domingo, 21 de maio de 2017

Sobre querer 'querer mudar'.

Seropédica, 21 de maio de 2017. Compartilho dois importantes momentos dessa semana e os significados de tê-los vivido. A ideia é contribuir para reflexões sobre os desafios de viver, de conseguir efetivar mudanças e as silenciosas e complexas lutas que todos travamos em nossa psique. Tais lutas podem ser levadas com mais facilidade quando temos o apoio de outras pessoas para pensar sobre como pensamos.

Hoje, aproximadamente quatorze meses depois que rompi os ligamentos do pé direito, consegui ir caminhando até a entrada do Instituto de Veterinária. Não senti dor, nem o medo de caminhar sozinho por aquelas paragens que deixavam-me inseguro. Até então, eu ia caminhando até a ponte da linha do trem. Quando lá chegava, sentia dores, medo de me machucar, de ser assaltado e ia me encolhendo progressivamente, chegando até a conceber padrões de pensamento como “eu tenho 46 anos, preciso entender que meu corpo não é mais o mesmo” ou “agora preciso me acostumar com essa nova fase da minha vida”.

Hoje eu fui caminhar, pensei em fazer meia volta, senti algumas dores, mas quando cheguei na ponte, fui em frente. Era necessário ir em frente, dar valor ao padrão de pensamento que me fez sair de casa, que é o de fazer mudanças na minha rotina e preparo para entrar com mais saúde e disposição para novos desafios que quero e vou me propor. Fui e senti-me muito bem, vencendo todos os medos e pensamentos que me prendiam ao pensamento que me conecta a um presente limitado e me deixa nostálgico de um tempo em que estive melhor. Há mais de um ano eu só consegui fazer esse percurso de bicicleta e nos horários mais cedo. Hoje foi às 18. Consegui.

Na quarta-feira, dia 17, fui operado e novamente enfrentei um fantasma: entrar na sala de cirurgia. A razão? Há aproximadamente 12 anos, fui com meu pai até a sala de cirurgia e, vendo-o tirar o relógio e me entregar, ouvi dele quando se abria a porta: “eu não volto. Cuide da Maluzinha e do Leozinho”. Ele foi operado, entrou em coma e partiu. Não nos falamos mais. Fiquei com aquela impressão da entrada da sala de cirurgia na mente. Passei por duas outras cirurgias, mas numa eu estava quase inconsciente e, na outra vez, no mesmo hospital onde fui operado no dia 17 e onde tive um problema sério, não teve momentos esperando que a tal porta se abrisse.  
 
Tudo na quarta-feira teve um requinte do destino. Pra começar, o maqueiro veio, cantou meu nome e disse: “hora de partir, Marco”. Olhei pra ele e disse: “hora de dar um passeio, meu amigo, e depois voltar”. Ele nada entendeu, claro. Ao chegar no mesmo local de 2015, ainda pensando sobre o partir e o dar um passeio, ele tocou uma companhia, afastou-se, deixando-me sozinho, sentado numa cadeira de roda, esperando que a porta se abrisse. Que padrão de pensamento ter naquele momento? O que devo pensar agora?, pensei. Eu agarrei-me ao “dar um passeio e voltar”, ao “confiar nas pessoas que estariam ali”, ao “esse desafio faz parte da minha luta para aprender a viver e entender os meus limites e os das pessoas”.  E tinha outro desafio: em 2015, após a cirurgia, já no quarto, tive um pico de queda de pressão forte que deixou-me em momentos de muitos apuros e risco de morte. Foram as enfermeiras que fizeram as manobras que me levantaram, soube depois.

Quando a porta se abriu, tive a péssima imagem de uma pessoa que acabara de ser operada, totalmente desacordada e vestida como recém-operado. Deixaram-me sentado de frente para o rosto dela, que esperava um maqueiro para ir ao quarto. Olhei seu rosto e virei. Mirei uma parte da sala, até que veio uma senhora e me levou à sala de cirurgia. Conversei com o anestesista sobre os riscos de um pico de pressão, sobre o procedimento e lentamente fechei os olhos e deixei de reagir à força que já me derrubava. Quando dei-me conta, voltava do passeio, ia para o quarto e a procura da face e voz da Rosangela, que me acompanhava.

Aprendo que toda mudança requer um padrão de pensamento que a dê suporte e enriqueça os seus significados. Há um querer 'querer mudar' que é fundamental nessas ocasiões em que transformações fazem-se necessárias em nossas vidas e não se chega a ele sem que antes tenhamos sentimentos de confiança nas pessoas, nas próprias possibilidades, de gratidão à vida e um real desejo de viver novas fases. São lutas sozinhas que travamos e, digo, procuremos ajuda. A minha era pequena e demorou muito, pois fui sozinho. Demorei a pensar sobre como pensava e o efeito dele sobre as mudanças que busco e preciso.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mudar a rota do pensamento na estrada da vida


Rio de Janeiro, 22 de julho de 2016. Estava em Vila Isabel, no estacionamento do colégio Nossa Senhora de Lourdes, esperando Malu sair da escola para passarmos o final de semana juntos. Havia um mês que não ficávamos juntos num final de semana.

Após lamentar uma vez mais a triste, feia e bagunçada paisagem que toma o pé do Morro da Mangueira, comecei a pensar no peso que lamentos e lamúrias tem sobre meu ânimo e sobre a condução dos dias, planos e projetos pessoais. Fico preso a este tipo de pensamento, lamentando por que as coisas não são diferentes nas inúmeras paisagens que formam o Rio de Janeiro que não é maravilhoso, na cidade esquecida, abandonada.

Comecei a pensar em não mais ficar preso a esses pensamentos, pois eles não mudam o resultado final do jogo, apenas o influenciam, e negativamente. Lamentos, lamúrias, não mudam a realidade, apenas aprisionam o nosso pensamento em instantes negativos. Eu tinha que mudar, estava definido. Minha filha saiu de sala. Depois de pegarmos sua mala em casa, teríamos alguns quilômetros até Seropédica e eu uma ótima chance para verificar o aprendizado.

A lição não foi totalmente internalizada. Saindo do Rio, peguei-me novamente na armadilha que propícia os pensamentos de lamento e as lamúrias: "Devo ir pela Av. Brasil ou pela Linha Vermelha? Devo pegar a Av. Brasil direto ou ir pela Nova Dutra? Se for pela Nova Dutra, pista lateral ou do meio? Qual é a melhor opção para mim ou onde perco menos hoje, sexta-feira?". Minutos tentando inutilmente jogar com a sorte. Eram 15 horas e preparava-me para sair de São Cristóvão. Não bastassem impostos e demais taxas, paguei uma vez mais esta inútil taxa que todos pagam em sua carência por uma cidade olímpica que, pelo menos, consiga informar seus cidadãos sobre o caminho onde perderão menos.

Optei pela Linha Vermelha e Rodovia Nova Dutra. Seguia o trânsito em bom estado que ele estava parado no final da Linha Vermelha, faltando pouco para chegar à rodovia. "Volume de tráfego, acidente, enguiço, blitz, tiroteio, o que explicava aquela retenção?", pensei. Pensamentos de lamento e lamúrias dominaram: “Como podem deixar que essas pessoas vivam dessa maneira e ao lado da pista expressa?” Quanto sujeira, bagunça, ajudando a enfeiar a paisagem e afetar ainda mais a autoestima dessas pessoas. “E se afastassem a faixa de casas mais uns 20 metros e fizessem ciclovia e arborização, dando a eles mais qualidade de vida?”, continuavam rápidos os pensamentos, enquanto o trânsito fluia bem devagar .

Pegar uma linha expressa no Rio é desafiar a ansiedade em um contexto de poucas opções de mudança de direção. As vias expressas são praticamente sufocadas pela cidade esquecida, cidade não maravilhosa: há poucas saídas e as que tem não são aconselháveis de se fazer uso. Não controlei os pensamentos, paguei mais das inúteis taxas, desse pedágio invisível que todo lamuriador paga pela estrada da vida. Lentamente chegamos à rodovia Nova Dutra. “Pego a pista do meio ou a lateral?”, pensei. Optei pela do meio, aparentemente fluindo. Parei logo a frente. Retenção.

Pensamentos, pensamentos e mais pensamentos, lamentando a escolha pela pista e o triste destino da paisagem de São João do Meriti, Mesquita e Belford Roxo. Peguei-me novamente pagando taxas desnecessárias, certificando que não aprendi nada do que realizei horas atrás no estacionamento do colégio Nossa Senhora de Lourdes.

Eu sei que preciso mudar, mas engarrafamentos conseguem afetar-me certeiramente. Preciso mudar, disse-me uma vez mais.

Cansado, com muito pouca energia mental para converter em mais taxas para ser bobo, contemplei Malu, minha linda filha. O trânsito estava parado e estávamos sem conversar fazia alguns bons minutos. Ela estava focada no celular, eu focado na direção do carro e dos pensamentos e reflexões. Tive ali a grande sacada, o código para viver bem estava claro e fácil de decifrar: que desperdício de vida em meio a um dos grandes espetáculos de desperdício de vida na modernidade: pai e filha parados num engarrafamento e calados, sem trocar, sem fazer fluir as energias positivas que os deixariam mais felizes.

Mudei a direção do pensamento, comecei a contemplar aquela criatura de 15 anos totalmente absorta em seu celular. Realizei que, ao invés de pagar taxas inúteis, o que eu deveria fazer era curtir minha filha, conversar com ela, aproveitar o pouco tempo que temos para estar juntos.

Estávamos novamente seguindo juntos por uma estrada da vida. Fazemos isso há quase treze anos. Nesse exercício prazeroso de pensar, olhei para o retrovisor e voltei àqueles anos em que ela estaria sentada numa cadeirinha no banco de trás, sorrindo para mim ou dormindo ou olhando para todos os lados e perguntando se faltava muito ou se já tinha chegado. Voltei ao tempo em que, alguns anos mais velha, ela estaria ‘sentada na cadeira do capitão da nave’, dando ordens para que eu, o atirador, abatesse as naves inimigas em que se transformavam os caminhos e ônibus a frente. Além de dirigir, eu era um dedicado soldado. Voltei ao tempo em que ela já tinha idade para ir no banco do carona e ia cuidando das trilhas musicais das aventuras que sempre foram nossas viagens. Foi ali que aprendemos a compartilhar a paixão por Beatles e MPB. Era ela quem escolhia o que íamos ouvir e pegamos muito mais trânsito livre do que engarrafado.

O tempo passou e cá estávamos, parados na Nova Dutra, em Mesquita, sem conversar e eu, já chorando, a contemplá-la. Toca Hotel Califórnia, do Eagles, ela canta inteira e em bom inglês, sem parar de teclar o celular. O trânsito segue devagar. Minutos depois, ela começa a cantar Après un Revê, em límpido francês, preparando-se para a aula de canto da semana seguinte. Após receber pelo celular a notícia de um atentado em Munique, Alemanha, ela volta-se para mim e começa a falar dos sentimentos que a visitam com as ações do Estado Islâmico, a violência no Rio de Janeiro e preocupação com a política brasileira e o governo golpista de Temer, palavras delas. Em poucos minutos falamos disso tudo. Açodada com o colégio, onde estuda de 7:10 às 13:30, confessa para pra mim que está preocupada, cansada e com medo.

Olhei para o carro a minha frente e realizei: a menina cresceu; Malu está virando uma linda e inteligente mulher, e tem todos os atributos para se tornar um ser humano interessante e contribuir para um mundo melhor.

Não posso deixar que ela pague as taxas, esses pedágios desnecessários que paguei até aqui e que tanto pesaram em minha alegria e respostas aos desafios da vida. Se não me impediram de ter uma vida muito boa, tal estúpido esforço fiscal me impediu de torná-la ainda melhor. Ela aprendeu o hábito de ficar presa em lamentos, em ficar lamuriando, de pensar em como as coisas poderiam ser diferentes, esquecendo-se de pensar e fazer coisas para mudar o jogo enquanto ele ocorre, para tornar a vida que ainda temos para viver mais interessante. Parabenizei-a pela maturidade e relevância dos pensamentos, procurei passar para ela uma visão mais positiva do futuro, de que o tempo dela é diferente do meu e que sua geração tem mais recursos para fazer as coisas acontecerem. Falei das habilidades e competências que ela está desenvolvendo e que vão ajudar no seu desafio.

A conversa mudou de tom, ganhou outro paladar: minha grande companheira de viagem, a pessoa com quem mais viajei nesta vida, estava com quinze anos e tem novos ingredientes a colocar na mistura que nos alimenta pelas estradas e na estrada da vida.

Mudar a direção dos meus pensamentos fez toda diferença. Fiz de tudo para tornar agradáveis nossos parcos momentos. As opções que fiz na vida fizeram com que eu tivesse menos tempo com ela e, ao invés de lamentar ou desperdiçar meu tempo com pensamentos que não mudam o resultado final do jogo, eu preciso pensar e fazer coisas que tornem nossos momentos mais interessantes, ainda que em engarrafamentos. Pois a vida, sob um ângulo mais prático, não é muito mais que uma rica coleção de momentos a serem experimentados durante as escolhas que fazemos de caminhos a percorrer, estradas a seguir.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dia de mães

Por mais que eu me esforce para que não aconteça, os dias que antecedem e procedem o dia das mães me afetam, mexem com meus sentimentos, tocam com insistência nas portas e janelas da casinha onde repousam minhas lembranças. Mas não são necessariamente lembranças pesadas, doídas. Algumas das lembranças que na casinha residem são leves, boas, reconfortantes, pois marcam contextos de revoluções positivas que ocorreram em minha vida. Revoluções que surgiram a partir de releituras e reinterpretação voluntárias que fiz daquilo que a vida me apresentou.

De fato, os temas mãe e maternidade não estão entre os mais fáceis de serem lidados por nós. No delicado tecido psíquico, eles ganham espaço para inscrições e impressões únicas, bem peculiares, delimitando um território perigoso de ser explorado. Entretanto, por várias razões, a minha relação com esses temas e território, além de densa, também tem sua leveza e fluidez, pois é marcada por interessantes aprendizagens que tive para produzir e experimentar alegria e bem estar em vida e que sobressaíram às experiências de dor, desconforto e mal estar que também me fizeram visita desde a infância. É com bastante naturalidade que assumo que qualquer toque nesses temas e território desperta reação marcada por contradição: tem dor, lágrimas, mas também alegria, conforto, esperança. 



Neste ano farão 35 anos que minha mãe faleceu. Tenho poucos registros fotográficos com ela. A sua ausência – se já não é tão dolorida como antes, se emergiram outras leituras menos densas sobre isso – ainda é lastimada, provoca desconfortos, ainda incita questionamento fugidios, imaturos na essência, sobre essa lógica apresentada pela vida de mexer com o que mais nos aprazeria na tensa e tóxica relação entre encontros e despedidas.

Em verdade, tudo seria melhor se não houvesse: mudança na ordem de quem chega ou vai, pressa para partidas, muitas ansiedades nas chegadas ou dores na despedida. Ambas causam ansiedade, mas a despedida me faz mais mal, ainda me provoca. Recorrendo a uma imagem, diria que a danada da despedida passa seu lenço de maneira irônica sobre meu rosto à beira da estação e sai correndo para dentro do trem.

Falo em ausência e falecimento, mas um dia questionei-me se não era um ‘distanciamento técnico’ dela do cenário em que atuamos como mãe e filho. Prefiro ‘distanciamento técnico’ e o seu uso já revela uma mudança radical na maneira como interpreto essa realidade complicada que todos tem que enfrentar: o falecimento ou perda de alguém que muito amamos. 

Um dia essa mudança de interpretação ocorreu em mim: não posso transformar ou mentir para mim dizendo que algo que foi triste e me marcou virou algo alegre, mas posso fazer com que os pensamentos relativos a esse algo não sejam tão sofríveis e negativos e disparem sentimentos de dor e tristeza. Funcionou bem essa perspectiva de que eu minha mãe nos distanciamos tecnicamente do cenário onde atuávamos, de que o espetáculo continuava, de que contracenávamos sim e de outra maneira.

E tal perspectiva emerge de outros questionamentos e aprendizagens que tive. Será que ao morrer, morremos em todos os sentidos? Ou quando morremos, física e biologicamente, imediatamente ganhamos o status de um signo que, com absurda força de vida, influencia, a uma ‘distância técnica’, a vida dos que conosco relacionam-se em condições de proximidade única, como mãe e filho(s), pai e filho(s), avós e neto(s)? Signo este que tem uma distinta posição na memória das pessoas, nesse território tênue e repleto de inscrições e impressões. Creio que isso tenha acontecido entre mim e minha mãe: surpreendentemente, ela continuou influenciando a minha vida e, quando me dei conta disso, experimentei outra revoluções em minha vida. De fato, ela influenciou-me bastante depois que virou signo central no universo de significações que geram sentido à minha vida.

As lembranças com minha mãe são cada vez mais escassas, mas as dos dias que fiquei sem ela ainda abundam. Convivi com ela meros 10 anos; sentindo sua falta já estou há 35 anos. Como eram ruins os dias das mães. Como eu odiava a comemoração deles na escola. Talvez de modo instintivo ou por influência dela na direção do espetáculo, realizei que isso tinha que mudar, que eu releria esta data, que eu não podia tê-la somando-se ao dia de finados e a outras datas esquecíveis para completar o calendário das minhas tristezas e desesperanças com a vida. Assim emerge outra releitura, não muito fácil, mas providencial para sobreviver.

Quando criança eu pouco sabia e soube da minha mãe. O que eu vivia mesmo era o calor da presença e tudo o que ela representava, fazia e produzia na maneira como eu experimentava a vida. A maioria disso foi para o inconsciente. Quando ela ‘distanciou-se tecnicamente’, o calor se perdeu, a coisa de experimentar a vida deixou de ser positiva. Eu fui conhecê-la mesmo depois, e por meio dos outros, das narrativas deles sobre a pessoa que ela era, sobre a vida que levou, sobre o que pensava fazer na vida e como fez o pouco que a vida lhe deu oportunidade para fazer.

E que descoberta da minha mãe eu tive! A criança sentiu falta, o adolescente e o adulto também sentiram, conforme iam conhecendo a grandeza da mãe que tiveram. Foi dolorida a materialização do tal ‘distanciamento técnico’, mas foi muito especial entender como ela influenciou minha vida depois. Conforme eu a conhecia melhor, algo ia mudando na minha maneira de sentir, pensar e responder à vida. Ter uma mãe especial foi uma das sortes diferenciadas que tive na vida e que ajudam a explicar muito das coisas boas que me acontecem ou que fiz acontecer ao ter iniciativa para produzir a alegria e bem estar que acreditava merecer. Sim, isso não teria acontecido se eu não tivesse ido até os parentes e conhecidos para que me falassem dela. Fui às raízes, aproximei-me da minha família, abri-me aos conhecidos, até porque meu pai ficava sem jeito de falar da minha mãe.

Este fato interessante influenciou outra revolução em minha vida. Raramente me lembro de um carinho dela em mim, mas sempre que estive e estou em apuros lembro-me das histórias que me contaram de como ela enfrentou o câncer. Numa delas, ainda que doente, sabedora do que a esperava, e sentindo o peso da doença, ela insistia em ir às aulas no colégio onde estudava para recuperar o tempo perdido com a infância pobre. Os professores tinham pena, diziam para não ir, mas ela dizia que ir à aula era um gesto simbólico para mandar um recado à doença de que o jogo não tinha acabado. Quando ouvi isso pela primeira vez, eu nasci de novo, vim novamente para a vida. Sentir isso foi revolucionário em minha vida.

E isso aconteceu todas as vezes que tive acesso às crônicas de sua curta, brilhante, dolorida vida de 37 anos. A cada renascimento que experimento, eu subscrevo um acordo tácito que se estabeleceu entre mim e ela, que basicamente consiste de uma cláusula, como se ela me dissesse: “Marco, uma vez aqui, descontente com a realidade que vive, incida sobre ela: sonhe, tente, faça, não desista fácil”. Ou será que ela me disse isso em alguma instância dos nossos 10 anos de encontro e eu não me recordo?. E foi isso que ela tentou fazer: incidir sobre a realidade que a descontentava e criar novas realidades. Bem, não teve jeito, levei isso pra vida. Contrato sempre renovado.

E como é fascinante e revolucionária esta perspectiva: entender que minha mãe me pôs no mundo uma vez, e que me deu à luz outras vezes. Uma vez de maneira objetiva e todas as outras vezes de maneira simbólica; uma vez direto do seu ventre e outras vezes direto do ventre figurado que me rodeava e que só senti e descobri sua existência bem depois. Aprendi com esta descoberta um novo viés para o significado de desejar a alguém a felicidade que ele ou ela conhece e a que ele ou ela nem imagina existir. Esta descoberta, aliás, foi senha para outra descoberta também revolucionária e também ligada à figura da mãe, ao exercício da maternidade.

Conforme foi assentando-se o distanciamento técnico da minha mãe do cenário onde atuávamos, conforme eu me fortalecia para produzir alegria e bem estar, conforme renascia, eu realizava outra perspectiva interessante: ao perder a minha mãe, eu ganhei todas as boas mães do mundo. Uma vez exposto aos riscos do ‘distanciamento técnico’, muitas mães me acolheram e me deram atenção, provendo-me os elementos de alegria e bem estar que eu ainda não sabia produzir voluntariamente.

Mais: ganhei um senso claro da experiência maternidade. Eu passei a ter mais sensibilidade e consciência para e da experiência da maternidade, gerando-me habilidade para lidar com as mães do mundo, mas principalmente com as mães que me tornaram pai. Algumas das situações que afetaram significativamente a experiência de homem e de pai que tenho atualmente só aconteceram porque fui capaz de me colocar no lugar das mulheres e das mães com quem contracenei, de submeter os meus quereres e interesses individuais ao que seria um melhor resultado global. Eu sempre entendi que o melhor que eu poderia fazer aos meus filhos passava primeiro por não fazer mal às suas mães. Além de amá-las, elas fizeram-me pai.

Com o tempo ganhei habilidade para lidar com um dos maiores desafios da minha vida: a naturalização da figura, da presença e do relacionamento com a madrasta. Este senso claro da maternidade contribuiu muito para que eu e Alice experimentássemos uma melhoria significativa na qualidade da nossa relação de madrasta e enteado. Eu -- e creio que tenha ocorrido com ela também -- aprendi a prestigiar muito mais a contribuição do que nos era possível fazer, do que ficar pautando nossos dias em torno do que não ocorria devido às nossas limitações. E ela fez bastante por mim durante os anos que passaram.

Já no momento crítico do início do ‘distanciamento técnico’, naquela quinta-feira de 17 de setembro de 1981, muitas mães me acudiram. Quando me tiraram do Colégio Fernando Costa e deixaram-me na casa da tia Ana, ela própria, Darci e Neusa me puseram nos ‘ventres que seus braços formavam’ enquanto me abraçavam e davam a triste notícia. Eu estava em berços plenos e seguros naquele momento triste, confuso. Como podiam, todas as outras tias e primas vieram me acolher nos dias e anos que seguiram: foi assim que ganhei mães tão especiais nas tias Iris, Maria José, Mariana, Terezinha, Julinha, Petita, Diná e Cida; foi assim que Irene e Chiquita me recebiam na casa delas quando meu pai me deixava lá nas férias e nos finais de semana; foi assim que ganhei uma mãe na tia Beth, em Muriaé, e na dona Tereza, em Paracambi;  foi assim com a madrinha Dorinha que -- vendo-me obeso, pequeno, exposto e frágil -- levava-me ao médico para consultas e exames, lutava para me alimentar com legumes e verduras para que eu vencesse recorrentes problemas no sangue e cuja causa só conheci bem mais tarde; foi assim que a vó Sebastiana também foi minha mãe; é assim que Rosângela, por vezes, exerce seu amor de mãe comigo; foi assim que tive mães especiais nas tias Naná e Conceição – ah, com elas passei momentos diferenciados, tivemos um grau de liberdade e confiança para falar de coisas extremamente sérias sobre nossas vidas.

Especialmente, fui adotado por outras mães – mães de amigos – que desempenharam papel central em minhas vidas. Foi assim com a tia Ilza, mãe do Márcio que, em 1983, vendo-me perdido durante as tardes, levou-me várias vezes para dentro de sua casa para lá estudar, alimentar e ter supervisão. Foi assim com a tia Severina, mãe do Betinho, que, vendo meus sérios problemas dentários, acordava de madrugada aos sábados para marcar lugar na fila do dentista Castanheira e negociava com ele preços melhores para mim. Ela saia de madrugada, marcava o dentista, voltava, acordava-me, servia-me café e eu ia cuidar do tratamento. Fora isso, inúmeras outras vezes comi e dormi em sua casa, inúmeras vezes ela e o 'lar' me acolheram. 


Sou muito grato à experiência com a maternidade. Sou grato à minha mãe, às mães que me acolheram quando mais precisei, àquelas que subitamente emergiam nas mulheres que me amavam e às que desesperada e equivocadamente busquei em todas as mulheres com quem me relacionei -- neste caso, não encontrá-las tornou-me mais forte, ajudou-me a tornar-me homem. 

Há algo a celebrar no meu dia de mães e peço mil desculpas às mães que esqueci de mencionar. Mas sei que elas se sentem representadas quando falo de todas as boas mães do mundo. 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A falta que eles fazem

UFRRJ, 19 de Fevereiro de 1997, à tarde. Experimentei hoje um momento muito interessante da minha curta existência. Marcou-me por sua originalidade, pelo ineditismo com que fui apresentado a mais uma das incríveis facetas do viver. Hoje, por alguns instantes, por alguns metros, experimentei, e pela primeira vez, uma real e incômoda sensação de estar sozinho no mundo, acompanhada esta de uma terrível sensação de vazio existencial. Eu estava sozinho e esvaziado.

Estava andando pela UFFRJ, do Prédio principal (P1) para o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), lendo a cobertura jornalística do falecimento de Darci Ribeiro. Concentrado na leitura, segui meu caminho a passos muito lentos, calmos, enquanto era conduzido, pelo autor da matéria, pelos diversos momentos da vida de uma das personagens mais brilhantes e marcantes da nossa história. Quando comecei havia sol, não ventava. Embora fosse à tarde, fevereiro, havia muita gente transitando pela Rural.

A notícia da morte já me causara um grande vazio. É muito ruim vivenciar perdas, e estas tomam contornos diferenciados quando se trata de pessoas cujos pensamentos, valores, envergadura moral e qualidade do trabalho as tornam imprescindíveis para a formação da nossa imagem de cidadão, da maneira como nos vemos e nos definimos. Embora conhecida a gravidade da doença, Darci Ribeiro desapareceu, simplesmente desapareceu. Fica a obra. O conteúdo da reportagem fez aumentar essas incômodas sensações; as palavras sensibilizavam, emocionavam, foram certeiras pela vida e obra de Darci Ribeiro.

Quando lia uma das últimas frases, onde Darci Ribeiro explicava ao médico porque sairia da UTI, abandonaria o tratamento e iria para casa, aconteceu o que marcaria para sempre este dia. Parei e comecei a refletir sobre o significado da sua explicação, sobre aquela contundente reafirmação da sua vontade de viver, ainda que implicasse na saída do hospital. Ele, paciente terminal, sai do quarto e vai pra vida, troca a paisagem da dor pelo cenário da vida, vai ficar ao lado dos seus e dos elementos que melhor definem o indivíduo que ele encerrou. Uma paradoxal demonstração de amor à vida.

Fechei o jornal, levantei a cabeça e olhei para os lados. Pela primeira vez, aqui na UFRRJ, não encontrei ninguém. Ninguém ia ou vinha pelo caminho entre o P1 e o ICHS; ninguém vinha ou ia pelo caminho entre os alojamentos e o ponto do Colégio Presidente Dutra. Não notei qualquer pessoa que tenha passado por mim. Nada de carros, motos ou bicicletas. O tempo tinha ficado nublado, ventava muito - chuva forte estava a caminho.

A caminhada, normalmente rápida, estendeu-se por quase 40 minutos. Eu estava sozinho, momentaneamente esvaziado do lúdico e do lírico que tão nobremente alimentam essa nossa breve caminhada pela vida e que sempre nos chegam por meio dos sonhos, apostas e obras dessas pessoas que são imprescindíveis.

sábado, 19 de março de 2016

Um dia na vida

19 de março de 2016. Sábado. Acabei de ter outra experiência marcante nesta minha breve e ordinária vida.

Desde que me acidentei há dias, magoando severamente ligamentos e ossos do tornozelo, hoje foi a primeira vez que fui a pé para minha casa, dado que estava impossibilitado de subir escadas.

Submeti-me à experiência porque preciso recuperar segurança para agir, mas principalmente para reativar os sensos de autonomia e de não sentir-me ou fazer de mim um estorvo. Se estes sensos ficam significativamente expostos quando você passa a depender parcialmente de outras pessoas, imagino como ficam em casos mais severos.

É uma experiência e tanta você passar vinte minutos de sua vida observando o terreno onde pisa com a concentração que não lhe é peculiar: eu senti integral e vividamente todas as pisadas que dei hoje, não houve uma como a que dei e que gerou o acidente pois estava com a atenção voltada para o mundo. Hoje eu vasculhei o terreno onde pisaria para observar contextos, objetos e desníveis que pudessem gerar um tropeção ou escorregão e repetir o episódio de dor e recomeçar o ciclo da dependência.

Eu praticamente dialoguei com o terreno onde escolhi para viver e pisar, uma conversa séria e franca entre mim, ele e todos os objetos que nele repousam e que ilustram a realidade social que experimentamos diariamente: a sinalização e divisão de poder, o sentido de igualdade e fraternidade que temos e exercemos, a relação com o consumo e o descarte de mercadorias, enfim, a cidade conforme ela é pensada e produzida pelo poder público para você provar diariamente.

Eu tive a chance de cair após tropeçar em latas de bebidas, calçadas e quebra-molas irregulares, caixas de alimentos e produtos químicos e escorregar em chorume e restos de sacolas de lixo à espera da limpeza urbana, mas que antes foram visitadas por cães e gatos.




Eu experimentei por meros vinte minutos os desejos e angústias daqueles que tem seu potencial de mobilidade totalmente ceifado, e que dependem não de maneira parcial, mas estruturalmente de pessoas próximas. Experimentei a angústia daqueles que dependem de uma sociedade que consiga fazer com que o seu terreno e a maneira de agir dos cidadãos permitam que todo e qualquer cidadão possa se apropriar desse terreno e conduzir sua vida, que possa se sentir seguro e com os sensos essenciais dignamente ativados.

Lento como nunca estive, mas como sei que à frente estarei dado que envelheço, discuti hoje com meios-fios insolentes e indiferentes, com blocos de concretos postos por moradores para afugentar carros que estacionam, com carros que estacionam e tomam as calçadas e afugentam pessoas. Discuti hoje com pessoas, mas com muitas pessoas mesmo.

Sobre as pessoas, como é interessante sentir a diversidade de energia que brota dos olhares: tem aquele olhar de pena, tem o da indiferença (ou mera alegria disfarçada em cara de paisagem), tem o do estímulo, tem o da ironia, e tem aqueles que sempre comunicam coisas sem sentido, mas que não deixam de cumprimentar. Fiquei curioso para saber das pessoas o que meus olhares normalmente comunicam para elas para poder sintonizá-los com a produção de uma vida melhor para todos nós. O que meu olhar comunicava hoje para elas?

Mas tem algo muito mais interessante do que os olhares: a reação dos motoristas ao incauto e manco que, não tendo calçada, ousa ir pela via atrapalhando as flanadas matinais em seus possantes veículos. Teve um motorista que, podendo virar o volante e diminuir o meu experimentar de uma angústia, me forçou subir numa calçada de meros 40 cm de altura, não refrescou em nada para mim e fez cara de "você está no meu terreno, saia". Teve um que ensaiou o mesmo, mas, ao me reconhecer, parou e demonstrou empatia. Sim, fosse outra pessoa, ele não pararia, continuaria a demonstrar toscamente as linhas que informam o território partido. Teve o cachorro solto na rua que, embora alimentado, fez sua ameaça -- é imanente nele esse lidar com a coisa do território, lamentável é saber que estamos muito parecidos com ele.

Também muito importante: como é pequeno o número de pessoas que querem estender o braço e dizer: vamos nessa, estamos juntos. A mesma sensação que tive quando me acidentei numa rua da Tijuca e apenas duas pessoas falaram comigo: uma que estava ao meu lado e pegou gelo para pronto atendimento e outra que passou, me viu no chão e, sem parar, disse: "meu irmão, abrace sua mochila porque vão tentar roubar".

Ainda mais importante: é imperativo que, experimentando as dificuldades dos que muito precisam e pouco tem, não deixemos que uma breve experiência de angústia obstrua o reconhecimento do auspicioso de nossa vida e caminhada, e que mudemos nossas atitudes em relação à situação daqueles que menos auspícios vivenciam.

Foram vinte minutos de mais um dia na vida, de outro e bem diferente dia na minha breve e ordinária vida, mas que é o resumo da maioria ou de todos os dias de muitas pessoas.

É uma experiência marcante que preciso internalizar com sabedoria. Sim, eu poderia ter aprendido pela observação: tal espetáculo está aí todos os dias, não é mesmo? Mas teve que ser assim, pois não seria de maneira diferente que eu exporia os caprichos do meu egoísmo, vaidade e narcisismo à necessidade de negociarmos seriamente quem e o que deve informar como será o restante dessa minha breve e ordinária vida.

Vida que no que ela tem de ordinária, é muito mais auspiciosa do que a da grande maioria das pessoas dessa e de outras cidades.

Caminhei para ver a paisagem da foto abaixo, para novamente sentir a lufada de vento que diariamente comunica o auspicioso que experimento na quase totalidade das minhas passagens por esse território. Estava com saudade. Sim, contemplar é parte do auspicioso desse minha caminhada. Agradecer e mudar de atitude também devem ser.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A melhor escola do mundo

Muriaé, 13 de agosto de 2015. No dia 12 decidi começar por Muriaé o que chamei de "retorno necessário às origens da minha origem", que consistia basicamente em visitas às cidades onde meus pais nasceram, Muriaé e Pedro Teixeira. Nessas viagens, além de visitar meus primos e amigos, eu solicito que eles falem da vida que meus pais e demais familiares tiveram, do que faziam e de como eram na infância e na juventude; procuro obter informação para ler e entender fatos e contextos que explicam as trajetórias que meus familiares construíram em vida. Trajetórias que, com raras exceções, são dignas de leituras bem detalhadas para obter boas aprendizagens sobre como lidar com a vida e seus desafios. 

A vida deles não foi fácil e ela foi a escola que tiveram, ao contrário de nós, segunda e terceira gerações, que tiveram e tem acesso às melhores escolas do sistema educacional. Não conheci meus avôs paternos e tive pouco contato com minhas avós maternas. Meus familiares não deixaram documentos, não registravam suas façanhas, todo esse patrimônio histórico familiar, tudo o que se sabe está no depoimento e na memória de algumas pessoas que estão bastante envelhecidas, lutando contra o pouco apreço do tempo para com as palavras sem registros. Toda prosa que traz a vida dessas pessoas à mesa, que conta suas aventuras e desventuras, é para mim o tempero especial de um delicioso banquete.

Outra coisa que gosto de fazer em Muriaé e em Pedro Teixeira é andar pelas ruas para apreciar as transformações nas construções e nos hábitos dos moradores. A privilegiada condição de observador, ainda que suspeitosíssima nos dias atuais, permite-me acessar situações repletas da rica substância oriunda da mistura de ambiguidades, tensões, contradições, esperanças, apostas e temores experimentados pelas pessoas quando lidam com contextos de mudanças, as que promovem e das quais são apenas meros expectadores. E essas cidades, ainda que em ritmos bem diferentes, estão mudando. Ando bem devagar. Registro o que vejo e sigo comparando com os registros anteriores, formando um quadro particular e bastante subjetivo de avaliação dessas mudanças.

Hoje, aproveitando carona do primo Fábio Gonçalves, comecei a andança pela praça João Pinheiro. Gosto de olhar para as construções antigas que ainda sobrevivem e ficar imaginando onde o trem passava e como era a rotina da cidade atualmente adoecida pela quantidade de carro transitando. Também andei pelo comércio em busca de promoções, de produtos que, ainda que fora da moda, atendem perfeitamente as minhas necessidades atemporais.

Decidido a fazer logo as visitas aos parentes, saí da praça, peguei a rua Arthur Bernardes e fui seguindo em direção à Barra, bairro onde moram alguns parentes. Dei uma parada quase que obrigatória para ver o colégios Santa Marcelina e São Paulo. Gerações de Murieenses formaram-se naqueles colégios, entre eles muitos primos. Uma lembrança que tenho das minhas idas à Muriaé era o cuidado que minhas tias tinham com o ano escolar dos seus filhos. Aquele ritual mexia demais comigo, pois da compra do material escolar e a preparação dos uniformes, passando pelo encapamento dos cadernos e livros, tudo era feito com muito calor, capricho, envolvimento, coisa com a qual não pude mais contar com a partida de minha mãe.

Quando passava em frente à praça da antiga prefeitura, parei para apreciar a antiga construção. Rapidamente dei-me conta de que estava de costas para o belo prédio da biblioteca da cidade. "Eu tenho que conhecê-la", pensei. Ironicamente, no início da semana, eu havia pensado em criar uma campanha de incentivo à leitura nas redes sociais e cujo tema era "Visite um livro" e realizado que eu próprio não tenho destinado às obras e aos seus criadores o tempo e atenção que merecem. Mais irônico ainda era ser aquela importante biblioteca uma ilustre desconhecida para mim. Para marcar ainda mais o momento, nos primeiros passos dei de cara com uma exposição sobre Pedro Nava. Há pouco tempo, conversando sobre meu desejo de ser escritor e lamentar a idade que tenho, um colega lembrou-me sobre Pedro Nava, falando que não há idade certa para transformar inquietude e estranhamento em literatura. Pedro Nava é outro ilustre desconhecido para mim e, conforme lia os cartazes, realizava que o tanto que desconheço dele revela apenas pequenos detalhes do tamanho do meu desconhecimento e ignorância em relação à literatura brasileira.

Ao sair da biblioteca, deparei-me com um livro para registrar presenças. Preparava o registro da minha presença e deparei-me com uma situação que está entre as mais marcantes da minha breve existência. Uma pessoa que assinara antes de mim deu uma demostração sábia, simples e ao mesmo tempo forte do valor dessa que é a melhor escola do mundo: a vida. Em uma coluna que praticamente obriga ao assinante dizer a escola a que pertence, ele escreveu VIDA. Lamentável a gerência da biblioteca ter a necessidade de colocar uma coluna chamada "escola", não dando chance ao visitante que não é estudante de poder registrar mais sobre ele, a razão da presença e a qualidade da experiência que ali tivera. É um livro que foca nos estudantes do sistema formal, cobrando que informem o nome da escola que frequentam, como se só eles fossem lá, como se ali fosse exclusividade desse tipo de aprendiz; não é um livro que se abre pra registrar a presença e experiência de todos aprendizes que ali visitam. 



Esta pessoa, que assina Helio M F, 55 anos, deu, e com muita elegância, uma resposta à esdruxula sensação vivida pelo visitante que não é estudante ou não estudou, mas que é aprendiz, ou que, sendo de fora da cidade, não vê sentido em colocar o nome da escola onde tenha estudado. Na coluna escola, Hélio M F colocou um retumbante "VIDA", a escola onde certamente formara-se e da qual não tem vergonha alguma para demonstrar o pertencimento. Falei com o atendente se ele tinha visto aquela obra de arte, e logo fui informado de que Hélio sempre faz aquilo. Infelizmente, apesar de conhecida a situação, a gerência da biblioteca não faz nada. Ele registrou que o motivo era leitura. Eu, atônito, registrei curiosidade, quando deveria ter colocado "aprender". 

Não sei se Hélio faz aquilo para provocar ou reclamar de fato. Entretanto, como a gerência da biblioteca não aprimora a maneira como registra frequentadores e suas metas, não faz um retorno necessário às origens de sua origem, Hélio insiste em lembrar que os alunos da Escola da VIDA, independente de suas origens, também visitam os livros.
   

terça-feira, 14 de abril de 2015

Atrás da chave

Domingo, oito de março de 2015. Acordei na casa da minha namorada e não encontrei as chaves da minha casa. O dia prometia: preparávamo-nos para fazer um passeio e eu precisava tão somente cuidar dos cães, trocar de roupas, tirar o carro da garagem e aproveitar o nosso tempo.

Procurei bastante as chaves e a demora em encontrá-las dentro da paisagem conhecida – na casa, no carro dela e onde estivéramos ontem – angustiava-me. ‘Onde, afinal, pusera eu as benditas chaves da minha casa?’, perguntava a mim mesmo em sonoros pensamentos. Meu mal estar com a situação era notório e, para agravar, minha namorada não demonstrava empatia, preferindo, após breve ajuda, ficar parada e fazer a famosa cara de "a chave é dele e ele é quem tem que se virar".

Apesar do mal estar, meus pensamentos automaticamente conduziam-me para uma outra paisagem – a da abstração –, um pouco longínqua, mas que a alçamos com facilidade quando declinamos ao óbvio que rotineiramente nos espreita. ‘Por que deixei-me nessa condição de não poder exercer plenamente meus planos e escolhas e justamente por causa do sumiço das chaves de casa?’, questionei-me. Esse padrão de divagação sinaliza minha chegada à fronteira entre as paisagens. É nessas horas que recorremos ao que acreditamos saber de psicologia, aderindo a bordões como: ‘Pense no significado de perder a própria chave – isso tem algo a lhe dizer’; ‘Tem fatos por trás do óbvio pedindo sua atenção, reclamando uma leitura diferenciada sua’.

Longa viagem de reflexão para um domingo de manhã, para a necessidade óbvia de alimentar os cães e dar a eles atenção merecida. Tratei de ligar para a pessoa que trabalha em minha casa e que geralmente sai com essas perguntas de difícil resposta. Ela comenta: como é que você perde as chaves da sua casa?. Evitei seus difíceis questionamentos. As chaves viriam por uma das Kombis que ela pega para ir trabalhar. Caberia a mim ir até o ponto final e pegá-las, o que demoraria um pouco mais que de costume dado que no domingo a frequência diminui bastante e porque, afinal, é dia de feira.

A feira fica ao lado do ponto final das Kombis e seu movimento influência a rotina daquela parte da cidade de Seropédica – tudo ocorre no ritmo da feira, no vai e vem possível e completamente caótico de pessoas, veículos, motos e bicicletas. Ao final, outra recomendação dela: ‘olha, vai demorar um pouco para chegar’.

Terminada a ligação, dirigindo-me ao ponto final, ultrapassei de vez os limites entre as paisagens e rendi-me à divagação. Comecei a perguntar-me: ‘de onde eu não quero sair ou aonde eu não quero entrar, perdendo essas chaves?’. Rapidamente cheguei ao ponto final, sem ao menos saber em qual Kombi viria e quando. Para chegar lá, passei apressado pela feira, esbarrando em pessoas, indiferente àquela paisagem real.

— Já estou aqui. — digo após saber do número da Kombi.
— Hoje é domingo, vai demorar. Saiba esperar. — reforça ela.
— Pode deixar, espero. Demorei nove meses para nascer. — finalizo de pronto.

Após o breve contato, dou-me conta de que foi a primeira vez que fiz uso dessa expressão e que demorei bem mais do que nove meses para nasce. Durante um bom tempo minha mãe tentou engravidar, o que só ocorreu após tratamento com hormônios. Realizo ser um fato sabido, porém altamente negligenciado de minha parte; que passei boa parte desses 43 anos em correria desabalada pela vida, experimentando bastante angústia e desconforto para alcançar logo alguns objetivos que elegi como especiais; que considerei alguns pontos da minha trajetória como sendo mais importantes do que a edificação dela como um todo; que a trajetória soma o tempo que paguei nos bastidores dos sonhos, vontades, tentativas, limites e frustrações dos meus pais a este tempo que transcorre; que a trajetória liga dois continentes simbólicos – este após o nascimento e o outro em que meus pais ficaram tentando ter o primeiro filho.

Prossegui na divagação: ‘como teria sido minha vida se eu não tivesse negligenciado essa realidade, se tivesse sido mais tranquilo e comedido na abordagem da relação entre essa dimensão especial do meu viver e o tempo em que ela transcorre?’, ‘como teria sido minha vida se eu tivesse dado atenção àquelas vozes sorrateiras da intuição que, algumas vezes, disseram-me: “importante para você não é o continente em que está, nem sua duração,  mas o conteúdo com que vai preenchê-lo”’.

Surpreendentemente, esperei com calma a chegada das chaves, sentado em um meio fio naquela pitoresca paisagem seropedicense. Assim que as peguei, decidi passar lentamente pela feira, tentando ter outra percepção daquela realidade. Decidi que olharia com calma, e detalhadamente, o “conteúdo daquele continente de todas as manhãs de domingo”, enriquecendo de novos significados o novo tempo em que minha trajetória acabara de entrar, pois, afinal, havia encontrado as chaves.

Dentro da feira encontro uma prima muito querida, que me diz que outra prima, também muito amada, está muito mal no hospital  – ela caíra de moto ontem, quebrara alguns ossos e estava com hemorragia.

Aos 68 anos, há pouco tempo esta prima começou a frequentar os treinos de motocross do neto e a dar algumas voltas de moto. Seu filho foi um grande corredor – um campeão – e seu neto ainda compete e tem o mesmo sucesso. Dias atrás, em breve conversa, disse-me ela que viu no motocross uma renovação para os dias em que se encontra: deprimida, tensa com a realidade simbólica de substituir a mãe recém-falecida no cuidado aos irmãos altamente dependentes.

— Ela viu na velocidade a resposta para muita coisa que sentia —, disse-me a prima em natural tom de pesar e ultrapassando com facilidade peculiar a fronteira entre as paisagens do óbvio e da abstração. Ela tem esse dom.

Concordei plenamente, como se fôssemos dois contumazes confidentes sobre as escolhas mais complexas que nossos próximos (e os nem tão próximos assim) fazem sobre quais portas abrir ou fechar, quais caminhos a seguir e qual velocidade imprimir; como se habitualmente aplicássemos aquela nossa presumida sabedoria ao nosso próprio dia-a-dia. Logo eu, que tinha perdido as chaves.

Fiquei sabendo que ontem os técnicos haviam pedido para ela não correr demais, para andar sem pressão, pois aquela era a vitória, a chave para ela: encontrar um hobby e viver toda empolgação que ele desperta, pois a competição, para ela, era mero detalhe. Não deu. Pelo que entendi, ela acelerou, caiu e encontra-se internada e com alto risco de ficar paraplégica.

De lá fui atrás de noticias sobre o estado de saúde da prima e ter mais informações. Entrei em contato com o desânimo das pessoas, suas dores e suas reflexões objetivas sobre "obviedades" relativas ao fato de uma senhora de 68 estar andando de moto, expondo-se ao risco dessa atividade. Não encontrei quem se dedicasse aos por quês dela, do alto de seu livre arbítrio, usar essa atividade – buscar essa chave – para alçar o que queria, pois, talvez, aquela não era “a chegada, mas apenas um ponto de passagem”. Eu Chegara tarde àquela divagação: quando ela me contou que tinha começado a treinar, eu pensei tão somente que se tratava de uma distração, ocupação de mente com algo que, afinal, era conteúdo habitual do seu continente de quase sete décadas de extensão e duração. As motos fazia parte do mundo dela.

Fiz o que pretendia fazer e voltei à casa da minha namorada para olhar mais detidamente a paisagem conhecida. Sentei-me no banco de passageiro do seu carro e refiz a busca. As chaves estavam em uma posição específica embaixo do banco e para onde eu anteriormente havia lançado um olhar displicente e recusado-me a estender um pouco mais a mão para vasculhar a área. 'Por que recusei-me, naquele instante, estender um pouco mais a mão?', perguntei-me com as chaves à mão. 

Não fizemos o passeio nem aproveitamos o nosso tempo. O dia foi péssimo, pois, além da tristeza com a situação da minha prima, eu ainda prolonguei meu descontentamento por não ter vivenciado, do jeito que queria, o envolvimento de minha namorada para encontrar as chaves que, quem sabe, me tirariam de onde eu precisava sair ou me colocariam onde eu precisava entrar.

(Os dias se passaram e eu pretendia visitar minha prima, pois queria ouvi-la, confortá-la, dar a atenção e carinho que sempre me dera; tínhamos intimidade para essa "abertura de porta" que seria tênue, densa e tensa. Não deu. Aos dezesseis de março ela veio a falecer, após os médicos terem debelado a forte hemorragia, feito a primeira cirurgia reparadora; quando ela estava  bem).