terça-feira, 9 de abril de 2013

A mão que faltava

Volta Redonda, 19 de marco de 2013, Aterrado, Casa do Carlos Augusto, Cacau. Uma vez mais em Volta Redonda. Retorno à cidade que marcou muitas das minhas voltas pelo mundo. Voltas que dei ora como uma pessoa que queria algo, mas não sabia definir o que buscava, ora como uma pessoa que até sabia definir o que queria, mas que vacilava ao buscar. Ainda assim, são sempre gostosos os reencontros que aqui tenho com lugares e pessoas que conheci e com as imagens do que vivi ─ algo instantaneamente trazido à pauta do dia pelas lembranças que irrompem.

Hoje vim para participar de um concurso na UFF, atendendo ao pedido de um saudoso colega de trabalho que há meses, ironicamente, pediu-me para dar uma “mão” nessa dura empreitada. Desta vez, confesso, encontrei respostas para perguntas que eu ainda não sabia fazer sobre como conduzir futuras voltas que ainda espero dar em minha vida e dicas sobre como agi em muitas das voltas que dei. Definitivamente, acredito, conheci um pouco mais sobre o mundo que se descortina aos nossos olhos quando colocamos, com vontade e intensidade, as duas mãos no timão que escolhemos para navegar pela vida.

Tivemos um dia de trabalho cansativo, um dos menos inspiradores e mais tênues da vivência acadêmica, pois em um concurso decidimos, ao mesmo tempo, sobre o futuro da organização e das pessoas que nele se inscreveram. Um sim abre as portas da organização para alguém que terá a responsabilidade de construir, junto com os demais colegas, o futuro da organização. Se ele não tiver essa vontade, ou alguma outra que seja nobre, paga a organização. Um não, por sua vez, aponta portas de futuros possíveis a serem desconfortavelmente abertas pelos que ficam pelo caminho. Infelizmente, não alcançamos as sutilezas da alma no processo de avaliação, fazemos as avaliações possíveis e rigorosas em provas nas quais constam códigos de inscrição, não nomes. Após horas de análise de documentos e provas e de discussões, decidimos os que se aproximam um pouco mais da porta de entrada da Universidade: eles estão praticamente com as mãos na porta da Universidade, é só não errar muito.

No fim da tarde, saí da prova e fui visitar Cacau, em sua empresa, localizada no mesmo bairro da Universidade. Participei brevemente de uma reunião. Junto com alguns membros da sua equipe, conversamos sobre negócios e os dramas organizacionais, como os conflitos interpessoais que, por hora, abalam sua equipe. Apesar da agradável conversa, em pouco tempo estava extenuado, desejando fortemente ir para um Hotel e ficar sozinho. Recebi a visita de um conhecido sopro de sensibilidade que levava para longe o meu desejo de falar e me entregava uma imperiosa necessidade de calar. Naquele instante, tudo o que eu acreditava precisar era ficar sozinho e refletir sobre a vida, recorrer ao expediente de ficar pensando sobre o que fiz no dia, o que tenho deixado de fazer e o que preciso fazer a frente. Estava ensaiando minha ida para a busca de um quarto quando Cacau convidou-me para dormir em sua casa e solicitou-me uma carona.

Atendi ao seu generoso pedido e logo estava em sua casa, já ensaiando as ações que faria para ir direto ao descanso. Assim que chegamos, fomos recebidos pelo barulho de duas crianças, Olívia e Tom, seus filhos. Rapidamente, Olivia, de três anos, chamou-me para sentar com ela no chão do quarto e ler o livro da Bela Adormecida. Sem a menor cerimonia, ela foi me contando a história. Do seu jeito e com sua voz trêmula, por vezes gaga, contava-me o que via naquelas figuras. Chamou-me a atenção duas sonoplastias: imitou o som do fogo do dragão saindo pela boca e a dor da Bela Adormecida que se machucava no tear. Lembrou-me das maldades da Bruxa e fazia a careta ideal para aquela interpretação. Como num passo de mágica, levantou-se e começou a procurar um termômetro para medir a febre de um boneco da galinha pintadinha que pairava ao seu lado. Em minutos, o desconhecido que chegara com seu pai, já fazia parte do mundo dela.

Após muita insistência da sua mãe, que há minutos pedia para que ela me deixasse lanchar, fomos para a sala, não para lanchar, mas para achar o termômetro. No meio do caminho estava um velocípede da galinha pintadinha, ganhado naquele mesmo dia. Imediatamente, pediu-me para empurrá-la pela sala. Comecei a fazê-lo, pensando no que precisava fazer nos dias seguintes. Empurrando com uma mão, enquanto tinha a outra no bolso da calça, eu só fazia olhar para as águas que passavam no Rio Paraíba do Sul. De repente, Olivia pediu que parasse. Virou-se para mim e, com cara de descontentamento e fazendo o sinal negativo, disse-me que eu estava errado. Pediu minha ajuda para se levantar, pôs a chupeta na boca, mostrou-me as duas mãos delas espalmadas, segurou com ambas a haste para empurrar e disse: “é assim que se brinca”. Displicente, eu não havia percebido a sua cara sem sorrisos; eu estava fora da brincadeira, não honrava, naquele momento, o estatuto do envolvimento, algo que fiz por merecer após os primeiros momentos.

Imediato foi meu enquadramento, na brincadeira e numa vida inteira que me visitava enquanto a empurrava. Pus as duas mãos, envolvi-me na brincadeira, olhei fixamente para nosso momento, sorrindo inicialmente, enquanto ela, por várias vezes, virava-se para ver se eu estava “brincando direito”, se eu ia tirar a mão que faltava. Ela logo começou a sorrir e seguiu. Enquadramento histórico, pois pensei em quantas vezes minha filha quis me mostrar que faltava uma mão e não teve a coragem da Olívia ou eu, displicentemente, não percebi o que ela me comunicava com palavras e caretas. Lembrei-me de quando ela tinha cinco anos de idade e, num evento do dia dos pais da creche, quando perguntada sobre o que ela gostaria de fazer quando crescer, ela disse o que não faria: doutorado. Até brincávamos juntos nessa época, mas estava claro que o doutorado roubava a minha outra mão. Imaginei o marido que fui: a mão que faltava e explicava a maneira como envolvi-me com a casa, os afazeres e os sonhos que cultivávamos juntos. Imaginei a mão que faltava em diversas situações de trabalho e aos amigos, vizinhos e conhecidos. Lembrei-me de um amigo oculto diferente que participei em 2003: ao invés de comprar, tínhamos que fazer o presente do amigo tirado. Lembrei-me da angústia por não ter habilidade para fazer algo, enquanto que os demais faziam artesanatos, doces, comidas, roupas, danças e músicas para seus amigos. Fiz uma poesia sobre a importância do fazer. Comecei a chorar, enquanto mantinha com firmeza as duas mãos na haste, os olhos em Olívia e a mente visitando esses momentos da minha vida. Um choro sentido, de culpa mesmo. Olivia logo envolveu-se com outras coisas: eu estava liberado para por as duas mãos nos meus pensamentos e lembranças.

À cama, com as duas mãos no peito, enquanto punha o pé na parede para facilitar o retorno do sangue venoso, realizei que o grande vilão é o hábito de concentrar-me demais no pensar sobre o que preciso fazer para alcançar os objetivos. Devoto muita atenção a essas demandas reflexivas. Às vezes, penso antecipadamente sobre coisas que sequer manifestaram-se. Ambiciono o controle das situações, disse-me uma antiga namorada. Quando estou assim, como hoje, dificilmente me desligo das metas ou oriento minha energia para outro assunto. Em verdade, explica-se, fico dividido entre diferentes eventos, desgasto-me sem ter abraçado, de fato, ao que me levaria a um sentido maior de contentamento, mesmo uma brincadeira como essa que tive hoje. Uma herança, assim acredito, do fato de, durante minha vida, ter-me dedicado mais ao aprimoramento de habilidades verbais e cognitivas, e ter deixado de lado as habilidades manuais; de capitalizar na fala e na reflexão como forças centrais com as quais enfrentaria os desafios que comecei a me propor. Desarticulei o imperioso encontro entre mãos, mente e fala e que tão bem explica a força do “entrar de corpo e alma”, como faz uma criança.

As breves lembranças confirmavam que, a partir de um determinado momento, afastei-me de um envolvimento maior com os distintos fazeres que a vida me apresentou, deixando de entrar de corpo e alma para aprendê-los com a dignidade dos grandes aprendizes. Não logrei o aprendizado central de pessoas que, em determinados contextos, mostraram-se essenciais: entrar com mãos, sentimentos, pensamentos e verbalização em todos os eventos que a vida os apresentou e dar os exemplos essenciais para que o grupo completasse os passos que seguiam. Ou simplesmente: ensina melhor quem faz. 

De alguns desses fazeres afastei-me radicalmente, por puro preconceito, ao achá-los comezinhos demais ou se me diminuísse fazê-los. Resgate importante: minha arrogância não me permitiu envolver-me mais intensamente com tudo aquilo que definiu a vida das famílias dos meus pais, as lides agropecuária e supermercadista, ricas em manipulação de objetos e solicitantes da destreza que explicava a sobrevivência deles. Resultado: pensando sofrer ao fazê-las, afastei-me, e acabei por sofrer de outra maneira: por antecedência. Angustiei-me demais durante minha vida pela demora, para acontecer, das coisas que elegi como mais adequadas para mim, a maioria delas associadas à intensa prática reflexiva e comunicativa, como o dar uma aula puramente teórica, falada. Olívia me alertou para a importância de sempre atentar para o estatuto do envolvimento; ele que ensina, a quem realmente lê-lo ou o intui, que nenhuma palavra ou pensamento, por mais bonitos e complexos que sejam, salvo exceções especiais, jamais compensam a experiência vivida de corpo e alma.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Usar e desembolar fios: viver mais, melhor, e sem estancar.

Nunca devemos esquecer das sutis e tênues linhas que ligam as diferentes fases de nossas vidas. Linhas que ligam a infância ao envelhecimento, passando por todos os outros pontos dessa trajetória que normalmente empreendemos enquanto amadurecemos: adolescência, juventude e fase adulta.

Parecem invisíveis, até. Mas elas existem e sempre esbarramos nelas, que servem como sinalizadores de que percorremos essa estrada chamada “Vida” não somente para conquistas materiais, sociais, mas também para conquistas espirituais, morais. Todas as vezes que esbarramos nelas, em algum evento ou dimensão significativa da vida, é como se tocasse um sino. Sino cujo som nos leva – automaticamente e por imagens –, a um evento ocorrido no passado e faz surgir na face ou o sorriso de quem apreciou a situação ou a lágrima ou desconforto de quem ainda a traz entalada na garganta ou com dificuldades para digeri-la. Essas linhas e badaladas existem para ilustrar, delimitar e pontuar se, como e quanto um indivíduo aprendeu moral e espiritualmente em sua trajetória; quanto ele chega a uma nova fase trazendo no olhar, linguagem e comportamentos, os frutos dessa aprendizagem essencial.

Em minha trajetória, muitas foram (e ainda são) as vezes em que toco nessas linhas, em que ouço badaladas de sinos que marcam o ritmo em que ocorre minha evolução moral e espiritual, ou o quanto aprendi e ainda preciso aprender nessa vida. Uma delas, relativas aos meus afetos, tem forte relação com o meu aprendizado de soltar pipa, ocorrido lá na infância.

No relacionamento amoroso, casamento e em organizações em que interajo para trabalho, formação escolar, lazer e professar da minha fé, estão as principais instâncias em que os sinos badalam para mim. Automaticamente, ou nos momentos em que paro para refletir sobre essas instâncias, veem à mente as imagens de quando eu aprendia a soltar pipa. Chama atenção a maneira com que faço e o quanto invisto de emoção e afeto nas relações e contextos vividos. Geralmente crio muito expectativa, espero demais das outras pessoas envolvidas, e uso o que é natural para mim para fazer as avaliações. Como resultado: sempre me vejo em situações desconfortáveis, sangrando no coração, quando tudo poderia ser mais fácil e alegre. Muitas foram as vezes em que sofri e fiz alguém sofrer; em que alimentei demais uma esperança, elevei as expectativas, cobrei demais do outro, no que para ele era uma troca gratuita, fortuita, sem maiores investimentos de emoção.

Mas se olharmos detidamente, veremos que essas situações ilustram que aquilo que chamamos de relação afetiva, de amor ou amizade, conforme vai evoluindo – ganhando dias, contextos e produtos da nossa emoção –, assumem o formato de um complexo novelo de fios que se amontoam e se acomodam na sensível área demarcada por nossos egos e pela memória.

Por ter muito do que nos é muito caro, é tão belo quanto precioso esse novelo; também é muito sensível, pois é a maturidade que explica a densidade, integridade, firmeza e maneira com que dispomos os fios nesse emaranhado simbólico de afetos e emoções, essencial à nossa condição humana. Quando ocorre de termos que mexer nos novelos, ou mesmo de desfazê-los, devido às circunstancias da vida, tomam relevo não apenas os fatos geradores, mas a maneira como os envolvidos retiram seus fios, isto é, como negociam movimentos e palavras ao desfazer o complexo emaranhado de fios de afeto e emoção que dispuseram e os deixavam ligado um ao outro. Se feito de maneira brusca, machuca a área, arrebenta a linha - que ganha um nó, uma parte fragilizada do fio. É da vida acontecer isso, ter que desfazer o novelo. Também é esperado que cada envolvido traga seus fios intactos para seu carretel com vistas a um momento em que novamente dará linha a seus desejos, carências ou imaginação, em que formará mais um belo e precioso novelo de emoções e afetos.

A vida me mostrou que não aprendi a fazer corretamente o emprego dos fios do afeto e da emoção, qual era a hora certa de fazer, tampouco a maneira mais correta e oportuna para começar a retira-los dos novelos. E não faltaram lições sobre como lidar com fios, em minha vida. Principalmente, de quando saltava pipa na rua onde passei minha infância.

Soltar pipa – enquanto uma gostosa brincadeira –, tem todo um ritual para acontecer: início, meio e fim são muito bem marcados, interligados, e precisam ser respeitados. Do contrário, ou a pipa não sobe, ou, ao subir, corre logo o risco de estancar, o que marca o fim da brincadeira, se você não tem uma sobressalente, mas que ainda sim, deixa muita tristeza.

Empinar uma pipa requeria muitas habilidades, que iam do preparo da rabiola à arte do debico, passando pelo ajuste do cabresto, envergadura e do soltar e enrolar a linha com firmeza na lata ou carretel, este para os mais experientes. Dias a fios de umas boas férias eram necessários para formar o pipeiro. O bom pipeiro não ocupava mais do que o espaço necessário para seus movimentos, e nunca deixava a linha dele embolar ou embolar com a dos outros. Às vezes aconteciam embolos, mais explicados pela quantidade de meninos por m2, do que pela falta de habilidade deles. Desembolar linha era aprendizado fundamental, e marcava o fim do dia.

Confesso que nunca fui um bom pipeiro – talvez tenha sido o pior de todos os meninos da minha rua –, e as maiores provas do meu pouco honroso título, eram os constantes embolos em minhas linhas e a frouxidão da linha enrolada em minhas latas. Eram marcas registradas da minha chegada, permanência e saída daqueles trechos mágicos que ocupávamos da rua em nossas férias. Lembro-me que Marcio Pena, meu inseparável amigo, alertava-me sobre aquilo: “você precisa enrolar direito a sua linha na lata, senão vai atrapalhar a gente aqui ou vai prejudicar a sua vez. Quando o vento estiver forte, o nó não vai aguentar, e você vai estancar; quando a pipa agarrar, o nó vai atrapalhar você trazer a pipa de volta ou é nele que a linha vai arrebentar”.

Muitos foram os fins de tarde em que tive a chance de aprender o precioso ofício de desembolar linhas de pipa, mas negligencie bastante essa lição. Dei voz ao meu nervosismo, que facilmente emergia quando mexia nos embolos, ao invés de ficar pacientemente sentado desembolando a linha para que não tivesse que arrebentar e fazer nó para continuar enrolando na lata. Assim que era vencido por um embolo, eu arrebentava e fazia um nó na linha, e a enrolava: frouxa e cheia de nó. Marcio ficava pacientemente desembolando, e só terminava quando vencia o embolo.

Apropriadamente, os sinos badalaram todas as vezes em que estanquei, que machuquei a área do ego onde formava os novelos de emoções e afetos: "aprendi a dar linhas, nela deixei muitos nós; poucas vezes a retornei segura ao carretel, sem embolo. Mas no elo mais fraco da linha, a emoção e o afeto arrebentam".