A UFRRJ faz 111 anos. Recebo algumas perguntas para
expressar minha relação com ela. Vejo-me diante do desafio de, em poucas
palavras e à queima-roupa, falar dos sentimentos e do que me marca na
experiência de ruralino, do que a Rural representa para mim e da percepção que
hoje tenho dela.
Aceito o desafio. Falo e, ao mesmo tempo, ouço
imaginariamente “Um girassol da cor do seu cabelo”, de Lo Borges. A
sensação é a mesma de quando ouvi essa música pela primeira vez, lá na Casa
Rosada, graças ao amigo Fernando Duque: o corpo ficou todo arrepiado no
encontro entre mim, a música e o vento que só venta na Rural.
Falar do que a Rural representa para mim não é fácil — dá
choro e dá risadas em proporções absurdas. São 50 anos de idade e 50 anos de
Rural. Tirando pouquíssimos anos em que estive distante, todos os outros anos
são Rural, são ruralinos. A Rural é definitiva em tudo o que me constitui:
afetos, memórias, encontros, valores e sonhos.
O que dizer dos sentimentos? Lembro-me de que sou filho de
funcionário e residi aqui dentro, de que estudei na escolinha do IZ quando ela
era de fato no IZ, de que fui aluno do CTUR, duas vezes aluno de graduação e
uma de doutorado, de que fui técnico-administrativo e estou docente. São muitas
as emoções e os sentimentos envolvidos na minha relação com a Rural.
A Rural atravessa e marca definitivamente a minha história.
As ligações são muitas, e descrever meus sentimentos de ruralino não é tarefa
fácil.
É tudo muito denso e tenso nessa relação — são muitas
memórias, desde o momento de criança em que comi, ao lado do meu pai, no
Bandejão, onde ele um dia foi garçom; até o momento em que, já docente, assisto
lá de cima do palco do Gustavão à alegria dos formandos e das famílias na
formatura; passando por uma cirurgia no antigo hospital do IF, por andar num
ônibus dirigido pelo senhor Modesto, por estar conversando com o João, porteiro
do Clube Social, por estagiar no plantio do arroz e na ranicultura, por ter
sido do CPD e participar da informatização e da implantação da internet na
Rural, por plantar árvores ou hortaliças no CTUR, por ter vivido amores aqui,
por ter conhecido pessoas sensacionais… a lista é grande. Ah — sem falar no
sentimento de ciúme do meu pai, que amava e vivia a Rural numa proporção
assustadora.
É tanta coisa que me marca; minha memória ilustra as
diferentes posições ou lugares em que estive por aqui. Mas há algo que deixou
marcas profundas. Meu pai, o saudoso Antônio Goulart (ou “Mineiro”), trabalhou
nos alojamentos e, nas datas de Natal e Ano-Novo, eu fazia-lhe companhia para
levar alimentos e cumprimentos aos alunos que não tinham recursos. Ele fazia
pequenas ceias, distribuía abraços e palavras de apoio, convidava as pessoas
para virem à nossa casa.
Minha casa sempre foi cheia de pessoas da Rural — elas
passavam Natal, Ano-Novo, aniversários e outras datas conosco.
Vi meu pai chorar abraçado a muitos, nos seus piores ou
melhores momentos; como no dia, em plena ditadura, em que ele chegou em casa
após ser testemunha de defesa de um aluno preso por supostos atos terroristas;
ele chegou e começou a chorar: chorou pela injustiça, pelo mal que faziam ao
aluno — que estava em péssimo estado — e chorou porque achava que o aluno
morreria e não podia fazer nada.
Meu pai também tinha uma memória impressionante: conhecia
todos pelo nome, sabia os cursos que faziam, os alojamentos em que viviam e as
cidades de onde vinham. Muitas foram as vezes em que visitávamos as famílias de
alunos e ex-alunos nas férias em suas cidades de origem. Meu pai acolhia,
ajudava e orientava como podia as pessoas, e exigia que eu respeitasse alunos,
professores e técnicos; sempre ilustrava as qualidades e esforços que faziam
para levar suas vidas.
Passados os anos, que percepções tenho da Rural? Sem
exagero, não tenho apenas percepções da Rural, como se estas fossem impressões
que ficam após um encontro involuntário ou passageiro. Tenho vivência dela —
nela, com ela e por ela. Minha experiência com a Rural é involuntária, dado que
sou filho de funcionário, mas é principalmente voluntária, pois nela fiquei,
nela estou, ainda que tenha me afastado em alguns momentos.
A influência da Rural na minha estrutura identitária e na
produção da minha subjetividade é da ordem do inexorável e do indelével; é
punk, submete-se apenas às artimanhas da demência. Conheço o que alunos de
todos os níveis experimentam. Conheço o que o morador experimenta, o
técnico-administrativo, o docente (dei aula em todos os campi) e o que aquele
que tem cargo ou função de coordenação ou executiva experimenta.
Sim — hoje tenho uma visão diferenciada da Rural, pois
preciso transcender os afetos mais ingênuos e ter em mente que ela é um
organismo complexo: é uma universidade, uma cidade e uma organização ao mesmo
tempo. E isso exige modelo de gestão ou de lida e esquemas de observação e
interpretação diferenciados.
Se chama UFRRJ, mas ela é universidade nos institutos, campi
e na biblioteca, onde se produzem produtos e serviços de alto valor agregado,
como ensino, pesquisa e extensão; ela é inteirinha uma cidade, com todos os
desafios de se produzir uma vida coletiva; e ela é uma organização — um nexo de
funções e recursos que existe para abastecer a si própria e à universidade e à
cidade com o que é fundamental à existência. É todinha Rural.
A Rural é única, imensa em todos os sentidos e desafiadora. E ela, de uma maneira bem peculiar e figurada, está toda em mim. Lamento, mas essa história não cabe aqui.