domingo, 24 de abril de 2011

Sobre abrir e manter as portas abertas

Muriaé, 21 de abril de 2011, bairro Dornelas, início de noite. Aproveitei o feriado da Semana Santa para descansar e, como de costume, levei na bagagem outros propósitos: tirar minha família da correria e bagunça da cidade do Rio de Janeiro; rever meus familiares mineiros, extremamente caros para mim; fazer uma nova leitura, agora aos 40 anos, do meu jeito de ser e agir e promover mudanças.

Sempre faço isso. Releituras para produzir novas significações é algo que faço com regularidade, embora não sejam nada fáceis de fazer. É uma prática que sempre se sobrepõe a outra idéia que por vezes me aparece: a de praticamente viver sem fazer leitura ou releitura alguma, de bastar-me o significado básico de estar vivo. Remonta a Clarice Lispector: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Sou capaz de render-me, até já o fiz em determinados momentos de minha vida, uns por amor, outros por puro pragmatismo. Estes últimos, apesar dos resultados obtidos, foram momentos duros, empobrecidos, o resultado pelo resultado, a falácia do atirador de elite, o tiro perfeito, só isso.

Acredito que o pragmatismo, ainda que gere resultados e que por vezes mostre-se necessário, quando a iminência, a urgência, o solicita, se não for devidamente ilustrado, trabalhadas as suas razões, promove o empobrecimento da realidade e da aprendizagem. Posto que atende a necessidade de produção de resultados, quando feita para premiar a vaidade do seu autor, a de ser visto e de se vê como pessoa aldaz e resoluta, a ação pragmática fecha as portas para o inusitado, cerceia a imaginação, inibe a oferta de contribuições e de troca de experiências. Em outras palavras: “é assim, e pronto. Vamos aos resultados!” Pronto: a porta está fechada. Assim feita, produz resultados na maioria das vezes miseráveis, pois esse tipo de fazer difere do fazer com simplicidade que resulta da sabedoria, da aprendizagem que o passar do tempo nos confere e nos ensina a sempre manter as portas abertas.

Programei relaxamento e reflexões, mas não me descuidei da prática de exercício diário que assumi como fundamental para produzir saúde e melhorar minha qualidade de vida. Coloquei meu tênis e fui correr no passeio a beira do rio Muriaé, lugar onde muitos caminham. Devido a péssima condição do passeio e ao intenso fluxo de carros, que assustam e poluem, fui correr pelas ruas do bairro Dornelas, especificamente na Sebastião Dornelas e na Boa Esperança.

É assim, pragmaticamente posto ─ produzir saúde e melhorar minha qualidade de vida ─ que entendo a prática de exercício. Por outro lado, isso é parte do que me comunicam a prática de exercício e de esportes e todos os atores diretamente ligados a atividades físicas e esportivas. Outra parte é a preparação para a competição, para a superação de rivalidade e de limites, que, segundo algumas leituras, em função de como é organizado e desempenhado, produz momentos celebres, artísticos. Acredito ser essa visão pragmática  resultado da qualidade das interações que tive com a educação física praticada nas escolas, com as orientações médicas, como torcedor, com as interações sociais nos times de futebol de bairro e com a mídia.

Esta realidade foi confrontada, recentemente, pela grata e inusitada fala do treinador do Internacional, de Porto Alegre, Falcão, sobre o aceite para voltar aos gramados como técnico. Ele falou em leveza, que futebol é alegria, não é uma guerra; que futebol é conseguir resultado com alegria, e que quer ir para o campo com a certeza de que vai ver um espetáculo. Com responsabilidade e consciência do desafio, um dos resultados possíveis para ele, e não menos importante, é se divertir. 

Até a fala dele, confesso, eu não havia alcançado esse nível de leitura sobre o fazer e praticar exercícios e esportes. Falcão foi alem do iminente que satisfaz a paixão e rivalidade dos torcedores, a muitos jornais e jornalistas e aos gestores dos Clubes. Falando do futebol, ele nos abriu a porta para uma significação maior, para uma relação mais humana, nobre e instrutiva entre nós e os diversos fazeres e experiência que se nos apresentam conforme nos embrenhamos pela vida. Produzir alegria. Divertir-se. Viver com alegria. Essa é a meta, o resultado amplo e possível de ser alcançado quando se abre mão da obtusidade inerente a ação pontual.

Enquanto corria, notei o fato natural de que eu chamava a atenção dos adultos, perturbava a rotina, pois era desconhecido. Algumas crianças brincavam na calçada. Eu era uma figura estranha fazendo algo que também não era familiar a rotina da rua. Eu passava, elas comentavam, discretamente, procurando chegar, em suas trocas de impressões e informações, a um contexto que explicasse ou desse conta daquele pequeno inusitado: um estranho correndo em nossa rua. Tímido, não tive coragem de fazer os acenos que cumprimentam e pedem passagem.

Em uma das voltas, ao final da rua Boa Esperança, uma das crianças, uma menina perto dos seus 3 anos de idade, parou de brincar, olhou para mim, levantou-se sorrindo e perguntou: “moço, por que você fica correndo pra lá e pra cá?”. Pego de surpresa, algo que por si só justificava que eu parasse e desse atenção, resumi-me a dizer, e sem parar: “eu corro para suar”. Ela ficou olhando para mim. A frente, seu pai, atento, disse-me: “um dia ela vai entender que isso é saúde”. Continuei meu passo, e percebi quão objetivo, pragmático, pobre, eu fora: “corro para suar”.

Eu, o estranho, tendo a oportunidade de fazer-se ameno e amigável, preferi fechar a porta, ignorando a grata surpresa, o inusitado saudável que abria as portas daquelas crianças para novos saberes e aprendizagens. Realizei que eu deveria ter parado e dito: “corro porque isso me deixa feliz ou porque isso me diverte”. Eu ampliaria meu resultado para este dia, pois ganharia mais que saúde, ganharia sorrisos gratuitos e verdadeiros e outras perguntas que, talvez, expusessem-me a novos inusitados e aprendizagens. Certamente conversaria com o pai dela, tornaria-me familiar, e este episódio, visto pelos outros da rua, chancelaria de vez meu passar pelos domínios do dia-a-dia que eu havia perturbado.

Decidido a recuperar-me, fiz a volta na esperança de ainda reencontrá-los para poder dizer que corro para me divertir como fazem todas as crianças. Quando cheguei as crianças estavam saindo para suas casas. Aquele pai não estava mais lá. Vi a garotinha e, no tempo que me foi possível, tentei reabrir a porta, e disse: “olha, eu corro porque isso me deixa feliz”. Ela sorriu com o meu inusitado retorno.

2 comentários:

  1. Bom vc ter entrado por essa porta. Escolha feliz.

    ResponderExcluir
  2. Encanto-me com seus escritos, penso ser inspiração divina.Como é fantástica a forma que você ver a vida, sua e das outras pessoas.

    ResponderExcluir