segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O caminho do coração e o do vento

UFRuralRJ, 21 de fevereiro de 2009, sábado. Eu e Malu, minha filha, passeávamos pela UFRRJ, de bicicleta, quando ela me proporcionou um momento inesquecível. Ao chegarmos numa encruzilhada, perguntei-a sobre o rumo que seguiríamos, se voltaríamos pelo mesmo caminho da ida ou se seguiríamos outra direção. Estava nublado e o horário avançado chamava-me atenção. Sorridente, disse ela: “Bem, vamos ver. Tem o caminho do coração e o do vento”. Em seguida, pôs o dedo na boca, encheu de saliva, o ergueu, dizendo: “vamos seguir o caminho do coração”. Ela definiu o caminho do vento como sendo o que já estávamos. "Esse a gente já conhece", disse ela. Seguimos o caminho do coração.

Instantes muito bonitos, inesquecíveis, mesmo sabendo que aos 8 anos de idade uma criança não segue outro caminho que não o do coração. Como uma doce e tenra criança, o mundo dela é o da imaginação, das brincadeiras, das mais puras emoções. É o mundo onde se cai, machuca, assopra a ferida e recomeça-se tudo de novo. É o mundo da magia. O mais belo dos mundos, porque sai direto do coração.

Naquele instante, o caminho do vento era o caminho da razão, aquele que já fora percorrido ou que se está percorrendo. Sim, uma leitura que foge ao senso comum do que seja o caminho do vento, o de ir sem rumo certo. Naquele instante, o caminho do vento era o da não surpresa, do revisitar o conhecido, do não surpreender e do não ser surpreendido. Malu deu ao vento a cara da razão e perpetuou no coração a cara da emoção.

Comecei a pensar nos rumos que sigo em minha vida, nos que segui e nos que devo seguir. Visualizei que, na maioria das vezes, havia seguido o caminho do vento, que havia negligenciado o caminho do coração. Pelo mais puro medo de sofrer, acabei sofrendo por ter faltado na trajetória que empreendi o mais gostoso da emoção. Quantas vezes fugi da surpresa, revisitando o conhecido! O medo da emoção, de experimentar decepções, levava-me a querer controlá-la, aprisionando-a. Pura ilusão. Aprisionado estava eu. E também perdido: conforme fui pelo vento, mais me senti perdido, sem chão, pois fui atrás de quem eu jamais seria: um homem movido basicamente pela razão.

Naqueles instantes, com a ajuda da Malu, eu chegava à encruzilhada da qual mais precisava. Decidi reaprender a caminhar pelo caminho do coração, que é o caminho que sempre me gerou o senso de pertencimento a algo que seja confortante neste mundo. Pois, definitivamente, estou onde meu coração está, onde meus afetos mais caros e fortes se manifestam. Estou professor, pois adoro aprender e contribuir para que o outro cresça. Estou em minha família, pois sinto muito orgulho e admiração pela trajetória deles. Estou na literatura, pois adoro o caminho das palavras e as palavras do caminho. É nesse estar que, apesar das decepções, mais vivo e feliz estou.

Seguirei o caminho do coração, que não é o da inconsequência, como me ensinou minha filha. É o caminho da emoção que anima, que nos torna mais humano, que nos dá a noção correta da nossa fragilidade e finitude, permitindo-nos uma doce alforria da ilusão de que podemos controlar tudo. Vou sem pressa, feliz, consciente de que não posso mais me submeter aos caprichos da ilusão de querer ter o controle de tudo.

5 comentários:

  1. Professor, não deve se lembrar de mim poque na verdade não cheguei a cursar nenhuma disciplina sua, apenas pedi para assistir sua aula uma única vez, a qual inclusive foi muito boa. Mas gosto de blogs e acabei vendo o seu passeando pelo Facebook.
    Quanto a este post, achei incrível essa narrativa da "sapiência infantil" rs. Esses pequenos podem ensinar muito! E viva a liberdade de escolhas e a consciência de nossas ações
    Abraços,

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  2. Salve!!! Obrigado pela mensagem e pela lembrança. Essa passagem foi muito rica para mim, eu fiquei tocado e, claro, feliz por ter sido ao lado da minha docê malu. E você, como está? Quais são as novidades?

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  3. lindo pai maravilhoso,nunca via nada mais inspirador do que isso.
    bjs malu

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  4. Texto maravilhoso! Acabei de sair o encontro de psicologia aplicada a administração me sentindo cada vez melhor em escolher o caminho do coração. Obrigada por esse texto maravilhoso

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    1. Beatriz, muito obrigado pelo carinho. Fico feliz por saber que estás consciente da importância dos caminhos do coração.

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