histórias de gente que fora eletrocutada – algo que felizmente nunca presenciamos na rua Albertina Rosa ou simplesmente rua do Hotel (atual Rua Iná Nascimento de Souza) –, tentar resgatar pipas nas redes elétricas nunca foi uma ação simples ou isenta de riscos e medos. Além disso, ela inibia toda engenharia coletiva para resgate de pipas que tão bem exercíamos quando elas estavam agarradas em árvores ou antenas e, consequentemente, fazia com que deixássemos para trás os bambus, marimbas e demais artefatos tecnológicos nos quais o tempo de traquinagem nos tornava peritos.

Nos dias que seguem, graças a esses oportunos cena e barulho, visitarei com carinho meu passado e irei contrastá-lo com o presente que a pouca molecada que vive nessa rua enfrenta. Lamentavelmente, essas férias estão acabando e não vi ninguém soltar pipa por aqui. Está tudo bastante mudado, a começar pela minha casa e pelo colégio â frente que, pela altura que têm, tomam considerável parte do espaço para empinar pipas. Os lotes vazios escasseiam, bem como as árvores; aumentam o número e o tamanho das casas, bem como o de estranhas e complexas antenas de tv e internet; o soltar pipa exige mais habilidade, perícia e audácia. Também mudou o acesso às pipas, linhas, rabiolas e cerol; no nosso tempo, uma pipa e uma linha eram caros e tinham que durar muito; na maioria das vezes, quando o Marco Cocota não estava fazendo pipas, nós tínhamos que fazê-las, bem como às rabiolas.
Irônico, lamentável e desconfortável é constatar o quanto estou envolvido nessa dessa dinâmica de fazer e se acostumar com que as dores físicas e o sofrimento psíquico superem em quantidade e intensidade as dores morais que acima menciono. Ao fazer essa casa desse jeito, eu contribui para esse acirramento do conflito, preenchi a paisagem da rua com obstáculos às pipas, fiz do mesmo que atualmente transforma pipeiros em verdadeiros inimigos de motociclistas, ciclistas e donos de antenas. Ao viver do jeito que vivo, ajudo a emergir figuras como a que encerro, cheias de dores psíquicas e físicas, e a pôr no limbo o pipeiro, sua mítica trajetória e seus desafios com alegrias e dores morais.

Ainda à mesa do café, mudo o ângulo de visão e fico a pensar nos pipeiros famosos da minha rua, como o Marcio, o Basa, o Sergio, o Zezé, o Jô e muitos outros. Após uma tarde movimentada, cheia de cruzamentos, estancamentos, sobe e desce de peões, pipas e gerecos, o ápice de um pipeiro era ser ele o único a sobrar no céu da região onde ele estava soltando sua pipa; é bem verdade que ele não estava, como eu sempre estava, entre os que sempre eram cortados ou que estavam correndo atrás de pipas voadas para continuar a brincadeira; mas todos nós estávamos envolvidos com as dores, alegrias e aprendizados inerentes ao dar ou tomar cabresto, cortar ou ser cortado na mão, embolar de linha e evitar fazer nós nela, nos dramas dos dias sem vento, dos roubos de linha, das perdas das rabiolas, dos dilados que impediam as pipas de subir e ficar no ar.

sábado, 2 de junho de 2018

Reencontros marcados

Rio de Janeiro, 26 de abril de 2018. Cinco horas da manhã. Como de costume, cheguei adiantado a mais um encontro -- bem adiantado, por sinal -- revelando a ansiedade que jazia nas entrelinhas. A alguns metros de mim, o Hospital Servidores do Estado, com quem mais à frente na hora terei o desafio de um reencontro.

Há trinta e cinco anos não nos vemos e o escuro da madrugada me impediu de ver como ele está atualmente. Como só encontrei lugar para estacionar à rua do livramento, pouco pude notar da silhueta do gigante que marcou minha vida. Inseguro sobre o local onde parei, resolvi ficar por ali até que o dia clareasse e tivesse mais segurança para deixar o carro e ir para o grande momento do dia. Fiquei na companhia do senhor que vende água de coco e faz ponto em frente ao Mercadinho 2001, esquina com a rua do livramento.

Às 7:00 horasvsaí para tomar café no bar e restaurante Cantinho dos Servidores. Durante duas horas fiquei sem nada que, por ventura, trouxesse as lembranças dos muitos e, em sua grande maioria, dolorosos encontros que tivemos entre anos de 1980 e 1983. No restaurante, pude contemplar detalhes da sua lateral e constatar que muita coisa mudou.

Em verdsde, exceto por um breve contato visual com a Rodoviária Novo Rio e pelas dependências do Moinho Fluminense, não houve nada de familiar em mais essa chegada à Sacadura Cabral, 178: nada de Perimetral, trens de carga, navios, viagem em ônibus da empresa Eval, Praça Mauá, cheiro forte de café, ônibus das empresas Magelle, Evanil, Reginas ou Jurema, nem mesmo o famoso 222 parado ali por perto. Também pudera: nosso último encontro se deu em 21 de fevereiro de 1983, às 9:00, e muita coisa mudou na nem tão maravilhosa cidade que faz o cenário dessa controvertida relação que o destino, esse ilustre senhor, criou a partir do adoecimento e tratamento da minha mãe, a partir de 1980.

Sobre esse reencontro, digo que durante anos desejei e agi como se tal relação tivesse acabado, embora soubesse que havia faltado a importantes reencontros previamente marcados para os anos seguintes, em especial ao do dia 24 de março de 1983, conforme marca o velho cartão rosado. Tal ausência implicou em deixar para traz preciosas sessões de psicoterapia, oportunidade impar que eu tinha para mudar a dolorosa impressão que fiquei dos encontros que tivemos e sobre a vida que conheci durante o longo período de internação e após o falecimento da minha mãe, em 17 de setembro de 1981. Depois daquele fevereiro de 1983, meu reencontro com a psicoterapia deu-se apenas em 2003, perdura ainda hoje, mas não dediquei muita atenção nas sessões para elaborar essa complicada relação que me foi imposta e os marcantes motivos e consequências da falta ao reencontro de março de 1983. Entretanto, quis o mesmo destino -- esse ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia de nossas vontades -- que em abril de 2018, aos 47 anos, e como aluno de psicologia, eu fizesse uma visita técnica ao 'Servidores do Estado', como usávamos chamar esse hospital.

Nos dias anteriores, fiz o que aprendi com a vida nos demais encontros, reencontros e desencontros marcados que o ilustre senhor me presenteou: entendi que o encontro era mesmo necessário, passei a desejá-lo, tentei controlar a ansiedade e não criar expectativas, não fiz planos. Preparei-me, claro: pus-me austero, não dediquei às magoas uma posição preponderante; sem sinais de contrariedade, e, embora não desejoso de fazê-lo, dispus-me a entregar no reencontro o que de melhor haveria em mim após o tempo que passou. Para segurar a pressão da ansiedade, durante a viagem começada em Seropédica, fiz alguns áudios sobre esse dia.

Embora me sobrasse tempo, notei que fiquei parado no restaurante Cantinho dos Servidores por muito tempo, que me segurava por ali, retardando o encontro. Decidi sair e testar o que aconteceria conforme entrasse em contato com o gigante de concreto. O granito marrom e as grades mostravam que sua frente continuava a mesma. Não entrei, apenas observei a silhueta. Lembrei-me da entrada da rua Venezuela, dos ambulatórios e decidi pelo primeiro reencontro.

A entrada continuava a mesma: as fontes d'água à direita, o guichê lotado, muita gente entrando e saindo, as primeiras escadas rolantes que vi em minha vida e onde, depois de perder o medo, adorava ficar subindo e descendo. Emocionei-me. Em busca de banheiros, entrei num corredor que me levou direto ao ano de 1983. Mais emoções. Praticamente, estava tudo igual àquela época -- a mesma disposição das salas, consultórios e cadeiras, as cores em tom de creme e ocre e o perfil das pessoas: gente simples, envelhecidas, trazendo nas faces à agonia de quem mais uma vez acordara muito cedo e saíra atrás de uma boa notícia. Peguei água num bebedouro perto do banheiro e sentei-me, deixando as lembranças conduzirem o momento.

As lágrimas desceram rapidamente, incontroláveis. Como havia previsto nos áudios que fiz na viagem pra cá, aquele garoto de 12 anos havia ficado naquele corredor à espera da psicoterapia que tanto lhe fazia bem e o ajudava a elaborar toda transformação que sua vida sofrera em praticamente três anos, e agora a mim caberia retirá-lo de lá e levá-lo de volta pra casa. Imagens da época vinham com rapidez no angustiante trabalho de reconstruir aquelas memórias, de dar uma lógica ou sequência a coisas que aconteceram há mais de trinta anos e chegar aos porque do rumo que aquela história tomou. Uma dessas imagens reclamou atenção naquele momento: o dia em que ficara decidido que meu pai não me levaria ao encontro de 24 de março de 1983. A lembrança me dizia que fora por algo que era importante para ele, uma pescaria, apesar dele próprio saber que tudo tinha que ser marcado no HSE e com antecedência. Essa doída lembrança, que sempre me acompanhara, veio numa intensidade mais forte do que de costume, fazendo-me experimentar uma raiva bastante desagradável e trazendo à tona aqueles questionamentos que, embora fossem óbvios, nunca entraram na pauta de uma conversa séria entre nós: por que, àquela época, eles não se mobilizaram para me levar à terapia? O que aconteceu para que todo processo fosse esquecido, pois o cartão marca que não houve mais retorno meu ao HSE? Chorava muito, mas recobrei a consciência de que minha missão ali não era destilar ódio ou raiva, de que  à frente eu certamente viveria mais momentos fortes e precisava estar preparado. Prontamente, desculpei meu pai e Alice pelo o que quer tenha acontecido à época, pois o que importava naquele momento era o que eu iria fazer dessas lembranças e emoções, o que eu iria fazer com aquele garoto de 12 anos que eu fora resgatar e que não tinha mais aquela casa de 1983 para à ela voltar, lá se recolher e, enfim, ocupar aquele espaço em branco na história da sua própria vida. Simbolicamente, segurei nas mãos daquele menino e disse a ele: "vem comigo, vai pra vida, Marco, sai da condição de vitima, perdoe as pessoas"; o abracei e o levei para me acompanhar durante o resto da visita: havia o encontro com o local onde minha mãe ficara internada e lá morrera.

Antes de encontrar meus amigos, fui ao arquivo saber da possibilidade de resgatar os prontuários dos atendimentos dados a mim e a minha mãe. Passei em frente ao local onde ficava a cantina que tanto gostava de frequentar quando ia ao HSE, onde normalmente pedia um suco de maracujá e um misto- quente ou coxinha de frango. Ela estava fechada, mas a fachada era a mesma.

Às 9:45 começamos a visitar à parte do hospital onde as pessoas ficavam internadas, onde eu vira minha mãe pela última vez. Atila, que lá trabalhava, nos conduziu num roteiro que só podia mesmo ter sido preparado por aquele ilustre senhor especializado em encontros, reencontros e desencontros feitos à revelia de nossas vontades: começaríamos pelas partes de baixo, depois iríamos ao ultimo andar e desceríamos até o sétimo andar, local onde ele trabalhava como técnico de enfermagem e onde minha mãe ficara, entre 1980 e 1981. Como quem livremente consentira com aquele reencontro, fiquei me controlando o tempo inteiro, conforme Atila ia me reapresentando aqueles locais algo já conhecido por mim: a recepção, os elevadores, o local de alta, o local de radioterapia etc. Ao chegar ao sétimo andar, ficou decidido que primeiro visitaríamos a Neurocirurgia e Neurologia -- onde ele trabalhava e onde faríamos as perguntas-chave do trabalho -- para depois visitar a Ginecologia, onde minha mãe ficara. Lá da Neurologia eu ficava contemplando o corredor que dava à Ginecologia, ansiando o reencontro. Tudo fora tão estranhamente preparado que acabamos por visitar cada sala do sétimo andar no intuito de conhecer a realidade operacional do local, as condições de trabalho das equipes médicas e dos pacientes e visualizar onde e como os psicólogos da saúde podem atuar.

Acabei voltando ao quarto onde há quase 37 anos, no dia 15 de setembro de 1981, vira minha mãe pela última vez, recebera seu último abraço e perguntara quando voltaria para casa e mais uma vez estranhara o estado em que a doença a deixara; onde na verdade ela só ficava deitada porque já não andava mais; onde eu ficava encantado pelo rádio que tinha na cabeceira e sempre estava sintonizado na radio-relógio e eu atentamente ouvia os contínuos tique-taque de um relógio, a voz anunciando a hora certa a cada minuto, os locutores dizendo "você sabia que tal coisa é assim ou assado. Você sabia?" e a anúncios como o de uma determinada empresa que cantava de galo com o preço de milho picado. A cama onde ela ficava era perto da janela e de onde se podia ver o morro em frente ao hospital, uma paisagem que não me pareceu nada familiar; lembro que à época eu ficava olhando para baixo, para a entrada, para o movimento na Sacadura Cabral.

Curiosamente, eu não chorei ao rever tudo aquilo, embora estivesse notoriamente afetado, falando bastante para compensar a emoção vivida. Talvez pelo fato de estar acompanhado daquele garoto de 12 anos ou pelo fato de meus colegas de turma não terem a menor noção de que o que para eles era uma novidade era para mim uma delicada reprise, um reencontro especial, meus comportamentos e reações tenham passado desapercebidos. De lá fomos ao prédio dos ambulatório e passamos no setor de psicologia onde tivemos a chance de conversar com a psicologa Eleonor Elizabeth, que entrara pouco depois de 1983 naquele setor e onde uma vez mais fui visitado por imagens do passado e por emoções que mexiam profundamente comigo.

Ironicamente, após mais uma ida ao HSE, voltei para Seropédica. Estava de carro e não precisei andar até a Praça Mauá para pegar um ônibus Tarifa A, que muito demorava a passar, mas mais rápido chegava, nem até a Central do Brasil para lá pegar um ônibus Tarifa B, que passava mais vezes e sempre demorava a chegar ao seu destino final. Acompanhado dos meus amigos e daquele menino de 12 anos, fomos à UFRRJ para tentar assistir uma aula de Ética na Psicologia e onde horas depois estarei dando aula até as 22:00 horas. Outros reencontros nos aguardam, pois pretendo resgatar os prontuários dos atendimentos que eu e Dona Tininha tivemos ali e espero que essa relação finalmente acabe. 

Às 22 e 30, cheguei à casa onde atualmente moro e que será a nova casa e lar daquele Marco que resgatei no Servidores do Estado. Ironicamente, parei meu carro justamente em frente à velha casa onde ele morou e de onde, simbolicamente falando, ele saíra há trinta e cinco anos para uma uma sessão de terapia e por lá ficara. Só então me dei conta de que naquele momento outro reencontro marcado acontecia.

domingo, 21 de maio de 2017

Sobre querer 'querer mudar'.

Seropédica, 21 de maio de 2017. Compartilho dois importantes momentos dessa semana e os significados de tê-los vivido. A ideia é contribuir para reflexões sobre os desafios de viver, de conseguir efetivar mudanças e as silenciosas e complexas lutas que todos travamos em nossa psique. Tais lutas podem ser levadas com mais facilidade quando temos o apoio de outras pessoas para pensar sobre como pensamos.

Hoje, aproximadamente quatorze meses depois que rompi os ligamentos do pé direito, consegui ir caminhando até a entrada do Instituto de Veterinária. Não senti dor, nem o medo de caminhar sozinho por aquelas paragens que deixavam-me inseguro. Até então, eu ia caminhando até a ponte da linha do trem. Quando lá chegava, sentia dores, medo de me machucar, de ser assaltado e ia me encolhendo progressivamente, chegando até a conceber padrões de pensamento como “eu tenho 46 anos, preciso entender que meu corpo não é mais o mesmo” ou “agora preciso me acostumar com essa nova fase da minha vida”.

Hoje eu fui caminhar, pensei em fazer meia volta, senti algumas dores, mas quando cheguei na ponte, fui em frente. Era necessário ir em frente, dar valor ao padrão de pensamento que me fez sair de casa, que é o de fazer mudanças na minha rotina e preparo para entrar com mais saúde e disposição para novos desafios que quero e vou me propor. Fui e senti-me muito bem, vencendo todos os medos e pensamentos que me prendiam ao pensamento que me conecta a um presente limitado e me deixa nostálgico de um tempo em que estive melhor. Há mais de um ano eu só consegui fazer esse percurso de bicicleta e nos horários mais cedo. Hoje foi às 18. Consegui.

Na quarta-feira, dia 17, fui operado e novamente enfrentei um fantasma: entrar na sala de cirurgia. A razão? Há aproximadamente 12 anos, fui com meu pai até a sala de cirurgia e, vendo-o tirar o relógio e me entregar, ouvi dele quando se abria a porta: “eu não volto. Cuide da Maluzinha e do Leozinho”. Ele foi operado, entrou em coma e partiu. Não nos falamos mais. Fiquei com aquela impressão da entrada da sala de cirurgia na mente. Passei por duas outras cirurgias, mas numa eu estava quase inconsciente e, na outra vez, no mesmo hospital onde fui operado no dia 17 e onde tive um problema sério, não teve momentos esperando que a tal porta se abrisse.  
 
Tudo na quarta-feira teve um requinte do destino. Pra começar, o maqueiro veio, cantou meu nome e disse: “hora de partir, Marco”. Olhei pra ele e disse: “hora de dar um passeio, meu amigo, e depois voltar”. Ele nada entendeu, claro. Ao chegar no mesmo local de 2015, ainda pensando sobre o partir e o dar um passeio, ele tocou uma companhia, afastou-se, deixando-me sozinho, sentado numa cadeira de roda, esperando que a porta se abrisse. Que padrão de pensamento ter naquele momento? O que devo pensar agora?, pensei. Eu agarrei-me ao “dar um passeio e voltar”, ao “confiar nas pessoas que estariam ali”, ao “esse desafio faz parte da minha luta para aprender a viver e entender os meus limites e os das pessoas”.  E tinha outro desafio: em 2015, após a cirurgia, já no quarto, tive um pico de queda de pressão forte que deixou-me em momentos de muitos apuros e risco de morte. Foram as enfermeiras que fizeram as manobras que me levantaram, soube depois.

Quando a porta se abriu, tive a péssima imagem de uma pessoa que acabara de ser operada, totalmente desacordada e vestida como recém-operado. Deixaram-me sentado de frente para o rosto dela, que esperava um maqueiro para ir ao quarto. Olhei seu rosto e virei. Mirei uma parte da sala, até que veio uma senhora e me levou à sala de cirurgia. Conversei com o anestesista sobre os riscos de um pico de pressão, sobre o procedimento e lentamente fechei os olhos e deixei de reagir à força que já me derrubava. Quando dei-me conta, voltava do passeio, ia para o quarto e a procura da face e voz da Rosangela, que me acompanhava.

Aprendo que toda mudança requer um padrão de pensamento que a dê suporte e enriqueça os seus significados. Há um querer 'querer mudar' que é fundamental nessas ocasiões em que transformações fazem-se necessárias em nossas vidas e não se chega a ele sem que antes tenhamos sentimentos de confiança nas pessoas, nas próprias possibilidades, de gratidão à vida e um real desejo de viver novas fases. São lutas sozinhas que travamos e, digo, procuremos ajuda. A minha era pequena e demorou muito, pois fui sozinho. Demorei a pensar sobre como pensava e o efeito dele sobre as mudanças que busco e preciso.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mudar a rota do pensamento na estrada da vida


Rio de Janeiro, 22 de julho de 2016. Estava em Vila Isabel, no estacionamento do colégio Nossa Senhora de Lourdes, esperando Malu sair da escola para passarmos o final de semana juntos. Havia um mês que não ficávamos juntos num final de semana.

Após lamentar uma vez mais a triste, feia e bagunçada paisagem que toma o pé do Morro da Mangueira, comecei a pensar no peso que lamentos e lamúrias tem sobre meu ânimo e sobre a condução dos dias, planos e projetos pessoais. Fico preso a este tipo de pensamento, lamentando por que as coisas não são diferentes nas inúmeras paisagens que formam o Rio de Janeiro que não é maravilhoso, na cidade esquecida, abandonada.

Comecei a pensar em não mais ficar preso a esses pensamentos, pois eles não mudam o resultado final do jogo, apenas o influenciam, e negativamente. Lamentos, lamúrias, não mudam a realidade, apenas aprisionam o nosso pensamento em instantes negativos. Eu tinha que mudar, estava definido. Minha filha saiu de sala. Depois de pegarmos sua mala em casa, teríamos alguns quilômetros até Seropédica e eu uma ótima chance para verificar o aprendizado.

A lição não foi totalmente internalizada. Saindo do Rio, peguei-me novamente na armadilha que propícia os pensamentos de lamento e as lamúrias: "Devo ir pela Av. Brasil ou pela Linha Vermelha? Devo pegar a Av. Brasil direto ou ir pela Nova Dutra? Se for pela Nova Dutra, pista lateral ou do meio? Qual é a melhor opção para mim ou onde perco menos hoje, sexta-feira?". Minutos tentando inutilmente jogar com a sorte. Eram 15 horas e preparava-me para sair de São Cristóvão. Não bastassem impostos e demais taxas, paguei uma vez mais esta inútil taxa que todos pagam em sua carência por uma cidade olímpica que, pelo menos, consiga informar seus cidadãos sobre o caminho onde perderão menos.

Optei pela Linha Vermelha e Rodovia Nova Dutra. Seguia o trânsito em bom estado que ele estava parado no final da Linha Vermelha, faltando pouco para chegar à rodovia. "Volume de tráfego, acidente, enguiço, blitz, tiroteio, o que explicava aquela retenção?", pensei. Pensamentos de lamento e lamúrias dominaram: “Como podem deixar que essas pessoas vivam dessa maneira e ao lado da pista expressa?” Quanto sujeira, bagunça, ajudando a enfeiar a paisagem e afetar ainda mais a autoestima dessas pessoas. “E se afastassem a faixa de casas mais uns 20 metros e fizessem ciclovia e arborização, dando a eles mais qualidade de vida?”, continuavam rápidos os pensamentos, enquanto o trânsito fluia bem devagar .

Pegar uma linha expressa no Rio é desafiar a ansiedade em um contexto de poucas opções de mudança de direção. As vias expressas são praticamente sufocadas pela cidade esquecida, cidade não maravilhosa: há poucas saídas e as que tem não são aconselháveis de se fazer uso. Não controlei os pensamentos, paguei mais das inúteis taxas, desse pedágio invisível que todo lamuriador paga pela estrada da vida. Lentamente chegamos à rodovia Nova Dutra. “Pego a pista do meio ou a lateral?”, pensei. Optei pela do meio, aparentemente fluindo. Parei logo a frente. Retenção.

Pensamentos, pensamentos e mais pensamentos, lamentando a escolha pela pista e o triste destino da paisagem de São João do Meriti, Mesquita e Belford Roxo. Peguei-me novamente pagando taxas desnecessárias, certificando que não aprendi nada do que realizei horas atrás no estacionamento do colégio Nossa Senhora de Lourdes.

Eu sei que preciso mudar, mas engarrafamentos conseguem afetar-me certeiramente. Preciso mudar, disse-me uma vez mais.

Cansado, com muito pouca energia mental para converter em mais taxas para ser bobo, contemplei Malu, minha linda filha. O trânsito estava parado e estávamos sem conversar fazia alguns bons minutos. Ela estava focada no celular, eu focado na direção do carro e dos pensamentos e reflexões. Tive ali a grande sacada, o código para viver bem estava claro e fácil de decifrar: que desperdício de vida em meio a um dos grandes espetáculos de desperdício de vida na modernidade: pai e filha parados num engarrafamento e calados, sem trocar, sem fazer fluir as energias positivas que os deixariam mais felizes.

Mudei a direção do pensamento, comecei a contemplar aquela criatura de 15 anos totalmente absorta em seu celular. Realizei que, ao invés de pagar taxas inúteis, o que eu deveria fazer era curtir minha filha, conversar com ela, aproveitar o pouco tempo que temos para estar juntos.

Estávamos novamente seguindo juntos por uma estrada da vida. Fazemos isso há quase treze anos. Nesse exercício prazeroso de pensar, olhei para o retrovisor e voltei àqueles anos em que ela estaria sentada numa cadeirinha no banco de trás, sorrindo para mim ou dormindo ou olhando para todos os lados e perguntando se faltava muito ou se já tinha chegado. Voltei ao tempo em que, alguns anos mais velha, ela estaria ‘sentada na cadeira do capitão da nave’, dando ordens para que eu, o atirador, abatesse as naves inimigas em que se transformavam os caminhos e ônibus a frente. Além de dirigir, eu era um dedicado soldado. Voltei ao tempo em que ela já tinha idade para ir no banco do carona e ia cuidando das trilhas musicais das aventuras que sempre foram nossas viagens. Foi ali que aprendemos a compartilhar a paixão por Beatles e MPB. Era ela quem escolhia o que íamos ouvir e pegamos muito mais trânsito livre do que engarrafado.

O tempo passou e cá estávamos, parados na Nova Dutra, em Mesquita, sem conversar e eu, já chorando, a contemplá-la. Toca Hotel Califórnia, do Eagles, ela canta inteira e em bom inglês, sem parar de teclar o celular. O trânsito segue devagar. Minutos depois, ela começa a cantar Après un Revê, em límpido francês, preparando-se para a aula de canto da semana seguinte. Após receber pelo celular a notícia de um atentado em Munique, Alemanha, ela volta-se para mim e começa a falar dos sentimentos que a visitam com as ações do Estado Islâmico, a violência no Rio de Janeiro e preocupação com a política brasileira e o governo golpista de Temer, palavras delas. Em poucos minutos falamos disso tudo. Açodada com o colégio, onde estuda de 7:10 às 13:30, confessa para pra mim que está preocupada, cansada e com medo.

Olhei para o carro a minha frente e realizei: a menina cresceu; Malu está virando uma linda e inteligente mulher, e tem todos os atributos para se tornar um ser humano interessante e contribuir para um mundo melhor.

Não posso deixar que ela pague as taxas, esses pedágios desnecessários que paguei até aqui e que tanto pesaram em minha alegria e respostas aos desafios da vida. Se não me impediram de ter uma vida muito boa, tal estúpido esforço fiscal me impediu de torná-la ainda melhor. Ela aprendeu o hábito de ficar presa em lamentos, em ficar lamuriando, de pensar em como as coisas poderiam ser diferentes, esquecendo-se de pensar e fazer coisas para mudar o jogo enquanto ele ocorre, para tornar a vida que ainda temos para viver mais interessante. Parabenizei-a pela maturidade e relevância dos pensamentos, procurei passar para ela uma visão mais positiva do futuro, de que o tempo dela é diferente do meu e que sua geração tem mais recursos para fazer as coisas acontecerem. Falei das habilidades e competências que ela está desenvolvendo e que vão ajudar no seu desafio.

A conversa mudou de tom, ganhou outro paladar: minha grande companheira de viagem, a pessoa com quem mais viajei nesta vida, estava com quinze anos e tem novos ingredientes a colocar na mistura que nos alimenta pelas estradas e na estrada da vida.

Mudar a direção dos meus pensamentos fez toda diferença. Fiz de tudo para tornar agradáveis nossos parcos momentos. As opções que fiz na vida fizeram com que eu tivesse menos tempo com ela e, ao invés de lamentar ou desperdiçar meu tempo com pensamentos que não mudam o resultado final do jogo, eu preciso pensar e fazer coisas que tornem nossos momentos mais interessantes, ainda que em engarrafamentos. Pois a vida, sob um ângulo mais prático, não é muito mais que uma rica coleção de momentos a serem experimentados durante as escolhas que fazemos de caminhos a percorrer, estradas a seguir.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dia de mães

Por mais que eu me esforce para que não aconteça, os dias que antecedem e procedem o dia das mães me afetam, mexem com meus sentimentos, tocam com insistência nas portas e janelas da casinha onde repousam minhas lembranças. Mas não são necessariamente lembranças pesadas, doídas. Algumas das lembranças que na casinha residem são leves, boas, reconfortantes, pois marcam contextos de revoluções positivas que ocorreram em minha vida. Revoluções que surgiram a partir de releituras e reinterpretação voluntárias que fiz daquilo que a vida me apresentou.

De fato, os temas mãe e maternidade não estão entre os mais fáceis de serem lidados por nós. No delicado tecido psíquico, eles ganham espaço para inscrições e impressões únicas, bem peculiares, delimitando um território perigoso de ser explorado. Entretanto, por várias razões, a minha relação com esses temas e território, além de densa, também tem sua leveza e fluidez, pois é marcada por interessantes aprendizagens que tive para produzir e experimentar alegria e bem estar em vida e que sobressaíram às experiências de dor, desconforto e mal estar que também me fizeram visita desde a infância. É com bastante naturalidade que assumo que qualquer toque nesses temas e território desperta reação marcada por contradição: tem dor, lágrimas, mas também alegria, conforto, esperança. 



Neste ano farão 35 anos que minha mãe faleceu. Tenho poucos registros fotográficos com ela. A sua ausência – se já não é tão dolorida como antes, se emergiram outras leituras menos densas sobre isso – ainda é lastimada, provoca desconfortos, ainda incita questionamento fugidios, imaturos na essência, sobre essa lógica apresentada pela vida de mexer com o que mais nos aprazeria na tensa e tóxica relação entre encontros e despedidas.

Em verdade, tudo seria melhor se não houvesse: mudança na ordem de quem chega ou vai, pressa para partidas, muitas ansiedades nas chegadas ou dores na despedida. Ambas causam ansiedade, mas a despedida me faz mais mal, ainda me provoca. Recorrendo a uma imagem, diria que a danada da despedida passa seu lenço de maneira irônica sobre meu rosto à beira da estação e sai correndo para dentro do trem.

Falo em ausência e falecimento, mas um dia questionei-me se não era um ‘distanciamento técnico’ dela do cenário em que atuamos como mãe e filho. Prefiro ‘distanciamento técnico’ e o seu uso já revela uma mudança radical na maneira como interpreto essa realidade complicada que todos tem que enfrentar: o falecimento ou perda de alguém que muito amamos. 

Um dia essa mudança de interpretação ocorreu em mim: não posso transformar ou mentir para mim dizendo que algo que foi triste e me marcou virou algo alegre, mas posso fazer com que os pensamentos relativos a esse algo não sejam tão sofríveis e negativos e disparem sentimentos de dor e tristeza. Funcionou bem essa perspectiva de que eu minha mãe nos distanciamos tecnicamente do cenário onde atuávamos, de que o espetáculo continuava, de que contracenávamos sim e de outra maneira.

E tal perspectiva emerge de outros questionamentos e aprendizagens que tive. Será que ao morrer, morremos em todos os sentidos? Ou quando morremos, física e biologicamente, imediatamente ganhamos o status de um signo que, com absurda força de vida, influencia, a uma ‘distância técnica’, a vida dos que conosco relacionam-se em condições de proximidade única, como mãe e filho(s), pai e filho(s), avós e neto(s)? Signo este que tem uma distinta posição na memória das pessoas, nesse território tênue e repleto de inscrições e impressões. Creio que isso tenha acontecido entre mim e minha mãe: surpreendentemente, ela continuou influenciando a minha vida e, quando me dei conta disso, experimentei outra revoluções em minha vida. De fato, ela influenciou-me bastante depois que virou signo central no universo de significações que geram sentido à minha vida.

As lembranças com minha mãe são cada vez mais escassas, mas as dos dias que fiquei sem ela ainda abundam. Convivi com ela meros 10 anos; sentindo sua falta já estou há 35 anos. Como eram ruins os dias das mães. Como eu odiava a comemoração deles na escola. Talvez de modo instintivo ou por influência dela na direção do espetáculo, realizei que isso tinha que mudar, que eu releria esta data, que eu não podia tê-la somando-se ao dia de finados e a outras datas esquecíveis para completar o calendário das minhas tristezas e desesperanças com a vida. Assim emerge outra releitura, não muito fácil, mas providencial para sobreviver.

Quando criança eu pouco sabia e soube da minha mãe. O que eu vivia mesmo era o calor da presença e tudo o que ela representava, fazia e produzia na maneira como eu experimentava a vida. A maioria disso foi para o inconsciente. Quando ela ‘distanciou-se tecnicamente’, o calor se perdeu, a coisa de experimentar a vida deixou de ser positiva. Eu fui conhecê-la mesmo depois, e por meio dos outros, das narrativas deles sobre a pessoa que ela era, sobre a vida que levou, sobre o que pensava fazer na vida e como fez o pouco que a vida lhe deu oportunidade para fazer.

E que descoberta da minha mãe eu tive! A criança sentiu falta, o adolescente e o adulto também sentiram, conforme iam conhecendo a grandeza da mãe que tiveram. Foi dolorida a materialização do tal ‘distanciamento técnico’, mas foi muito especial entender como ela influenciou minha vida depois. Conforme eu a conhecia melhor, algo ia mudando na minha maneira de sentir, pensar e responder à vida. Ter uma mãe especial foi uma das sortes diferenciadas que tive na vida e que ajudam a explicar muito das coisas boas que me acontecem ou que fiz acontecer ao ter iniciativa para produzir a alegria e bem estar que acreditava merecer. Sim, isso não teria acontecido se eu não tivesse ido até os parentes e conhecidos para que me falassem dela. Fui às raízes, aproximei-me da minha família, abri-me aos conhecidos, até porque meu pai ficava sem jeito de falar da minha mãe.

Este fato interessante influenciou outra revolução em minha vida. Raramente me lembro de um carinho dela em mim, mas sempre que estive e estou em apuros lembro-me das histórias que me contaram de como ela enfrentou o câncer. Numa delas, ainda que doente, sabedora do que a esperava, e sentindo o peso da doença, ela insistia em ir às aulas no colégio onde estudava para recuperar o tempo perdido com a infância pobre. Os professores tinham pena, diziam para não ir, mas ela dizia que ir à aula era um gesto simbólico para mandar um recado à doença de que o jogo não tinha acabado. Quando ouvi isso pela primeira vez, eu nasci de novo, vim novamente para a vida. Sentir isso foi revolucionário em minha vida.

E isso aconteceu todas as vezes que tive acesso às crônicas de sua curta, brilhante, dolorida vida de 37 anos. A cada renascimento que experimento, eu subscrevo um acordo tácito que se estabeleceu entre mim e ela, que basicamente consiste de uma cláusula, como se ela me dissesse: “Marco, uma vez aqui, descontente com a realidade que vive, incida sobre ela: sonhe, tente, faça, não desista fácil”. Ou será que ela me disse isso em alguma instância dos nossos 10 anos de encontro e eu não me recordo?. E foi isso que ela tentou fazer: incidir sobre a realidade que a descontentava e criar novas realidades. Bem, não teve jeito, levei isso pra vida. Contrato sempre renovado.

E como é fascinante e revolucionária esta perspectiva: entender que minha mãe me pôs no mundo uma vez, e que me deu à luz outras vezes. Uma vez de maneira objetiva e todas as outras vezes de maneira simbólica; uma vez direto do seu ventre e outras vezes direto do ventre figurado que me rodeava e que só senti e descobri sua existência bem depois. Aprendi com esta descoberta um novo viés para o significado de desejar a alguém a felicidade que ele ou ela conhece e a que ele ou ela nem imagina existir. Esta descoberta, aliás, foi senha para outra descoberta também revolucionária e também ligada à figura da mãe, ao exercício da maternidade.

Conforme foi assentando-se o distanciamento técnico da minha mãe do cenário onde atuávamos, conforme eu me fortalecia para produzir alegria e bem estar, conforme renascia, eu realizava outra perspectiva interessante: ao perder a minha mãe, eu ganhei todas as boas mães do mundo. Uma vez exposto aos riscos do ‘distanciamento técnico’, muitas mães me acolheram e me deram atenção, provendo-me os elementos de alegria e bem estar que eu ainda não sabia produzir voluntariamente.

Mais: ganhei um senso claro da experiência maternidade. Eu passei a ter mais sensibilidade e consciência para e da experiência da maternidade, gerando-me habilidade para lidar com as mães do mundo, mas principalmente com as mães que me tornaram pai. Algumas das situações que afetaram significativamente a experiência de homem e de pai que tenho atualmente só aconteceram porque fui capaz de me colocar no lugar das mulheres e das mães com quem contracenei, de submeter os meus quereres e interesses individuais ao que seria um melhor resultado global. Eu sempre entendi que o melhor que eu poderia fazer aos meus filhos passava primeiro por não fazer mal às suas mães. Além de amá-las, elas fizeram-me pai.

Com o tempo ganhei habilidade para lidar com um dos maiores desafios da minha vida: a naturalização da figura, da presença e do relacionamento com a madrasta. Este senso claro da maternidade contribuiu muito para que eu e Alice experimentássemos uma melhoria significativa na qualidade da nossa relação de madrasta e enteado. Eu -- e creio que tenha ocorrido com ela também -- aprendi a prestigiar muito mais a contribuição do que nos era possível fazer, do que ficar pautando nossos dias em torno do que não ocorria devido às nossas limitações. E ela fez bastante por mim durante os anos que passaram.

Já no momento crítico do início do ‘distanciamento técnico’, naquela quinta-feira de 17 de setembro de 1981, muitas mães me acudiram. Quando me tiraram do Colégio Fernando Costa e deixaram-me na casa da tia Ana, ela própria, Darci e Neusa me puseram nos ‘ventres que seus braços formavam’ enquanto me abraçavam e davam a triste notícia. Eu estava em berços plenos e seguros naquele momento triste, confuso. Como podiam, todas as outras tias e primas vieram me acolher nos dias e anos que seguiram: foi assim que ganhei mães tão especiais nas tias Iris, Maria José, Mariana, Terezinha, Julinha, Petita, Diná e Cida; foi assim que Irene e Chiquita me recebiam na casa delas quando meu pai me deixava lá nas férias e nos finais de semana; foi assim que ganhei uma mãe na tia Beth, em Muriaé, e na dona Tereza, em Paracambi;  foi assim com a madrinha Dorinha que -- vendo-me obeso, pequeno, exposto e frágil -- levava-me ao médico para consultas e exames, lutava para me alimentar com legumes e verduras para que eu vencesse recorrentes problemas no sangue e cuja causa só conheci bem mais tarde; foi assim que a vó Sebastiana também foi minha mãe; é assim que Rosângela, por vezes, exerce seu amor de mãe comigo; foi assim que tive mães especiais nas tias Naná e Conceição – ah, com elas passei momentos diferenciados, tivemos um grau de liberdade e confiança para falar de coisas extremamente sérias sobre nossas vidas.

Especialmente, fui adotado por outras mães – mães de amigos – que desempenharam papel central em minhas vidas. Foi assim com a tia Ilza, mãe do Márcio que, em 1983, vendo-me perdido durante as tardes, levou-me várias vezes para dentro de sua casa para lá estudar, alimentar e ter supervisão. Foi assim com a tia Severina, mãe do Betinho, que, vendo meus sérios problemas dentários, acordava de madrugada aos sábados para marcar lugar na fila do dentista Castanheira e negociava com ele preços melhores para mim. Ela saia de madrugada, marcava o dentista, voltava, acordava-me, servia-me café e eu ia cuidar do tratamento. Fora isso, inúmeras outras vezes comi e dormi em sua casa, inúmeras vezes ela e o 'lar' me acolheram. 


Sou muito grato à experiência com a maternidade. Sou grato à minha mãe, às mães que me acolheram quando mais precisei, àquelas que subitamente emergiam nas mulheres que me amavam e às que desesperada e equivocadamente busquei em todas as mulheres com quem me relacionei -- neste caso, não encontrá-las tornou-me mais forte, ajudou-me a tornar-me homem. 

Há algo a celebrar no meu dia de mães e peço mil desculpas às mães que esqueci de mencionar. Mas sei que elas se sentem representadas quando falo de todas as boas mães do mundo.